Lições de Vida
4 4. De Volta Aonde Começamos
Tudo tinha voltado ao normal. Ate mesmo nossa vida social e voltamos a freqüentar as festas da cidade. Na ultima noite fomos a uma e quando ouvi o telefone tocar, acordei mesmo sem querer para atender aquele maldito telefone. Joshua estava do meu lado da cama e babava ao dormir, era incrível o sono que ele tinha. Eu ainda não tinha nem começado a dormir direito quando esse aparelho me toca. Resolvi deixar a mensagem cair na secretaria eletrônica e dormir mais um pouco.
Chamei por Joshua para que pudéssemos fazer caminhada juntos. Pela demora ao levantar, e o modo como se espreguiçava, apelidei-o de “Josh Bear”. Pelo abraço forte que me dava, nas noites frias em que seu abraço me protegia e seu corpo me esquentava, foi esse o apelido que ele ganhou. Era uma coisa só nossa.
Apertei o botão para ouvir as mensagens que estavam na secretaria eletrônica. A maioria era sem importância e que não nos interessava. “Alec, estamos voltando e chegaremos amanha. Desculpa incomodar esse horário. E se o Joshua estiver ouvindo, temos novidades.” Tinha medo só de pensar na novidade. Sabia que o Spencer era comportado porque o conheço desde pequeno, mas o Jon formava uma dupla dinâmica com o Joshua e adoravam aprontar, e como eu e o Spencer não éramos bobos, entravamos na brincadeira deles também.
– Ouvia a secretaria Alec?
– Sim Josh, e Spencer e Jon estão preparando alguma coisa pra você. Disseram que tem novidades.
– Talvez essa novidade seja para nos dois Alec.
– Tenho medo só de pensar o que pode ser.
– Alec... – tocou-me no braço e olhei para ele. – Vamos sair hoje? Andar por ai ou ir a um lugar em que a gente possa se divertir?
– Vamos sim. E dessa vez eu vou nos levar a um lugar especial.
– Uh. Um Alec Ross misterioso. Isso pode ser interessante.
– Joshua, sossega.
Não saberia para onde iria levá-lo. Pelo menos era a única coisa que eu sabia e que não tinha certeza. Não importa onde seria desde que nossos pés nos levassem para o desconhecido, um lugar desconhecido e fosse inesquecível, não me importava.
Quando escureceu, saímos e fomos para um lugar qualquer. Paramos em um bar para bebermos alguma coisa. Ao voltar do banheiro vi uma mulher persuadindo o meu Joshua. Cheguei perto dele e o beijei na frente dela, que desapareceu sem graça no meio da multidão.
– Alec, eu juro que não fiz nada.
– Joshua, só vou te dizer uma coisa e quero que escute com atenção. Nem sei o que faria se um dia você me traísse. Só sei que meu coração ficaria muito decepcionado ao ver uma cena assim, tipo essa que estava prestes a acontecer e que cheguei bem a tempo para impedir tal cena.
– Alec, nem em um milhão de anos eu te trairia, porque jamais encontraria você em outro lugar.
– Sei que você não fez nada, e espero que não venha a fazer. Eu confio demais em você Joshua.
– Se você não confiasse em mim, não estaríamos juntos nesses anos Alec. E eu também confio em você. Agora vem cá e me da um abraço, vai.
Caminhei para mais próximo dele e o abracei, o mesmo envolveu minha cintura com um abraço protetor. Um abraço do Josh Bear. Algumas lágrimas rolaram o meu rosto molhando sua camisa. Murmurei timidamente um “Nunca ouse em me deixar sozinho” achando que ele não ouviria. “Nunca vou te abandonar, meu pequeno. Sempre vou te proteger.” E beijou minha bochecha.
– Josh, vamos embora daqui?
– Pra onde você quer ir?
– Pra qualquer lugar que me faça feliz.
Encaminhamo-nos ate chegar a um local. Eu soluçava um pouco por causa do choro, mas acabou cessando logo. Fiquei mais calmo quando ele encostou seus lábios quentes nos meus. Era difícil, mas ter que admitir que um dia ele poderia me trair era torturante demais. Olhar em seus olhos e ver a falta de confiança pela janela que dava para a alma era pior ainda. Confiança é a base de tudo e aprendi a conviver assim desde o principio.
Não queria que acontecesse novamente o mesmo que acontecia antes de nós firmamos o nosso namoro. Ele me usava algumas vezes, vindo me pedir conselhos e acabávamos tendo nosso caso amoroso. Apenas uma noite e nada mais. No dia seguinte ele se esquecia e me ignorava. Ate que um dia ele percebeu os erros que estava fazendo.
#Flash Back#
Cheguei ao seu apartamento às 20 horas como tínhamos combinado. Ele tinha algo de importante para falar comigo, ou melhor, eu tinha para falar para ele. Já era mais do que necessário termos uma conversa definitiva sobre isso e querendo ou não ele ia me ouvir ate o final.
– Alec, entre. – Disse quando cheguei.
– Joshua, a gente precisa conversar e é serio.
Ele veio para cima de mim e tentou me beijar, mas o impedi mesmo querendo provar daquele beijo, que sempre deixava um gosto de quero mais.
– Agora você vai me negar Alec?
– Joshua, estou cansado de fazer parte da sua vida somente por uma noite. Você me usando e depois me jogando fora. Não quero mais que seja assim. Quero que seja para uma vida inteira. E você o que quer de mim?
– Alec... – Coçou a cabeça, meio pensativo. -... Se eu te disser que não, eu sei que vou te perder e nunca mais te ter.
– Então você esta me dizendo que sim?
– Alec, deixe-me terminar de organizar as palavras.
Ouve um silencio e nada mais foi dito. Ele andava de um lado para o outro pensando no que fazer. Ele tinha que tomar um rumo na sua vida, porque não seria assim pra sempre.
– Joshua, me escute. Você tem que tomar uma decisão. Sua vida não será assim pra sempre, e você sabe. Dê um rumo para ela Joshua. Pára de ficar se enganando.
– Alec, eu sei que você só quer o meu bem e eu já fiz a minha escolha.
– Joshua, não vai me dizer que... – Lágrimas escorreram do meu rosto. -... Você escolheu o caminho errado?
– Muito pelo contrario. Você tem razão sobre tudo, afinal você sempre tem razão sobre alguma coisa. Eu tenho que guiar meus passos para algum lugar e não posso mais enganar a mim mesmo. Alec, eu quero você pra vida inteira.
#Fim do Flash Back#
Fechar os olhos e querer enganar a si mesmo era uma coisa que tínhamos o costume de fazer e conseqüentemente perdemos esse habito de esconder alguma coisa de nos mesmos. Querer enganar a si próprio é querer enganar o coração. Voltamos para casa, o inicio de tudo.
Na manha seguinte a única coisa da qual eu me lembrava era do banho quente que tomei antes de deitar e meus pensamentos que me atormentavam. Minha cabeça doía porque tinha que doer. Preocupações sem sentido e uma vontade de não fazer nada invadiu o meu ser.
Olhei para o relógio que marcava nove horas. Agi normalmente como se nada tivesse acontecido e entrei no estúdio. Lá estava ele com o contrabaixo e eu dirigi-me ate minha guitarra. Meu silencio o preocupava. Deixava-o ansioso e isso torturava nos dois.
– Alec a gente precisa conversar.
– Não há nada a ser dito Joshua, já passou.
– Tem certeza?
– Tenho Joshua. Não se preocupe, vai ficar tudo bem, é só uma dor de cabeça.
– Alec, temos que estar bem. O Jon e o Spencer vão chegar amanha e...
– Puta que o pariu. Eu tinha me esquecido disso.
– Calma Alec, não precisa ficar em estado de choque.
– Joshua eu tinha me esquecido totalmente.
– Só temos que ir buscá-los no aeroporto.
Sentei em um canto do estúdio e peguei o rascunho da minha letra ainda não terminada. Um bom tempo pensando no escrever ate que alguma coisa veio.
I'm not in love
This is not my heart
I'm not gonna waste these words
About a boy
Last night I knew what to say
But you weren't there to hear it
These lines so well rehearsed
Tongue tied and overloaded
You never notice
Mostrei a ele o pequeno verso que tinha escrito e ele disse que tinha ficado bom e quem sabe poderíamos colocar essa musica no nosso cd ou ate mesmo fazer outra coisa com ela. Na mesma noite saímos para ir à festa de aniversario do Zack, fomos cumprimentá-lo e nos sentamos em um canto qualquer da festa, em uma mesa um pouco isolada das demais. Eu preferia assim, mesmo não sendo anti-social.
– Joshua, eu vou pegar alguma coisa pra gente beber okay?
– Vai lá meu pequeno raio de sol.
Ele ficou sentado a minha espera, olhei para trás uma ultima vez antes de seguir caminho ate o lugar onde estavam as bebidas. Quando me virei eu tive a visão do inferno. O que eu mais temia acabou acontecendo. Uma garota estava beijando ele. Em poucos instantes meus olhos começaram a ficar inundados com minhas lágrimas. Não tive coragem de voltar naquela mesa.
– Zack, você viu o Alec?
– Não Joshua, por quê?
– Ele disse que ia pegar umas bebidas pra gente e não voltou.
– Alguma coisa aconteceu nesse meio tempo?
– Oh my God. Ele só pode ter visto.
– Visto o que Joshua?
– Deixa pra lá Zack, vou tentar localizá-lo.
– Vocês têm que se entender, acima de tudo vocês são uma banda.
Sai correndo sem rumo, quando não tinha mais fôlego. Estava próximo a uma praça e sentei-me em um dos bancos. Ouvi meu telefone tocar varias vezes e ao ver quem era, eu desligava. Não estava acreditando no que tinha acabado de ver. Não queria aceitar que o Joshua pudesse voltar a fazer o que ele fazia antes.
Começava a trovejar e eu peguei um taxi e voltei para casa. As chaves do meu carro tinham ficado com ele. Quando pedi ao porteiro que abrisse o pequeno portão vi que meu carro estava na garagem. Será que eu teria coragem de olhar em seus olhos e dizer que ainda o amo? Levei uma facada no coração nessa noite e custaria demorar a cicatrizar.
Entrei e ele estava com os braços apoiados no joelho e a sua cabeça em suas mãos tentando entender o que se passou. Por um minuto pensei em hesitar. Ele me olhou e seus olhos estavam inchados de tanto chorar.
– Alec...
– Agora não Joshua. Não estou com cabeça para conversas.
– Eu não fiz nada, eu juro. – Disse aos prantos e arrependido.
– Joshua, se você quer conversar nos vamos conversar. Eu vi você aos beijos com aquela loira oxigenada.
– Viu só a metade das coisas como sempre.
– Joshua se você gosta de loiras é só dizer que ai eu pinto o meu cabelo e problema resolvido, mas não venha me dizer que você não fez nada.
– O que eu fiz foi por você. Eu tentei me separar dela, mas acho que não deu tempo de você ver essa parte e acabei tendo uma discussão com ela em meio a festa do Zack porque eu te amo.
– Não sei se te amo mais Joshua. – Dizer isso me doeu mais do que qualquer outra coisa, queria saber ate que limite ele lutaria por me amar.
– Alec não fala assim. Você sabe que estou sendo sincero e fica agindo infantilmente.
– Joshua, não gosto de ver você chorando, mas vou te dar uma única chance e presta atenção no que vou te dizer. Se quiser meu amor de volta, terá que me reconquistar.
– Porque você faz isso comigo Alec?
Não deixei com que ele dormisse no sofá. Dormimos na mesma cama, mas separados um do outro. Porque eu estava fazendo aquilo com ele. Sabia que tinha sido sincero comigo e mesmo assim o torturei. Ouvi seus soluços e vi que ele sofria com aquilo. Ele nunca tinha sido infiel comigo desde que decidimos juntar nossas coisas e morar juntos, nunca me deu um motivo sequer para que eu duvidasse dele.
Relembrar aquela cena de vê-lo sendo tocado por outra pessoa era de fato, uma coisa torturante. Fechar os olhos e se torturar era uma coisa fácil demais, mais difícil ainda de esquecer. Só que ele teria que sofrer um pouco para aprender o valor que eu tinha. Doía-me vê-lo sendo torturado por mim, mesmo que não quisesse.
Na tarde seguinte fomos nos encontrar com Spencer e Jon no aeroporto. Nem tinha coragem de olhá-lo nos olhos ainda mais do que eu estava fazendo. Ele, por sua vez tentava ser gentil e estava mesmo disposto a reconquistar o meu amor.
– Tente ao menos parecer um pouco mais disposto. – Disse ao ver um pouco de desanimo no seu olhar. Permaneceu em silencio e isso começou a me assustar. Chegamos cedo demais e ficamos esperando por umas duas horas ate os dois chegarem. Joshua ficou andando de um lado para o outro pensando, isso quando não sentava e tinha o olhar distante para o nada.
Avistei Spencer e Jon no portão de desembarque acenando para a gente. Encostei no braço de Joshua para que ele pudesse ver os dois. Acenou também e um sorriso amplo apareceu em seu rosto. Como eu sentia falta daquele sorriso. Concentrei-me ao verdadeiro motivo pelo qual estávamos ali. Ambos se aproximaram da gente e nos abraçamos, era bom vê-los novamente.
Fomos caminhando ate o carro e conversando. Jon comentava alguma coisa com Joshua e eu lançava um olhar ao Spencer dizendo que precisávamos conversar o mais rápido possível. Passamos pelo portão e andamos um pouco mais ate chegar no meu carro. Joshua sentou-se do meu lado no banco de passageiro, Jon e Spencer foram no banco de trás.
– Onde eu e o Spencer vamos dormir?
– Temos dois quartos sobrando no nosso apartamento. Eu e o Joshua já conversamos sobre isso, se vocês quiserem podem ficar lá. Não é Joshua? – Tentei parecer simpático para não demonstrar que estávamos um pouco distante um do outro, mas isso é quase imperceptível.
– É sim, vocês podem ficar lá se quiserem.
– Mas não vamos incomodar invadindo a privacidade de vocês?
– Jon, não precisa ser preocupar. Alem do mais nossa vida particular já foi invadida demais.
– Mas mesmo assim Alec preferimos dormir no antigo apartamento do Joshua. Eu e o Jon já conversamos e será melhor assim.
– Tudo bem então, vamos para lá então.
O antigo apartamento de Joshua não ficava muito distante do meu, ou melhor, do nosso. Deixamos os dois lá e fomos embora. O silencio continuava. Entramos no nosso apartamento, eu sentei no sofá e ele se encaminhou ate o quarto. Voltou um pouco depois com um pequeno embrulho nas mãos.
– Bem, isso é pra comemorar o nosso aniversario de namoro. Já que hoje se comemora isso. – Entregou-me o pequeno embrulho com papel com desenhos de coração e um laço vermelho.
– Obrigado Joshua. – Abri e vi uma caixa de chocolates do qual eu gostava e um pequeno cartão. – Olhei para olhar em seus olhos e por um instante nossos olhares se reencontraram, mas logo não houve mais contato.
Fui me deitar e ele ficou vendo um pouco de televisão. Peguei o cartão e li o que ele tinha escrito de coração, porque sabia que o que estava escrito é verdadeiro. Ao terminar de ler, meus olhos se encheram de lágrimas. Ouvi o barulho da fechadura e sequei minhas lágrimas e fingi que estava dormindo. Ele entrou e se deitou cuidadosamente. Dormi com uma confissão na minha cabeça.
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