Liberdade

1 Holding the Key.


Notas iniciais
Leiam o conto acompanhado desta música, se possível. http://www.youtube.com/watch?v=cObjbhXw2Vw

Um dia ensolarado com o céu de um azul tão limpo quanto às águas cristalinas dos riachos abençoava a pequena aldeia ao pé de uma alta montanha, com suas lindas colinas de uma grama verde vívido. Algumas nuvens rodeavam o pico da montanha, como glacê.

Uma garotinha corria alegremente por uma das colinas com um riacho, que desaguava no rio principal que abastecia a aldeia e circundava uma pequena parte lateral da montanha rochosa e cinza.

Vestia um vestido branco, sujo com barro e grama, com alguns carrapichos presos ao o tecido leve da roupa. Seus cabelos ruivos e cacheados desde a raiz sacudiam ao vento, enquanto seus pés descalços amassavam a grama fofa e seus bracinhos gordinhos balançavam conforme a velocidade com qual corria.

Chegou à lateral da montanha, onde havia pedras grandes empilhadas estranhamente com musgo as cobrindo.

Ouvira os adultos falando que aquele lugar era mágico.

Escalou as pedras, sujando as mãos e os pés com o verde gosmento, chegando ao topo sem demora. Apoiou a mão suja na perna para ficar em pé e então encarou a fenda deformada nas rochas, deveria ter no máximo dois metros de altura.

Respirou fundo antes de avançar para dentro da caverna que se estendia por um longo corredor, fazendo uma curva suave.

A menina andava com uma das mãozinhas tocando a parede fria ao seu lado para não se perder. Estava muito escuro.

Quando chegou à esquina do corredor, sua mão roçou em uma parte em baixo rlevo, fazendo uma espécie de tinta iluminar-se harmoniosamente na parede. Era um desenho parecido com os dos Incas, mas mais simples. Com traços não contínuos formando um labirinto de linhas, tendo no centro um grande ponto sendo protegido por um círculo quase perfeito; havia uma mísera falha neste, mas isso a menininha não percebeu.

As cores do desenho eram vermelhas, azuis e verdes, que se juntavam suavemente combinando-se entre si, com seu belo brilho fluorescente. A pequena garota nunca havia visto cores mais belas.

Seus olhinhos castanhos claros reluziam fascinados.

Dobrou a curva arredondada ainda maravilhada, onde foi iluminada por uma suave luz ciano. Continuou a caminhar, lentamente, entrando num tipo de santuário. As paredes cinzas pareciam escorregadias devido a luz calma que provinha de alguns pontos do teto da grande cúpula rochosa, distribuída em faixas, como raios de Sol entre nuvens.

Exatamente no centro, estava a estátua de uma deusa adorável, esculpida em mármore branco, tinha os braços levemente erguidos com as palmas abertas para cima enquanto seu rosto observava a cobertura azul, sorrindo levemente, sem olhos. Parecia estar em plenitude com a vida, como se recebesse uma benção divina.

O caminho até a linda estátua de aproximadamente quatro metros era protegido por altas colunas de mármore escuro, dispostas em duas fileiras com um espaço entre elas, onde o chão suavizava-se em um plano liso e cinza escuro, como um tapete.

As duas últimas colunas eram maiores e havia buracos ovais nelas de onde provinha uma luz cintilante.

A menininha estava tão animada, seus olhos brilhavam de excitação e seu rosto esboçava um sorriso admirado.

Andou a passos rápidos em direção ao grande altar, parando na primeira coluna e observando as inscrições na mesma. Não entendia o que dizia ali, estava escrito em cuneiforme, uma escritura que talvez nem os adultos conseguissem decifrar. Achou que fossem simples rabiscos.

Passou pelas outras duas colunas, sem nem parar para analisar as marcas nelas. Hesitou e parou a dois passos dos dois últimos e gigantes pilares. Observava a estátua banhada em luz azul.

Deu os últimos passos.

As luzes nas cavidades das últimas colunas se ativaram e como uma corda, seguraram os pulsos um pouco grossos da garota ruiva que, arregalando os olhos, encarou a estátua instintivamente.

Esta que virava o rosto com dificuldade, arrancando pedaços do mármore e rangendo, fixando seu rosto no da menina. Seus olhos se abriram, ovais e um pouco maiores comparado ao dos humanos, não havia nada neles, apenas o oco preto da estrutura.

Sua boca rachou-se e com um sorriso, sua voz melodiosa e divina ecoou pelo salão.

Libertas mea.

O peito da deusa quebrou-se em um círculo perfeito e com força os membros superiores da garota foram puxados, as cordas de luz queimando seus pulsos. A menina jogou a cabeça para trás, balançando seus cabelos e arqueou as costas, abrindo a boca para soltar um grito.

Sentia sua carne ser perfurada pela luz, como uma agulha, sugando sua força. Por um momento ouviu cantos angelicais, sentindo-se completa, envolta em algo caloroso e glorioso. Sentia-se em ascensão.

Novamente seus braços foram puxados violentamente, todo seu êxtase esvaindo-se, a dor a consumindo, arqueou mais as costas, seus olhos abertos e assustados ao máximo. Não conseguia piscar e começava a marejar.

Seu rosto começou a rachar, linhas se cruzavam formando pequenos quadrados, deixando escapar feixes de uma luz extremamente branca. Pedaços de sua carne começaram a cair como cacos, sujando o chão escuro com sangue. Sua essência estava sendo arrancada para fora de seu corpo; estava estufado, escalavrado, tentando conter a alma agoniada dentro de si.

Implodiu em um clarão branco cego iluminando todo o lugar, apagando as luzes azuis e então, desfazendo-se aos músculos e tecidos, banhados em sangue sobre o chão.

A menina encarava a linda paisagem de sua aldeia, com todos os seus riachos e colinas. Seus cabelos bagunçados e ruivos dançavam ao vento.

Era realmente mágico. Sua liberdade.



Notas finais
Espero que tenham gostado.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!