Notas iniciais
E...... Eu não morri. Acho.

“Olá.

Então, quer dizer que você voltou, afinal. Está tão sedento assim por uma nova história para anexar em seu acervo pessoal de ‘creepypastas’, ou seja lá como o chame, que arrisca dar-me credibilidade? É bem provável que esteja lendo estes escritos num tom debochado, indiferente ao real peso que isso tenha. Não minto; não me surpreenderia se me falassem que os únicos a dar atenção a esta narrativa são aqueles virgens punheteiros, insanos para tentar ter seu momento de fama em se gabar de ‘oh, consegui rastrear’, ou qualquer outra merda que inventem hoje em dia. Não seria novidade para mim se presenciasse novamente minhas palavras deturpadas pelos dedos e gargantas de pirralhos infantis.

Por um tempo, refleti se isso realmente valia a pena. Perder tempo e cabeça para mascarar todos os dados de rastreamento (boa sorte caso queira tentar “me encontrar”, inclusive. Pode ter certeza que não irá conseguir.) apenas para narrar um acontecimento que provavelmente será perdido e esquecido entre milhares de contos feitos na mesma temática por adolescentes ou crianças estúpidas, que jamais saberão o peso dessa bosta toda, que insistem em divulgar a primeira coisa que encontram – às vezes, inclusive, tomando ‘fatos’ narrados com uma fantasia que chega a beirar o ridículo como a mais pura realidade. Jamais serei capaz de compreender a sórdida mente desses seres que jamais passaram pelo terror na vida real e tão alegremente bradam que adorariam vivenciar uma experiência desse nível, sendo que provavelmente cagariam nas calças numa situação um pouquinho mais amedrontadora que o normal.

Mas... O que é que eu tenho a perder? No máximo, me irritar com mais farsas aparecendo de todos os lados – e isso não é novidade. O que é que poderia me impedir de arriscar tudo mais uma vez? A questão toda é simplesmente não ter absolutamente nada que me preocupe o suficiente para que tenha dó de arriscar alguns dias fúteis de minha existência insignificante, então, permitam-me ocupar alguns minutos toscos da vida estúpida de vocês.

Para começo de conversa, se faz preciso esclarecer alguns pontos extremamente importantes – começando da própria história que tão vorazmente disseminou-se pela internet, com a aterradora velocidade de um raio. É inacreditável o quão imbatíveis estes ridículos detetives virtuais acreditam que são para desenterrar a biografia de uma pessoa até então desconhecida e, mesmo com tantos e tantos escritos um atrás do outro, nem mesmo um se mostra capaz de estar à altura de, no mínimo, ter um ponto real do que realmente aconteceu. Não que eu esteja aqui para perder tempo reclamando de seus relatos obviamente forjados, longe de mim. Esse tipo de gente nunca muda, então eu não teria motivos para tal. Entretanto, isso não me obriga a privar-me de comentários para extravasar pelo menos 0,01% de toda a indignação que já me corroeu durante todos esses anos.

Caham. Onde mesmo eu estava?

Ah, sim.

Eu acredito que seja importante quebrar a aparente visão de vida maravilhosa que eu tinha com meu irmão naquela família maldita. A primeira informação relevante para isso tudo é afirmar que: Margaret não é, não foi e nunca será minha mãe. Aquela mulher era uma vagabunda aproveitadora, e não temo explicar o motivo. Quem não respeita os mortos não merece um pingo de honra quando encontra seu lugar sete palmos embaixo da terra. Surpresa: Eu tenho minha linha de conduta moral intacta, pelo menos em alguns pontos.

Minha genitora atendia pelo nome de Lourdes. Senhora de garra, cresceu na periferia e se apaixonou por meu pai quando tinha 17 anos. Não tenho como esquecer suas memórias tão graciosamente compartilhadas quando éramos menores, pois sua voz possuía vivacidade e alegria por poder estar ali para testemunhar a vitória contra todos os seus tormentos de adolescente. Era uma mera vendedora de goiabada no centro e, na época, meu pai era advogado, de nome importante e um de seus clientes mais assíduos. Pode até parecer os tais romances impossíveis de ficção, mas foi exatamente assim que eles se conheceram: Na praça, ligados apenas por uma cesta de doces. Não cabe relatar o desenvolvimento da relação entre ambos, mas posso afirmar o motivo de sua separação – minha mãe sofreu com problemas cardíacos após poucos anos (três, com mais exatidão) do nascimento de Liu.

Outro ponto: Eu sou o mais velho.

Eu até hoje me lembro de quando Peter (meu pai) ligou para casa. Eram quase meia-noite e meu irmão – ah, sortudo miserável – já estava adormecido entre as almofadas do sofá, ou seja, sobrou para mim ter de encarar a noticia da voz alterada e miserável do velho, já bêbado, afirmando que sua tão amada esposa não havia sobrevivido e, bem, aquilo foi a última coisa que ouvi direcionada para mim por um bom tempo. O desgraçado afundou em cerveja e negligenciou os próprios filhos para se lamentar de uma vida como se apenas ele houvesse sido atingido por aquela porcaria. Isso quando não se achava no direito de descontar suas frustrações em nós, que não exatamente tínhamos como nos defender na época de um viciado doente.

Então, ela veio.

De repente, como quem não quer nada – dizia ele que tinha sido a enfermeira de minha mãe e que poderia nos confortar melhor por algum período, contando situações felizes de quando ela ainda estava em seu quarto de hospital. O motivo de sua chegada já não era lá dos melhores, mas estaria tudo bem se tivesse parado por aí. Que mal faria se aquela mulher esguia ficasse por algum tempo em nossa casa? Ela amenizaria a saudade com momentos curtos que ocorreram no hospital e, então, iria embora e nunca mais retornaria para nossas vidas outra vez.

...Doce ilusão.

Logo nos primeiros dias eu já tinha minhas suspeitas de que algo estava fora do lugar. A relação entre ambos não era meramente “comercial”, digamos assim, tampouco de favores. Não era raro que Liu e eu nos deparássemos com ambos tendo pequenas conversas mais privadas, que nada tinham de relacionado para com o suposto motivo de aquela mulher estar embaixo do nosso teto. Sem sermos injustos: É fato que não é necessário que duas pessoas conversem unicamente sobre um assunto, mesmo que tenha sido para aquilo que um contrato foi realizado. No entanto, a partir do momento em que o homem que deveria assumir seu papel como nosso pai para também nos consolar por nossa MÃE ter morrido começa a se enxerir pra cima de uma enfermeirazinha qualquer e nos recebe com murros e desafetos, aí sim, eu tenho toda a propriedade do mundo para reclamar à torto e à direito. A vadia por acaso era tão mais importante que a própria família daquele desgraçado?

...Vocês não imaginam o quão forte é o meu desejo de poder não ter descoberto a resposta dessa pergunta.

Mesmo considerando que as semanas não iam passando nas mil maravilhas, Liu e eu optamos por tentar ignorar. Nós ainda éramos crianças, querendo ou não, e a esperança de que tudo voltaria a ser como era ainda brilhava no nosso peito – mais no de meu irmão que no meu, é verdade, mas isso é algo indiferente para a ocasião. Os mais novos sempre têm essa chama acesa, né? -. Ignorávamos cada toque, olhar, sorriso, distância (para conosco, obviamente), saídas e risos juntos às escuras. Nunca fizemos questão de tentar vigiar a ambos, afinal, mesmo que quiséssemos, que tipo de coisa faríamos caso alguma coisa viesse à tona? Com uma fé cega, tentamos fingir que nada estava acontecendo.

Mas sabe como é, é meio complicado continuar nessa linha mesmo depois de flagrar uma foda.

É, foda. Transa, amor, sexo, oba-oba, sei lá, sabe? Isso aí. Uma das coisas que – creio eu – qualquer um não se sente lá muito à vontade para testemunhar um pai fazer, muito menos se for com uma pessoa que você já não tem muita simpatia. Mas o fato é: Eles nos anunciaram de um noivado que aconteceria em breve algum tempo depois desse ocorrido. Legal, né? Parece até filme de terror. Uma mulher aleatória vem, rouba um homem viúvo, os filhos que se fodam, se casam. Só faltavam as facas voando e uma confissão de que tinha sido tudo pelo dinheiro.

Para ser sincero, seria hilário se isso acontecesse.

Bem, indiferente à nossa opinião, eles seguiram em frente com essa tolice. Vivemos por alguns meses a mais naquela casa e, então, veio o casamento. Como era de se imaginar, logo após isso, Margaret resolveu que não estava contente com nossa casa em um bairro relativamente “afastado” de classes mais altas e, com o argumento de que era perigoso morar por ali (Vejam que engraçado. Em todos os anos que estivemos ali, nada aconteceu – mas já que a dona da verdade disse, tava dito, né? Tínhamos que ir pra um lugar melhor. Haha.), convenceu nosso pai a vender nossa moradia e comprar uma outra melhor numa área de status elevado. A mudança envolveu também a ida para outra cidade, visto que aonde estávamos ainda existiam pessoas que aqui e ali reconheciam a noiva do pai como a enfermeira do hospital e, vamos combinar, ninguém gosta de ser visto como oportunista aos olhos gerais. Começar uma nova vida em outra cidade é uma maneira perfeita de driblar isso, não?

Enfim. Da mudança em si eu não tenho lá muita coisa a reclamar. Nunca fui muito sociável, então não fazia diferença ir para outro lugar e perder os “amigos”, sabe? A maioria das pessoas com quem eu falava, o fazia só por comodismo – isso sempre foi um problema meu, admito. Nunca soube ao certo como lidar com outros indivíduos, apesar de que isso também nunca me atrapalhou.

Passados todos os problemas em relação à mudança, carregar todas as nossas coisas para outra cidade, burocracia e etc, lá estávamos nós.

Nossa nova casa não era lá muito superior se comparada à antiga. Para ser sincero, acho que ela devia ser maior só por conta do exterior e um cômodo ou dois de diferença – dois andares, um jardim, a garagem... Era simpática, até; infelizmente, sem mais nenhuma lembrança de minha mãe entre seus corredores.

No começo, tudo estava uma zona, como é de se imaginar. Nós levamos aproximadamente cinco dias arrumando a casa e, mesmo com todo o esforço, ainda havia algumas caixas que não estavam sequer abertas.

Mas foi exatamente depois desse tempo que, pela primeira vez, a campainha daquele lugar tocou."

Notas finais
Alguma crítica positiva/negativa?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.