CHEGOU UM NOVO PROFESSOR no primeiro horário, aparentava ser aula de inglês. Helga claramente sabendo que odiava a matéria, preferiu ignorar a lousa e aproximar uma mesa feita de madeira do seu lugar e colocar seus materiais em cima dela. Gerald sentou-se atrás da colega com um olhar estranho pela mudança, preferiu ignorar o porquê ele estava atrás de si, afinal não existia mapeamento em um segundo ano do ensino médio. A Pataki sentou na cadeira e enfim abriu seus cadernos, por fim escondendo seu livro aberto debaixo da mesa, ignorando a presença de todos.

A carta dela não era nada amorosa na visão do Johanssen, sentia receio e não queria nem imaginar qual a reação que Phoebe teria, se contasse a ela, estava muito pessoal para falar a verdade. E no entanto, Gerald não podia fazer nada a respeito por enquanto, somente esperar e ver o que poderia fazer.

— Bom dia pessoal, eu sou o professor Douglas Burton e gostaria de anunciar as minhas boas-vindas a esta nova turma — O homem fez reverências, por mais que tenha saído de Manchester, seus costumes antigos não mudariam de imediato, como ao seu sotaque. — Por acaso vocês são: Gerald, Helga, Lila, Phoebe, Rhonda e… Curly?

— Desde quando sabe dos nossos nomes? — Indagou, Rhonda se demonstrando sardônica e nem indo muito com a cara daquele estrangeiro. — Você é britânico, né?

— Ah… sim... Eu vi seus nomes na lista de chamada — Com a intimidade por trás das palavras de Rhonda, deixou o professor um pouco desconfortável — Sou de Manchester, me mudei para os Estados Unidos a pouco tempo – Limpou a garganta. — Enfim, podemos começar com o conteúdo?

— O senhor esqueceu de mim! — Alarmou Harold, outro que não tinha mudado tanto, continuava o mesmo valentão antipático. Algumas coisas nunca mudam.

— Esse aí é o Harold! — Disse Lila a sua frente quieta e impaciente demais da conta. — E sim, eu sou a Lila.

— Muito prazer!

— É uma honra, começarmos o segundo ano com o senhor. — Phoebe falou educadamente.

Após tantas dúvidas e questionamentos do novo professor, a aula finalmente começou. Doug escrevia pela lousa os exercícios diários; começara entediante e simplesmente chato no ponto de vista da jovem Pataki, a loira demonstrava grande desinteresse na matéria. — Verbo to be — Se bem que o professor não era tão rude como os outros, mas adaptar-se ao seu ensino, não valia tanta a pena. Helga preferiu ignorar a matéria, colocando sua leitura final, percebendo que o desfecho do livro Romeu e Julieta era uma porcaria pelo fato de Olga ter dado spoiler: O Casal se alto-suicida pelo amor e desejo proibido, irrelevante não é mesmo?

Suas teorias estavam fora de questão, certamente se comparar a Julieta, foi ridículo, Helga só não se mostrava capaz de aceitar o romantismo contemporâneo. Nem ferrando se arriscaria ou morreria por um garoto, ou ao menos seguiria os seus princípios, tudo aquilo era uma loucura.

Helga fechou o livro já terminado, pondo em seguida em sua mochila. Quando virou para frente, sentiu alguém cutucar seus ombros para seu azar, fora Johanssen pedindo um apontador emprestado. A loira o retirou do estojo, porém não era apenas isso que Gerald queria com ela. Seus minutos de paz foram por água abaixo, e Helga não queria lembrar daquilo nunca mais.

— Você tá, ocupada? — O moreno sussurrou bem próximo ao seus ombros, como sabiam que conversar durante a aula era contra as regras, nenhum dos dois podiam aproveitar a chance de falarem abertamente sobre o assunto.

— Não! — Disse a loira. — Algum problema?

— Bom, eu ia falar com você no intervalo, só que… não estou conseguindo esconder isso daqui, quero resolver agora mesmo — Johanssen retirou um envelope vermelho debaixo da mesa, aberto com uma folha velha junto aquela ortografia familiar impecável, nenhum erro sequer, Helga não queria acreditar na possibilidade de ver algo tão pessoal nas mãos do amigo, sentiu seu coração congelar. — Sabe, entendo como você se sentiu naquele dia da festa, conversamos bastante e foi legal ter me encorajado, porém saiba que os meus sentimentos só pertencerão a Phoebe, e se ela entender errado a nossa conversa, ela não irá te perdoar.

— Desculpa!? O quê? — Helga tentou fingir de desentendida, começava a tremer pelo pavor, sentindo sua garganta seca e a testa quase suar, a ansiedade e o pânico estavam nítidos, e preocupantes. — Onde conseguiu isso?

— Ora essa, você me enviou, não foi? Na verdade recebi essa carta antes das férias acabarem — O Moreno tentou consolar aquela loirinha nervosa. — Podemos ainda sermos amigos, se você me permitir.

Ela não imaginava que algum dia isso iria acontecer. Seu maior medo pareceu abrir a porta e gritar um “Seja bem-vindo". E o que poderia vir logo mais? Vários garotos indo atrás de Helga e estando com todas as cartas expostas frente a seus rostos, como se tivesse devendo um imposto de renda. A garota não aguentava mais pensar, sua respiração tornou-se ofegante, suas mãos tremiam, o coração acelerava. Até que sua pressão não aguentou de imediato.

— C-Como assim? — Gaguejou frustrada. — Isso não pode acontecer.

— Helga? Você está passando bem? — Quando perguntou de modo preocupante, a Pataki começava a ter leves tonturas junto a uma visão trêmula e embaçada, não conseguindo aguentar a pressão acabou desmaiando sem pestanejar, dando grande abertura para um show de pagação de mico para a classe inteira. — Helga, acorda!

[ … ]

Abria e fechava seus olhos lentamente, do nada estava em outra posição sobre um colchão velho e um lençol bem limpo e bem branquinho, encarando o teto marrom de uma sala silenciosa que aparentava ser a enfermaria. A lâmpada bem fraca piscava entre duas a quatro vezes, um cenário semelhante ao hospital aterrorizante Alchemilla do jogo Silent Hill, mas sem uma enfermeira assassina ou criaturas demoníacas, a pobre e coitada Helga Pataki, viveu pesadelos atrás de pesadelos. Na sua cabeça faltava ter passarinhos de desenho animado voando por volta dela.

A adolescente nunca imaginou passar por aquilo, Gerald a deu um susto certeiro, embora querendo que aquela parte desaparecesse; Já cheia de diversos problemas e agora algo tão particular tornara-se nada secreto para qualquer pessoa que lesse. Foi como levar um tiro atravessando bem no coração, e de fato a sensação nada fora aprovada pela jovem, não conhecia nenhuma sensação pior.

Suas últimas lembranças recentes se constataram aos risos dos colegas por a verem desmaiar em público, sentiu o rosto queimar de constrangimento. Encostada na parede gélida do local, percebendo uma mulher idosa vestida em um jaleco de doutor aproximando do seu campo de visão.

A senhora lhe olhou surpresa, Helga havia se recuperado, com muitas perguntas a fazer para aquela aluna desesperada, a loira do laço de fita rosa, se pronunciou.

— Onde estou exatamente? — A menor revirou os olhos. — Quem me trouxe aqui?

— A senhorita teve pressão baixa durante a aula. Aquele garoto gentil, Gerald, disse que a viu desmaiar, então a trouxe aqui, pelo visto já está segura — Era real, a jovem menina desmaiou quando viu seu envelope exposto na mesa. — Tomou café da manhã no horário correto?

Depois de diversas perguntas simples, a Pataki assentiu que “sim” com a cabeça, depois fazendo um “O” junto aos lábios rosados quando a enfermeira receitou um medicamento chamado Efortil, a dizendo que também seria mais recomendável tomar um suco de laranja ou chá de ginseng.

— Devo ter tido uma pequena recaída, a última coisa que me lembro foi ter entrado em pânico — Afirmou Helga para a mulher. — Me deu um aperto no peito, falta de ar.

— Isso são sintomas de ansiedade — Concluiu a tal senhora. — Se está com medo ou algo atrapalhando seus pensamentos, o necessário a se fazer é beber água, ou procurar ajuda.

— Não estou ansiosa — Helga debochou — Estou ótima, obrigada pela preocupação, me dê licença, Senhora Darcy. — Leu seu nome pelo crachá dentre os bolsos do jaleco.

— Disponha, e não se esqueça de entregar a receita com a assinatura dos responsáveis.

Durante os últimos horários das primeiras aulas, o intervalo começou, Gerald tinha se arrependido por falar a sua amiga daquela carta, quando leu aquelas diversas linhas e cada palavra resumia o sofrimento dela, gostaria de ajudar, por mais que soubesse de ter passado anos.

Naquela data do seu aniversário, sorriu nervosa e gaguejava ao seu lado, os colegas não mais xingavam, exceto Harold, por andar com os badernistas do bairro, esses mesmos nos quais picham os muros, sabotam bicicletas, e chutam alguns nerds ingênuos.

Guardou rancor e certa desconfiança surgiu, mas Harold não era nada idiota de arrumar encrenca com o time de futebol, apesar do Johanssen ser capitão dos Red Eagles. Seu respeito dependia muito das consequências dos atos, e quem teria uma ideia absurda de interferir na vida dele? Isso estava fora de questão.

O afro-americano estava na companhia dos outros jogadores. Sentado em uma cadeira de madeira, os ouvia falando sobre uma possível estratégia para vencer no grande jogo, sempre teorizaram sobre as vitórias, todavia na prática dava errado. Revirando os olhos percebeu aquela loira andando com sua namorada cabisbaixa sem sequer falar com a japonesa, o assunto era resolver a situação da carta, e por isso Helga tentou ser cautelosa o possível.

Phoebe e sua melhor amiga chegaram até a mesa dos jogadores, chamando por Gerald, os rapazes as cumprimentaram e saíram de lá, eles costumam fazer piadas com extremo sexismo barato quando viam uma garota passar. No entanto se desrespeitarem a japonesa iam se dar mal.

— Estavam em reunião? — Helga fora a primeira perguntar, com as mãos na cintura fingindo estar tranquila.

— Sim — Disse Gerald. — Melhorou?

— Claro, a enfermeira disse que devo tomar um remédio, e melhorar minha alimentação. — Phoebe a mataria, por isso a única escolha tinha sido inventar uma mentira.

— Pra quem come salgadinhos né? — Phoebe riu da melhor amiga franzindo a sobrancelha, fingindo uma risada anasalada.

— Tem razão, besteira de manhã é péssimo. — Helga sentou na cadeira próxima, logo disfarçando o assunto, o moreno notou seu semblante atônito, e percebeu que o assunto da carta não tinha acabado.

— Phoebs? Pode me dar licença? Preciso falar com a Helga, um minutinho. — Gerald dizia entre dentes, vendo a asiática estranhar o porquê escondia isso dela.

— Tudo bem! Vou te esperar, quando a conversa acabar. — A Heyerdahl se despediu da direção deles.

A Pataki não gostava de ver aquela doce menina triste por tantos segredos escondidos dela, a pouca conversa entre elas fazia com que se sentisse mal com aquilo, culpava-se mentalmente diversas vezes; porque mesmo ter sido algo do passado, a vontade de escrever para ele virou justamente uma culpa dentro de seu peito no presente, pois era sobre o namorado dela. Simplesmente aconteceu de modo inesperado, a carência passou dos limites e Helga precisava dar um ponto final naquela história, atentamente encarou aqueles olhos esverdeados do afro-americano, apenas os dois frente a frente, ninguém os atrapalhava, era agora ou nunca, respirou fundo encaixou seus dedos fechando as mãos, fazendo Gerald ouvir mais sobre a continuação da conversa de mais cedo.

— Como ainda não continuamos a falar sobre isso, gostaria de dizer que tudo escrito nesse papel, não passou de uma besteria. Há dois anos atrás me senti sozinha, meus pais viviam brigando feio, a minha irmã me visitava muito pouco, e o Big Bob continuava sendo o mesmo pai cretino. Bancando uma de superior — Limpou a garganta. — E, sim, achava mesmo que gostava de você mais do que um amigo, porque sabíamos muito a respeito do “Você sabe quem”. E ele não voltou mas… sei lá, quis escrever para tirar essa dor que eu carregava só isso.

— Você claramente diz no texto sobre ele, mais do que a nossa amizade ou seja lá o que for — Franziu o cenho. — Enfim, eu realmente te agradeço por tudo que você fez por mim e a Phoebe nesses últimos anos, foi muito legal tê-la ao nosso lado, assim como você, não penso mais no Arnold, faz muito tempo.

— Então… não está chateado comigo? Se estiver, quero que me diga isso agora — Helga questionou confusa, ao mesmo tempo agitada, com certo medo de falar algo errado, não queria em hipótese alguma perder seu amigo. — Estou apavorada, e nem prefiro ver mais alguém saber disso, sabe que as paredes têm ouvidos e olhos, pior se a Phoebe também souber por um boato.

— Relaxa, Helga, não vou contar pra ninguém. Este assunto morrerá aqui! — Antes da loira sair dali, quando ouviram o sinal tocar, sentiu as mãos do moreno agarrar seu braço. — Antes de ir, posso te fazer outra pergunta?

— Quer perguntar o que exatamente?

— Você ainda gosta do Stinky? Ou do Arnold?

Piscou os olhos uma ou duas vezes; a pergunta mexia demais com seu subconsciente, as paixões passageiras consistiam em deixá-la com um frio na barriga todos os momentos, ela desejava que isso acabasse logo. E pior seria se James também estivesse com mais uma carta em mãos, batendo na porta de sua casa, também assim como Stinky, Eugene, talvez até Arnold algum dia.

— Sinceramente, acho que não gosto de mais ninguém, embora tenha escrito muitas cartas e poesias a vida inteira para ele. — Helga por fim respondeu.

— Lembro quando me contou, amar é complicado, entretanto não se esqueça que a amizade sempre estará em primeiro lugar, ainda vou estar disposto a te ajudar, quando precisar.

— Não precisa Gerald, prefiro ver a Phoebs feliz ao seu lado, vocês juntos formam um lindo casal, e nunca foi minha intenção estragar isso, me desculpa por essa carta. — O olhou de relance.

— Não se desculpe, vou falar com ela e dizer que nossa conversa passou.

— Certo

[...]

Saiu desanimada, arrependida e um pouco desesperada para chegar em casa. Todos que passavam ao seu redor, comentavam sobre o desmaio e riam de sua cara, não estava nem aí para isso, além de ouvir Rhonda e Lila jogarem indiretas, pelo visto viu Phoebe feliz junto ao namorado, nada mais a se preocupar. A melhor amiga lhe perdoou e ambas voltaram para casa, ouvindo música e curtindo o passeio rápido de ônibus.

Chegando ao seu lar, infelizmente, Helga se apressou colocando sua mochila no sofá, nervosa e perguntando sobre a caixa de cor azul com as cartas dentro para Miriam e Big Bob.

— Vocês podem me dizer se viram uma caixa rosa, pequena, com um laço em cima? – Perguntou rapidamente. — Por favor me falem, aquilo é muito importante.

— Oras, você não a deixou no quarto, ou levou para a doação? – A mais velha perguntou.

Foi aí que a Pataki se recordou, ao doar todas as coisas que não iria usar mais, sua caixa também ali estava presente e ainda por cima aberta. Correndo pelas escadas e abrindo a porta de seu quarto a loira encontrou a tão esperada caixa que se mantivera vazia, todas suas cinco cartas haviam sumido. “Eu odeio vocês, droga eu odeio todo mundo!” pensou tão alto que o andar debaixo pôde ouvir, um grito esganiçado da jovem menina.

— Será que ela está nervosa de novo? — Perguntou Miriam. — Não deve ter sido uma boa ideia ter mandado aquelas cartas.

— Fica tranquila, mulher! — Riu Bob sarcástico. — É crise hormonal da adolescência.

Helga não pôde mais aguardar para o que viria mais a fundo, seu pai também estava envolvido, e James reagiria também.

Notas finais
Playlist da fanfic: https://open.spotify.com/playlist/5HU1Qc39jNUArKGwLfEmsF?si=ELCcSj24Ryywkia_muBBuQ&utm_source=copy-link Pasta do Pinterest ( aesthetics e imagens simbólicas dos personagens): https://pin.it/5yGYhwo