Leão do Inverno
36 Livro Três — Capítulo X
Notas iniciais

SAMANTHA
A água quente caía por seus corpos em chamas. A boca de Samantha Winter estava no pescoço de sua irmã, mordendo, tentando abafar os gemidos enquanto as pernas de Alexandra apertavam sua cintura, assim como as paredes internas dela apertavam seus dedos.
Já passava das nove da noite do domingo e as gêmeas aproveitavam o sentimento de lua de mel que a ausência constante de Katherine lhes proporcionava.
Mesmo com os músculos doloridos de um dia subindo e descendo os Alpes Austríacos de ski e snowboard, sustentar o peso do corpo de Alex em seus braços fazia ondas de prazer viajarem por cada veia de Sam.
As unhas da futura psicóloga estavam cravadas em suas costas, arranhando com força, deixando marcas. Uma de suas mãos apertava forte a bunda redonda da garota em seu colo e, com a outra, a pianista forçava três longos dedos para dentro do corpo esquio, arrancando gemidos e suspiros.
Alexandra estava tão molhada que a resistência de seus músculos cedera um pouco, facilitando as investidas rápidas. Samantha esforçava-se para tocar o clitóris inchado com a palma da mão enquanto penetrava-a repetidas vezes, tremendo a cada espasmo que sua irmã mais velha tinha e gemendo ao experimentar o interior de Alex estreitando-se, moldando-se aos seus dedos.
— Ma-mais forte – Alex pediu, os lábios abertos e os olhos cerrados, a respiração agarrada a garganta. – Sam, me fod-
— Meninas? – A voz de Katherine MacIntyre invadiu o apartamento e a sensação de prazer intenso entre as Winter foi substituída por um pânico petrificante. – Vocês estão no banheiro?
Merda.
Samantha soltou Alexandra, rápido, tirando seus dedos de dentro dela sem muito cuidado e recebendo um gemido em protesto. Sem olhar para a irmã, subitamente sentindo-se envergonhada e culpada, a pianista abriu o box da forma mais ágil que foi capaz e, enrolando-se numa toalha, saiu do banheiro.
— Olá, mamãe – Sammy atravessou a sala-de-estar como um raio, entrando no quarto que dividia com Alex.
Katherine veio a seu encontro, tirando o casaco e as luvas, sorrindo enquanto a filha se secava.
— Sua irmã está bem? – A decoradora perguntou.
— S-sim – a voz da garota falhou quando ela murmurou a resposta, de costas para a mãe, com o rosto em brasa. – Estávamos tomando banho. Chegamos cansadas e queríamos nos deitar logo para estarmos bem durante o voo, amanhã.
— Entendi – Samantha ouviu um bocejo logo depois. – Eu também vou tomar um banho e podemos pedir o jantar, ao invés de descer.
— Parece bom para mim – Sam assentiu, embora duvidasse que a náusea repentina lhe permitiria comer algo tão cedo.
Resmungando qualquer coisa sobre o cardápio que pediria, Katherine deixou o quarto e, assim que a porta bateu, a pianista sentiu seus joelhos falharem. Seu coração estava escoiceando as costelas, seu corpo todo suando mesmo estando gelado. O prazer de momentos antes evaporara tão rápido que apenas ecos distantes dele ainda vagavam sua pele úmida.
Desabando sobre a cama, sem conseguir respirar muito bem, com uma sufocante vontade de chorar, ela ficou ali por alguns momentos até sentir algo vibrando sob seu corpo. Virando-se desajeitadamente para pegar o celular, percebeu se tratar do aparelho de Alexandra, onde o nome “Belle” aparecia, precedendo uma mensagem.
“Olá, querida. Como você está? Acha que consegue vir até minha casa na próxima terça-feira a tarde? Emma estará na delegacia o dia todo.”
Uma mistura tóxica de indignação e ciúme ergueu-se no interior da pianista, que começava a ficar tonta por conta das mudanças de humor repentinas. Ela releu a mensagem algumas vezes, tentando enxergá-la de qualquer outra forma que não a traiçoeira Anabelle Parker dando em cima de sua irmã – de novo!
A raiva que surgira pela psicóloga no dia em que Alexandra voltara de Berlim e que suprimira todo e qualquer tipo de afeição que crescera lentamente durante os três anos predecessores àquela fatídica manhã, agora expandia-se de forma voraz.
Então Anabelle seduzira Alex uma vez – quase fizera o mesmo com a própria Samantha – e agora estava prestes a tentar repetir seus atos?
Nem fodendo, doutora. Sam – que tentara ignorar as vezes em que ouvira Alexandra falando com a médica ao telefone nas últimas semanas, mas que agora recordava-as como se cada uma fosse um tapa rude em seu rosto – trincou os dentes, determinada.
Ela não admitiria que ninguém tirasse sua irmã dela outra vez ou se intrometesse no conto de fadas que estavam reconstruindo. Não depois de todas as dores que percorreram para chegar até ali. Não quando estavam conseguindo, pela primeira vez, desfrutar da verdadeira felicidade.
Desbloqueando rápido o celular, antes que Alex voltasse para o quarto, Samantha Winter apagou a mensagem, disposta a encontrar a remetente assim que fosse possível para que pudessem conversar a respeito.
O céu estava cinza e a temperatura não passava dos 5°C naquela terça-feira na Cidade de Oxford. Alexandra Winter, que tinha a cabeça pesada e o corpo dolorido, deu mais um gole em seu café quente, encolhendo-se à mesa, mental e fisicamente exausta.
— Bom-dia, querida – Samantha cantarolou ao entrar na cozinha, sorridente como só ela conseguia ser às seis da manhã, mas o sorriso transformou-se numa careta de confusão ao perceber que Ale continuava em seus pijamas. – Não vai se vestir? Já estamos muito atrasadas.
— Eu estou um pouco cansada. Não vou à aula hoje – a estudante de psicologia murmurou antes de dar um selinho calmo na irmã.
Sam contraiu os lábios, sentando-se e servindo-se de uma xícara de café.
— Certo. Mas caso se sentir mal, ligue-me – a pianista pediu. – Eu até ficaria para lhe fazer companhia, mas tenho um seminário importante de Fundamentos da Acústica Musical. E preciso falar com a reitora, ela está com algumas propostas de estágio para mim – o tom alegre e excitado fez Alexandra rir, mesmo sem vontade alguma.
Olhando a hora no celular, Samantha sorveu apressadamente o restante do conteúdo de sua xícara e apanhou uma maçã. Levantando-se e apanhando suas coisas, que entre várias pastas e apostilas incluía um violino encapado, ela despediu-se da mulher que amava com um beijo rápido e intenso nos lábios, atirando-se para fora do apartamento para tentar fazer em quatro minutos um caminho que geralmente tomava quinze.
Alexandra ficou algum tempo ainda à mesa depois que a irmã saiu, mesmo que não sentisse mais vontade de comer. A bem verdade era que tudo o que ela sentia simplesmente se esvaia quando Samantha se afastava.
Ainda que tentasse, o sentimento de não pertencer mais àquela realidade, de estar internamente morta, de não ser nada além de um brinquedo para algo ou alguém acima de todos eles, estava ali, alimentando-se de seus temores e crescendo com o passar dos dias.
Era frustrante. O conhecimento exagerado era perturbador. Enquanto havia a incógnita no ar, enquanto ela vivia a vida normalmente na abençoada ignorância concedida por bem aos homens, o medo de partir jamais lhe atingira. Mas agora que já havia experimentado estar na presença de seres sobrenaturais – ou pelo menos ela achava sim em alguns momentos, enquanto em outros tinha certeza de que estava ficando louca – e visto como a morte se parece, o receio de simplesmente fechar os olhos e talvez acordar em outro plano a assombrava.
Alexandra tentava não deixar que as crises de pânico se dessem na frente de Samantha ou das pessoas com quem convivia, mas quando se encontrava sozinha, as lágrimas de desespero rolavam sem permissão e seus olhos voavam de um lado para o outro, inquietos, esperando que as paredes se desfizessem e a engolissem.
Anabelle estava tentando ajudá-la. Foi a única pessoa para quem se abrira verdadeiramente e por mais que a psicóloga não admitisse e não dissesse isso diretamente para ela, Alex sabia que ela estava a poucos passos de encaminhá-la para um tratamento mais severo.
Ela estava ficando louca. Ela estava ficando louca?
Sua mente borbulhava em dúvidas e medos. Depois de amar Samantha por horas todos os dias, ela esperava, atenta, quieta, ansiosa, vasculhando tudo a sua volta para ter certeza de que ninguém entraria ali e a carregaria para longe da mulher que amava.
Apenas analisar sua situação fazia com que a mais velha das gêmeas Winter perdesse o controle. Ali, sentada à mesa, ela estava hiperventilando. Esticando as mãos, ela constatou que estava tremendo. Secando a delgada camada de suor que cobrira seu rosto em poucos minutos, Alexandra adiantou-se para o quarto, entrando no closet e tirando de dentro de uma de suas bolsas um potinho plástico alaranjado muito bem escondido entre os vários bolsos.
Enfiando o dedo no frasco de Clonazepam¹ para puxar uma das pílulas que Belle tinha lhe receitado, Winter não encontrou nada além de ar.
Ainda mais alterada do que estivera, a garota atirou a embalagem contra a parede, levando as mãos até a cabeça, tentando controlar o surto de pensamentos.
Seus joelhos fraquejaram e ela caiu, agarrando uma peça de roupa qualquer e mordendo-a até seus dentes doerem, enquanto um grito de desespero subia por sua garganta, abafado pelo tecido.
Ela ficou no chão até que sua respiração se acalmasse, sentindo as lágrimas descerem pelas bochechas. A ânsia de vômito ia e voltava à medida que seus batimentos normalizavam. Quando finalmente foi capaz de pôr-se de pé, a vontade de gritar ainda não havia passado por completo, mas ao invés de sufocar seus lamentos, ela resolveu deixar que eles fluíssem da forma menos dolorosa que conhecia.
No momento em que se viu apta a sair do closet, Alex abriu seu notebook, disposta a escrever sobre uma garota que amava outra garota, e apesar do medo, venceu a morte para estar com ela.
Afinal, Alexandra Winter pensou, secando o rosto e começando a digitar com os dedos trêmulos, as palavras são mais doces que as lágrimas.
ANABELLE
O sol escondera-se atrás de apáticas nuvens brancas. O frio se manifestava de forma imponente, fazendo Anabelle Parker encolher-se sob as camadas de roupa em sua sala particular na Universidade de Oxford.
Sua cabeça latejava com força por conta das pouquíssimas horas de sono que tivera na última semana. Mas era sexta-feira, doze de dezembro e seu último dia de atividades escolares da Universidade até o próximo mês, e pelo menos a perspectiva de que amanhã poderia dormir até mais tarde enroscada em Emma fazia a psicóloga sorrir um pouco.
Estava sendo uma experiência única se relacionar com a Oficial Thorne. Ainda que já tivesse namorado antes, jamais estivera tão próxima a alguém desta forma. Emma era delicada e forte ao mesmo tempo, era infantil e inconsequente, mas podia mostrar-se madura e responsável num piscar de olhos.
E Anabelle a amava. Amava-a com tudo de si, como jamais pensou que poderia amar depois que Alexandra Winter dilacerou e resumiu a cinzas os pedaços de seu coração.
A prova de todo esse amor – e da aventura para que Thorne a estava dragando – encontrava-se bem ali, em seu anelar direito, brilhando. Uma aliança imensa de noivado, com um lindo diamante, lembrança da melhor noite da vida da Doutora Parker, passada há dois meses, em Oslo.
Enquanto sorria para o anel, melancólica e sentindo-se incrivelmente mais leve, alguém bateu à porta.
— Sim? – Ela pigarreou para recompor-se.
Abrindo a porta alguns centímetros, Aileen Glover, uma estudante de psicologia que trabalhava como assistente-estagiária de Belle há algumas semanas, entrou.
— Senhorita Parker, Alexandra Winter está aqui para vê-la.
— Alex? Agora? – Anabelle franziu as sobrancelhas, confusa, mas assentiu rápido em seguida. – Peça que ela entre, por favor.
— Sim, senhora.
Corando, a garota saiu da sala e a porta só voltou a abrir alguns momentos depois.
Mas quem adentrou o lugar não foi Alexandra, e sim Samantha – que não sustentava um semblante amigável, diga-se de passagem.
Qualquer um poderia obviamente tê-las confundido, mas a psicóloga conhecia ambas muito profundamente para conseguir diferenciá-las apenas num relance.
— Olá, Sam – Belle levantou-se, sorrindo, tentando não parecer surpresa. – A que devo a honra?
— Vim para saber o motivo pelo qual você anda assediando minha irmã – a pianista foi direta, cruzando os braços.
Anabelle arregalou os olhos, incapaz de esconder o choque pelas palavras duras. Alguns segundos foram necessários para que ela tivesse certeza que aquilo não era uma brincadeira estúpida e então ela não conteve uma gargalhada.
— “Assediando”? – Desta vez foi a médica quem cruzou os braços, apoiando-se na mesa, encarando a réplica perfeita da mulher que um dia roubara-lhe todo o autocontrole. – Do que está falando?
— Eu tenho encontrado mensagens suas no celular dela – Samantha começou a explicar, visivelmente alterada, com o rosto assumindo uma coloração vermelha. – Perguntando como ela está, disponibilizando sua agenda... Sem falar nas suas ligações, todos os dias, sem parar.
Jogando a cabeça para trás, exasperada, Belle tornou a fitá-la, agora com um sorriso provocador nos lábios.
— Ah, é? – Perguntou, de forma debochada.
Ela sabia que depois da volta de Alexandra, quando Sam finalmente descobriu sobre a relação entre sua irmã e a psicóloga, a pianista vinha guardando um rancor absurdo em seu interior e, por algum motivo, Anabelle estava ansiosa para aquilo transbordasse. Talvez assim elas pudessem voltar a ter uma relação amigável como antes.
— É – irritada, Samantha deu alguns passos à frente, corando gradativamente mais. – Depois de tudo o que nós passamos para finalmente nos acertarmos você tem coragem de tentar seduzi-la outra vez? Você não passa de uma vadiazinha destruidora de relacionamentos, não é?
— Ei, ei, mocinha. Cuidado com a sua língua – ofendida, a loira endireitou a postura. – Nada do que passamos lhe dá o direito de falar desta forma comigo.
— Como você quer que eu fale com a filha da puta que persegue a mulher que eu amo?
— Ora, por favor – Parker rolou os olhos. – Alex veio até mim.
Sam soltou uma risada histérica, parecendo trêmula quando voltou a falar.
— Quer mesmo que eu acredite nisso?
— Ela veio até mim praticamente implorando para que pudéssemos voltar a nos ver. Não fu-
Mas ela não conseguiu terminar a frase, pois a mão de Samantha havia acertado seu rosto com força, num tapa tão rude que fê-la desequilibrar-se e dar alguns passos para o lado.
Incrédula, Anabelle recompôs-se em alguns segundos, fitando-a com verdadeira raiva. A garota a encarava de volta, chorando de uma forma que sugeria que ela estava dividida entre arrependimento pela bofetada e satisfação por sua súbita “coragem”.
Sem importar-se com o que aconteceria depois, Belle devolveu-lhe o tapa com o dobro da força, e assim que a garota virou o rosto pelo impacto, a outra mão da médica tratou de acertar-lhe a outra bochecha num estampido alto.
Chocada e assustada, Sam deu alguns passos para trás, com os cabelos jogados pelo rosto rubro de forma aleatória e o choro começando a se intensificar.
Parker passou alguns momentos encarando-a de forma frígida antes de dar a volta em sua mesa e tornar a sentar-se, arrumando os cabelos com toda a dignidade recobrada.
Sem tornar a fazer contato visual com a mais jovem das gêmeas Winter, a psicóloga continuou seu trabalho como se jamais tivesse sido interrompida, agora muito desinteressada e enjoada até mesmo da presença da garota a sua frente:
— Se você me tocar outra vez, Samantha, eu juro que farei bem pior – Anabelle sussurrou, muito devagar, e Samantha engoliu ruidosamente, secando as lágrimas que insistiam em cair por suas bochechas marcadas. – E, só para deixar claro, eu estou tratando Alexandra porque ela está com uma desordem mental clara. Surpreende-me que você, que além de irmã é quem dorme com ela, ainda não tenha notado.
Houve um longo momento de silêncio e por alguns instantes Belle chegou a cogitar a possibilidade de a pianista ter se retirado da sala, mas logo uma voz fraca e trêmula, desprovida de toda a autoridade que carregava antes, perguntou de forma tímida:
— Desordem me-mental?
— Exatamente – Anabelle ergueu os olhos, com o semblante ainda apático. – O coma trouxe sequelas, acredito. Além de uma peculiar mania de perseguição, eu arriscaria dizer que ela está com síndrome do pânico e só pelo fato de conviver com ela tão intimamente por tantos anos estou tentando convencer a mim mesma de que não há necessidade de pedir alguns exames que possam diagnosticar esquizofrenia.
Os olhos de Samantha arregalaram-se e ela abriu e fechou a boca algumas vezes, parecendo buscar o que dizer. Incerta e claramente trêmula, Sam puxou uma das cadeiras a frente da mesa da médica e sentou-se, a cor rosada de seu rosto se esvaindo muito rapidamente.
— Ela precisa de tratamento, então?
Com as mãos oscilantes a pianista gesticulava de forma frenética, buscando o olhar de Anabelle como se pudesse agarrar-se a ele para não afogar-se nas próprias dúvidas.
Estava claro para Parker que a gêmea mais jovem esperava por qualquer tipo de revelação, menos aquela. E talvez por isso a psicóloga compadeceu-se e, esquecendo-se do tapa de momentos antes, segurou as palmas geladas da garota nas suas, num gesto que sugeria carinho e tentava transmitir segurança.
— Estou analisando-a com cuidado antes de encaminhá-la para alguém mais especializado – Belle esclareceu. – Segundo o que ela mesma me disse, ela não foi totalmente honesta com o psiquiatra que o St. George’s designou para acompanhá-la, portanto estou trabalhando as coisas do começo. Mas, sim, ela precisará de um tratamento.
Com um palavrão baixinho, Samantha libertou suas mãos das da médica e tapou o rosto, apoiando-o contra a madeira morna na mesa, as costas subindo e descendo num choro silencioso.
— Acalme-se, querida – a loira tentou sorrir, acariciando os cabelos castanhos. – Vocês já passaram por tantas coisas juntas. Isso será apenas mais uma dificuldade a ser batida.
E embora desejasse que aquelas palavras fossem verdade, Anabelle Parker não estava tão certa disso.
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