POV Daniel.

Eu nunca quis ser príncipe e não quero ser rei. Mas eu nasci na família real, e nada posso fazer. Talvez, quem sabe, um fugidinha da realidade para cavalgar nos extensos campos verdes, bem longe no castelo. Talvez eu possa ficar profundo em livros… talvez eu possa escrever e ser quem eu quiser.

Quando eu era criança, eu fingia que eu era um herói, com capa e tudo. Mas eu cresci e percebi como aquilo era bobo. Então, eu quis ser um cientista. Mas descobri que eu não tenho habilidade nenhuma para isso. Então, decidi ser roqueiro e rebelde. Mas esse não é o meu estilo, e logo eu desisti. E hoje? Ah, hoje eu procuro ser alguém diferente, mas estou limitado a apenas imaginar.

O problema é que eu não posso deixar de ser o que sou. Isso é injusto. Eu não quero ser o líder e acima de tudo, eu não quero me casar. Mas meus pais vão me obrigar a fazer a seleção.

Ah, a seleção. É o sonho de muitos homens por aí: estar rodeado de garotos atiradas. Mas eu quero me apaixonar como as pessoas normais: de repente.

Mas nem mesmo isso eu posso fazer.

No momento, deitado embaixo de uma grande árvore, olhando o lindo pôr do sol no horizonte, ao lado de meu fiel cabalo, eu reflito em tudo isso. Logo terei que voltar para o castelo, e terei de ouvir os gritos de minha mãe, os sermões de meu pai, os cochichos dos criados, os olhares reprovadores do tio Aspen, e as piadinhas de Henry.

Eu não quero voltar. Mas eu tenho que voltar.

Um longo suspiro escapa de meus lábios. Me levanto, subo em meu cavalo, e logo estou cavalgando rapidamente, sentindo o vento em meu rosto: a liberdade.

A pouca que eu posso ter.

*

Os estábulos estão vazios, graças a Deus. Chego sem problema, e logo estou me esgueirando pelos cantos mais difíceis, porém mais escondidos, do castelo. Mas eu sabia que minha mãe me aguardava em meu quarto, mesmo antes de escutar o suave toque de seu violino. Encaro a porta de madeira, e suspiro. É agora.

Entro em meu quarto. Minha mãe para de tocar e me encara. Então, suspira.

– Filho – diz ela, deixando o violino em cima da minha cama e vindo me abraçar. – eu fiquei preocupada com você.

Isso eu não entendi.

– Como assim, mãe?

Eu percebi que ela chorava. Não sei muito bem o que fazer quando mulheres choram. Isso puxei de meu pai.

– Você não compareceu para o jornal oficial. Hoje era o dia da apresentação das selecionadas. Seu pai estava bravo com você. E…

– Mãe, fale logo – pedi.

– Pensei talvez que… você pudesse ter fugido. Você está infeliz com tudo isso. Eu sinto isso, meu filho. Você quer liberdade. Sempre procurou ser o que não era. Nunca gostou de seu posto. E como você demorou, eu fiquei pensando talvez que… você tivesse ido – ela sussurrou a última parte e eu me senti culpado. A abracei. Eu era bem mais alto que ela.

– Mãe – eu disse e ela se afastou para me olhar nos olhos. Limpei as lágrimas insistentes que corriam pelo seu rosto e disse – eu realmente me sinto preso. Mas eu nunca deixaria você e o papai. Vocês são minha família. E eu os amo, por mais que briguemos e não concordemos com tudo. E além do mais – suspirei me afastando mais – eu tenho um posto, um lugar. E eu vou ser um líder. Eu tenho um compromisso a cumprir com Illéa. Não posso deixá-los.

Minha mãe permitiu um sorriso, mas logo se desfez, dando lugar a mais um suspiro.

– Eu entendo – murmurou – não faça isso novamente, Dan. Por favor.

– Não posso prometer isso, mãe. Vou sair quando me sentir triste, quando me sentir preso. Vou sair para pensar, mas confie em mim: eu sempre volto.

Eu sabia o que ela estava pensando: e se não voltar?

Mas minha mãe nada disse. Apenas assentiu com a cabeça, ajeitou a postura, e foi embora.


POV Katherine.

A noite deu lugar ao dia, e eu observei o nascer do sol ali em cima da montanha. Ao meu lado, Kim e Jay dormiam abraçados. Do outro, Laura e Jasper. Não sabia como eles podiam perder aquilo. Era tão lindo.

Suspirei. Desde os meus 12 anos fazíamos isso. No último dia do mês subíamos a montanha mais próxima da nossa província, e ficávamos a noite ali, conversando. Depois, juntos, assistíamos ao nascer do sol.

Mas já não estávamos tão juntos. Desde que os dois casais começaram a namorar, eu me senti uma intrusa ali no meio. Ficava segurando vela. Não que eu não me importasse. Eu gostava de ficar sozinha, e de pensar. Mas as vezes eu me sentia sozinha demais.

Outro suspiro.

O vento arrastou a grama verde e chegou até mim, bagunçando meus cabelos. Aquela manhã estava fria, por isso me aconcheguei mais no meu cobertor.

E outro pensamento veio em mente: o que aconteceria em casa agora?

Minha mãe e as minhas empregadas já arrumariam a casa para O grande dia. As cozinheiras já deviam cozinhar o grande banquete para as cinco grandes famílias. E claro, teria uma cadeira especial para o centro das atenções: eu.

Aquele era o ano da seleção do príncipe Daniel, e claro, a minha mãe me inscreveu. E parecia que ela tinha certeza que eu entraria.

No dia da foto, ela tentou me arrumar, mas eu não deixei. Se deixasse, ela me transformaria em um palhaço de tanta maquiagem. Mas isso foi a única coisa que eu consegui fazer.

Todos achavam que eu ia entrar e ganhar.

Minha mãe estava convicta disso, pois, segundo ela, eu era uma jovem bonita e prendada e ganharia o coração do príncipe. Mas não acho que ele queira alguém como eu. Eu não estou feliz com isso, eu não quero isso. Mas não vai adiantar nada eu discutir.

As cinco grandes famílias são empresárias e trabalham juntas. Tem grandes hotéis, grandes sshoppings, e grandes coisas. Kim e Laura são modelos. Jay e Jasper estão entrando no ramo da família. E eu? Eu não faço nada. Não porque eu não quero. Mas porquê não posso. Pois eu quero tocar e isso é da casta cinco. O estranho, é que as castas já não existem, mas meus pais agem como se existissem.

Uma vez me disseram que eu estava destinada a ser da realeza, por isso não podia fazer nada. Mas a realeza pode fazer o que quiser, não é?

Eu não quero isso. E já pensei na possibilidade de fugir. Mas eles me achariam.

Ou seja, eu estou presa e terei de seguir ordens.

Mais um suspiro. E o sol já se levantou, e tenho o dia inteiro pela frente.

*

Eu estava sentada na minha cadeira, no meio da sala.

Todos riam, comia, bebiam a espera do pronunciamento das selecionadas. E quando começou todos se calaram.

O apresentador mais chato do mundo, Gravil, estava conversando com o príncipe. Ele não parecia muito animado com isso, mas disse que estava. Então, começou a aparecer as selecionadas.

Katherine Murray, Carolina.

Eu sabia.

Notas finais
Desculpem o capítulo pequeno, espero que gostem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.