Libertação (Cameron Briel)
13 Perdendo o controle
Notas iniciais
A semana tinha sido longa, todos os dias se repreendia sobre a merda que estava fazendo, repetia que não devia se envolver que precisava se afastar, mas sempre agia ao contrário do que sua mente inquisitiva ordenava.
Estava debruçado na sacada, tinha consultado o relógio de seu celular a pouco tempo atrás e constatando que tinha algum tempo até ir busca-la. Tirou do bolso de sua calça uma delicada corrente dourada a segurando com o dedo indicador a erguendo até à altura de seus olhos. Esperava que as horas que passou procurando algo para presenteá-la tivesse valido a pena, que ela gostasse do presente, e mais importante, que usasse.
Era muito estranho imaginar que já tinha feito o mesmo com Lucinda, hoje sabia que não tinha sido uma boa escolha comprar um pingente com uma cobra, seu pensamento tinha sido de agradá-la é lógico, e para ele, uma cobra tinha sido um símbolo de seu primeiro encontro com ela. Agora entendia que o mais coerente teria sido aceitar que ela não gostava de cobras, mas o passado já estava em seu lugar e se fosse capaz de mudar algo nele, certamente não seria isso.
Balançou a corrente em seu dedo observando-a brilhar com o movimento e olhou novamente para o relógio do celular, talvez devesse ir. Guardou novamente a corrente em seu bolso e jogou sua jaqueta sobre o ombro antes de saltar da sacada caindo suavemente com os joelhos dobrados, e apoiando sutilmente uma das mãos no chão. Apanhou as chaves do carro de Roland e seguiu para a garagem animado, hoje teria um encontro.
(...)
Estacionou em frente ao Campus e mandou uma mensagem informando que estava esperando, e após alguns minutos recebeu a resposta de que ela estava descendo. Preferiu aguardá-la do lado de fora do carro. Cam contornou o veículo e apoiou suas costas na porta do passageiro cruzando os braços sobre o peito distraidamente.
Não demorou a vê-la surgir. Lilly usava uma calça preta justa, uma camiseta branca com detalhes pretos e uma jaqueta de couro vermelha com as mangas puxadas até perto dos cotovelos e os seus cabelos cascateavam por suas costas com suaves cachos nas pontas.
Ela se aproximava lentamente, ou seria ele que se prendia aos detalhes? Sua mente ressoava insistentemente, “Linda”.
—Oi. – A voz dela tinha saído em tom suave, quase um carinho aos ouvidos dele.
—Oi. – Respondeu somente controlando a vontade de segurá-la pela nuca e colar seus lábios ao dela, imaginando que isso sim seria uma ótima forma de dar um “oi”. – Você está linda. – Foi sincero.
— Obrigada. – Percebeu o rosto dela ruborizar com o elogio o que o fez sorrir discretamente.
Ele abriu a porta do passageiro e a fechou no momento seguinte em que ela se acomodou no assento, contornando o veículo até alcançar o lado do motorista. “ A noite está começando”, pensou girando a chave na ignição.
Sua época de romantismo ingênuo já tinha passado e estava feliz por isso. Cam preferia algo mais despojado e por isso, havia escolhido um show em uma boate seguindo uma sugestão de Roland sobre a banda que tocaria. A casa noturna estava lotada, as pessoas aglomeradas curtiam o som de um DJ, certamente todos estavam aguardando a entrada da tal banda que sinceramente, ele nem se lembrava do nome. As luzes na pista ofuscavam a visão momentaneamente e se aproveitou disso para segurar firme a mão dela, que não relutou.
Cam a guiou para a escadaria que levava ao segundo andar da boate, aonde haviam algumas mesas dispostas na área VIP e dispunha de uma boa visão do palco central.
—E aí? O que achou? – Perguntou empolgado. Queria saber se tinha feito uma boa escolha, e teve certeza disso quando ela lhe respondeu com um sorriso cativante, ainda mantendo sua mão entrelaça a dele.
— Já tentei vir aqui algumas vezes, mas é tão difícil conseguir entrar. – Parecia surpresa e ao mesmo tempo animada, isso indicava que Cam tinha acertado na escolha.
(...)
O show enfim iria começar, Cam já tinha buscado algumas bebidas e agora ambos estavam apoiados no parapeito do segundo andar lado a lado. Assim que anunciaram a entrada da banda no palco, as pessoas começaram a se amontoar buscando o melhor lugar para assistirem. Percebendo os empurrões que Lilly recebia, Cam se colocou atrás dela estendendo seus braços um de cada lado do corpo dela apoiando suas mãos no parapeito. Em resposta a esse ato protetor, Lilly virou sua cabeça e pronunciou um soletrado “Obrigada” que ele retribui com um pequeno sorriso.
Era uma tarefa árdua ficar tão próximo sem que seus corpos se tocassem. Ele sentia o cheiro de shampoo que desprendia dos cabelos dela, o calor acolhedor de seu corpo e o cheiro de jasmim inebriante que ela exalava. Lutava contra a vontade de pressionar seu corpo contra o dela e mostrar o quanto aquela situação o excitava, no entanto, se controlou.
Haviam se passado uns 40 minutos de show quando Lilly se voltou a ele dizendo que precisava ir ao banheiro, se afastando em seguida. A ausência do corpo dela tão próximo lhe causava uma sensação desconfortável e fria.
Cam buscou o colar que planejava entregar a ela em seu bolso, imaginando que talvez após o show eles saíssem para comer alguma coisa, ou poderiam ir até a praia admirar o mar e caminhar descalços na areia, e então, ele entregaria o presente, contudo, interrompeu esses pensamentos quando se deu conta que a Lilly estava demorando. Ela podia não ter conseguido retornar para junto dele, se repreendeu imaginando que devia tê-la acompanhado e a esperado na porta, afinal, ali estava lotado. Decidido em encontra-la, desceu as escadas e assim que chegou no andar inferior questionou uma moça sobre onde ficava o banheiro que segundo a orientação dela, ficava no final do corredor a direita próximo a saída de emergência. O corredor estava vazio, pois todos continuavam curtindo o show.
Um pouco antes do final do corredor ele avistou três portas, a da direita era do banheiro masculino e a da esquerda o feminino e entre elas mais à frente ficava a saída de incêndio.
Ele bateu na porta do banheiro feminino algumas vezes e cautelosamente à abriu colocando a cabeça para dentro chamando por ela, mas não obteve resposta.
Para onde ela teria ido? Devia ter esperado por ela, agora, iriam se desencontrar. Fechou a porta decidido a retornar para o andar superior, mas se deteve ao ouvir um choramingo vindo do outro lado da porta corta fogo e sem hesitar um minuto a abriu.
Precisou de poucos segundos para assimilar o que via. Lilly estava sendo segurada de maneira agressiva por um homem que tentava manter os braços dela para trás e se esforçava para cobrir sua boca com uma das mãos. O rosto dela estava vermelho indicando a precipitação de algumas lágrimas e sua jaqueta estava caída no chão próximo aos pés de um segundo homem que tentava tocá-la sem sucesso, já que Lilly se debatia tentando fugir do aperto firme do outro.
Não saberia dizer o tempo que levou para absorver toda a cena, mas quando a viu olhá-lo suplicante não conseguiu mais se conter, se atirou sobre o homem que a segurava para liberá-la e assim que a viu se arrastar em sua direção não hesitou, passou por ela e partiu impetuoso sobre ele.
Seu sangue parecia ferver em suas veias, seus punhos de afundavam com violência contra o rosto do homem em uma sequência frenética, o outro tentou detê-lo, então Cam abandonou o que estava caído desacordado e voltou sua atenção ao outro. Cam sentia a o efeito da adrenalina em seu corpo, seus olhos focados no vermelho do sangue que escorria do rosto do homem tingindo suas mãos e se misturando ao seu próprio. Continuou esmurrando o homem, não podia parar, não queria, sua vontade era de envolver o pescoço dele com as mãos e pressionar até que a vida esvaísse do corpo daquele bastardo.
Seu ódio era intenso, crescente e incontrolável. E em meio a um de seus golpes, Cam ergueu seu rosto e se deparou com os olhos dela o perfurando. Foi como se ouvisse um estalo, não o de ossos se partindo, mas tinha certeza que algo estava se quebrando, possivelmente tinha sido o som de seu coração se fragmentando ao notar os olhos violetas o mirando, Lilly estava com medo, com medo dele.
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