O som melodioso e fechado do órgão e do piano ressonava intenso na atmosfera pesada de incenso e lírios mortos, agitando o ar da caixa torácica de Felipe, mas longe de trazer qualquer traço de alegria, cerceava seu coração num aperto misericordioso. Andava, o chão frio estalando no contato com seus sapatos, seu casaco ocre roçava vez em quando contra a parede cinzenta de pedra gélida, os tons coloridos dos vitrais eram os únicos a trazer algum contraste no lugar, e mesmo assim era uma cor fantasmagórica, fugaz. As luzes ainda estavam por acender.

Adentrou o confessionário. Era tão escuro e abafado, dava-se a impressão que a mão divina singelamente desejava esmagar seus pecadores. Não, seus pecados, pois seriam perdoados sempre os pecadores, sendo sua exceção momentaneamente insignificante dado o contexto.

Pelas frestas da grelha via a figura do padre Theo. Olhou para as próprias mãos trêmulas, e num súbito ataque de vertigem, viu em si o homem ao seu lado, numa amálgama de anjo caído de auréola, suas mãos de terra morta confundiam-se com aquelas portadoras do livro santo e dos cálices de sangue e das hóstias de carne. Seus cabelos como nozes retraíam-se para dentro da casca, deixando alguns fios grisalhos aqui e ali, sua expressão angustiada e culpada era trocada por uma serenidade inocente, só sua boca permanecia quase a mesma, cheia de escarro duma infidelidade exposta a todos, mas imperceptível, não obstante. Juntos, mas nem tanto.

— Aconteceu uma tragédia.

Sua voz não saíra mais que um murmúrio. Evitava olhar para o lado.

— Diga o que se sucedeu, Felipe, meu filho.

— Lembra-se de Adrastéia? Filha da dona Mercedes, sempre a enfeitar o altar com antúrios e deixar trocados?

— Sim, mulher feita ela, muito bonita e prestativa. A mãe também, uma alma santa.

— Era sim; agora está morta.

Houve alguns minutos de silêncio, Theo estava provavelmente a ponderar sobre a nova alma que deixara este plano, e suas próximas palavras. Tremulou o corpo de Felipe, gélido.

— Que Deus a tenha! Colocarei seu nome junto da listinha da semana, para todos rezarmos na missa de domingo. E faça-me o favor de rezar por ela também, Felipe, que você tem voz forte como cavalo, de abrir caminhos de luz.

— Irei sim, Theo.

— Céus! E a mãe já sabe?

— Desmond já foi falar com ela.

— Desmond? Desmond?! Você deixou um animal daqueles ir dar notícia tão delicada? Faltou-lhe juízo?

— Perdão, padre. Mas era ele quem melhor conhecia a falecida. Pareceu correto.

— Meu filho, continuo te dizendo, ele não vale o próprio alimento. Um vândalo, vagabundo!

Felipe discordava, entretanto nunca expressava sua opinião em voz alta, ou ao menos, não na presença de Theo. Afinal, para si, Desmond era…

Desmond…

My lover's got humour

She's the giggle at a funeral

Knows everybody's disapproval

I should've worshipped her sooner

Lembrou-se com um arrepio de quando encontrara-o pela primeira.

As mechas vermelhas, cerejas inchadas, demasiadamente maduras que, pela ação da gravidade, arrebentavam-se no chão e, a terra tomando-as, putrefaziam-se, seus tons de outono preenchiam seus olhos castanhos. Era lindo, envolvente.

Estavam no cemitério, acompanhando um enterro, Felipe era o coveiro da cidadezinha, Desmond o irmão da falecida. Traziam respectivamente uma pá e inocência, cravos roxos e amargor.

Verdejava a grama naquela tarde primaveril, as lápides fundidas com cruzes, calcadas com nomes e desenhos, silenciosamente despontavam dos campos-pampas como velas macabras de aniversário sem motivos para comemoração, seus próprios enfeites de margaridas brancas e kalanchoes laranjas e vermelhas, uma ou outra foto, cata-ventos arco íris e pequenas cercas-vivas semimortas. A procissão ia vagarosa, seguindo o relevo de pedras chafurdadas, formando assim o caminho.

O buraco cavado acomodou bem o caixão. Felipe ouvia Theo com a velada admiração de sempre, mas sem se juntar ao coro de rezas, quando uma risada cortou o ar úmido e quente, a última respiração entrecortada do dia, pois o ar instantaneamente gelara pela descrença infindável de todos. Era Desmond, encostado numa árvore alta com enfeites de pequenas orquídeas brancas, acabando-se de rir, talvez com um certo jeito histérico. Era bonito, de todas as formas, como a risada dela.

Céus, como queria tê-la conhecido antes.

Olhos-juízes empalavam com uma moral superior, armavam nas ideias o rubro do cabelo com fogo infernal. E Desmond não dava a mínima, continuou assim por alguns minutos, sem família ou amigos próximos que o censurassem.

De repente, parou, cravando seu olhar em Felipe. Primeiro foi sério, depois abriu um sorriso zombeteiro e foi-se cemitério adentro.

Seguira-o, não houve outra maneira. Havia uma solução de curiosidade, mas sua concentração era mínima. A maior parte do soluto constituía-se de uma procura pelo entendimento, pela verdade de Desmond. Ziguezagueara por entre os túmulos, perdia-o e reencontrava-o por entre capelas, lápides e árvores, retorcendo-se todas, dedos entrelaçados, mãos dadas, o toque mortal-divino no teto sistino, juntos, juntos.

Pulara o portão, afastava-se da vila, daquela civilização hostil e estruturada com barras de ferro incandescente. O caminho era só solo, amarelo-acastanhado, o céu ainda muito azul puro, sem nuvens, blocos brancos, prédios enormes deitados nas camas invisíveis, flutuando em sonhos delicados, suaves, só corporalmente existentes.

No fim daquela estrada comprida, estava a casa de Desmond. Cinzenta, solitária, de teto baixo, pouco verde em volta, a exceção de alguns arbustos e amoreiras.

Trancou-se o quarto. Felipe começara a se arrepender de suas escolhas, notando a falta de possibilidades de fuga. No fim, não precisou realizar nada que seus pensamentos ansiosos imaginaram. Desmond era cortês e gentil, apesar de miserável e vingativo. Contou-lhe segredos e ideias, mirabolantes, lógicas por vezes, passionais por outras, trançando-se como um waltz romântico, as mãos dadas, conduzindo e deixando conduzir.

Sua estimada irmã, corajosa e empática, esquartejada. A causa fora sua luz interior, intensa a ponto de gerar ódio, mas também de um amor incondicional. Dizia-me que teria morrido feliz em seu lugar, que Mallory, assim se chamava, era a páprica verdadeira da mais alta qualidade.

If the heavens ever did speak

She is the last true mouthpiece

Every Sunday's getting more bleak

A fresh poison each week

Todos mereciam trilhar um caminho construído por eles próprios, que a voz superior podia ser moldada conforme certos preceitos flexíveis, enquanto outros poucos eram fixos. Afinal, não desejavam embasar nenhuma ação vil, apenas combater a passividade das orações por ali praticadas.

Mallory tinha formas de abrir com enxada trilhas ornadas de mármores, uma vez rejeitados, alecrins e angélicas, recolhendo até mesmo o mais inútil barro e oferecendo para gêneses de vasos. Era ela Capella, tão lindamente brilhante no céu. Coragem fora quem aflorara tais atributos em si, seu caminho, sua verdade. Trabalhara arduamente, encaminhando mentes para uma quebra de tradições, libertação de amarras que por um tempo tiveram ela mesma como refém. Não era, apesar de suas palavras ardidas, de todo revolucionária, e ainda por vezes ajudava a misturar antítese e tese para formar a síntese, trançando ramalhetes para coroas gentis.

Para Felipe, de olhar curioso e compreensivo, fora oferecido as direções. Questionara um pouco, ainda indeciso. Precisava de tempo para pensar, decidir-se. Ou pelo menos assim pensava, contudo em seu coração palpitante já estava convencido, o Amor que Desmond seguia fielmente ajudara a trazer sua primeira alma para seu lado, junto de um sopro de confiança.

Desmond seguia com a missão de sua irmã, fazendo do luto sua força, contudo era espinhosa tarefa, Mallory fora a sacerdotisa suprema, a guia verdadeira, não tinha ele, nem de perto, jeito para as façanhas realizadas, era de rezar para si, entre quatro paredes, sempre sozinho, só junto dela em seu santuário. Tomar das mãos frias da moça tamanha responsabilidade, uma bomba relógio com timer imprevisível… entretanto, tinha fé no moço e nas suas habilidades dormentes.

Pouco a pouco todos os seguidores aceitavam a transição. Organizava-se encontros, dos quais Felipe silenciosamente participava, procurava-se qualquer alma desgarrada, das quais Felipe agia como fácil pastor, mantinha-se vigílias a seus integrantes, às quais Felipe, mais uma vez, oferecia as mãos e olhos caridosos. A pressão era um veneno pulsando nos seus átrios, ventrículos, artérias e veias, órgãos, tecidos, capilares, célula a célula, ressuscitando e renovando-se semana após semana, quase mortal. Tinha fundas olheiras, os olhos eram valas onde as folhas semivivas ganhavam seu último sopro de existência e motivo para tal, queimando, labaredas brilhantes em seus olhos amargurados.

Se Felipe não estivesse ali, não saberia o que teria feito.

We were born sick

You heard them say it

O Amor que Desmond devotara-se trabalhava de formas misteriosas, trazendo-lhe um agrado naquele momento tão angustiante. Não tinha outro altar além do seu corpo, pelo qual instrumentalizava sua veneração, mas se tivesse, deixaria chocolates e margaridas, agradecimento profundo e sincero. Via nas ações encabuladas e incertas de Felipe um que do Amor, mas ainda era Felipe em essência, pura e cândida, se pudesse alguém entre eles ser limpo por excelência.

Conversavam longamente. Felipe ria, sua companhia tinha se tornado o único motivo pelo qual Desmond conseguia minimamente se manter de pé. Fazia tudo pela irmã, era verdade, mas sua alma, tão rota e mergulhada em saudades e amargura, não aguentaria sem uma âncora.

Felipe era sua âncora.

Seguiam num valsado silencioso, mãos, motivos, felicidades e existências intrinsecamente entremeado, juntos, juntos.

E o padre odiava.

Theo julgava Desmond como a pior escória herege que já pisara na Terra. Temia-o mais que a Peste, preferiria abraçar o próprio mármore do inferno a ter de ser amigável com aquela criatura desprezível.

Doía em Felipe seu peito, não conseguia escolher um dos lados da dicotomia, tinha apreço por ambos. Conflito de palavras macias, travesseiros de penas de ganso amortecedores, e palavras duras, estrado de sândalo sacro, rude de impacto.

No fim, sua alma sensível escolheu o que era gentil.

My church offers no absolutions

She tells me: Worship in the bedroom

The only heaven I'll be sent to

Is when I'm alone with you

Inevitável fora seu desvio do caminho que por tanto tempo seguira, seus sapatos gastos por pedras que ele beijara com devoção, e em nenhum momento arrependia-se: muito pelo contrário, agradecia por ter sido capaz de passar por ali. Caso contrário, não teria sido capaz de aguentar e de tomar as decisões corretas quando fora testado.

Preparara seu quarto para tal, decidido que suas palavras e pedidos só seriam realizados ali, ainda um pouco temeroso das palavras de Theo a si. Preferia a solidão acolhedora, juntos no vazio.

Junto de quem?

Fora Desmond quem sugerira a Verdade para sua devoção. Em meio a risadas, comentava que fora a procura por ela que tinha trazido-o até ali.

E não fora?

I was born sick, but I love it

Command me to be well

Desejou um romance, mas parecia querer uma doença mortal. Como algo acertadamente doce podia ser errado? Como algo tão poderosamente transformador, a salvação de uma alma, poderia também condená-la?

Se era doente como diziam, então agradecia aos males que lhe acometiam, preenchendo pulmões, estômago, coração e cabeça. Queria ferver na febre como as almas no ácido sulfúrico, tossir seus órgãos, arrancar sua pele, Desmond valia todas aquelas penitências. E nem pelas ordens dela consideraria ir contra seu recém descoberto sentimento, e nem ousaria-se tal pedido.

Amen, amen, amen

Tomou-lhe a mão entre a sua, estava pronto.

Take me to church

I'll worship like a dog at the shrine of your lies

I'll tell you my sins so you can sharpen your knife

Offer me that deathless death

Good God, let me give you my life

Reuniu-se, pela primeira vez, com os outros. Desmond assumira a dianteira, ainda de mãos dadas, não podendo Felipe, de olhos colados momentaneamente, espiar para descobrir aonde iam. Apesar disso, ciente estava dos caminhos inusitados que tomavam, seu cerebelo indicando que viravam aqui ou ali.

O chão foi afofando-se, massai pinicava seus tornozelos, alguns mosquitos trombavam-se consigo. Cheiro de estrume de cavalo e grama era forte, temia pisar em algo indevido. Só conseguia mesmo era aproveitar o sol, que esquentava seu coração e trazia-o mais perto da luz, queria correr pelos campos e pastar junto dos equinos, a vida deles parecia mais fácil que a sua.

— Pode abrir os olhos.

Estavam prostrados em frente a um enorme celeiro carcomido pelo tempo. Desmond destrancou o cadeado grosso e enferrujado com uma chave igualmente abronzeada, e deu passagem.

A palha estava posta aos montes, pequenas agulhas amarelas. As paredes internas eram mal pintadas, e as vigas eram levemente corroídas. Havia umas caixas que improvisavam mesas e assentos, nada muito impressionante.

No meio disso tudo, duas pessoas. Era um grupo extremamente restrito, porém assim era necessário. Foram apresentados em ordem. Renata e Alessandro.

Renata ornava-se com uma tiara de rosa meio pontuda, talvez vindo desta mesma flor a matéria prima para o mel que era seu cabelo, seu rosto redondo como uma abelha amigável, mas sua voz soava densa, pronta para prender dentro de si, com um toque hipnotizador do zumbido das asas chocando-se. Era meio miúda, ainda mais no vestido de saia rodada que fazia suas pernas parecem palitos, mas aterradora.

Alessandro, por sua vez, tinha o porte de uma araucária na décima segunda badalada dos sinos que anunciam a lua a pino. Tinha orelhas compridas meio escondidas pela casca negra que era seu cabelo, folhas de chá mate picando seu rosto delicado. Cheirava fortemente a óleo de pinho e sabão de coco, emanando de suas roupas, camisa com prímulas vermelhinhas e calça suja de terra.

Conversaram brevemente. Alessandro arrastava bastante alguns erres, e no geral eram bem econômico com as palavras, respondendo perguntas com grunhidos e monossílabos. Renata era mais aberta, mas confusa.

Dadas as devidas apresentações, o caos começou.

— Eu descobri quem matou minha irmã.

Take me to church

I'll worship like a dog at the shrine of your lies

I'll tell you my sins so you can sharpen your knife

Offer me that deathless death

Good God, let me give you my life

Uma gritaria infindável apossara-se do celeiro onde estavam reunidos, porém divididos, cada um com seu papel especial na trama. Desmond quem começara o incêndio da discussão ao colocar o assunto em pauta, Alessandro jogava gasolina com sua opinião inflamada, Renata tentava abafar o fogo, e Felipe, na confusão, não conseguia formar uma opinião concreta.

Até que conseguiu.

— Calma. Respiremos.— Theo tinha razão ao comentar sobre a força da voz de Felipe, essa era capaz de abrir mares e vias, cavar escarpas como um terremoto. Tinha a atenção de todos.— Vamos achar essa pessoa, deixem-me falar com ela, que eu acredito na Verdade como guia minha.

Renata encarava-o, desesperada. Felipe logo a consolou:

— Só vamos atrás dessa pessoa.

A moça tremia e temia, porém concordou com um aceno breve com a cabeça, a voz entalada na garganta.

Fora a vez de Desmond tomar o palanque imaginário:

— O nome dela é Adrastéia.

If I'm a pagan of the good times

My lover's the sunlight

To keep the goddess on my side

She demands a sacrifice

Com dificuldade, Felipe recordou-se de Adrastéia. Era reclusa numa caixa-eclusa própria, subia às vezes a superfície, os olhinhos pretos como janelas de um barco branco demais. Assustava, mas também se assustava fácil, pulando longe como se tivesse molas nos pés. Sua calmaria era uma máscara, mas nada disso Felipe sabia. Só tinha consciência que Adrastéia era de voz baixa e suave, mas falava obtuso e cortante com os olhos. Vira-a poucas vezes nas reuniões de maior porte.

Adrastéia. Conseguiria realizar tal ato tenebroso?

— De quem você ouviu isso?— Alguém questionou, em papel da coletividade curiosa.

— Na última reunião era a única coisa que se comentava, e o pior é que ela está sumida desde então. Foi a uma cidade longínqua, mas volta.

Explicou então mais alguns detalhes. Sabia-se que Mallory morrera e fora esquartejada, não acharam a arma, e as forças locais estavam tentando abafar o caso por motivos tão diversos mas ao mesmo tempo insignificantes diante da tragédia. Não houve motivo claro para a morte, porém inimigos realmente não faltavam.

— Falemos com Adrastéia, descobrimos onde está a arma e…— Começou Felipe.

— Isso a gente já sabe.— Cortou Desmond, secamente. Fez um movimento para ser seguido.

Caminharam para fora do celeiro, fazendo o caminho de volta para a vila. Já beirava o fim do sol escaldante, agora amornando-se para, daqui a algumas horas, pôr-se.

— Ainda acho que devíamos tomar a situação com as nossas próprias mãos. Um sacrifício.— Resmungou Alessandro.

— Evitar uma morte em vão, lutar contra sua raiva, já é sacrifício suficiente.— Renata disse, amorosamente. Pousou uma mão no ombro do amigo, a vibração natural de sua voz parecia entrar em frequência com o corpo, agitando-o e acalmando-o ao mesmo tempo.

Felipe notava o efeito calmante do céu ensolarado em Desmond, lentamente deixava sua respiração normalizar.

— Ela era a epítome do Amor, minha reza mais crua e sincera, duma alma inefável. Eu sinto tanta falta dela, como se uma parte minha tivesse também sido arrancada e eu a vejo nessa necrose inevitável, como tudo que um dia viveu e agora não respira mais.

Felipe estendeu sua mão direita, pois esta de Desmond carregava um saco pesado. Entrelaçaram as mãos, ensaiando o bailado de bailarinas, de corpos chocando-se, elevando-se, despejando-se no chão para tornar a planar no ar por instantes longos demais para serem explicados por meios racionais. Juntos, juntos.

— Queria que Mallory fosse pedra, assim não estava a servir aos vermes. Poderia permanecer estonteante, imutável. Minha pobre irmã, não consigo crer que Adrastéia tenha feito nada daquilo.

— Toda a pedra muda, pelo vento, pelo sol, pela água. Desfaz alguns grãozinhos, descora, abre nano fissuras.

— Eu guardaria ela direitinho. Não teria perigo nem da mais leve brisa encostar.

— E acha essa a solução? Prender ela pra sempre? Por favor, Desmond, pedras tem que ficar na natureza, livres, deixar o sol e a água da chuva banhá-la, os insetos visitarem, conhecerem, a grama crescer a sua volta, o barro manchar, o ar soprar, limpar. Além disso, conseguiria você se afastar, e consequentemente a todos? E mesmo que não concorde comigo, não pensa que mesmo guardando com esse zelo excessivo, ela não mudaria? Você pode até parar ambas naturezas, a nossa e a de fora, que nos cerca, mas nunca o tempo. Sabe, se não tivesse a Verdade chegado primeiro através dos seus lábios, seria o Tempo que eu escolheria, sem dúvidas.

A caminhada era um algoz cruel. Felipe entendia aquele sentimento de culpa, e moldava-o como barro, desfazendo-o em areia, enquanto o vento soprava para longe, ambas naturezas agindo juntas, juntas.

— Eu sinto ela nesse sol.

— Ela está aqui, acariciando seu rosto, passando toda a força dela pra você.

Pararam, estavam em frente a um poço velho e carcomido pelo tempo, o tampo de madeira mal fechava a entrada. Desmond começou a soluçar, lágrimas escorrendo de seus olhos, amargas e gentis, misericordiosas. Poderia encher o poço com aquele choro sentido, então seus corpos seriam um só, transbordando aquela mágoa da qual padecia sua alma. Confessou:

— Dói tanto, Felipe. Eu não sei se eu consigo aguentar.

Tentando abarcar aquela angústia em si, abraçou-o, deixando embrenhar, devagar, as raízes provindas das sementes malditas, que adentravam as rachaduras da alma de ambos, agora amálgamas numa unidade esburacada, os vazios eram preenchidos, para bem ou para mal. Se permitia um desvio, eram Atlas, evitando todo o peso da vida e da morte de colidir na terra, alma sensível.

Foram, e só após alguns minutos, também envolvidos pelos braços de Renata e Alessandro, um pequeno bolinho de suporte. O calor era sufocante, porém parecia tão refrescante diante da dor.

A perda parecia distante.

Ela estava ali, o sacrifício fora suficiente. Houve uma semente de paz, apaziguadora. Eventualmente brotaria, mas ainda não era hora.

O gosto amargo permanecia, mas mais suave.

To drain the whole sea, get something shiny

Something meaty for the main course

Alçaram do fundo do poço a tal faca. Era pesada, mais pelo seu estigma do que por sua matéria. Reluzia, ensopada apenas em água, odor leve de alho, meio cega, talvez por tentarem cortar ossos, não sendo essa sua função. Espantoso como algo tão ordinário produzia vinho de sangue, hóstia de carne.

Serviria. A quem ou o que, estava longe de ser determinado.

Renata fora quem, segurando o objeto, intermédio de ações tão vis, decidiu que guardaria consigo, talvez por não confiar nos colegas para tal. Afinal, Adrastéia, logicamente, só poderia ser morta pelos meios da morte que ela mesma causou, portanto, guardar a faca seria sua garantia. Procurou por resistência, não achou, talvez até por Desmond mal prestar atenção em suas palavras.

Num único movimento, o moço abriu o saco que levava consigo como se abrisse a barriga de um peixe. O cheiro de cloro predominou.

— Adrastéia volta hoje, logo após a hora mais escura. Penso que é melhor interceptá-la logo ao chegar.— Desmond observava a água fixamente.— Tem uma corda na minha casa, usem-na para amarrá-la, impedir que fuja. Tragam-na para o celeiro.

Ofereceram-se Felipe e Alessandro para o trabalho, pois Desmond, se fosse, não usaria tal corda para imobilizar nada além do ar.

— Vamos, Felipe, tolo cavaleiro corajoso! Capturemos o alazão.— Alessandro deu uma risadinha de tom irônico.

Seguiram seus caminhos.

Os dois remanescentes mantiveram-se parados, Renata de olhos fechados, murmurando para Morte preces, Desmond de olhos abertos, vendo-os ir embora.

— Meio óbvio que fará Alessandro, não?

Silêncio. A paz digladiava-se em anseios de cortar a terra e alcançar o sol, mas ainda era dicotiledônea, frágil. Seu espírito ainda agitava com ânsias de banho de sangue, fresco, quente, escorrendo, manchando a si e a terra, devolvendo o que fora tirado, nutrientes e éter.

— Re, você não entende.

— Talvez não. Alessandro a conhecia muito mais tempo que eu, eu sei… Não justifica mesmo assim.

— Nada justifica, mas alguém movido por esse ódio não segue regra ou moral alguma. Eu estou com raiva, porém tenho Felipe… Ele só tem a si mesmo, espiralando em sentimentos muito piores que os meus, como um redemoinho oceânico cuja única chance de acabar seria ser drenado. Como drenar o mar?

— Não há necessidade de drenar, só precisa abrir caminho.

— Cantando, morrendo afogado. Só assim abriram o mar.

— Nós já tivemos nosso cordeiro desgarrado morto. Esperemos que Felipe seja pastor suficiente.

— Se andássemos por sobre as águas…

— Certamente, Desmond, seria mais simples. Saiba você que para tal, só é necessário fé. Torna a alma leve.

— Não; torna o corpo leve sem alma.— Renata o observou com uma curiosidade de rato diante de galo, ou seja, com horror e desespero.— O meu já está assim.

— Felipe sopra a alma de volta, estou certa disso.

Desmond sorriu de maneira infantil, boba. Sim, o moço era seu pastor, ele era uma ovelha, seguia mansamente, guiado e guiando, por verdes pastos alimentados por águas tranquilas. Nada faltará, nem alma nem leveza.

Serviria.

That's a fine looking high horse

What you got in the stable?

We've got a lot of starving faithful

Felipe e Alessandro seguiram o caminho tortuoso de volta. Tenso era o ar, difícil de respirar. A tarde ia-se amarrada ao sol, juntos, juntos.

Verdade tocou levemente às costas de seu seguidor, preparando para depois e para o agora, agindo num conjunto maior, para um desfecho digno de anos de preparação. E como foram anos!

— Qual era sua relação com Mallory?

Fora meio pego de surpresa, estava com a mente ocupada chutando pedrinhas na estrada. Demorou a responder.

— Salvadora, creio. Não acho palavra melhor pra explicar. Eu tava numa buraqueira desgraçada antes dela me encontrar, e aí me ajudar a procurar pela minha Justiça!— Fez um movimento respeitoso, beijando três dedos e batendo-os sobre o coração e sobre a testa.— Ah, Justiça… Tão inaudita em sua pulchram natureza, o cerne de toda minha quod. Ela é cega, mas vê no âmago do meu ser como a própria Verdade. É de um eflúvio de jasmim e misiótis, um beijo extático no plano superior, uma…

Continuou sua dissertação dicionaresca, deixando Felipe um pouco confuso. Em dado momento já não falava mais nada humanamente compreensível, uma infinidade de adjetivos, hipercorreções, latim e neologismos.

Soubesse a Verdade que fazia, assim rezava o moço.

— Mallory era isso tudo também.— Comentou, ao sair do seu delírio.— Era duma força só dela, Coragem tinha sorte de ter ela por perto… Eu até tentava ajudar com essas ovelhas desgarradas, mas ela não queria não. Dizia que eu tinha de madurar ainda, senão ia fazer mais estrago que bem.

Estavam perto, apenas algumas dezenas de metros. O vento esfriava, o céu tingia-se de um roxo cru, como se as circunstâncias da existência se preparassem para um algo terrivelmente maior.

— Quando ela morreu, eu sai um bocado ensandecido atrás de qualquer pista. Foi a Renata que me impediu de pirar de vez, eu acho. Ela vinha devagar, me engambelava no papo dela, deixa eu te dizer, essas da Morte são boas na lábia… Enfim, ela me pedindo calma foi impressionante, quase surreal. Não reclamo… muito. Ela é amigada minha faz anos, tem intimidade. Tava pensando no meu bem, eu tava cavando fundo a minha própria vala, pregando o terninho de madeira prego por prego. Uma desgraça! Mas aí ela ia me enrolando devagarinho, me arrastava pra casa dela, dizendo que tava frio, que ia chover, aí falava pr’eu ficar, tomar café, comer bolo, que não aceitar era fazer desfeito da nossa amizade. Aí eu ficava, né? Se não fosse isso eu provavelmente tinha achado a Adrastéia e tinha trucidado ela.

— Você conhecia a Adrastéia?

— De nós, acho que sou eu mesmo que conhece ela melhor. É uma mulher da Vingança, suspira demais, é fraca de pulso e meio asmática, mas gostava muitíssimo da Mallory. Eu não sei qual era o rolo delas, mas se davam tão bem.— Sua respiração acelerava conforme sua raiva aumentava.— Num entendo como que isso pode ter acontecido, que raios que a Mallory teria feito pra morrer? Essas coisas pra Vingança não é olho por olho, dente por dente? Adrastéia tinha ninguém não, uma miserável, nem família, nem amigos. Só a Mallory. Quem era tão importante pra morrer e justificar alguma coisa assim?

Abriram a porta da casa com calma. A madeira cedia barulhos estranhos sob seus pés, as dobradiças chiavam com o movimento.

— Tem tanta coisa que eu não entendo. Eu amo minha Justiça, ajudo quando posso, quando pede, mas Vingança é sempre duma motivação tão egoísta e privada. Combina com aquela víbora. A Justiça é sempre o melhor para todos, das regras estabelecidas para esse convívio nosso. Fazer o certo…

— Às vezes a Justiça não tem capacidade de completar em si as ações que prega em sua idealização, não?

— Ah, Felipe, isso é verdade, sem trocadilhos intencionais, mas sei lá. Não é assim também com você? A Verdade nem sempre traz coisas boas não, quantos não morrem por saber ou pregar uma verdade, por serem verdadeiros com os outros ou até consigo mesmos? Ou Amor e a Morte, mesmo eles podem ser terríveis, em seus truques de mundo maior, tentando achar algo impossível.

— Façamos o possível, dentro das nossas habilidades.

Procuraram brevemente, Alessandro encontrando a corda na gaveta da cozinha pequena. Seria um cômodo acolhedor se a louça não se empilhasse como um monstro horrendo e malcheiroso e facas brilhassem penduradas na parede.

Apertava a corda, a fibra pinicava sua pele, os nós dos dedos, cortados de circulação pela pressão, confundiam-se com os nós da corda. As unhas estavam roídas até o talo da carne.

— Ela era muito querida… não é justo que Adrastéia pague pelo que fez? Sofra e morra, lave a terra e sua alma, aquela damnare!

— Não sabemos ainda se é verdade.

— Não sabemos?

— Alessandro, mesmo que todos digam que sim, nós não temos provas factuais. Isso não é nem correto, nem justo.

— Prefere que eu acredite em um estranho e uma mendax, ao invés de ouvir a todos que estiveram ao meu lado durante meses?

— Mas não esteve Adrastéia também? Afinal, vocês caminhavam juntos atrás de Mallory.

Aquilo que precariamente prendia toda a raiva de Alessandro arrebentou num ‘pec’ quase audível.

— E DE QUE ADIANTOU? ELA NOS TRAIU, MATOU A MALLORY! PRODITRIX! NEM MESMO A RENATA QUE REZA PRA PRÓPRIA MORTE FARIA ALGO ASSIM!

— E sua solução é matá-la? Dente por dente, olho por olho, alma por alma?! Você está sob os olhos da Justiça, não da Vingança.

— Sei que não, mas não consigo deixar de pensar se não seria melhor. E se ela fizer de novo?

— Por favor, Alessandro. Presunção de inocência, isso é o mais básico.

O moço ficou parado, remoendo aquelas palavras, ressonando nelas suas morais. Sim, Felipe tinha razão, Adrastéia, por mais asco que lhe causasse, era inocente até que se provasse, definitivamente, o contrário.

— Arre, leis dos homens e da sociedade, mas ainda é acertado. Façamos o possível, não deixemos de lutar jamais.

— Ela será punida, no fim. Talvez a convivência com seu pecado já seja punição suficiente.

— Talvez.

Continuaram aquela romaria até a entrada da cidade, seu portal pomposo de tijolos vermelhos e placa branca de bem vindo. Já estava praticamente escuro, gélido, de vento cortante. Enfiaram-se atrás de um canteiro de margaridas brancas, o calor trocado de ambos os corpos era reconfortante.

— Cê acha que Adrastéia pensou que era melhor que a Mallory e tentou tomar o lugar dela?

— O que faz você criar tal hipótese?

— Ela podia não estar agindo por plano superior nenhum, só por conta própria, sentimento próprio. Essas da Vingança são assim, meio ambiciosas e centradas em si.— Ponderou um pouco, o vento assoviando, ensandecido, arrancando as margaridas e suas folhas. Pó de terra voava em ambos.— Só que ela não tinha muito jeito de líder não, fechada demais em si. Além disso, não dá pra substituir a Mallory.

— Não acho impossível. Tem muito burrico se achando garanhão. E você sabe que não ter ares não significa muito.

— Heh, pode até ser, mas se fosse ela nossa guia da carroça, todos iam morrer famintos por fideme rezas e luz. Eu duvido até do Desmond, tadinho, imagina de alguém como ela!

That looks tasty

That looks plenty

This is hungry work

Os sinos da Igreja indicavam o início breve da missa das nove. Já era noite, tão escura que não conseguiam se distinguir das folhas do arbusto. Sentiram algo roçar um no outro, talvez fosse o vento, algum inseto, ou eles mesmos, um contra a outro. Apesar disso, estavam juntos, juntos.

— Você me acha ruim, Felipe?

— Não. Eu entendo sua raiva, digo, entendo o porquê de você senti-la. Não julgo, não me encontro em posição para isso.

— Diz isso por não saber o quanto eu queria ver a Adrastéia estirada que nem cr…— Ele morreu com a frase nos lábios. O silêncio preenchia suas bocas com um gosto distinto de melaço destilado— Sabe, a Justiça não é uma única vozinha, é o retumbar de todos os atabaques, bongôs, congas, bumbos, caixas, saikos, tamborins, em uníssono, reverberação nessa frequência natural do mundo, excitando e provocando terremotos e maremotos, as ondas longitudinais com suas cristas e vales tão distintos, difratando nos cantos das almas… É sempre trabalho ingrato, mas necessário, e no fim traz satisfação de encher a boca de mel mais méleo que o próprio mel das flores mais melícias, acalma o trovão do coração, numa fatiga dulcificada. Saborosa.

Esperaram mais alguns quartos de horas. Estavam praticamente colados pelo frio, porém nada parecia resolver o problema elementar do aquecimento. O chão roubava muito tranquilamente todo o calor excessivo, apesar dos músculos ainda tremerem, os vasos retraírem, os lipídios serem rachados, era trabalho à toa, como lutar contra a areia roubada das ampulhetas do Tempo.

Ao longe, avistaram uma estrela bem ao fim da estrada, crescendo em uma luzinha vagalume que só continuava a aumentar conforme a pessoa se aproximava. Era Adrastéia, Alessandro tinha certeza. Vinha iluminada por um lampião de luz mesquinha, num vestido branco surrado, seus traços visíveis, apesar da dificuldade imposta pelo escuro.

— Você segura, eu amarro?— Felipe quem questionou, estendendo a mão. Recebeu a corda como resposta, um arrepio terrível correu por sua espinha ao encostar, como se recebesse em eletricidade todo ódio do moço.

Assim que a moça passou por ambos, foi restringida e nós suspenderam qualquer movimento movido por adrenalina. Sem fuga, sem luta, apesar de que qualquer um deles seria mais um reflexo, maquinarias involuntárias do corpo, ao contrário de uma ato pensado. Sem preservação, sem vontade.

Take me to church

I'll worship like a dog at the shrine of your lies

I'll tell you my sins so you can sharpen your knife

Offer me that deathless death

Good God, let me give you my life

— Theo, diz pra mim: o quão bem você conhecia Adrastéia?

— Não muito, eu a visitei faz alguns dias, a mãe achava-se perturbada por algum espírito. Por que?

— Você se lembra da Mallory? Era irmã de Desmond.

A resposta novamente tardou, e dessa vez veio seguida de tons de cautela, acobertando o desprezo que sentia.

— Sim… não me diga que foi ela que…

— Infelizmente, foi sim. Ninguém sabe como ela morreu, mas você entende, né? Digo, ela era muito estimada, não é inimaginável alguém ter tomado as mágoas com próprias mãos.

— Como o próprio Desmond?

Felipe riu uma risada sem graça, seca, apesar de parecer mais leve e úmida, como pétalas de gérbera. Claro, sempre ele, o culpado desgraçado de todos os males daquele mundo. Seu grande amor. Sua maior doença, crônica, endêmica.

Estava longe dali seu amor, achando um carro que comportasse uma pessoa no porta-malas, e trazendo-o para perto ao fim da missa. Mesmo assim, estavam juntos, juntos.

— Desmond estava comigo naquela hora, não tinha como ser ele. Mas você até queria.

— Acha que eu quero alguma coisa como essa, Felipe?!

— Oras, você mesmo não gosta dele.

— Posso não gostar, mas fazer dele alvo de ideias sem fundamento como essa não é correto. Desejar mal aos outros não é certo.

Vergou-se para traz. O que era o certo? Não era aquilo que ele acreditara por toda sua vida, então não sabia, não entendia. Deu outra risada, igual a última. Aquilo tudo era uma piada de péssimo gosto, preferia acreditar em algo assim. Um pesadelo infindável.

As palavras, contudo, eram verdadeiras, em seus tons e nas curvas realizadas nos lábios, mergulhadas em saliva, colidindo com os dentes. E Felipe ouvia assim a sinfonia da Verdade e da Mentira e dos céus acima.

Sabia todas as verdades, e odiava a todas.

— Eu quero tanto acreditar nisso, Theo…— Soluçava, as lágrimas caindo pesadas como sua alma, o pêsame dos atos futuros. Achava injusto, nunca tinha pedido nada daquilo. Sentia pena de si mesmo, queria acordar na própria cama, envolto por lençóis frescos sabendo-se feliz, sem um peso sequer. Impossível. Riu em meios aos soluços, engasgou, tossiu. Sua voz era rouca.— Você é como um pai para mim, eu te amo, de verdade eu te amo, de coração suntuoso e piedoso, eu te amo e sei que vou te amar.

— Eu também te amo, Felipe, meu filho.

Levantou-se, as respostas amargas.

Take me to church

I'll worship like a dog at the shrine of your lies

I'll tell you my sins so you can sharpen your knife

Offer me that deathless death

Good God, let me give you my life

Do lado de fora do confessionário, a missa seguia, orquestrada por um outro padre. Já estava quase no fim, havia uma certa movimentação que assim o demonstrava. Sussurros, saias roçando, dobras de camisas se esticando, madeira do banco rangendo…

O coral preparava-se, arrumando os cantos litúrgicos do dia e suas posições devidas. Cantoria de pássaros enjaulados, mas sincera. Estavam também juntos, juntos.

Só havia uma vela solitária no altar, flâmula irregular.

Felipe sentou-se ao lado de Renata, zonzo pela conversa com o padre. Ela parecia rezar, um verdadeiro anjo, pressupondo que a Morte era anjo assim como seus seguidores. A luz dos vitrais tornava azul melancólico sua pele, olhava-o pelo canto com curiosidade.

— Você consegue, Felipe?— Sussurrou em meio a reza desconexa.

— Tenho, não?

O coral introduziu o salmo quarenta e nove com um zumbido leve. O maestro parecia satisfeito com a doce harmonia de seus discípulos.

— Essa passionalidade toda me incomoda.

— Entendo que sim, mas o lado deles também é compreensível.

“Ouvi isto, vós todos os povos; inclinai os ouvidos, todos os moradores do mundo” Cantavam com o coração, juntos, juntos.

— Alessandro e Desmond estão errados. Acham que matando alguém retiram sua existência, tornam algo melhor. Mas estão errados, a morte não é bem o fim da existência, nunca é. Sempre a vida do outro estará em nós, querendo ou não, é imortal enquanto existirmos com nossas consciências. A imortalidade mortal. E nada irá melhorar. A presença orgânica dela como a conhecemos se foi pra sempre.

“A minha boca falará de sabedoria, e a meditação do meu coração será de entendimento.” Sorriam-lhe as almas, juntas, juntas.

— A Morte fala com você?

— Tanto quanto a Verdade fala contigo.

— Então sabe que estão ambas trabalhando para mudar o destino que parece tão certo e previsível.

“Todavia o homem que está em honra não permanece; antes é como os animais, que perecem.” Era uma coincidência aquelas palavras, ou ainda muita sorte? Entre cento e cinquenta, aquele, exatamente aquele.

— Sob os olhos do acima, vamos juntos, todos juntos, num único caminho, sinuoso e pedregoso, difícil e dolorido, mas andamos independentemente desses tormentos, de mãos dadas.

Tomou a mão da moça, pousou um beijo amigável. Renata tinha uma expressão confusa, como se estivesse perdida. Não se achava no direito de ter uma dor exarcebada como a dos amigos, não perdera uma irmã ou uma salvadora, apenas uma amiga. Não deveria ter o direito da raiva exagerada, nem do consolo e dos abraços e da seguranças e reafirmações.

Tinha, apesar de tudo. Teve, por isso Felipe estava ali, não se preocupando consigo apesar do que estava por fazer mudaria para sempre quem era. Seus olhos bonitos se encheram d’água, sem entender nada. Questionou, a voz embargada, zunindo numa marcha fúnebre:

— Tudo vai acabar bem?

— Tenha fé. A providência divina ainda vale para todos nós. E se eu estiver errado, estarei aqui. Juntos, para enquanto o nosso sempre durar.

“Como ovelhas são postos na sepultura; a morte se alimentará deles e os retos terão domínio sobre eles na manhã, e a sua formosura se consumirá na sepultura, a habitação deles.” Era uma bela cantoria, sem dúvidas, as vozes em harmonia, juntas.

Levantaram-se, Felipe seguiu para a recepção da Igreja, Renata foi vigiar a porta.

O caminho parecia interminável. Foi até o altar, retirou algumas moedas do bolso. Sua mão encostou no seu recém adquirido presente, retirou tão rápido de dentro do bolso, derrubou o dinheiro no chão. Suspirou, catou cada uma com calma, adiando o inevitável. Observava como algumas brilhavam, novas, outras estavam ofuscadas. Jogou todas na caixinha. Queria ter trazido flores, gostava de enfeitar, rosas vermelhas, cravos, antúrios… os lírios estavam mortos, ou quase. Não tinha muita esperança para aqueles, mas alguns ainda permaneciam em vasos com terras e raízes. Moveu-os para próximo do Sol.

“Porque, quando morrer, nada levará consigo, nem a sua glória o acompanhará.”

Pensava como aquela desgraça desdobrava-se de formas inimagináveis, irreais para si. Não esperava ele, mero coveiro, homem simples, acabar daquele jeito. Tinha fé dos fins bons, suaves a alma.

Adrastéia veio em sua mente, os olhos fortes e tristes. Não fora toda errada, só tinha ideias tortas, precisava seguir um caminho melhor, mais saudável, e ela sabia disso, mas às vezes sentimos o que queremos sentir, nossa guia torna-se mentiras no altar, e mesmo assim glorificamos. E pensava assim numa confissão, num sacrifício.

“O homem que está em honra, e não tem entendimento, é semelhante aos animais, que perecem.” Felipe sussurrou, junto, o último versículo.

Era hora.

No masters or kings when the ritual begins

There is no sweeter innocence than our gentle sin

In the madness and soil of that sad earthly scene

Only then I am human, only then I am clean

Amen, amen, amen

Seguiam o plano, arrastando as almas, enquanto o corpo seguia suave no automático, pois era leve sem a consciência. Isso, se não considerassem Adrastéia, pesava como peso morto.

A moça, amarrada com cordas grossas e arrastada sobre o chão áspero com a mesma rudeza por dois pares de mãos e braços que movimentavam-se como carroça sem cocheiro, não se debatia; deixava a correnteza levá-la, a poeira preenchia seus alvéolos, tinha vontade de tossir, as pedras incomodavam ao passarem sob si, porém permanecia firme. Era assim, não havia o porquê de lutar.

Levaram-na ao celeiro, ataram suas cordas a uma cadeira recém arrumada. Encarava firmemente a todos, sem dar atenção especial à nenhum dos presentes. Parecia tentar transmitir uma falta de arrependimento, ou talvez realmente não soubesse se havia um par de olhos mais especial que os outros. Conhecia Mallory, mas jamais prestara atenção aos outros a seu redor. Só Alessandro, mas não o achava importante o suficiente. Estiveram juntos, mas houve descompasso.

A moça mantinha-se em silêncio, sem nem mesmo buscar uma prece ou uma justificativa. Estava com os olhos fechados, mas aos poucos ia-os abrindo para Felipe, sua voz amável a tentá-la.

— Adrastéia… Adrastéia… Adrastéia? Olha pra mim, por favor? Eu só quero entender o que aconteceu.

Continuou por prolongados minutos, Alessandro, enchendo-se de impaciência, encarava Desmond de tempo em tempo, como se esperasse que ele o interrompesse.

— Me perdoa, Felipe, mas só você acha que ela irá falar alguma coisa!— Disse finalmente, exasperado.

O moço virou para encará-lo, como se discordasse intensamente dele.

— Tenha paciência, eu estou próximo.

— Foram até a casa dela. A faca estava sumida, a própria mãe confirmou.

— Então o que estamos esperando?— Alessandro resmungou, alto. Renata buscou acalmá-lo, suas mãos numa restrição falha, contudo simbólica.

— Não prova nada.— Sua insistência estava obviamente irritando ambos os moços.— Eu posso estar agindo como o advogado do diabo, mas só mais cinco minutos.

Abaixou-se no mesmo nível da moça. Respirou fundo antes de continuar.

— Diga o que aconteceu.

Adrastéia finalmente abriu os olhos, duas frestas, ainda escuras, porém não se fechavam com tanta frequência.

— Vocês não entenderiam. Ninguém entende.

— Explique-me, eu posso tentar.

— Não, não pode. Ninguém pode. Ninguém me entendia além dela, e ela se foi. Alguém precisa pagar, alguém tem que trazer paz…

Tanta dor em sua alma fê-la sucumbir, estava com a razão. Os arrepios atrás da nuca, talvez fosse ela, Mallory, desalentada por sua decisão. Sorriu. Uma vez na vida serviria para algo, tinha um propósito.

E gargalhou, exatamente como Desmond. Ríspido, irônico, cínico, mas sinceramente achando graça. Sua voz era gasolina e pólvora e trinitrotolueno, mistura perigosa.

— Chega, Felipe. Nós vamos levá-la.— Desmond avançou, sem muita calma, enquanto Renata corria atrás de Alessandro pedindo por clemência.

O moço levantou-se, súbito. Algo em si gritava como estavam errados, e, num passo de confiança, colou-se com a cara da moça, procurando no fundo da sua alma algo além daquele descaso para com a vida.

Eram verdadeiramente escuros, quase cor de ébano, a hora mais escura, mas era também a hora das estrelas e da lua. Bonitos, mesmo assim. Continuou procurando, e quem muito procura acha.

Felipe praticamente via em sua frente o sangue rubro correndo do pescoço fino numa via única, despencando na terra, cerejas inchadas, demasiadamente maduras que, pela ação da gravidade, cascateavam até o chão e, a terra tomando-as, putrefaziam-se, mas os tons de outono eram então engolidos pelo azul do céu que refletia a água lacustre, e que igualmente espelhava seus próprios olhos. Eram lágrimas, cobrindo a íris ônix. Era a Verdade, e seus meios complexos e certeiros.

Uma vertigem insuportável tomou conta de si, então entendendo as pequenas ondas que formavam-se na superfície aquática, código morse a dizer verdades que Adrastéia não conseguia dizer conscientemente, mas que no fundo da sua alma sabia ser verdade. Miserável e misericordioso, Felipe abraçou Desmond, um gesto amoroso e desesperado, tanto para protegê-lo como para impedi-lo. Debatiam-se como peixes fora d’água, Desmond em toda sua cólera berrava, mal contida dentro de si ou pelos braços do outro.

Quando acalmou, Desmond ouviu Felipe. Pediu então que repetisse mais duas vezes, seu cérebro incapaz de seguir o raciocínio.

— Não é verdade, Adrastéia?

— Sim, Felipe. Culpa tenho, mas não fui eu.

Todos se calaram mentalmente, como se seus cérebros coletivamente resetassem. Afinal, as bocas estavam mudas, porém não era necessariamente verdade que nada diziam.

— ENTÃO POR QUE VOCÊ NÃO DISSE NADA?! VOCÊ SÓ IRIA MORRER?!! É ISSO?— Renata fora quem quebrara o silêncio, agora também histérica. Tremia toda, e mais do que nunca sua voz era um enxame enfurecido, retumbante.— QUAL O SEU PROBLEMA?! MORRER EM VÃO ASSIM?!

Alessandro, fora de qualquer controle físico, moral ou espiritual, meteu um soco em Adrastéia e ajuntou-se a sinfonia de xingamentos.

Novamente, acalmaram os ânimos. Renata, com mais educação nas palavras, repetiu a essência da pergunta: por que admitir culpa, ou ao menos não negar autoria em algo que, de fato, não era seu?

— Oras, se Vingança assim quis, assim seja. São as sementes plantadas, elas são mais importantes. Deixasse meu corpo ser adubo delas, e dele nascer as árvores que sintetizam as paixões de vocês: senso de justiça, mortes devidas, verdades reveladas, e tudo pelo amor.

Aquilo dava nojo a Renata, pensar que alguém acharia na própria reza um desejo de morte, quando a sua reza prezava a vida, e apenas buscava a aceitação da inevitabilidade do fim, em paz. Não, não daquele jeito. Gosto de limão amargo subia em seus lábios, teve uma ânsia de revirar as entranhas.

— Você fala de coisas que não entende.— Cuspia as palavras, apontando o dedo na cara de Adrastéia. — A morte não é mar calmo de afundar, elanão é âncora, não mais do que é boia e navio. Nada aqui é devido, nada tem tempo certo, a única coisa certa, exata, é sua própria existência, e somente isso. Você só sabe que é sua hora quando ela já se foi, então por que desiste?

— Não acha que já passou do tempo de alguém como eu desistir, tão errada e torta?

— Pra quem? Pra Vingança?

— Não, claro que não.— Ela suspirou.— Mas todas os seres vivos como nós passam pelo Julgamento e então tem de morrer.

Alessandro ressonou naquelas palavras, entendendo também o que acontecia. Precipitou-se em ira, entretanto esta morreu na curva da memória de Mallory, nas sinapses de compreensão ampla da Verdade.

Non, non fecit, quod? Quod? Mortuus est, quod? Reus… morietur… sacerdos… quod?— Balbuciava numa continuidade confusa e desconexa. Sentou-se, Desmond e Renata se aproximaram, e depois de inteirados da situação, não tinham reação. Estavam todos lívidos como mármore. Adrastéia foi a única ainda a sorrir.

— Você sabe quem foi, não é mesmo?

A moça concordou com um aceno breve.

— Pensei que não passava desse ritual-interrogatório de vocês, ninguém ia entender… que, principalmente você, não queria saber da verdade da Verdade, olhando-me de cima como realeza. Eu já passei por isso tantas vezes, sabia de alma, não aguentaria mais uma. Preferia aceitar, resignar as minhas condições tão tolas. Não faria falta, não faria mal. Nem minha mãe, nem a Vingança sentiriam minha falta. Então estava bem.— Entreolharam-se.— Estava errada. Você realmente afundou nessa. Ela estaria orgulhosa.

— Não há verdade indesejável para mim, só há fatos que eu gostaria que fossem diferentes… não há inocência mais doce do que a de quem assume um pecado por todos.— Felipe tomou cuidadosamente entre as mãos o rosto da moça, embrenhando-se entre suas mechas.— Mas já foi, você está alguns milhares de anos atrasada. Não precisa disso novamente. Ou talvez precise, mas não você, Adrastéia. Não hoje.

Foi solta. Levantou-se tímida, porém com um pouco mais de confiança.

— Não lembro de me sentir viva assim faz anos. É quase triste, saber das lutas ainda por vir, saber que esse sofrimento não acabará.

— É nossa condição mortal. Vale a pena.

— Você tem esses olhos de cavalo, de perspicácia rápida. Nota os arredores como presa, mas caça como predador.— A moça respirou fundo, um som asmático seguindo-a como um véu compridíssimo e mortal. Fora Desmond quem notara quão linda a moça era, apesar da aparência de acabada. O vestido branco sujo de terra e meio rasgado evocava uma aura fantasmagórica.— Teria sido mais fácil, caso não tivesse medo. É que eu e a Morte não temos as melhores das relações.

Renata nada comentou, continuamente incrédula.

— Foi a Verdade, sacra. Tem sorte que ela trouxe aos meus olhos o reflexo do seu âmago.

Adrastéia entregou uma chave para si, um minúsculo chaveiro de figa dourada pendurado solenemente.

— Você sabe aqueles armários atrás do balcão da recepção da Igreja? Vai lá, tem algo pra você.

Take me to church

I'll worship like a dog at the shrine of your lies

I'll tell you my sins so you can sharpen your knife

Offer me that deathless death

Good God, let me give you my life

Take me to church

I'll worship like a dog at the shrine of your lies

I'll tell you my sins so you can sharpen your knife

Offer me that deathless death

Good God, let me give you my life

Encontrava-se dentro da secretaria. Havia uma mesinha com um computador extremamente velho, e vários armários pesados de carvalho ao fundo. O livro de visitas e agendamentos estavam uma ao lado do outro, juntos, juntos.

Tirou seu presente do bolso. Uma chave, a chave de Adrastéia, apesar desta ter ares de ter sido roubada. Tão fixado estava em encará-la, não ouviu os passos pesados atrás de si.

— Está tudo bem, meu filho?

Felipe virou-se, a chave ainda em mãos. Quando Theo viu a figa, demonstrou confusão.

— O que faz com minha chave?

Sorrindo amargamente, não houve uma única palavra emitida. Ligeiro, destrancou o armário. Não enfrentou impedimento algum, Theo sabia que em breve chegaria a Verdade, arrasadora, ainda que não como conhecia Felipe.

Aberta a pequena portinha de ferrugem, o fedor metálico e de Cândida, impregnado no armário, semente ingrata parasitária, explodira, suas raízes preenchiam toda a pequena sala. Felipe recuou para atrás, cobrindo o rosto.

Descansando, estava um singelo cutelo, limpo às pressas e embalado porcamente num papel pardo, agora enfeitado com manchas vermelhas. Espiava o exterior por entre as frestas, curioso pela movimentação repentina. Para um mero cutelo de cozinha, raramente utilizado, estava tendo muito trabalho. Teria mais?

Theo suspirou, resignado.

Então foram duas armas. A faca do poço e o cutelo do armário. A realização embrenhava-se e florescia, flor maldita, no cérebro de Felipe. Piscava, tinha dificuldade de acreditar.

A vertigem tomara conta de si, absoluta. Vomitou ali mesmo, suando frio.

Theo não disse nada, mas era óbvio; não convenceria jamais Felipe de sua suposta inocência. Eram suas pupilas, delatando-o.

— Você. Foi você quem matou a Mallory.

Um arrepio correu por ambos corpos, como que conectados por uma relação frágil e, agora, estilhaçada. Nunca imaginaria Theo de ver seu tão estimado amigo, quase seu filho, tão transtornado e arrasado. Não, não quisera uma descoberta tão brusca.

Doía. Suspirou novamente, resignado. Aceitava seu destino, sua penitência, assim fora moldado.

Por que não pudera aceitar Mallory?

Teria sido mais simples, é verdade, mas as linhas da história são por vezes tão confusas que borrões são feitos, tinta se espalha, palavras se confundem.

Não há como estar certo.

O cutelo fora agarrado sem muito cuidado ou raciocínio. Ignorava o cheiro, o asco de ter agora rastros de sangue seco roçando em sua mão, a raiva borbulhava em Felipe. O padre foi avançando para trás, um cortejo surreal, o convite da Morte.

— Que ela fez pra você?

— Pra mim? Acha que foi pessoal?— Theo já saíra, quase tropeçando nos bancos— A culpa é dela querer enfiar ideias heréticas na cabeça de gente de bem!

— Mas não fazemos o mesmo, muitas vezes? Prometemos o que não podemos cumprir?

— Felipe, calma, você está exaltado, confundindo as ideias. Há sempre algo além do nosso alcance e compreensão, tudo parte de um plano maior que nós e que o mundo, e nisso você precisa ter fé.

— E o que você me disse sobre não desejar mal aos outros? Não posso desejar, mas fazer?

Alessandro e Desmond finalmente chegaram, praticamente chutando a porta da secretaria. Agarraram ambos o homem por trás, o imobilizando, incertos do que se seguiria. Seria fácil demais um único corte diagonal, só mais um pouco de sangue para um cutelo já rubro até seu âmago.

— Diz, você tem fé? Fé que era esse o plano?

— Ele vê tudo que há de acontecer nas nossas vidas. Mas não posso garantir nada.

Não entendia nada. A Verdade não parecia ser capaz de ser translúcida, como se não houvesse uma única versão, mas sim um monte de espelhos refletindo os interiores de um homem cujas razões não foram totalmente lúcidas e racionais. Havia uma passionalidade assustadora, um algo, uma raiva, um troço destroçado. Confuso, atordoado, ferido, teve vontade de chorar. Seu rosto demonstrava seu último sacrifício, seu último corte de cordão umbilical.

Serviria, não só a faca, mas também o cutelo, numa amálgama miserável, cinzenta e rubi, afiada e cega, como a Justiça, impregnada de cloro e produtos de limpeza e sangue ferroso, seco como sua risada amarga.

— Não me olhe assim, Felipe. Eu fiz o necessário, era a hora dela. Eu até tentei afastá-la, tinha uma casa longe daqui que poderia recolhê-la, mas ela não me ouvia…

— Então você a assassinou?

— Foi necessário, não podia deixá-la continuar espalhando as sementes das macieiras do mal. Alguém tinha que fazer o trabalho divino.— Tremiam, por motivos diversos. Ódio, tristeza, medo, nas bocas impregnava o gosto amargo, putrefato. Juntos, quase todos.— Felipe, ouça, eu só fui as ferramentas do plano maior, expurgar o mal desse mundo.

— E quanto a mim? Vê o que aconteceu?— O cutelo foi chacoalhado mais num movimento exasperado do que ameaçador.

— Sei, sei.

— Pra você está bom assim?

— Não, claro que não. Não era pra ser assim, mas em algum momento eu adivinhei que eu ia te perder, perder para eles… Adrastéia quem me avisou.

O cutelo estava próximo demais de cair, porém Felipe parecia segurá-lo como se seus dedos estivessem travados. Chorava profundamente.

— Ela me viu, eu sabia que tinha sido visto. Por isso o cutelo, entrei em desespero. Adrastéia me chamou até em casa com falsos pretextos, disse que a Vingança avisava para me preparar, eles viriam atrás de mim… olho por olho, dente por dente, alguém querido por outro… não podia ser de outra forma, não ficaria impune.

— Theo, pelo amor dos Céus e acima! Olha isso! Você acha que o plano divino ia seguir esse caminho? Essa bizarrice? Você matando uma moça e eu quase matando você?! Por que não podia cada um seguir seu caminho, você aqui e ela no santuário dela? Cada um tem sua escolha, sua sina, sua cruz! Quem você acha que é pra interferir nisso? Quem você é pra ditar a hora?

— Nenhum de nós entende os motivos do acima. Eu fiz o que fiz. Minha alma é leve.

— Não, seu corpo é leve, é sempre leve sem alma. E não há lábios malditos pra soprar nada de volta, esteja certo disso.

Um único suspiro pesado.

Foi a vez de Renata aparecer, nervosa. A cena era realmente medonha, um homem na fila mortal, por um fio, um movimento de lâmina. Se algo fosse para acontecer, não queria ter em suas retinas o sangue jorrando. Mal encarava os presentes, só falou o necessário.

— Um deles está chegando. Vamos.

Levaram-no para o carro, enfiando-o no porta-mala. Alessandro era o único que sabia dirigir, Renata foi ao seu lado, os outros no banco de trás. O carro fora iniciado e começou a se mexer com um solavanco. O tanque estava praticamente cheio.

Alessandro tinha na face uma expressão distorcida, de ódio profundo e grosso. Assustaria quem o visse naquele instante. Os moços, no fundo, deram as mãos e ficaram assim, mudos. Renata tamborilava os dedos trêmulos, num frenesi sem precedentes, provavelmente só pararia quando aquilo acabasse.

— Como vamos garantir que esse babaca não cause mais mal algum?— Desmond questionou, ainda incrédulo do que faziam.

— Meus pupilos vão ficar de olho nele, e se algo acontecer… eles não têm mãos tão fracas como as nossas.— Alessandro tinha um tom horrível, a ideia de Theo permanecer vivo era odiosa a ponto de cuspir veneno.— Ironicamente seguiremos o mesmo plano dele para Mallory.

— Mais tarde eu explico o que aconteceu.— Murmurou Felipe.— Todos da vila ficarão arrasados.

— Explicar de verdade, ou com mentiras?

Ponderou sobre a pergunta de Desmond, sem certeza alguma.

— Algo no meio, imagino.

Renata apresentou outra dúvida, sua voz tão trêmula, quase impossível de entender.

— Não estamos só empurrando o problema pra outra pessoa?

— Achar isso eu até acho, mas antes isso do que a morte.— Alessandro buzinou, apesar das circunstâncias, para aliviar seu ódio.— Viu, como você gosta. Algo horrível como esse, aprendemos a conviver.

Seria muito mais bonito se a situação fosse mais agradável. Já amanhecera fazia horas, não era muito seguro, mas era até próximo. Um ponto prata no meio da estrada, asfalto e borracha beijando-se languidamente. Horrível.

Despejaram o padre do porta-malas como lixo, apesar de Felipe ter sido cuidadoso.

— Você vai ficar aqui, tá entendido? Só assim pra cê não ir de encontro com seu Senhor.

Theo nada disse. Apenas levantou-se, observando os arredores. Era uma cidadela atraente, cheirosa, não muito diferente. As casinhas eram simples, de tijolos e tinta creme, muitas bordadas com amoreiras. Cavalos andavam meio soltos por entre os pastos ao fundo.

— A gente termina de trazer suas coisas mais tarde. Cê vai morar com meus dois pupilos, e não enche o saco deles.

Duas pessoas apareceram logo em seguida, desconfiadas. Tinham o cabelo escuro trançado, olhos claros, esverdeados. Pareciam família, vestiam-se com os mesmos tons de azul, a mais alta na frente, como se fosse um escudo.

— Olá, Alessandro.— A mais velha comentou, cautelosa.— Esse é o tal Theo?

— Saiba que nós estamos até felizes, nosso último padre morreu de velho, ele era tão bom e caridoso.— Comentou quem estava atrás, apertando um liriozinho contra o peito.

— E você será mais.

Seguraram Theo, guiando-o. O homem virou-se para aquele por quem nutrira muito amor.

— Eu volto a te ver, Felipe?

Não houve uma resposta imediata. Era meio óbvio que segurava as lágrimas e o amargor dentro de si. Finalmente soltou suas palavras duras, mas sinceras:

— Não fosse esse caminho de pedras que eu beijei tão devotadamente, você não estaria aqui, e sim numa vala que eu mesmo teria cavado; reza, Theo, que você tem muito a agradecer.

Theo não tinha arrependimentos, era verdade, mas também não tinha nenhum amargor em relação às consequências de seus atos. Precisaria esperar, maturar em si alguma culpa, para poder entregar aquele pecado aos céus. Talvez só então fermentaria alguma raiva em sua alma, juntas, juntas.

— Digo e repito, Felipe, meu filho: você tem voz forte. Devia ser orador, fazer pregação no meu lugar.

Felipe não aguentou. Virou-se, encostou a mão no carro, desabando em lágrimas sentidas como as de Desmond sobre o poço. Durante todo o trajeto permaneceram de mãos trançadas, e permaneciam assim. Seu amor mais doce oferecia apoio, envolvendo seu corpo. Estava seguro.

Segurando o braço de Desmond, sem se virar para trás, respondeu, sua voz não mais que um sussurro:

— Não, obrigado. Eu já tenho onde ecoarão minhas palavras.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!