Libertação (Cameron Briel)
9 Quebrado
Notas iniciais
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Estava novamente deitado sobre o telhado daquela fraternidade remoendo seus atos. Havia agido como em incontáveis vezes motivado pelo impulso, poderia, deveria ter se controlado, ela estava tão vulnerável, ou seria ele quem estava?
“ Ela tinha subido para o dormitório após o convite que ele aceitou de imediato, estava curioso e extremamente ansioso, não conseguia evitar a euforia que ela lhe causava, era algo estranhamente intenso e tentaria descobrir o que era.
Cam encostou em uma árvore com os braços cruzados sobre o peito, talvez devesse ir embora. Não conseguia decifrar corretamente o que estava acontecendo, e se fosse um erro? Levou algum tempo até que ela retornasse e o tirasse de seus devaneios e foi impossível não sorrir ao revê-la.
Seguiram até a lanchonete do outro lado da rua escolhendo uma mesa discreta ao fundo. Era difícil quebrar o olhar, ela tinha algo que o encantava, que o fazia querer fita-la pelo maior tempo possível. Ele analisou a suavidade em seu olhar ametista quando um sorriso chegava até seus olhos, de como ela mexia os dedos nervosamente tamborilando de leve o tampo da mesa, do jeito que seu cabelo escuro preso em uma trança frouxa de lado pendia em um dos lados de seu pescoço alvo. Ela era genuinamente linda.
— Você estuda aqui a muito tempo? – Não escondia seu interesse, queria saber mais do que Roland havia dito. – Pelo que percebi antes, você toca violino, não é isso?
— Na verdade há alguns meses, vim para estudar música. – Percebeu que ela estava empolgada com o tema e parecia mais relaxada. –Você é bem observador Cam, realmente eu toco violino.- Notou o olhar dela correr até o cordão em seu pescoço com a numeração de seu quarto na Cross & Sword, nem sabia mais o motivo de ainda tê-la consigo. Lilly estava com o olhar perdido e um sorriso bobo que certamente não percebeu curvar seus lábios por breves segundos, e ele continuo ali, simplesmente a admirando– Me desculpe. E você, toca? – Ela indicou a palheta em seu pescoço.
— Se você quer saber, arranho um pouco. – A verdade era que havia tido muitos anos para aprender tudo o que quisesse, mas não tinha o por que se gabar, não queria impressioná-la como fazia com outras mulheres, com ela era confortável ser somente, sincero.
— Você veio para ficar? – Será que ela estava querendo que ele ficasse? Poucas pessoas nesse mundo o quiseram por perto. Certamente os outros anjos caídos, mas na maioria das vezes, as mulheres após uma boa transa, mas com ela era diferente. Tudo.
— Bem. – Ele tomou um longo gole de refrigerante. – Sabe Lilly, vim somente para rever um amigo, mas...– Estreitou o olhar e sorriu por perceber que mexia com ela – Vou ficar, tem coisas aqui que me interessam, muito. – Não tinha interesse em “coisas”, mas sim, nela e pelo visto Lilly tinha entendido bem o recado.
— Entendo. – Ela brincava com o canudo de sua bebida distraidamente.
— E você Lilly, tem algo que lhe prende aqui além da faculdade? – Cam queria realmente saber se ela tinha alguém então preferiu ser direto.
— Não tenho namorado, se é o que quer saber.
— Fico feliz em saber. – Foi sincero. Cam tinha percebido o poder que seu olhar tinha sobre ela e não evitava usar desse artificio.
Cam se questionava sobre o porquê de a conversa entre eles fluir tão bem, não se conheciam, nem amenos tinham vivido na mesma época antes da noite anterior, e ainda assim, se compreendiam tão bem, mas como sempre acontece quando começamos a apreciar um momento, o tempo escorre por entre os dedos.
Escurecia quando ambos compartilharam da mesma relutância em aceitar que teriam que se despedir, pelo menos era o que aquele suspiro curto que deixou os lábios dela parecia dizer.
— Você me daria seu telefone? – Ela acenou com a cabeça e anotou o telefone em um papel. “Vou precisar de um celular”, pensou acomodando o papel no bolso interno de sua jaqueta. Pagaram a conta e seguiram silenciosamente até o dormitório dela.
— Então é isso. – Seu tom de voz indicava algo muito próximo de mágoa e foi o suficiente para que ele desse alguns passos em sua direção. Ela emudeceu conforme ele continuava se aproximando, parando quando as costas dela tocaram a parede, então, apoiou sua mão direita na parede e com a outra envolveu-a pela cintura a trazendo para si. O corpo dela se curvou em um encaixe perfeito fazendo-o ofegar com sofreguidão ao sentir seu membro pulsar com a aproximação. Uma corrente de energia percorreu todo o seu corpo e o delicioso perfume de jasmim dela preencheu o ar a sua volta. Ele estava a um passo da loucura.
Se sentiu tomado por um desejo ardente de tomar aqueles lábios, mas talvez não fosse realmente o certo a fazer, ela não podia ser dele apesar de a querer tanto. Tentou ser forte e se controlar, se esforço para evitar, mas quando a viu entreabrir os lábios, perdeu a luta. Cam grudou seus lábios aos dela, eram tão macios como havia imaginado, iria prova-los e suga-los como uma fruta suculenta. Ele passou sua língua pela parte inferior dos lábios dela que lhe abriu passagem, deixando que explorasse cada canto daquela boca sorvendo todo o seu sabor. Seu corpo estremeceu, sua libido tornou-o rijo e pulsante chegando a ser doloroso, sentia que poderia explodir de desejo naquele momento.
A puxou pela nunca para mais perto até que não existisse distância entre eles, e estremeceu novamente ao sentir seu membro ereto roçar a coxa dela. Ele a desejava, e decidiu parar pois não sabia até aonde conseguiria se controlar. Separou seus lábios sentindo de imediato aquela sensação repetida e chata de perda, os lábios dela estavam vermelhos e inchados pelo recente beijo, os olhos semicerrados ainda desfrutando de um visível êxtase. Ca, sabia que não estava muito diferente, ele acariciou com o polegar os lábios dela ainda com a ânsia de toma-los novamente, e teve que respirar profundamente afim de se recompor o máximo que pôde.
— Melhor você entrar, já está tarde. – Enterrou as mãos no bolso constatando que seria o melhor lugar para evitar a prender junto a si novamente. – Se cuida Lilly. – Deu-lhe as costas. – Eu te ligo. ”
Repassando tudo mentalmente percebeu que tinha fugido, sabia como uma onda de desejo tão intensa como aquela que sentiu podia torna-lo selvagem e não era o que queria, não queria assustá-la, não queria, perdê-la.
As coisas pareciam sempre tão complicadas, principalmente em se tratando dele, não conseguiria esconder sua natureza por muito tempo e então, ela o odiaria, o rejeitaria, e o chamaria de demônio. Era isso que havia realmente se tornado, um demônio. Poucas vezes nesses milhares de anos sentia o peso de sua escolha e esse era um desses poucos momentos.
Odiava profundamente o fato de ter voltado, devia ter seguido o caminho oposto ao que era puxado, devia ter ido para o mais longe possível dessa sensação, desse sentimento que agora parecia sufocar, talvez por ter deixado de ser uma impressão e ter ganho uma forma, um cheiro, um olhar e um nome, Lilly.
— Tô fodido. – Resmungou esmurrando o telhado.
— Calma aí cara, senão você derruba o telhado. – Comentou Roland divertido. Ele estava debruçado na sacada admirando a piscina ciente da presença do outro. – Arrumei um lugar para você.
— Hum.- Cam saltou para a sacada. – Preciso de um celular?
— Amanhã. – Roland olhou de soslaio para o outro que apoiava as costas no parapeito da sacada. – Você a encontrou? – Queria somente puxar assunto, Cam acenou com a cabeça, ele parecia disperso e Roland imaginou que seria melhor deixa-lo por enquanto. – Vem, vou te mostrar seu quarto.
Entraram pela sacada no quarto ao lado do que Cam entrou na outra noite, era quase o mesmo padrão, neste haviam três camas e um guarda roupas bem maior, uma porta que levava ao banheiro e outra ao corredor interno.
— Este está vazio, então pode usá-lo. – Fez menção de sair mais foi parado pela voz baixa de Cam.
— Acho que não devia estar aqui. – Falou amargamente, sentia-se um idiota ao admitir isso.
— Você deve se lembrar do que Daniel sempre dizia “uma maçã não cai muito longe da árvore”. – Virou o rosto para Cam e prosseguiu. – Talvez tenha que ser, o que importa realmente é o que você sente.
— Não quero sentir. – Resmungou mais para si do em resposta ao outro.
— Se estamos falando sobre isso Cam, você já está sentindo. – Saiu deixando o outro atordoado.
Cam sabia que Roland tinha razão, mas não queria, não devia, seria esse sentimento que corroía Daniel sempre que tentava se manter longe de Luce? Lembrava de como tinha tentado livrar o irmão de se perder na dor como nas outras vezes, tentou conquista-la para evitar vê-lo adormecido ou destruído por dentro, ou pior como no Tibet, onde Gabe o encontrará com todos os ossos de seu corpo triturados envolto em uma poça de sangue escuro.
Seus métodos eram sempre questionados, mas o fato era que estava cansado de tanto sofrimento e angustia, a maldição ativa, Lucinda morrendo, Daniel sofrendo, e tudo sempre à beira do fracasso.
Não conseguiu evitar que Luce se apaixonasse novamente por Daniel, ela sempre o escolheria. Ela não lhe pertencia e lutar contra algo assim era tolice. Sempre seria Daniel e Lucinda. Sempre.
Será que em algum momento poderia vir a ser ele o escolhido?
Quando tudo tinha mudado?
Ele era o mesmo Cam que seguiu por milhares de anos junto dos outros caídos, que tinha escolhido o lado de Lúcifer quando seu coração fora destruído, que tentou mudar os rumos dos acontecimentos, que foi o vilão quando necessário, que foi frio e as vezes injusto, que não se importava em ser a espada ou o carrasco em meio à guerra, mas agora, não sabia o motivo de se parecer tão menos do que já fora um dia, sentia-se quebrado.
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