Liberta-me

1 Capítulo único


Estava andando na neve, vestida apenas em uma camiseta escura que era quatro números a mais que o dela, e uma calça jeans clara.

\"Que se danem todos...\"

Os pés descalços se tornavam a ponte para os fortes arrepios de frio cada vez que tocavam a neve macia e se enterravam nela até que a mesma alcançasse os joelhos sob a calça.

\"... Você sempre foi só isso, uma bonequinha!\"

Ela pressionava as pálpebras uma na outra com tanta força que os olhos se reprimiam. Continuava em sua marcha lenta, oscilando entre um passo e outro até chegar ao seu destino.

\"... Quando é que você vai entender...\"

Um passo, e mais uma lufada do vento frio ricocheteou em suas costas. E vento levou os cabelos ruivos compridos até o belo rosto, eles grudaram em sua boca e se embolaram na frente dos olhos fortemente apertados, mas ela só continuou andando.

\"... Ele te usou garota, e agora...\"

Mais cinco passos, três lufadas de vento batendo nas costas dela como um chicote, que queimava ao contrário. Finalmente a moça abriu os olhos e levou as mãos tremulas até os lábios, os olhos e as bochechas, tirando o cabelo dali e o ajeitando novamente nas suas costas.

\"... É a minha vez!\"

Ela tinha parado de andar e encarava a casa de madeira que muito se assemelhava a uma cabana decrépita que vira nas ultimas férias que tivera com seu pai. Mas não era por isso que aquele amontoado esquecido pelos tratores marcava tanto.

Foi ali que dançou pela primeira vez, com ele, nos braços dele. Foi ali que ele jurou para ela que nunca mais deixaria que a tocassem. Que disse que iria partir, mas voltava para buscá-la em poucos dias. Mas nesse tempo, ele a entregou para outro, a vendeu depois de brincar. Não se importaria se tivesse brincado apenas com seu corpo, mas ele mexeu com algo que há tempos estava adormecido dentro dela.

\"Ele te usou, você não vê?\" Ainda se lembrava da voz do seu novo e atual comprador. A voz dele martelava na cabeça da ruiva a cada movimento, a cada segundo, cada vez que se lembrava da pessoa por quem se apaixonou, vinha-lhe junto à voz do seu novo dono. As lembranças estavam manchadas, estragadas, queimadas a ferro quente.

Começou tanto rápido quanto acabou.

A ruiva estava trabalhando no bordel de Madame Carmem, ao lado de outras meninas da vida. Algumas nem eram argentinas puras como ela, mas os homens que freqüentavam o lugar nem reparavam, estavam interessados em outra coisa.

Foi ai que ele chegou. Pedindo um drink e uma garota.

\"Ela.\" — Escolheu calmamente apontando para ela, na grande fileira que fora reunida na frente dele. As outras saíram, murmurando coisas incompreensíveis, na certa lhe xingando. Afinal não são todos os dias que um homem belo vai até um bordel, esse tipo de homem geralmente não precisa pagar para conseguir sexo fácil por Buenos Aires.

Caminhou até ele, estava prestes a sentar no colo do homem quando ele se levantou e puxando junto pelos ombros. Madame Carmem assistia assim como todos os clientes presentes ele a levar pra fora dali. Ela lançou a sua chefa um olhar suplicante por ajuda, mas a mulher mais velha morena apenas balançou a cabeça.

Entraram em um carro que ela não pôde distinguir o modelo. Estava sentada no banco do caroneiro e volta e meia lutava contra um arrepio de medo. Estavam indo pra fora do bordel, estavam saindo da área que de segurança, e se ele fosse algum tipo de sádico que matava as mulheres depois de transar com elas? Explicaria o fato de precisar pagar por sexo.

Saíram da capital da Argentina e depois abandonaram também a alto-estrada, pegando uma de pavimentação mais escassa que os levou até uma casa de madeira nada bonita por fora.

Bem no meio da melhor parte vinham às vozes que nada a agradavam, a voz do seu novo dono lhe falando enquanto a fodia. O loiro, diferente do moreno por quem tinha se apaixonado não era muito gentil. \"Mas você não deveria se importar não é? Nem mesmo uma companhia elegante você é. É somente uma vadiazinha!\" — As vozes agora se misturavam em seu interior. A voz grossa e sonora de seu novo dono junto com a sua, chorosa e arrependida por ter se apaixonado.

Ainda se lembrava do dia seguinte na cabana, o moreno que tinha lhe levado do bordel tinha a ensinado uma nova dança, bem diferente de todas as que conhecia. Mais rápida, mas colada, mais... sôfrega.

Em cima da cama repousava um vestido preto decotado que tinha um corte bem grande na perna. No chão uma sandália de salto alto com detalhes em pedras que imitavam muito bem rubis. A música vinha da sala principal e o piso de madeira que estava infinitamente mais brilhante.

Ele a esperava sentado e uma cadeira vinho ao lado de uma mesinha redonda com um vaso de poucas flores.

A memória só podia levá-la até aquele momento, a partir dali as lembranças se tornavam mais confusas, como se estivessem manchadas pelas vozes, dela, do loiro comprador e do moreno elegante.

\"Vamos tentar novamente. Você consegue!\" — Primeiro o moreno, lhe ensinando um passo mais avançado, de acordo com ele, a escolhera não por ser a mais bonita, mas por ter mais potencial. \"Isso se vê só no jeito de andar.\"\"Ele nem ao menos te esqueceu, porque você nunca foi nada. Você nunca vai perdê-lo, você nunca o teve\" — Depois o loiro, cuspindo as palavras e manchando algo que ela nunca ao menos teve, chamado dignidade.

\"Eu não vou conseguir! Eu não vou!\" — A ruiva voltava a escutar a própria voz em seu interior, era estranho escutar a própria voz, ainda por cima tão chorosa depois de ter caído de bunda no chão por ter errado um passo.

\"Você vai conseguir, confie em mim!\" — A voz do moreno novamente, homem que ela nunca sequer soube o nome, e tinha arrastado sua alma consigo.

A batida surgiu no lugar das vozes... O Tango martelando em sua cabeça lhe lembrando, lembrando do que? Não se pode lembrar o que nunca se esqueceu.

Diferente dele, ela não conseguia esquecer. Justo o que ela mais almejava, queria se libertar dessa paixão, que só tinha lhe feito mal. Junto com a ultima batida da música a idéia surgiu na sua mente. Seus próprios pensamentos a deduravam. — \"É tão simples, como não pensei nisso antes?\"

Queria bater a própria cabeça em um pedaço de madeira até furá-la, mas esse tipo de anestésico seria pouco, não seria definitivo. Aumento o passo, e se viu acompanhando o ritmo do que tocava e martelava cada um dos seus pensamentos, desde ele.

A garota ruiva alcançou a ponte de madeira grossa sobre o lago de gelo fino, que com certeza não agüentaria o seu peso. Ótimo. Sorriu triunfante pensando em como deixar uma mensagem pra ele, para que ele soubesse que foi por ele, que fez o que estava pra fazer.

Andou até a borda do rio e quebrou um pouco do gelo, escreveu no próprio pulso a única coisa quem conseguiu pensar que ele reconheceria se visse no televisor, \'Tango\'!

Quem mais sabia sobre tudo o que tinha rolado entre os dois, sobre todo aquele ritual mágico que ele insistia em chamar de dança? Era muito mais que isso, uma espécie de fixação envolvida em uma química que não sabia descrever. Ninguém sabia, mas ele entenderia.

Será que o moreno que a enfeitiçara sentiria remorso? Esperava que sim.

Perdeu o movimento do pulso esquerdo e voltou para a ponte, deixava o sangue quente escorrer pela mão mensageira, assim como os braços pendendo ao lado do corpo. A tonteira começava a atingir a ruiva quando subiu no encosto da ponte.

Se colocou na ponta dos pés e pulou fechando os olhos. Ela sentiu os cabelos se esvoaçarem ao vento e o couro cabeludo ser o primeiro a se chocar com o gelo, que se partiu em uma fração de segundo a abrigando em suas águas gélidas.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!