Liberdade e desespero
1 47 minutos
Hoje fui levar meu sobrinho para a aula de natação que começava as 18:00 horas e enquanto ele nadava, senti vontade de ir ao banheiro mas como sabia que iria demorar, antes pedi um papel e uma caneta emprestados na lanchonete e fui ao banheiro mais afastado, pois sabia que poucas pessoas entrariam e sendo assim, não sentiriam o odor, mas meu erro foi se preocupar com os outros.
Não havia ninguém por perto no caminho e nem dentro do banheiro, mas assim que entrei na cabine mais distante e fechei a porta, alguém tentou forçar a porta com forca e a segurei por reflexo. Quando olhei pra baixo pude ver uma sombra se afastar e pude ter certeza de que aquilo não era algo que minha imaginação havia criado, tinha alguém do lado de fora. Devagar a sombra se afastou e eu permaneci segurando a porta mas foi quando vi que o ferrolho estava inclinado de um jeito impossível de ser fechado. Alguém forçou previamente pra que ficasse quebrado e não fosse possível trancar.
Ir para uma área isolada havia me deixado sem defesas e por ser um clube o local era barulhento, mesmo se gritasse, não seria ouvido.
Havia ido pra cabine mais distante da porta porque pela lógica, seria a mais limpa. Porque a pessoa do lado de fora havia usado aquela força desnecessária para tentar abrir minha porta se todas as outras cabines estavam vazias?
Impossibilitado de me acalmar, permaneci parado em pé segurando a porta com as mãos e criando coragem, falei em voz alta:
—Oi, licença?
Percebendo que ninguém respondia do lado de fora, fiquei com mais medo e tremendo, permaneci por algum tempo na mesma posição, quase ouvindo meus batimentos cardíacos tendo ainda a caneta, a segurei firme, pensando aliviado que mesmo não tendo defesas, tinha um ataque surpresa caso o pior acontecesse.
Abri a porta com cautela, preparado para fechar e foi quando vi que não havia ninguém a vista, mas a porta da cabine ao lado estava fechada. Quem estaria ali? Homem? Mulher? Algum psicopata doente? Um pevertido? Não sabia, mas de uma coisa tinha certeza, era a mesma pessoa que havia tentado abrir a porta e a mesma que havia ignorado o chamado. Porque não tinha respondido?
Para chegar na saída, antes eu teria de passar pela porta que aquela pessoa estava e se fosse realmente alguém de má indole, não chegaria na saída a tempo de fugir. Fechei imediatamente a porta me trancando novamente e ali fiquei, segurando-a. Estava com medo. Desde o início, não ouvira som algum de passos ou de portas se abrindo ou fechando. Perceber isso foi aterrorizante, pois como saber quando aquele individuo teria ido?
Pensei no meu sobrinho e fiquei nervoso ao imaginar que poderia acabar a aula dele e me procurar, ficando sozinho. O que aconteceria com ele? Quem cuidaria dele? Tinha de sair dali, mas como se nem o celular estava comigo?
A luz se apagou abruptamente e o medo se apoderou ainda mais pensando uma unica coisa. Quem quer que fosse, se tratava de alguém de personalidade sádica e estava me torturando friamente, brincando com meu medo.
Quanto tempo havia se passado desde que eu havia entrado ali e quando alguem chegaria para que o ambiente se tornasse seguro novamente?
Respirei fundo e agradeci mentalmente por ter voltado pra cabine a tempo, ainda segurando a porta sem cessar.
Meu corpo conseguia reproduzir o terror através de suor frio, pupilas dilatadas, coração acelerado e mãos tremulas.
Sofrer por antecipação sempre tinha sido o meu mal, mas as vezes isso me mantinha seguro, protegido, vivo.
Se pensar antes no pior, podemos nos prevenir e ficar a salvo.
Aquilo não podia durar por muito mais tempo ou iria enlouquecer.
Com cuidado para não fazer barulho, me ajoelhei no chão, olhando por debaixo da porta e tentei enxergar no meio da escuridão se havia alguém ali ou não. Conseguiu enxergar pelo espelho que havia de frente para as cabines e olhou aos arredores, respirando aliviado. Se erguendo com cautela, abri a porta e percebendo que a porta da cabine ao lado estava aberta, respirei aliviado.
Ninguém.
Com passos rápidos sai do banheiro, sentindo o ar da liberdade aliviar o medo aos poucos do corpo e mente.
Ao ver uma senhora sentada lhe pergunto as horas e descubro assim quanto tempo havia passado preso ali dentro:
—18:47 horas
"47 minutos"
—Obrigado.
Fale com o autor