Liar Hero
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Há muito tempo eu não sabia o que era ter uma rotina, mas parece que agora eu finalmente terei uma, já que a mudança para a Inglaterra está tendo resultado. Não seria uma rotina daquelas de toda adolescente de 16 anos, tipo, acordar, ir para a escola, voltar para casa e aproveitar a tarde fazendo algo que goste. Não, essa não era minha rotina atual. Até porque, eu não sou uma adolescente qualquer de 16 anos, apesar de querer muito isso. Minha rotina era simplesmente ver sempre as mesmas pessoas, andar pelas mesmas ruas, ter o mesmo médico, ir sempre ao mesmo consultório e comer as mesmas coisas. Eu gostava.
Eu estava na Inglaterra há bastante tempo, para mim, é claro. Três meses é o tempo máximo que fico em um mesmo endereço, então, já que estava aqui há seis meses, parecia ser bastante coisa. Eu não freqüentava a escola, tinha professores particulares. Daria muito trabalho ficar mudando de escola sempre que me mudasse. Minha mãe achava mais fácil assim.
Era mais um dia comum, e eu estava indo para o centro de pesquisas para mais umas agulhadas, e essas coisas. Apesar de não me incomodar, eu estava ficando cansada dessa vida. Tinha deixado tudo para trás em favor do meu sonho de encontrar a cura para minha doença, mas isso estava começando a me chatear. Eu via meninas da minha idade saindo, rindo, criando laços afetivos com as pessoas, e eu aqui... Indo para meus exames, mudando de país, e podendo morrer a qualquer momento. Minha mãe sempre me apoiava, e dizia que eu ia entrar para a História da Medicina. Ta, eu gostava dessa parte, mas pensava em desistir e aceitar o transplante de coração. Um dos outros três portadores da minha doença estava se preparando para isso, e só restávamos eu e mais dois, que também estavam prestes a desistir.
Entrei no metrô perdida em pensamentos, e esbarrei em um cara gigante — mesmo -, e derrubei a pasta dele. Parabéns, Nic. Ajudei o cara a pegar as coisas que tinham caído junto com a pasta, sem olhá-lo no rosto, e quando levantei, ia passar direto, mas ele puxou assunto.
- Olá, mocinha.
- Oi.
- Você parece ter problemas.
- Todo mundo tem. — Tentei continuar andando para me sentar, mas ele continuou.
- Você parece diferente.
Qual é? Ta tão na cara assim que eu vou desmaiar daqui a pouco e talvez nunca mais acordar?
- Por que está falando isso? — Ele começou a andar para um banco vazio no metrô. Eu o segui, como se estivesse hipnotizada. Nos sentamos.
- Porque eu posso ajudar a maioria das pessoas. Aliás, meu nome é Max. E o seu?
- Ajudar como? — Ignorei sua pergunta.
- Bom, é complicado. Mas funciona. Só é... Um pouco caro. — Dinheiro era sempre o problema. Mas, de qualquer forma, ele não ia conseguir me ajudar mesmo.
- Não estou interessada. Ninguém pode me ajudar, é impossível. — Eu levantei do banco, e preferi ficar em pé longe dele. Ele me assustava.
- Tudo bem Nicole. Mas, se mudar de idéia, eu pego o metrô todo dia nessa mesma hora. Sabe onde me achar. — Me virei quando ouvi meu nome. Eu tinha dito meu nome? Não, tenho certeza que não. Como ele sabia? Me afastei, e quando tive certeza de que ele não me olhava mais, chequei minhas roupas, procurando alguma coisa que me identificasse. Nada. Será que eu tinha dito meu nome?
Desci do metrô ainda pensando naquela conversa. Ou melhor, fui até o consultório pensando na conversa e na tal ajuda que aquele homem podia me dar. Estava tão distraída — como sempre — que nem percebi a recepcionista me desejando bom dia. Passei direto e entrei no elevador. Durante as cinco horas seguintes, fiquei sendo pesquisada e participando de testes como um ratinho de laboratório. As agulhadas doíam mais do que nos últimos dez anos, e me perguntei se eles estavam usando agulhas mais grossas. No final de tudo, o médico me disse que eles estavam avançando, e já sabiam o que exatamente causava os desmaios. Tinha alguma coisa a ver com hormônios liberados quando eu tinha sentimentos fortes, eu não entendi muito bem. Sabia que era tudo vindo do campo emocional, só isso. Saí do consultório quase morta de dor nos braços por causa das agulhadas, e cansada demais por causa dos exercícios que eles mandavam fazer. Tinha sido o pior dia em dez anos, ou o problema era eu, já que estava pensando em desistir de tudo. Entrei no metrô e fiz o caminho de volta. Quando cheguei em casa, contei a minha mãe sobre o tal cara que disse meu nome, e ela também se assustou, e como sempre, me deu forças para seguir em frente com as pesquisas. Subi para o meu quarto e olhei meu mural. Tinham muitas fotos em muitos lugares diferentes do mundo, e eu gostava de todas elas. Mas, uma em especial me chamava a atenção: um garoto loiro e eu, no jardim da minha casa em Mullingar, na Irlanda, quando eu tinha uns seis anos. Tinha sido a primeira vez que eu me mudei para colaborar com as pesquisas, alguns meses depois de descobrir minha doença. Eu estava no balanço, e ele escalando o tronco da árvore. Essa foto me despertava curiosidade, porque eu não conseguia lembrar dele. De jeito nenhum! O mais estranho de tudo é que minha mãe também não lembrava, e ela tinha memória de elefante. Parei de olhar minhas fotos, e deitei na cama, prestes a dormir. Mas não consegui dormir nem tão cedo, porque fiquei o tempo todo pensando no homem do metrô. Ele disse que podia me ajudar, e eu queria uma ajuda. Aquele tinha sido o pior dia em dez anos, e eu realmente queria parar. Será... Não, não tem como ele me ajudar. De qualquer forma, no dia seguinte eu descobriria.
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