Notas iniciais
Primeiro gostaria de desejar boa sorte aos que forem prestar o Enem amanhã e domingo, estarei torcendo por vocês. Bem, espero que apreciem a leitura e nos vemos lá embaixo.

O sol tocou sua face carinhosamente transpondo a janela da sala de música da Sra.Carter, mas diferente de outrora, não sentiu aquele conforto e renovação de antes, sentia-se exausta. Dormir tinha se tornado cansativo, sempre que encostava sua cabeça no travesseiro, sua mente era inundada por suposições, era certo que tinha ficado assustada naquela noite e não teria como ser diferente, Cam tinha literalmente nocauteado dois homens aparentemente mais fortes que ele, de maneira truculenta, mas também tinha a convicção de que o fez para protege-la.

Estava arcando com as consequências daquele incidente, Raquel aparecia vez ou outra no dormitório, mas raramente dormia ali. Encontrava com Roland no Campus com mais frequência agora que se conheciam melhor, ele era um cara simpático e atencioso, já o considerava um amigo, contudo ele não tinha notícias de Cam e isso a atormentava.

Ele estaria bem?

—Srta. Grigori? – Ouviu a voz da Sra. Carter distante. – Se estiver se sentindo incomodada com o conteúdo da aula, a porta fica por ali. – Ouviu a professora proferir de maneira ríspida apontando com o dedo em riste em direção da porta.

—Desculpe-me Sra. Carter. – Tinha se tornado uma pessoa dispersa e isso estava começado a afetar seu desempenho. Se ajeitou na cadeira o mais ereto possível evitando cruzar com os olhares de curiosidade e repreensão de seus colegas.

—Bem, como estava dizendo, na próxima semana teremos a visita de um profissional experiente na revisão de instrumentos de cordas. – Caminhou até sua mesa de onde tinha uma visão privilegiada de toda a turma. – Se tiverem interesse que os seus instrumentos sejam revisados, agendem com antecedência na secretaria principal. – Avaliou satisfeita o silêncio e atenção que tinha recuperado de todos. – Estão dispensados e tenham todos uma boa tarde.

Lilly organizou suas coisas de maneira corriqueira se lembrando de afrouxar as cerdas do arco antes de depositá-lo no estojo junto dos demais itens. Percebeu que a Sra. Carter mantinha os olhos presos nela de maneira curiosa e antes de receber mais um sermão como o da semana passada, se apressou em deixar a sala.

Seguiu para seu dormitório a passos largos se deparando com a Raquel na porta.

—Oi. – Falou a outra aparentemente sem graça.

—Oi- Lilly respondeu secamente, não estava afim de papo.

—Vou dar uma saída. – Falou a outra seguindo pelo espaço dado por Lilly na porta. – Não precisa me esperar. – Falou alto já seguindo pelo corredor.

Jogou-se na cama assim que colocou seu instrumento sobre sua mesa de estudo, e dormiu quase automaticamente acordando algumas horas depois. Abriu os olhos lentamente e os guiou até o relógio da parede que marcava 18:40, tinha dormido boa parte da tarde.

Seguiu para o banheiro saindo algum tempo depois enrolada em uma toalha e com outra enrolada nos cabelos. Escolheu uma calça jeans e um suéter preto pensando em correr até a lanchonete da frente para comer algo já que a do Campus já devia ter fechado.

(...)

Assim que voltou se sentiu tomada pela solidão. Seu quarto estava escuro indicando que Raquel não tinha voltado assim como tinha avisado mais cedo. Acendeu a luz e fechou a porta atrás de si, antes de pegar seu celular no bolso de trás da calça para discar o número dele. Sentou-se na cama contando mentalmente seis torturantes toques antes de cair na caixa postal muda dele. Nada. Somente o silêncio seguido daquele sinal para a gravação de algum recado. Desligou o telefone frustrada o jogando sobre a cama.

Abriu a janela e sentiu de imediato o toque fresco da noite em seu rosto o que a fez respirar profundamente em puro contentamento. “Cam”, sua mente suplicou a fazendo sentir seu coração se apertar em seu peito. Tinha se perguntado diversas vezes como poderia sentir tanta falta dele, era como se o dia em que Cam havia saído de por aquela porta da boate aquela noite, tivesse levado consigo seu coração a deixando vazia.

Respirou fundo e posicionou seu violino no ombro fechando os olhos enquanto executava uma das mais tristes melodias que conhecia, mas alguma coisa estava diferente, sentia seu coração acelerado e as borboletas em seu estômago que somente “Ele” lhe causava, uma sensação de antecipação a preenchia como se algo fosse acontecer. A estranha sensação se ampliava conforme tocava, o que seria isso?

—Cam.- sussurrou enquanto sentia uma lágrima solitária correr por seu rosto. Abriu os olhos e foi como se o ar tivesse fugido de seus pulmões. Seu coração disparou ainda mais em seu peito e sentiu um leve tremor de expectativa.

A lua iluminava a noite e sua luz foi o suficiente para identifica-lo. Cam estava de pé no terraço do dormitório masculino, teve certeza assim que seus olhares se encontraram, era ele.

Colocou o seu violino sobre cama e saiu em uma corrida desenfreada pelos corredores e escadas, no jardim o fitou novamente e continuou sua corrida agora para o prédio a frente. As escadas lhe roubavam tempo e o fôlego começava a lhe faltar a obrigando a parar algumas vezes para recobrá-lo, mas enfim, traspôs a porta até o terraço.

—Cam. – Soltou aliviada. Ele não se moveu, então, caminhou alguns passos até ele ainda recuperando o folego. Ele se virou lentamente, parecia receoso, mas era ele.

Lilly controlou a vontade que sentiu de correr até ele e envolve-lo em seus braços, a saudade que sentia era tamanha que parecia sufocar.

—Preciso me desculpar por aquela noite. – Imaginou que ele poderia sentir o mesmo pois estreito a distância entre eles parando a pelo menos um passo de distância, fazendo com que o perfume maravilhoso dele a alcançasse.

—Não importa. – Era verdade. Não importava. O importante era que ele estava ali agora.

Quis tanto sentir se ele era real que ergueu o braço no intuito de tocá-lo, mas não conseguiu completar o movimento, eles não tinham “Nada”, sua mente martelou, apesar de seu coração gritar o contrário. – Senti sua falta. – Disse em um fio de voz. Era verdade, pois desde quando o tinha visto partir, sentia como se uma parte de si tivesse sido arrancada violentamente e tê-lo ali novamente a sua frente, era como ter essa parte de volta. Ele continuou calado e imitou o movimento dela, porém não parou antes de alcançar-lhe mão.

Lilly sentiu uma corrente elétrica percorrer todo seu corpo, o ar lhe faltou nos pulmões e as borboletas em seu estomago estavam enlouquecidas. Podia sentir o hálito quente dele contra os seus lábios e o calor de seu corpo a envolvendo. Era ele.

—Eu também. – Ouviu-o murmurar em um tom deliciosamente envolvente e Lilly sentiu algo dentro de si explodir em êxtase com aquelas palavras. Sentiu-o a enlaçando com um dos braços em sua cintura e afastando uma mecha de seu cabelo delicadamente. – Eu também – murmurou ele novamente tomado por fim seus lábios.

Era um beijo calmo e cheio de carinho. Lilly sentia-se derreter com o toque dos lábios dele, era como se os braços dele fosse o seu lugar. Sentia uma vontade de tê-lo mais perto, de sentir suas mãos percorrem seu corpo, de sentir que ele lhe pertencia, então, afundou suas mãos nos cabelos sedosos dele acariciando sua nuca e aprofundou o beijo, “Eu o quero”, seu coração gritou.

Cam estreito ainda mais a distância entre seus corpos gerando uma gostosa sensação quando se arqueou contra ele, sentia sua intimidade úmida e pulsante ao ouvi-lo gemer entre seus lábios a excitando ainda mais.

Se separaram a procurar de ar e sem se afastar Cam encostou sua testa a dela, enquanto Lilly mantinha seus olhos fechados aproveitando o abrigo que era os braços dele.

—Precisamos conversar. – Ouviu-o sussurrando roucamente a motivando a abrir os olhos para fita-lo. Ele tocou seus lábios carinhosamente com o polegar e seguiu com a caricia até seu rosto, o que a fez recostar a face em sua mão macia. — Preciso contar uma coisa a você, mas não sei por onde devo começar. – Notou que ele estava apreensivo enquanto se afastava, seus orbes esmeraldas estavam reluzindo um brilho muito próximo do que virá naquela noite do incidente, ele parecia com medo. Desejou mostrar que o escutaria e tentaria entender o que fosse, então, acariciou o rosto dele lhe mostrando um sorriso carinhoso o incentivando.

Cam tomou as mãos dela entre as suas e depositou em cada uma delas um beijo demorado e carinhoso antes de se afastar.

—Cam? – Sentiu uma sensação de vazio com a distância que ele impunha entre eles, mas estancou no lugar com o sinal de “Pare” que ele fez com a mão.

—Nunca contei isso para ninguém, mas preciso tanto que você saiba.- A voz dele exprimia toda a angustia que devia sentir, e então, ele lhe deu as costas dizendo algo que não conseguiu escutar até que viu asas se desdobrarem das costas dele.

Seu coração parecia querer saltar de seu peito, estava espantada, contudo esse sentimento foi rapidamente substituído por um verdadeiro encantamento. O ambiente parecia ter sido preenchido pelo tom ouro das asas dele, elas eram altas e majestosas e as penas pareciam tão macias que quis tocá-las.

—São lindas! – E eram espantosamente, lindas. – Posso? – Ele acenou-lhe a cabeça positivamente a fazendo ceder a vontade de tocá-las. As penas eram tão macias e imaginou que poderia tocá-las por horas sem se cansar. – Você é um anjo? – Questionou com curiosidade ainda acariciando a plumagem dourada cuidadosamente.

—Há alguns milhares de anos atrás posso ter sido, mas, hoje... – Continuou em silêncio em expectativa, notou quando Cam ergueu os olhos ao céu, parecia difícil o que tinha a dizer. – Eu sou um demônio.

A palavra “Demônio” ressoou em sua mente. Sentiu um aperto no peito e conteve qualquer reação de espanto que sua voz pudesse produzir e se recordou de uma coisa que seu pai tinha lhe tinha dito a algum tempo “Nada é tão ruim como pode parecer no primeiro momento, então querida, se seu coração desejar consentir, dê amenos uma chance de analisar a situação”. Não sabia dizer o porquê de ter se lembrado disso agora, mas parecia fazer todo o sentindo do mundo naquele momento.

Foi Cam quem quebrou o silêncio sombrio que pairou sobre eles.

—Me perdoe. – A voz grave dele saiu em um sussurrou repleto de mágoa, e isso à atingiu profundamente fazendo seu coração disparar. –Não sei o que estava pensando, mas posso entender que você queira alguém menos “demoníaco”– disse ele sorrindo sem humor, mas aquelas palavras tinham o peso de rochas dentro dela. Não precisava de outro alguém, seu coração enfatizou. Lilly o contornou até ficar frente a frente com ele que mantinha o olhar baixo.

—Cam. – Tentou fazê-lo erguer o olhar sem sucesso e mesmo assim prosseguiu. – Você não tem a mínima ideia de como foram meus dias sem você, se tivesse, não pensaria isso. Eu não quero estar com alguém. – Sentia sua voz embargada. Carinhosamente ela acomodou o rosto dele entre as mãos. – Eu quero estar, com você. – Cam ergueu o rosto até que seus olhos se encontrassem, Lilly percebeu que o olhar dele estava marejado e parecia espantando e sem hesitar, ela colou seus lábios aos dele “Eu o amo”, seu coração entoou enquanto sentia seu corpo ser envolvido pelos braços fortes e acolhedores dele.

Notas finais
Espero que tenha gostado e desculpem pelos erros. Beijos. Fui!