Liame
4 Série: Equilíbrio 1
Notas iniciais
Pós capítulo 686.
Capítulo 1: Gratidão
Rukia ajeitou-se no largo sofá da casa dos Kurosaki. Enquanto mexia em seu celular, estava dispersa. Ir pro mundo humano sempre era uma atividade interessante, ela gostava da música e dos mangás e apesar de na Soul Society ter internet, era bom dar uma olhada nas novidades. Mas no momento, certa melancolia lhe abatia, apesar de sua persistência em freá-la.
Depois que viram a luta de Sado, almoçaram e todos ficaram jogando conversa fora, até os amigos de Ichigo irem embora e Karin e Yuzu resolverem ir ver uma série juntas no quarto da casa vizinha (seu pai e as irmãs se mudaram para a casa ao lado, Ichigo ficou na casa antiga da família) .Renji resolveu dar uma caminhada pelo bairro, ela perguntou o porquê, mas ele não quis responder-lhe. Foi tirada de seus pensamentos por Ichika, que encostou-se nela insistente.
—MÃE! MÃE!Me deixa ir ver o parquinho, por favor? A senhora disse que eu podia conhece-lo!- Puxou a barra do vestido, impaciente. Ichika no geral era uma criança compreensiva, mas muito firme em todas as suas vontades, especialmente quando era movida pela curiosidade, assim como era Rukia.
—Ichika, viemos pra visitar o seu tio, ichigo, vai fazer essa desfeita? –A mulher perguntou, trazendo a menina para o seu colo.
— Posso leva-la? Kazui gosta de passar um tempo no parque esse horário. –Inoue sorriu pra Rukia, reparou que ela havia trocado o avental por outra roupa- Vamos passear agora e eu pensei que podia levar os dois.
—Se não for incomodar pode sim. –Os olhos de Rukia brilharam com o otimismo de um tempo sozinha, ela sorriu agradecendo e Inoue entendeu complacente. Ser mãe era uma tarefa deveras exaustiva em muitos momentos.
—Ichigo, você vem com a gente? – Rukia ouviu a amiga perguntar e atentou-se para a resposta do amigo, sentado distante de si, na outra ponta do sofá. O kurosaki olhava para a televisão um pouco desatento e alheio, mas respondeu, com um olhar e sorriso breves, nada simpático.
— Estou um pouco cansado, Orihime. Além disso preciso organizar umas coisas pra amanhã. –A moça sentiu uma pontada do ciúme nostálgico, mas manteve os lábios firmes e em tom alegre respondeu:
—Eu volto antes de anoitecer. –Beijou a testa de Ichigo e pegou as crianças, indo em direção à porta. –
—Não dê trabalho Ichika!- Rukia apelou. A garota balançou a cabeça, agitada.
Silêncio. Estavam sozinhos.
Ninguém tinha coragem de falar qualquer coisa.
E a grande verdade sobre aquilo tudo era que Inoue havia saído pra se livrar do clima formal e estranho daquela casa, Renji pelo mesmo motivo e Ichigo e ela haviam ficado, porque era quase como se fosse natural eles estarem lado a lado, mesmo que não tivessem combinado nada. Não era como se seus parceiros precisassem consentir nada, iria acontecer como sempre e mais: o tempo sozinhs era uma necessidade visível, então, porquê negar-lhes isso?. Quem ama de verdade confia, certo?
Ao mesmo tempo que Rukia ansiava por ver Ichigo novamente, nunca pensou que a estranheza do momento fosse tão incapacitante. Eles sabiam o que deveria ser dito, mas não tinham coragem de abrir a boca. Então Ichigo se levantou e fechou a TV que exibia esportes. Rukia desviou a atenção do celular e o viu subir ao seu antigo quarto(que agora pertencia ao seu filho).
Filho, amigo, família e casamento. Pensar em todas essas coisas e ao lado de outra pessoa que não fosse Ichigo era deveras assustador agora.
—Você mandou redecorar as paredes? Ficou bem bonito. –Ela elogiou quando e se sentou ao lado dele, na cama de Kazui.
—Eu não conseguiria fazer desse cômodo o quarto de casal. –Sorriu pra ela, irônico. Rukia sentiu uma pontada no estômago quando ele disse isso. Aquele quarto, onde eles brigaram e resolveram tantos problemas. Onde ele viu a chuva cair e o céu abrir por causa dela. Onde Rukia sentiu-se mais acomodada do que nas instalações nobres de seu clã. Onde ela desenhou e leu mangás de terror. O mesmo quarto em que ela leu Shakespeare, roubando sua coleção de livros mais adorada escondido.
Rukia levantou-se e observou, emocionada e em êxtase aquele enorme móvel encostado na parede, como a 13 anos atrás. Era uma réplica, claro, mas não podia deixar de sentir-se desabando. O que era aquela barreira de formalidade e educação que tinha montado? TUDO foi por água a baixo quando viu o seu espaço mais particular e íntimo daquele quarto, intacto, entocado. Ichigo realmente não era bom em deixar as coisas pra trás.
—Não acredito Ichigo! –Ela abriu o armário, tal qual era o que ela dormia quando estava lá e ele estava cheio de roupas infantis. Rukia pegou uma blusa diminuta entre as mãos e chorou discretamente, ela riu e respirou fundo, suspirando e resolveu dar bronca, porque era só como ela se acalmava: -Tem que comprar outro armário pra ele. Ele é uma criança, não merece essa coisa sem graça no quarto dele.
—Quando a gente se propôs a isso, você não me proibiu deixar um vestígio seu aqui e ali. –Ele falou, num misto de sarcasmo e conformismo.
—Será que a gente errou tudo? –Ela sentou ao lado dele, reflexiva. Pegou uma mão dele entre as suas, apertando forte. Eles encararam o horizonte, perdidos. Tanta coisa havia acontecido para terminarem daquele jeito. Rukia e Ichigo se conheceram num acidente de percurso, se apaixonaram daquela forma esquisita... E agora estavam separados.
O conflito de dizer “não” pra alguém e provocar-lhe tristeza é cruel. Renji a acompanhava desde a infância. Inoue os apoiou indo pra guerra junto a Ichigo. Talvez, amor por merecimento e gratidão não fosse suficientemente bom pra unir duas pessoas, mas a frustração de escolherem estar juntos e machucar seus companheiros dessa forma tão amarga foi o que os fez abrir mão. O arrependimento era visível e a mesma atmosfera agitada e instigante ainda persistia ali.
— As vezes eu só quero sair por aquela porta e não voltar nunca mais. –Ichigo fez um carinho em sua palma. Rukia pensou que suas palavras saíram um pouco ríspidas, mas ela não conseguia negar que já havia tido vontade de fazer o mesmo, inúmeras vezes.
—E esse cabelo zoado aí? Você podia dar um jeito nisso. Por favor não deixa o seu muleque com esse cabelo. –Rukia bagunçou os fios do amigo, rindo.
— Exigências da sr.Kurosaki. – Ichigo revirou os olhos. –Inoue prefere eles assim. –Sorriu, carinhoso. Apesar de não ter por Orihime o mesmo sentimento que tem por Rukia, sentia de fato, algum afeto indulgente por ela. Longe, é claro, de ser aquilo que compartilhavam. Sentiu-se um pouco tentado a falar dos olhos dela, que continuavam seguros e imponentes como sempre foram. E claro, lindos.
—Mas falando sério agora, como está lidando com a vida paterna? –Ela quis saber, se afastando um pouco, mas Ichigo uniu suas mãos novamente. –O Kazui parece uma criança incrível. –Rukia sorriu afetuosa, lembrando do rosto dengoso do pequeno.
—Kazui costuma ser calmo,é maravilhoso e eu o amo. Mas quando ele resolve dar trabalho me deixa cansado. –Ichigo bufou, irritando. –Orihime e eu costumamos ter paciência, mas ele é muito curioso, mesmo já tendo passado da idade de mexer em tudo. –Ele lembra, desaprovando.
—A Ichika tem muita energia e às vezes me afronta. Eu nunca pensei que maternidade fosse tão difícil sabe? O renji me ajuda, mas no geral ela só vem pra mim o tempo todo. –Rukia conta, a expressão um pouco abatida. –Não tem muito o que fazer lá na Soul Society, ela sente falta de companhia. –Rukia analisava a roupinha de Kazui ainda em suas mãos. –Ela já me pediu um irmão, mas não sei se estou desposta.
—Ah, já ia esquecendo! Parabéns pela promoção à capitã e me desculpe não ter ido vê-la. –Ichigo felicitou e beijou sua testa. Pela primeira segunda vez naquela tarde, tiveram coragem de olharem-se diretamente. E foi como uma tempestade castigando tudo. Emudeceram.
— O tempo realmente não perdoa. –Rukia sussurrou, extasiada. Não conseguia desviar o olhar.
— Algumas coisas são imutáveis. –Ele se inclinou pra frente, aproximando-se.Ela o interrompeu, recuando.
—Não torne tudo mais difícil. Desde que pisei aqui estou travando uma batalha interna. Não me faça perde-la. –Engoliu em seco, tentando frear a angústia que desencadeava.
—Rukia? –Renji apareceu na porta. O rosto incrédulo ao ver as mãos dos dois unidas. Imediatamente desligaram-se, mas os dedos permaneciam se tocando. –O que está fazendo aqui? –Cerrou a mandíbula, fuzilando o kurosaki com os olhos.
—Só conversando Renji. Eu morei aqui, não seja exagerado. –Ela diz recompondo-se, ajeitando o cabelo.Levantou-se da cama.
—Onde está Ichika? Temos que ir, está anoitecendo. –Renji disse, os braços cruzados. Encarava o outro rapaz, perplexo de ciúme e raiva.
—Saiu com a Inoue, vamos descer e esperar por elas. –Quase no mesmo instante, a garotinha veio correndo até Rukia, abraçando-a.
Orihime Inoue nunca soube ser rude com ninguém. Não vê-los na sala de estar quando voltou foi angustiante, mas ela também não teve coragem de entrar no quarto. Mas crianças não tem cerimônia, então Ichika subiu e ela ficou aliviada ao ver Rukia em pé e Ichigo na cama, sem qualquer contato físico.
Apesar da inquietante dúvida nesses 9 anos de casamento com o ruivo, Orihime também reprimia todo tipo de pensamento impuro sobre traição e a falta de amor que ela as vezes desconfiava. Fingir que não via o que Ichigo e Rukia representavam um para o outro vinha sendo um teatro difícil. Mas ela também se dava um desconto, porque “quando um não quer, dois não fazem”. Não é como se ela tivesse o obrigado a casarem. Ele estava lá porque queria, disso tinha certeza. E também estava cansada de se questionar se o que tinham era verdadeiro ou não, porque perdia toda a de estar com a pessoa que sempre quis.ELA o amava e sentia dele sim, algum tipo de afeto. Então era o suficiente...certo?
—MÃE! A terra é muito legal! Eu gostei tanto, tem tanta coisa boa. Eu posso levar o parquinho mãe? E o Kazui, posso? É tudo tão legal aqui mãe! –Ela sorria e contava os detalhes, com risadas de puro contentamento. O clima tenso se dissipou e Rukia lembrou da sua própria animação sobre cada coisa diferente que via em Karakura quando mais nova.
—Que bom que gostou filha! Mas o Kazui fica e a gente já está indo também...–A menina entristeceu levemente. Ichigo olhou pra garota. Tinha exatos os mesmos olhos de rukia, até mesmo na transparência, não conseguindo esconder suas emoções.Era uma criança adorável, de fato. –Obrigada por tudo gente, nos vemos em breve!- Rukia fez um sorriso cordial. Renji acenou com a cabeça, de cara fechada.
Desceram todos pra abrir o portal na rua e Rukia parou na porta do quarto, a mão de Ichigo a segurava.
—Volte e traga Ichika sempre que quiser. As portas dessa casa sempre estarão abertas pra vocês. –Ichigo sorriu. –E não esqueça da nossa promessa: Nessa vida ou em outra...
—Estaremos sempre juntos –Ela virava-se, deixando-o mais uma vez, com o mesmo pesar das despedidas anteriores.
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