Leão do Inverno
42 Bônus — Poetas de Olhares
Notas iniciais
POETAS DE OLHARES
“Se você sabe explicar o que sente, não ama, pois o amor foge de todas as explicações possíveis.” – Carlos Drummond de Andrade.
É Isso Aí, por Ana Carolina e Seu Jorge
► II
Agosto era incrivelmente quente ali, no sul da Califórnia, principalmente para alguém que nascera e crescera em um mundo cinza e frio como a Inglaterra. Emma Thorne apreciava a visão que vinha tendo, no entanto. Embora estivesse mais habituada a construções vitorianas e neblina insípida, olhar pela janela e ver o mar lambendo a areia branca era algo muito bem-vindo.
Mesmo a noite, como agora, o ar da costa oeste era cálido, mas a porta aberta deixava uma brisa com cheiro de maresia adentrar a sala de decoração tipicamente praiana e amenizar as temperaturas.
A casa dos pais de Anabelle era grande e muito aconchegante, com vista para as águas de Malibu. Quando pisara ali pela primeira vez, sete anos antes, Emma estava amedrontada com a perspectiva de conhecer os sogros. Agora o terror fora agradavelmente substituído por uma sensação de aconchego e bem-estar.
Já passava da meia-noite, era seu penúltimo dia de férias e a atual Detetive-Superintendente¹ Thorne estava tendo uma conversa animada com seu sogro sobre política quando sua sogra adentrou a sala-de-estar com uma silhueta minúscula e muito loira nos braços.
A garotinha piscava demoradamente, segurando seu peixe de pelúcia entre os dedos pequenos.
Emma levantou-se de imediato, deixando seu copo de vinho sobre a mesa, mas Stella Parker adiantou-se:
— Eu a coloco na cama, não se preocupe – a mulher que era uma versão mais velha de Anabelle sorriu, segurando a garotinha de quase quatro anos mais perto de si. – Dê boa noite para suas mães, Vivienne.
Vivienne piscou mais uma vez de forma lânguida na direção de Emma e depois bocejou.
— ‘Noite, Sherlock – disse, num sussurro, tentando fazer os olhinhos pesados abrirem o suficiente para enxergar o corpo adormecido de Anabelle no sofá do outro lado do cômodo. – Diga à mamãe que eu desejei boa noite.
Dando-lhe um beijo demorado na testa e recordando-se com perfeição da primeira vez em que vira aquele rostinho – depois de esperar horas numa sala sufocante enquanto Anabelle passava por um parto de risco –, Emma sorriu.
— Eu direi, Watson. Boa-noite.
E quando sua sogra deu as costas, reclamando sobre os apelidos que mãe e filha compartilhavam, Vivienne já estava adormecida.
— Acredito que eu deva levar o outro bebê para cima, também – Emma riu, dirigindo-se a Henry Parker e apontando para Anabelle que ressonava baixinho, encolhida.
— Faça isso. O voo de vocês sai cedo amanhã – o cirurgião ergueu-se, levando as taças e a garrafa de vinho para a cozinha. – Boa-noite, Em.
Cuidadosamente, depois de assistir o homem sumir para o outro cômodo, DS Thorne aproximou-se da psicóloga adormecida admirando os traços delicados. Para alguém que sempre fora muito cética, Emma se via agradecendo aos céus todos os dias por ter conhecido uma mulher tão extraordinária quanto Anabelle Parker – agora Anabelle Thorne.
Os sete últimos anos vinham os mais maravilhosos de sua vida. Órfã de pai e negligenciada pela mãe desde sempre, não era usual para Emma conviver com tanto carinho e amor, mas Belle – e, posteriormente, Viv – lhe presentearam com esses sentimentos em abundância.
Se há pouco menos de uma década atrás alguém lhe dissesse que seria uma mulher casada e mãe, Thorne provavelmente riria. Agora, no entanto, ela não era capaz de imaginar sua vida transcorrendo de outra forma. Anabelle transformara o cenário a sua volta num caleidoscópio de alegria tão intenso e colorido que qualquer outra realidade – ou passado – onde esse júbilo todo não existisse era praticamente insuportável se de imaginar.
Emma só gostaria de saber como dizer isso a ela, como expressar toda sua gratidão e, enquanto depositava o corpo delicado contra o colchão do quarto que dividiram nas últimas semanas, a Detetive ensaiava algo que fosse suficiente para dizer quando entregasse o presente de seis anos de casamento, no dia seguinte.
Ela passou a próxima meia-hora no banheiro preparando-se para dormir, bem como debatendo com sua mente sobre o assunto e, ao retornar para o quarto, encontrou uma Anabelle sonolenta despindo-se de forma demorada.
— Que horas são? – Ela perguntou, removendo a última peça íntima e arrastando-se de volta para os lençóis.
— Uma e doze da manhã – Thorne respondeu, perdendo-se um pouco nas curvas que tanto adorava.
— Você colocou Vivienne para dormir? – Belle murmurou, de olhos já fechados, aconchegando-se no peito de Emma assim que ela deitou-se.
— Sua mãe colocou. E ela desejou boa noite.
A Detetive conseguiu sentir o sorriso de sua esposa se formando contra sua pele, e tudo o que tinha imaginado poder dizer no dia seguinte esvaiu-se sob o calor crescente que se apossava dela.
— Amor? – Emma sibilou, subitamente emocionada. Uma parte dela desejava que a psicóloga já tivesse pegado no sono, enquanto a outra esperava obter uma resposta.
Demorou alguns momentos, mas Anabelle afirmou com um resmungo que estava ouvindo.
— É só- Bem- Tenha o melhor dos sonhos. Eu amo você. Muito.
O sorriso que estava pressionado contra seu peito tornou-se ainda maior e num movimento gracioso que fez os cabelos dourados caírem por seus olhos de forma quase poética, a psicóloga ergueu o rosto para fitar Emma.
— Eu poderia escrever uma música com a forma como você me deseja boa-noite – ela riu e com uma delicadeza quase etérea dragou a outra loira para um beijo.
DS Thorne abriu os olhos sem pressa, deixando a luz atravessar seus cílios lentamente. Estava absurdamente quente sob as cobertas, mas ao tomar ciência do que exatamente era a fonte de calor entre seus braços, desistiu de mover-se e passou a apreciar cada respiração rítmica que fazia as costas perfeitas tocarem seus seios nus.
Os cabelos dourados faziam cócegas em seu nariz, o perfume delicado infiltrando-se em seus pulmões e lhe desarmando sem esforço algum. Ainda que desejasse ficar ali o dia, a semana, a vida toda, Emma sabia que logo Vivienne estaria entrando pela porta como um pequeno furacão e não lhe permitiria fazer o que viera planejando por meses.
Então, mesmo desejando não mover um único músculo, Thorne levantou-se e, tentando ao máximo não fazer barulho, enfiou-se num roupão de banho e foi até a garagem buscar a caixa que esforçara-se para esconder durante toda a viagem. Na volta, aventurou-se na cozinha, preparando um café da manhã com frutas, suco e cereais e equilibrou tudo até o andar superior.
Com o pé, a loira empurrou a porta que deixara encostada, adentrando uma vez mais o quarto. Anabelle estava despertando, vasculhando com os olhos ainda vagos o cômodo pintado em tons de laranja e amarelo pelos raios de sol que atravessavam a casa toda.
— Céus – subitamente desperta, Belle abriu um daqueles sorrisos que fazia cada célula do corpo de Emma vibrar de alegria. – Você vai me deixar tão mal-acostumada!
Dando de ombros, Thorne depositou a caixa com a bandeja sobre a cama, e depois o café-da-manhã sobre uma das cômodas.
— Feliz aniversário de casamento, madame – Emma desejou, apanhando a rosa que tinha trago junto à bandeja. Por mais que tentasse evitar, ela era naturalmente clichê.
Depois de dar um beijo delicado nas pétalas muito vermelhas, a policial acomodou a pequena flor nos cabelos bagunçados – mas não menos charmosos – de sua esposa.
— Feliz aniversário, Oficial Thorne – acariciando seu rosto, Anabelle beijou-lhe os lábios devagar, pressionando-os com a força certa, capturando-os entre os seus próprios no instante seguinte. – Eu comprei algo para você!
E quando ela se afastou, Thorne ainda estava de olhos fechados, apreciando a sensação que aquela boca invariavelmente lhe proporcionava ao tocar a sua.
Nua, Belle atravessou o quarto, abriu o closet onde as roupas delas já não estavam mais dispostas, e trouxe de volta para a cama uma caixa cúbica, embrulhada com um papel dourado. Os olhos dela brilhavam em expectativa quando tornou a sentar-se, desta vez no colo de Emma, passando o pacote simpático para as mãos dela.
— Abra! – A médica, tão usualmente séria, parecia uma criança na manhã de Natal.
E Emma abriu.
Rasgou o embrulho, tirou os papéis de proteção e dentro encontrou...
— O mundo – Anabelle sussurrou criando a trilha sonora perfeita enquanto o globo-terrestre de metal era retirado de dentro da caixa. – Como eu prometi no dia em que você me pediu em casamento. “Eu lhe darei o mundo.”
Quando Emma ergueu os olhos para fitar o rosto de sua esposa, havia lágrimas nos olhos dela – assim como nos seus.
— Abra ele – ela murmurou, acariciando seus cabelos, beijando sua orelha e logo depois seu pescoço.
Hipersensível, DS Thorne era capaz de ouvir seus próprios batimentos cardíacos, bem como senti-los no céu de sua boca e na ponta de seus dedos. Ela experimentava as leves respirações de Belle roçando sua pele, o vento da costa oeste adentrando sem permissão a janela.
E a felicidade, envolvendo-as como o mais bem-vindo dos cobertores.
Dentro do pequeno globo prateado havia, em cada uma das metades, uma foto de Vivienne e outra delas juntas.
— Deus, é- É tão lindo – sorrindo entre as lágrimas, Emma tentou manter a voz firme, mas foi incapaz. – Obrigada.
Ela quase derrubou Anabelle contra o colchão pela forma desesperada como procurou aqueles lábios. Rindo, a psicóloga retribuiu o beijo, enroscando os braços em seu pescoço e as pernas em sua cintura.
Suas respirações se confundiam à medida que o tempo passava – não que alguma delas pudesse sentir ou sequer importar-se com o tique-taque do relógio. O tempo não era nada além de um mero detalhe ignorável quando estavam juntas.
Quando finalmente desejou dizer o que estava sentindo e não encontrou palavras, lembrou-se do presente que comprara para sua esposa – palavras, justamente. Palavras de alguém que sabia usá-las para expressar-se, para dizer e traduzir o mundo no qual fora inserido.
Os dentes de Anabelle fechavam-se contra seus ombros enquanto as mãos empurravam o roupão de Emma para baixo no momento em que a detetive afastou-se um pouco.
Com o olhar inquisidor e as bochechas num tom adorável de cor-de-rosa, a psicóloga encarou sua esposa.
— Está tudo bem, Emma?
— S-sim – piscando rapidamente, Thorne sentou-se, ajeitando o roupão às suas formas outra vez. – É só que... Eu comprei algo para você, também.
Recuperando o fôlego, Belle sentou-se, parecendo desorientada. Retirando a rosa despedaçada de seus cabelos, ela sorriu ao ver Emma trazendo a seu campo de visão a caixa que aparecera junto ao café da manhã e fora parcialmente esquecida.
Era mais pesada do que o embrulho que contivera o globo de metal, e quando Anabelle desatou os laços e retirou a tampa, o brilho infantil retornou aos seus olhos acompanhado por um semblante que mesclava surpresa e deleite, onde os lábios inchados de beijos partiam-se em um perfeito “O”.
— Isso é-
— A coleção completa das poesias de Drummond. Seu poeta preferido – sorrindo, Emma terminou a sentença, observando mãos ansiosas vasculhando a caixa e tirando de lá o livro de mais de mil e quinhentas páginas.
— Está em inglês! Como você...?!
— Eu contratei um tradutor da Universidade depois que não achei a edição em inglês em lugar algum – Thorne confessou, sentindo o sangue subir por seu pescoço e esquentar sua face enquanto o olhar de adoração de Anabelle passava do livro para ela. – É por isso que não tem editora. É único. Como você.
O silêncio que se seguiu fez com que as palmas das mãos de Emma começassem a suar. Agitada, ela abriu e fechou a boca várias vezes, sem conseguir produzir nenhum som. Ela era o completo oposto de sua esposa. Enquanto Belle conseguia usar as palavras para formar mundos intermináveis quase como tintas numa tela, ela mal conseguia expressar-se.
O rubor intensificava-se à medida que os segundos transcorriam e, absolutamente desconcertada, Thorne agradecia pela atenção de Anabelle ter sido novamente tragada para o livro.
— É tão... Maravilhoso – ela suspirou, sem fôlego.
— E-eu- Eu tinha decorado “As sem-razões do amor”, em português, mas você está tão excepcionalmente mais bonita esta manhã que eu não consigo focalizar mais nada – as palavras simplesmente saíram, fazendo Emma sentir-se um pouco tola no instante seguinte. – Perdoe-me. Droga- Eu- Não sei o que dizer. Eu nunca sei o que dizer.
— Não precisa dizer nada – Belle tirou uma longa mecha de cabelo dos olhos da policial, erguendo o rosto corado para encarar-lhe e colando sua testa a dela de forma suave.
E elas trocaram olhares, olhares que diziam muito mais que palavras, olhares que mereciam ser eternizados. Olhares particulares, únicos, seus. Olhares que eram a própria poesia, que faziam palavras desnecessárias, que, ainda que houvesse vocábulos o suficiente para expressar aquele sentimento, os ridicularizariam perante a grandiosidade e profundidade daquele amor.
— Eu te amo tanto – Anabelle sussurrou, acariciando com os polegares as bochechas ainda em chamas da Detetive.
Suspirando, Emma deslizou suas mãos para a cintura nua, apertando, fazendo a pele cálida e pálida deslizar por seus dedos como seda. Subitamente pega com a respiração curta e errática, Thorne resvalou seus lábios sobre os da outra loira, e depois de apreciar o calor que emanava deles, beijou-a.
Ela estava pronta para finalmente livrar-se do roupão de banho quando batidas frenéticas na porta ecoaram pelo quarto.
— Mamães? – A voz fina e infantil de Vivienne fez as duas mulheres na cama rirem.
Anabelle puxou Emma para mais perto, gemendo languidamente em protesto quando a policial tornou a afastar-se.
— Espere. Não se afaste. Não ainda – ela implorou com as mãos agora nos cabelos de Thorne.
— Nós temos todo o tempo do mundo – Emma declarou num tom de promessa, depositando um beijo casto na testa da psicóloga e observando-a se cobrir pelo canto dos olhos enquanto caminhava para a porta.
No instante em que destrancou a passagem, o gritinho de alegria combinado ao peso se chocando contra suas pernas e à risada melodiosa as suas costas fez Thorne desejar que todas as manhãs, pelo resto da eternidade, pudessem começar exatamente assim, tão... Tão...
Maravilhosas?
Intensas?
Felizes?
Ora, pois todos esses adjetivos eram, de fato, efêmeros!
E num átimo de segundo, Emma lembrou-se de um dos versos do tão adorado Drummond de Anabelle.
“Amor foge a dicionários e a regulamentos vários”.
Sim. Emma Thorne não precisava descrever isso. Contanto que ela olhasse Anabelle por alguns segundos, sua amada partilharia de sua poesia particular.
Fale com o autor