Lia no Inferno

1 Lia no inferno


Notas iniciais
Está é uma espécie de continuação de "Lia". Criei a série para desenvolver a personagem como uma espécie de desafio que sem querer eu tomei como feito por um leitor. Espero que apreciem.

Lia no Inferno

Por naninhachan

Queda. A sensação de queda livre era aterrorizante. No entanto, agigantada pelo enorme demônio agarrado a seu corpo, Lia tinha certeza de que era bem pior. Sentiu o corpo aquecer perigosamente como se fosse desfazer em pedaços e estes mergulharem no enorme lago flamejante, que a esperava no fim de sua descida, se é que podia chamar a queda desta forma.

Os gritos não saíram mais de sua garganta. A perna queimava dolorosamente com se soda cáustica fosse espalhada nela.

De súbito tudo parou e ela mergulhou numa escuridão indelével.

*

*

*

Onde estou?

A mente se perguntava algo prático e não conseguia continuar o raciocínio. Fazia um calor fustigante, o sangue parecia borbulhar nas veias e Lia sentia na pele o ardor do ambiente. Acordou no chão, um cheiro forte de fogo, morte e decomposição pairava no ar. Olhou à volta e parecia estar num descampado vermelho. Em alguns pontos havia fumaça emanando do solo, borbulhando uma matéria incandescente.

Ergueu melhor o corpo e tentou se apoiar nos pés vacilantes. Os olhos turvos focavam com dificuldade o que ia à frente e quando conseguiu ver, não conteve o grito de pavor.

Um enorme cortejo de pessoas, ao menos julgava serem pessoas, caminhando em direção a um enorme lago fumegante. Uma a uma elas entravam aos berros e a visão de sua carne sendo queimada e se desprendendo dos ossos era bestial. Ouvia as lamúrias e os gritos de dor. Via demônios baixos, de pele flácida e acinzentada instigarem as pessoas a seguirem em frente. Divisou uma silhueta infantil entre todos aqueles corpos decrépitos e tentou chorar, descobriu que já não podia fazê-lo. Os olhos ardiam dolorosamente, mas não descia uma lágrima.

- Oh, Deus. – pronunciou em voz baixa, sentindo o rosto se contrair em piedade.

- Vai descobrir que esse nome é mais ouvido aqui do que no Céu. – o homem do telhado apareceu diante de si.

- Você... – Lia pareceu aturdida. – Como? Como eu vim parar aqui?

- Simples, um dos demônios foi até a Terra te buscar. A queda lhe fez perder a memória, querida? – ele tentou tocar a moça que se esquivou com asco.

- Você me enganou. Você me trouxe até aqui.

- Como os humanos são ingratos! – ajeitou o terno que ostentava com afetação. O calor não o incomodava de forma alguma. – Você estava no alto de um prédio querendo se matar porque sua vida como assassina tinha perdido a graça. Eu só dei um upgrade na sua condição. De matricida, serial killer e possível suicida, você se tornou matricida, serial killer, exterminadora de pedófilos, maridos violentos e “humana carregada para o inferno a pedido do próprio senhor”. – gargalhou pesadamente.

À volta, os demônios deram um esgar em concordância.

- Oh, querida, veja pelo lado bom. Você executará excelentes serviços aqui no Inferno, caso não tenha percebido ainda onde está. – debochou.

- Eu não quero fazer nada, a não ser sair daqui. – se afastou do homem, mas ele apareceu repentinamente na sua frente.

- Que pena, isso não é possível. Uma vez que você fez um contrato...

- Eu nunca fiz um contrato! – Lia se exasperou. O odor forte a vez tossir gravemente quando elevou a voz.

- Oh! Ela não se lembra. – o homem se virou para o ajuntamento de almas e demônios que agora os circundava.

- Carne nova no pedaço, chefe? – disse um ser disforme, alto e esguio. A boca escancarada e os dentes manchados por algo que, Lia temia ser sangue.

- Sim, meu querido, Grimael[1] . Carne nova no pedaço. – se virou para Lia. – Você fez um contrato comigo assim que apertou minha mão aceitando matar pessoas não tão dignas de viver. Claro que isso depende do ponto de vista... aquelas almas miseráveis estão todas aqui, amargando dias pouco agradáveis no Inferno, mas você... – fez uma pausa teatral. – Você Lia, é especial.

- Eu não sou especial, não fiz contrato algum com você! – Lia se desesperava.

- Fez sim! Admita isso, ao menos. Os crimes que cometeu... – dizia o homem com prazer.– Você nunca foi obrigada a nada e antes de nos conhecermos, você já os executava, com certo prazer e primazia, devo dizer. Tudo feito com um primor indescritível.

- Eu...

- Você sabia muito bem o que estava fazendo, só não acreditava que tudo poderia te trazer aqui! – estendeu a mão ao redor mostrando a paisagem.

As paredes eram escurecidas e iluminação era toda produzida pelos lagos de material incandescente e focos de fogo espalhados por vários pontos. Havia caminhos na terra seca e esturricada do lugar por onde os demônios passavam de um lado a outro conduzindo almas.

Lia observou tudo aterrada. Sentiu um nó no estômago e a vontade de chorar cresceu em seu âmago. Porém, em lugar de lágrimas cristalinas, seus olhos verteram sangue. Quando passou a mão pelo próprio rosto se assustou.

- O que é isso? – mostrou as palmas manchadas.

- É sangue. Mas é incrível a sua capacidade de fazer perguntas óbvias! – o homem debochou. — Abadon[2] ! Abadon! – gritou o homem do terraço. – Maldição! Abadon!

O demônio mastodôntico, que havia arrastado Lia para o interior da fenda originada em sua cozinha, se aproximava lentamente.

- Sim? – Abadon disse numa voz tonitruante.

- Você deixou essa infeliz cair de cabeça quando desceu? Ela não se lembra de coisa alguma e só faz perguntas imbecis.

- Não, senhor.

- Paciência. – passou a mão pela lapela do paletó, ao revirar os olhos. — Lia, querida, estou cansado de suas lamúrias. Seque suas lágrimas! Aqui ninguém se apiedará de você. Devia ter pensando nisso quando negou este sentimento às pessoas que você matou.

- Mas eu estou arrependida. – a mulher se ajoelhou sujando os joelhos na terra alaranjada.

O homem chegou bem perto dela, segurou uma das mãos e levou aos lábios dando um beijo amargo.

- Agora é tarde demais. – ele abriu um sorriso de esquina. – Abadon, leve-a. – o grande demônio agarrou Lia pelos braços e foi arrastando-a até um elevado que conduzia a outro ponto. O lugar onde estivera era uma espécie de ante-sala infernal. Pouca coisa acontecia lá além da recepção dos “novatos”.

Lia gritava desesperada. Seu corpo era solapado pelos solavancos causados pelas reentrâncias e protuberâncias que havia no chão acidentado. Se aquilo era realmente o Inferno, cortesia e conforto eram as últimas coisas que deveria esperar.

Abadon desceu uma rampa ainda arrastando a mulher pelos cabelos. A força era tanta que sua cabeça latejava em protesto. As almas e corpos perdidos naquele espaço a olhavam com uma doçura cruel. Muitos tinham passado por aquilo, outros estavam longe de sofrer pouco naquele lugar. Passaram por um enorme portão no qual figuras macabras estavam incrustadas no metal escurecido. Havia demônios, bodes, serpentes marinhas, deuses com chifres e um homem iluminado sendo esmagado por um tridente.

Lia sentiu medo e remorso. Uma dor funda na boca do estômago a acometeu. Esqueceu que era arrastada impiedosamente pelos cabelos, que sua pele se feria no caminho, que sangue brotava das máculas em sua pele. Apagou tudo de sua mente e coração e chorou. Chorou copiosamente. O sangue abundando e ardendo os olhos. Fungou e se sentiu fraca demais para continuar sofrendo. Encolheu-se em si e se deixou arrastar.

- Chegamos. – ouviu Abadon dizer.

Estava sonolenta e quando pensou que teria um pouco de descanso, foi abruptamente erguida do chão e arremessada nas mãos de outros demônios. Suas unhas feriam a pele e faziam brotar novas chagas no corpo.

- Ela é toda de vocês. – o demônio disse. – O chefe a quer no calabouço.

- Sim, senhor. – agarraram-na pelos braços, fazendo questão de causarem mais dor à mulher. – Vamos, vadia, não temos o dia todo. – empurraram-na para dentro de um espaço exíguo, escuro e úmido. – Esperamos que não se divirta aí! – saíram às gargalhadas.

Lia se jogou contra a porta, mas já era tarde, ela havia fechado. Os demônios passaram correntes e trancas por ela. Lia ouviu um murmúrio incessante. Parecia dizer seu nome.

- Lia. Lia. – ela olhou para o canto direito onde a escuridão era mais densa. – Lia. – ouviu novamente. A voz parecia conhecida.

Um corpo rastejou em sua direção. Podia ouvir o som de um líquido espesso gotejando. Sentiu arrepios da base da coluna à nuca. Gritou, correu para porta e uma nesga de iluminação recaiu sobre o rosto decrépito, amargurado e ferido de sua...

- Mãe!

- Lia.

- Mãe. – a jovem não acreditava nos próprios olhos. – O que a senhora faz aqui? – Lia tentava se afastar à medida que sua mãe se aproximava à rastos. Os joelhos faziam um som estranho como se estivessem mal encaixados. A face lívida, os cabelos escassos, os lábios murchos e negros.

Num súbito, o corpo se ergueu e avançou rapidamente contra Lia que, com um baque surdo, caiu no chão.

- Mãe...

Tudo escureceu.

.---.

Publicada em 03 de janeiro de 2010.

Notas finais
[1] Eu inventei o nome porque as descrições dos nomes dos demônios me deu um trabalho desgraçado e, no caso desse, por ser coadjuvante, não valia a pena maiores esforços. Usando como referência a série “Supernatural”, os demônios podem ter nomes bem comuns, mas eu escolhi um bizarro. [2] Abaddom (hebraico) significa "O destruidor". Também pode ser escrito “Adadom”, além de “Abadon” como no conto. É o nome dado ao anjo do abismo ou da morte ou do Inferno, no Apocalipse, por João, sendo identificado como o anjo exterminador, nos versículos 10 a 23, do capitulo 12 do livro do Êxodo. Mencionado também, no primeiro capitulo do livro do Apocalipse, como o chefe dos demônios - gafanhotos, o soberano do Poço Sem Fundo (Judas, 6) e o rei dos demônios no livro do Êxodo, assim esta escrito: "Porque o senhor passara ferindo os egípcios e quando ele vir este sangue sobre a verga das vossas portas, e sobre as duas umbreiras, passara a porta da vossa casa e não deixara entrar nela o anjo exterminador a ferir-vos". Extraído de Vossas pedras por favor.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!