Letting go
1 Oneshot
Notas iniciais
No dia em que Yuuta deixa sua casa para morar no dormitório da St. Rudolph, sua irmã o leva até a porta, agarrada em seu braço como uma criança, embora seja onze anos mais velha que ele.
“Se você não arrumar seu quarto, eu vou saber pelo tarô, e você vai levar uma bronca”, ela ameaça, e lança um olhar a Shuusuke.
O tarô me diz muitas coisas, os olhos dela dizem, mas ele não se move.
Ele simplesmente permanece sentado no sofá de costas pra porta, lendo O Pequeno Príncipe e sorrindo como sempre. Não é que ele não se importe com o que está acontecendo; é só que ele sabe mesmo sem perguntar que Yuuta não gosta quando Fuji mostra que se importa com ele. Então ele tenta se convencer de que, como no livro, “somente vemos bem com o coração” e que, passando a ser invisível aos seus olhos, Yuuta passará de especial pra essencial.
Mesmo assim, ele acaba cedendo a uma vontade súbita de virar, e fica um tempo parado, o queixo apoiado na mão.
“Yuuta.”, ele chama, mas quando seu irmão olha pra trás, Fuji desvia os olhos e os mantém na bolsa onde o mais novo guarda a raquete.
“Isso é o que você quer, não é?”, Shuusuke diz, e seu irmão acena com a cabeça após um momento.
Fuji ainda está forçando seu sorriso a não desaparecer quando Yuuta abre a porta; e antes que se dê conta, a irmã deles já está dizendo alegremente que ela vai na frente pra abrir o carro, e é só no último momento que Shuusuke finalmente encontra a coragem de encarar os olhos do irmão.
Os dois sabiam há muito tempo que esse estranho meio-adeus aconteceria, mas mesmo assim, ele se sente irritado e magoado, e os olhos de Yuuta refletem a mesma coisa.
***
Fuji guarda as fotos que tira com sua velha câmera espalhadas em diversos lugares do quarto: penduradas na parede, em exibição em álbuns, escondidas juntas com seu material pra possíveis chantagens. Mas um dos conjuntos de fotos está sempre no fundo de uma gaveta da cômoda. Yuuta está em todas elas, bem como sugestões e vislumbres do que quer que tenha acontecido com a amizade deles. Shuusuke não as olha há meses, mas nessa noite, ele o faz. Não porque Yuuta se mudou hoje, mas porque Fuji não consegue entender quando seu irmão mais novo o deixou.
Não há muitas fotos, na verdade, então Fuji tem cada detalhe delas perfeitamente decorado. Mas quando termina de ver todas, ele volta à primeira, de qualquer forma, e sorri com cada uma novamente. Mesmo as imagens mais tristes, porque suas piores memórias são sempre dos momentos mais felizes, manchados pelo conhecimento de que eles não voltarão.
“Aniki!”, parece que ele ouve um dos Yuutas das fotos dizer. Não é o "aniki!" irritado, nem o "aniki..." que não mostra emoção alguma, é o "pare de me implicar, aniki!" e Fuji tenta se lembrar do que respondeu na época — e não consegue. Ele acha que os dois riram, embora a possibilidade pareça absurda agora – Yuuta raramente sorri, e nunca ri. Mas por outro lado, ele tinha só nove anos quando a foto foi tirada.
Tezuka liga enquanto ele está olhando as fotos, mas Fuji não atende – ao invés disso, ele desliga o celular e retorna às fotos, como se alguma delas vá explicar como tudo isso aconteceu, como seu irmão mais novo está saindo de casa aos treze anos. Fuji provavelmente não deveria ter aprendido tênis, só pra começar. Está tudo errado, tudo errado.
***
Não é inesperado que as pessoas com quem ele convive descubram o que aconteceu realmente rápido. Inui é o primeiro a entrar em pânico com a notícia, mas Eiji e Taka-san parecem adoravelmente preocupados o dia todo, e Fuji quase se sente mal por não dizer a eles que ele está bem, na verdade. Mesmo assim, no geral, a preocupação deles é completamente diferente da aparente indiferença de Yuuta, e isso é um pouco reconfortante.
Ele se pergunta se deveria sentir-se culpado por estar com raiva do irmão, mas não consegue se forçar a se importar.
***
“Fuji”, Oishi chama quando eles estão a caminho das quadras pra treinar depois das aulas.
Parando de andar, ele inclina a cabeça para um lado em resposta.
“Fuji. Eu, huh... Aqui.”, ele diz, e entrega uma latinha de suco, “Você gosta desse sabor, certo?”
Oishi tem as sobrancelhas franzidas e um olhar de dor, embora esteja tentando bravamente esconder ambas as coisas. Ele parece mais triste do que Fuji se lembra de estar quando Yuuta fechou a porta de casa atrás de si.
“Sim, eu gosto.”, ele responde, sorrindo como se estivesse feliz, “Obrigado.”
O garoto considera a ideia de se divertir um pouco com a preocupação do amigo, mas brincadeiras sobre esse assunto parecem estranhas, então ele se limita a beber o suco em silêncio e esperar.
“Sobre...”, Oishi diz eventualmente, e sua voz teria parecido casual se o tom não fosse tão forçado, “Sobre o seu irmão... Você está bem?”
“Estou.”
Não é uma mentira, e essa é a pior coisa sobre isso.
“O que exatamente aconteceu?”, Oishi tenta, hesitando, mas obviamente ansioso por oferecer algum tipo de conforto.
Fuji abre os olhos e sorri mais radiantemente:
“Não faço a menor ideia.”
***
Tezuka, é claro, não diz nada, não pergunta nada, não faz nada, entende tudo.
***
Fuji não tem pesadelos.
Não exatamente, mas quando acorda, tudo que ele consegue fazer e sentar na cama e sentir-se profundamente desconcertado. Isso, e lembrar-se dos olhos de Yuuta desaparecendo pela porta.
Fuji não quer que Yuuta volte, ele quer seu irmão de volta, e isso não é algo que ele possa conseguir, de qualquer forma.
Ele olha pro relógio – são quatro da manhã.
Fuji não adormece novamente. Ao invés disso, ele fica observando o quarto – tons de preto e cinza – e brinca com seu celular por horas.
Tem mais uma coisa que ele quer, mas não sabe como colocá-la em palavras.
***
No dia seguinte, Fuji está sonolento e cansado, e tênis é a última coisa em sua mente, então ele não fica surpreso quando é atingido por uma das bolas mais rápidas de Eiji.
Bem, ao menos ele não estava jogando com Taka-san desta vez.
“Ah!”, Eiji grita, alto demais, e, num minuto, todo o clube parece estar de pé ao redor de Fuji.
Ele toca sua testa e olha os próprios dedos, vermelhos com sangue.
“Você está bem?”, o duplista diz, e Fuji se pergunta como seu amigo sabe que ele está pensando em Yuuta, antes de perceber que Eiji quis dizer fisicamente.
Sua cabeça está ok. Ele não tem mais certeza sobre o resto.
***
Fazia algum tempo que Fuji não tirava fotos, mas ultimamente, isso é algo que ele se pega fazendo mais e mais freqüentemente. Há muito mais tempo livre agora. Seu interesse em tênis diminuiu.
Não por causa de Yuuta, não.
Porque ele não consegue mais ficar sério, e porque não consegue se concentrar, e porque sente que perdeu tudo que fazia dele um gênio.
Além do mais, não importa o quanto ele ame tênis, é só um esporte. Yuuta nunca soube entender isso.
Fuji tenta pensar na última conversa que os dois tiveram que não envolvia tênis – e não consegue pensar em nenhuma. Ou talvez as memórias estejam fugindo de seu próprio dono, como se temessem serem machucadas de alguma forma.
Ele tem que desistir do tênis. Yuuta nunca faria isso.
***
Uma semana depois que Fuji decide que vai parar de jogar o mais rápido que conseguir, o clube de tênis tem um treinamento especial. É difícil e divertido, e quando Fuji finalmente chega em casa, está exausto.
Ele vai direto para o quarto e se joga na cama, fechando os olhos e respirando tranquilamente. Ele sente que seria capaz de dormir realmente bem se tentasse, mas o celular toca e ele sabe quem é antes de olhar o visor.
Ninguém além de Tezuka teria notado que Fuji não estava tremendo por causa do treinamento pra força, mas porque não consegue escolher o que ama mais: tênis ou Yuuta. Aparentemente ele é mais parecido com o irmão do que pensava.
E Tezuka teria percebido tudo isso. Ele é esse tipo de pessoa.
Fuji está cansado e quer ignorar o telefone, mas no quinto toque, seu autocontrole desaba e ele atende sem saber o que irá dizer.
Então ele não diz nada.
Depois de um momento, o garoto finalmente junta coragem o suficiente para murmurar um cansado: “Tezuka”.
“Fuji.”
Tezuka responde com o mesmo tom que usa pra todo o resto. Isso é ao mesmo tempo irritante, inquietante e reconfortante, mas Fuji decide se concentrar no último desses e pressiona o telefone contra si, ouvindo a respiração constante e ritmada do outro lado da linha.
“Você não está jogando bem.”
Fuji franze um pouco as sobrancelhas com o comentário.
“Perdi o interesse no tênis”, ele responde simplesmente.
“Seu interesse não mudou.”
Ele ri, impressionado e divertindo-se com o quão bem Tezuka o conhece.
“E o que você vai fazer sobre isso?”, Fuji pergunta, porque não consegue pensar em mais nada pra dizer.
“Nada. A escolha de jogar ou não é sua.”
“E você me ligou pra dizer isso?”
“Não”, ele admite prontamente, “Você está bem?”
Por um lado, ele está começando a se cansar de ouvir a mesma pergunta milhares de vezes. Por outro, é diferente dessa vez. Ele sabe que não conseguirá enganar Tezuka, mas decide morrer tentando.
“Estou bem. Oishi está se preocupando com isso mais do que eu.”
“Entendo.”
“Você deveria ligar pra ele.”
Tezuka não responde imediatamente, mas quando o faz, sua voz é ligeiramente mais baixa:
“Você sente falta dele.”
Não é uma pergunta, e Fuji não sabe como responder. Ele pensa sobre Yuuta, que ainda é seu irmão, mas agora exige esforço de sua parte para não odiá-lo, e ao mesmo tempo, exige esforço não ligar só pra saber se ele está se virando bem sozinho. As coisas mudaram em algum ponto de suas vidas, aparentemente, e Fuji é o único que não sabe o que fazer a respeito disso.
“Não é isso”, ele diz, por fim, “É complicado explicar.”
“Entendo.”
Ele está acostumado com os silêncios de Tezuka, mas não sabe o que fazer com esse. Eles acabam desligando, mas a essa altura, Fuji não consegue dormir como pensou que faria.
Ele sente falta do irmão, e não sente ao mesmo tempo, e Yuuta não vai desistir do tênis, e aparentemente Fuji também não, o que quer que isso mude, e o que quer que signifique, e tudo é diferente agora, mas talvez seja tudo como tem sido por alguns anos, só mais óbvio, e...
Fuji está completamente acordado agora.
Provavelmente seria tudo mais fácil se o ódio de Yuuta por ele fosse mútuo, mas isso é difícil de imaginar.
***
Ele continua jogando, cada vez mais.
Tênis o faz relaxar um pouco, mas não é realmente uma grande ajuda, e quando ele finalmente fica cansado o suficiente pra dormir longa e profundamente, ele ainda sonha com ele e o irmão brincando com raquetes grandes demais pra eles.
Não é um sonho triste, só uma memória feliz. Mas quando o garoto acorda de manhã, sua garganta está seca e seu rosto está molhado. Ele bebe água e limpa as lágrimas com as costas da mão, pensando distraidamente que Yuuta nunca mais sorrirá quando estiver jogando contra ele.
Fuji pinga as últimas gotas da água no seu cacto e se arruma para a escola.
É uma manhã quieta de quinta-feira, então as pessoas estão todas cansadas e andam lentamente nas ruas. Ele segue calmamente a mudança no ritmo da cidade, mas depois de um tempo, começa a pensar que se atrasará pras aulas e começa a correr.
Ou talvez ele só esteja tentando se lembrar da sensação de apostar corrida contra seu irmão, desafiando-o a chegar à escola antes dele, e deixando que Yuuta soque seu braço numa tentativa de fazê-lo correr mais devagar.
É provável que tenha sido isso, porque ele cruza os portões da escola antes da maioria dos professores, e percebe que tem tempo livre o suficiente para se dirigir às quadras.
Fuji quer praticar um pouco, então troca o uniforme escolar pelo de tênis, e escolhe sua raquete dourada. É cedo demais até mesmo para os habituais treinamentos antes das aulas, mas a mochila de Tezuka já está no vestiário, e ele já está na quadra, praticando seu saque.
Seus movimentos são belos e seus olhos, intensos, mas sua cabeça não está lá. Tezuka está preocupado com alguma coisa.
Fuji entra na quadra o mais silenciosamente possível e pega uma bola. Ele não gosta de ver os ombros de Tezuka tão tensos, é verdade, mas mais do que isso, correr o deixou de bom-humor, e não parece uma má idéia deixar o dia ainda melhor surpreendendo Tezuka em um de seus raros momentos de distração.
O gênio sincroniza o ritmo de seu saque com o de Tezuka, e duas bolas quicam do outro lado da rede quase ao mesmo tempo. Ele nunca viu Tezuka olhar pra trás tão rapidamente, mas a expressão em seu rosto é perfeitamente controlada.
Fuji ri. “Não está cedo demais pra treinar?”
“Não.”
A resposta é simples e confiante, e ele percebe instantaneamente que Tezuka está de mau-humor. Isso o preocupa um pouco.
“Você também está aqui pra treinar”, Tezuka argumenta, e Fuji muda seus planos só pela chance de contradizê-lo.
“Não, estou só me antecipando. Vou esperar os outros chegarem para a prática.”, ele responde, e eles ficam olhando um para o outro.
Há centenas de coisas que eles querem dizer, mas ambos ficam em silêncio por algum tempo.
“Eu estava pensando”, Fuji diz afinal, sorrindo, “Que talvez você possa ir na minha casa quando tiver tempo.”
É só um comentário, não um convite, mas Tezuka concorda com a cabeça, de qualquer forma. E então se aproxima dele, só um ou dois passos, e isso diz mais do que qualquer coisa que ele pudesse falar.
“Fuji. Você...”
Tem alguma coisa no jeito como Tezuka o olha que o faz recuar. Tezuka se cala.
“Hm?”, Fuji sorri, e inclina a cabeça naturalmente. Mas então as palmas de suas mãos começam a doer e ele percebe que seus punhos estão fechados com força.
“Não era nada importante.”, Tezuka diz, e se afasta, deixando-o sozinho na quadra.
***
Ele está sozinho em casa quando Yuuta volta, dizendo que veio buscar algumas coisas que esqueceu. Seus olhos marrom-acinzentados parecem ansiosos, mas tirando isso, ele é a imagem da calma. Fuji esconde um sorriso de orgulho.
“Diga pra minha mãe que estou bem”, ele diz antes de fechar a porta atrás de si.
“Vou dizer”, Fuji promete para a casa vazia, e passa o resto do dia trancado no quarto de Yuuta.
***
Ele não vai pra escola no dia seguinte, e passa a manhã dormindo na cama do seu irmão, se perguntando como nunca percebeu que o quarto de Yuuta é menor do que o dele. É injusto; mas o tamanho não faz mais diferença agora, de qualquer forma.
***
Fuji ainda não voltou para o próprio quarto quando a tarde chega, e ele passa boa parte dela olhando pro teto.
Ele está jogando uma bola de tênis pro alto quando sua irmã entra no quarto e se senta na beirada da cama.
“Ligaram da sua escola”, ela diz, e Fuji para de brincar com a bola.
“Hm.”, ele murmura, virando a cabeça na direção dela.
“Eu disse que você está doente, e a professora pareceu muito preocupada. Acho que ela está apaixonada por você.”
Ele ri por um instant, e então fecha os olhos.
“Yuuta veio aqui ontem”, ele sussurra, porque sua irmã nunca precisa ouvir o que ele diz pra saber o que ele realmente quer dizer.
Ela afasta uma mecha de cabelo dos olhos do irmão, e então deixa sua mão repousar sobre a cabeça dele.
“É a primeira vez que te vejo assim”, ela diz.
“É minha culpa”, Fuji responde simplesmente, “E eu não sei como resolver as coisas.”
“Então pare de tentar.”
Ele acena com a cabeça.
***
Quando Yumiko finalmente sai do quarto, Fuji liga pro irmão.
Yuuta não atende.
***
Já é noite, e alguém bate na porta. Quando ele a abre, Tezuka entra no quarto e Fuji fecha a porta com cuidado.
“Sua irmã me deixou entrar”, ele explica, e entrega um caderno, “A matéria de hoje. Eiji me pediu pra dar a você.”
Ele sorri e agradece enquanto coloca o caderno na cama.
“Você está aqui pra me confortar?”, Fuji desafia, porque é claro que Tezuka sabe que ele não está doente.
“Sim.”, o garoto diz, sua voz soando quase teimosa. A resposta, tão direta e sincera, combina com ele.
Tezuka não se move, e eles simplesmente ficam ali, de pé olhando um para o outro em silêncio.
“Não tem nada que você possa fazer”, Fuji começa a dizer eventualmente, mas no meio da frase, Tezuka se aproxima e as palavras acabam soando hesitantes.
Tezuka está tão perto que poderia beijá-lo, mas ele não o faz. Tampouco ele o toca. Fuji não se afasta dessa vez, embora o olhar do outro continue estranhamente perturbador.
“Eu sei.”, ele responde quietamente. Sua voz é tranquilizadoramente calma, mas por algum motivo, ela faz com que Fuji olhe pra baixo.
“Então por que você está aqui?”
“Porque não tem nada que você possa fazer.”, Tezuka devolve imediatamente, e aperta uma das mãos de Fuji num gesto que pareceria hesitante se fosse feito por qualquer outra pessoa – Tezuka o faz parecer elegante e deliberado.
Fuji não consegue se forçar a concordar, mas não se move mesmo quando Tezuka desliza o polegar pelo seu pulso. É o mais próximo que Fuji sabe chegar de um pedido de ajuda.
“Eu não acho”, seus lábios tremem, mas sua voz é firme e alegre, “Que Yuuta vai saber o que fazer na nova escola.”
“Ele é só um ano mais novo que você.”
Fuji não pode discutir com isso, mas ele pensa em Yuuta segurando seu braço, escondendo-se de pessoas que queriam machucá-lo, e não consegue entender por que as coisas tiveram que mudar. É ele que está machucando seu irmão agora, e não há ninguém que Yuuta possa se esconder atrás.
“Tezuka...”, ele começa, mas não sabe como continuar, e simplesmente deixa que sua cabeça caia no ombro do outro.
Há um breve momento de hesitação, quase imperceptível, mas mesmo quando Tezuka o abraça, tudo que ele faz a princípio é passar o braço ao redor dele, lentamente, no que poderia ser cuidado ou timidez – provavelmente ambos. Mas ele parece mudar de idéia e, soltando a mão de Fuji, o puxa para mais perto. Depois disso, parece uma ação natural quando Fuji destrói a pequena distância ainda existente ao abraçá-lo de volta e esconder o rosto em seu ombro.
“Desculpe”, Fuji murmura, fechando os olhos e se recusando a chorar, “Você não tem nada a ver com isso.”
“Está tudo bem.”
Ninguém além de Tezuka poderia fazer com que essas palavras parecessem ao mesmo tempo uma resposta e um consolo.
“Você acha que o Yuuta está sentindo a mesma coisa que eu?”, ele pergunta, e o quarto fica quieto por um momento, porque Tezuka não responderia sem pensar apenas pra preencher o silêncio.
“Sim, eu acho.”, ele diz afinal.
“Eu não quero que ele esteja.”, Fuji diz pensativamente, “É um sentimento pior do que perder uma partida realmente importante.”
“Você nunca perde”, Tezuka argumenta, “E seu irmão é uma pessoa forte.”
Yuuta é forte – mais do que Fuji, em muitos sentidos – e, ironicamente, sempre foi mais independente do que seu irmão mais velho. Ele vai ficar bem sozinho. Fuji espera que sim.
“Você também é forte”, Tezuka diz, e as palavras parecem uma promessa.
Fuji sorri um pouco, apesar de tudo, e se afasta um pouco, só o suficiente para um beijo lento e demorado, algo que eles geralmente não fazem. O beijo é, em uma palavra, gentil; e quando eles se separam, Fuji se solta do abraço.
“Obrigado”, ele diz, beijando Tezuka novamente, mas só por um breve segundo dessa vez, “Eu vou ficar bem agora.”
E ele sente que talvez ficará. Algum dia.
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