Letters Shortaki/ Hey Arnold
6 Problemas com Big Bob
HELGA FICOU PREOCUPADA COM A SUA MÃE, já havia se tornado a décima primeira vez que Bob a traía com aquela mesma mulher vulgar. A garota, no entanto, se questionava: “O que eu tenho haver com isso? Por qual motivo dói tanto?”. A situação provocava uma pequena dor em seu peito.
Não suportava ignorar aquilo acontecendo; Big Bob passou dos limites e só a filha dele era capaz de enxergar a situação perturbadora. Inquieta, a Pataki seguia seus rótulos matinais e por fim escolhia sua melhor vestimenta para encarar o terceiro dia de aula — não tão emocionante e intenso como todos os anteriores. Todavia, o segredo estava guardado com James, e Gerald a perdoou pelo imprevisto. Estava tudo em seu devido lugar— por enquanto.
Enquanto penteava seus cabelos em frente ao espelho, pôde escutar gritos hostis por detrás da porta que de repente a assustou, seu pai estava irritado e batucando repentinamente na mesa, gritava palavras como: “Faça logo a merda do meu café!” “Eu tenho coisas para fazer Miriam! Ande logo com essa porra!” O seu pai aparentava ser dominante e mais violento do que nunca nestas palavras de baixo calão. Ele xingava a esposa e a mulher tentava não se estressar, porém Bob não queria saber de seu estado psicológico, estava irritado demais para se importar.
Lágrimas se atreveram a cair no rosto de Helga. Os problemas entre os seus pais só iriam se resolver se ela tomasse uma iniciativa; com apenas 16 anos de idade, era melhor imaginar seu pai atrás das grades do que vê-lo agir imoralmente e permanecer livre — assim ninguém estaria sendo obrigado a ouvir tanta humilhação.
A loira abriu e fechou os punhos, sua língua tornou-se seca e o ódio a tentou consumir. Balançando a cabeça sem parar e respirando profundamente, Helga tentou esquecer a possibilidade de aquilo se tornar um caso de violência doméstica.
Era realmente uma droga não ter mais um pai amigável e gentil, Big Bob não conseguia ser mais o mesmo homem que era. Dando um passo em frente e abrindo passagem para fora do quarto, a Pataki mais nova desceu as escadas, de repente aquela cena horrenda mudou em um instante. Preferiu seguir em frente antes de ouvir broncas por ter demorado para se arrumar, sentou-se na cadeira e esperou sua mãe terminar o café. Por trás do sorriso falso no rosto da progenitora, Helga pôde reparar no semblante abatido que a mãe carregava — Miriam estava morta por dentro, sequer falava alguma coisa enquanto terminava o café de seu marido.
Este desastre ia ter um fim, só precisava esperar a hora certa.
A mesa estava preenchida de pães e frutas. Enquanto a matriarca se atenta no fogão, Robert ajeita a gravata da camisa social. E Helga que presenciava a cena desconfortável, optou por mexer no celular para verificar se tinha alguma mensagem perdida, a loira acabou por ter uma ideia melhor: ir com Phoebe para o colégio, já se faziam anos que não andavam juntas a não ser de carro.
Perguntado sobre educação, a menina no entanto, chamou por seu pai.
— Irei para a aula com a Phoebe. — Disse limpando os lábios sujos pelo copo de leite. — Tem problema?
— Não! — Quase resmungou um “graças a Deus”. — Na verdade estaria me libertando do atraso, as reuniões andam corridas nesta manhã. — Tomava sua xícara de café, era evidente sua mentira.
— Uau, papai. — Helga ironizou — E por quê a pressa? O senhor foi promovido? Se foi, meus parabéns! — Desconfiava da falsidade através daqueles olhos a encarando. Seu pai podia muito bem esperar, esta não era a melhor hora de se discutir e, Helga gostaria muito de o xingar e dizer que ele estava traindo a esposa com a secretaria de seios falsos e botox nos lábios, porém precisava de ser paciente.
Big Bob estava compreendendo o sarcasmo e, de alguma forma, Helga sabia de seus planos sujos. Faltava engasgar pelo susto, mas o que a pequena Pataki não sabia, era que aquelas cartas todas foram lidas pelo homem há anos atrás— a situação estava em suas mãos.
— Ah, claro meu bem! — Sorria forçado, pronto, Helga acabara de mexer em seu ponto fraco. — Fui finalmente promovido, as vendas estão aumentando, está tudo bem organizado. — Riu nervosamente.
— Você foi promovido Bob? — Miriam tentou se aproximar para beijá-lo, porém seu marido invés disso, deu-lhe um abraço rápido. — Parabéns querido.
A filha então revirou os olhos—impaciente. Estava cansada de ver a mesma cena teatral, tudo aquilo era tão falso.
— Boa sorte. — Helga resmungou.
— Obrigado, por isso gostaria que as duas entendessem, estou muito ocupado, mas quando isto acabar terei mais tempo para estar com vocês. — “Ocupado? Conta outra babaca!” ter ouvido seu pai falar tanta mentira, deixava a loira em uma pilha de nervos, queria ter dito coisas piores a ele, mas guardou os pensamentos e concordou com a cabeça. Tinha que esperar o momento certo.
— Bom trabalho, meu amor! — A esposa se despediu do mais velho, vendo-o já indo ao veículo, sem ao menos se despedir.
A filha viu seu pai ir embora em alta-velocidade e sua mãe ali sentada na cadeira, ela sabia que ninguém estava bem. Mesmo odiando sua família, Helga amava Miriam, e um pouco de empatia não faltaria naquele momento; tinha alguns minutos para conversar o que conseguia com a mãe. Como morava mais longe da casa dos Pataki, a Heyerdahl demoraria para chegar. A mulher ajeitava os óculos no rosto, e pedia para que essa dor tão forte pudesse sumir.
Helga não merecia ver aquilo, não mais.
Sua mãe estava negligenciando sua saúde em bebidas e cigarros, só limpava a casa e ao menos se sentia sobrecarregada, nada disso é normal, é desumano. A loira mais velha viu sua filha com um semblante fechado, pondo a mão em seu ombro direito, tendo sua total atenção. Sua mãe havia estranhado, contudo preferiu ouvir o que sua filha caçula tinha a dizer.
— Miriam, está tudo bem mesmo? — A mais nova se pronunciou. — Sabe… eu não gosto de te ver assim, você devia tentar procurar algum médico, não acha?
— Helga, está tão preocupada por quê? — A mulher disfarçou seus problemas mudando de assunto logo em seguida. — Seu pai está trabalhando, nada mais.
— Estou preocupada, porque você é minha mãe, Miriam, será que não percebe como ele age contigo? Big Bob, sequer se despede de nós, ele está estranho, só volta nos desmerecendo ou gritando com a senhora, não suporto ver isso!
Seu desabafo deixara a matriarca boquiaberta. Helga não tem mais 9 anos para ter que fugir dos problemas através do ódio e da raiva—seu lar estava passando por várias desavenças. Miriam tentava procurar as palavras certas para enfim responder à sua filha, porém, com seu medo e nós na garganta, as palavras não conseguiam sair facilmente.
Helga não obteve uma resposta; e antes de ela poder voltar a exigir uma reação da parte de sua mãe, o som da campainha ecoou pela casa, fazendo com que Helga deixasse o assunto de lado.
Pelos visto ainda não era o momento certo para esclarecerem o conflito com o seu pai, e a única e boa solução que passou pela cabeça da adolescente foi ligar para Olga mais tarde — a primogênita sempre era uma boa ouvinte, certamente daria a devida atenção ao seu pequeno sofrimento. Ao abrir a porta, Helga confirma as suas suposições: Phoebe havia chegado.
Assim que Helga olhou para trás, resmungou um 'esqueça' e pegou seus materiais, para seguir o caminho para a escola; a loira se despediu da mãe e a mulher fez o mesmo.
E quando a jovem saiu, Miriam começou a chorar.
[...]
Ambas as melhores amigas se cumprimentaram com risos e apertos de mãos. Phoebe até que sabia ser uma boa distração para momentos frustrantes; mas para o estranhamento da loira, Gerald não estava junto à namorada, por um minuto de silêncio, Phoebe puxou assunto:
— Então? Você tomou café direito né? — A japonesa mencionou sobre o episódio de dias atrás, vendo a cara debochada de Helga.
— Tomei, sim! — Disse ela. — Aliás, terminei a leitura daquele livro “Romeu e Julieta” — Como sua mente estava um pouco confusa, sobre o que falaria com a melhor amiga, desde o segredo revelado a Gerald, ficava difícil dizer a verdade, portanto a melhor opção era falar de livros.
— O que achou da história?
— Uma porcaria! — Pataki riu — Fala sério, os dois foram muito trouxas, pra que escolher a morte? Ridículo!
— Não posso discordar! — Phoebe sorriu, tornando o clima mais engraçado. — Prefiro ler mangás Shoujo, inclusive “Ao Haru Ride” é um romance magnífico.
Phoebe tinha uma grande paixão pela cultura asiática. Não por ter descendência e sim porque são pequenas coisas tradicionais de sua família. Os Heyerdahl costumavam viajar muito para Tóquio nas férias de verão; Phoebe a princípio se encantou pela arte de origamis e mangás, sendo eles de gêneros: Bishoujo, Josei, Magia, Sci-fi, entre outros.
Não que ela também só gostasse disso, a cultura americana também lhe intrigava. Já que Gerald era o oposto dela, falava mais sobre futebol, hip-hop, trap-music, ele amava dançar break de vez em quando. Eram um pouco semelhantes ao casal Drê Parker e Mei Ying do filme Karate Kid. No entanto, era isso que Helga admirava entre os dois, como atitudes tão diferentes podem se atrair perfeitamente.
Phoebe não tinha vergonha nenhuma sobre sua origem. Mas de fato não sabia que Helga também quase imaginou ter se apaixonado por Gerald Johanssen. A menor estava impecável vestida com sua saia xadrez azul pastel, camiseta branca de botões, sapatênis e casaco preto. Ela não parecia desanimada, pelo menos não naquele momento tranquilo escondido de mentiras.
— Você sabe que prefiro literatura. — Helga a respondeu finalmente, se manteve muito atenta com a música de seus fones de ouvido. — Enfim… sabe o porquê de Gerald não ter vindo hoje?
— O Gerald andou treinando com o time dele ultimamente, daqui a duas semanas terá o grande jogo. — A japonesa ajeitava os óculos no rosto enquanto caminhava, estavam já próximas do ponto de ônibus. — Entretanto o que realmente me incomoda, são as animadoras de torcida dando em cima dele, é irritante pra falar a verdade.
— Sei como é, mas acredito que ele só tenha olhos para você, se eu não te conhecesse bem até diria sobre você estar afim de atleta é algo muito clichê de filme colegial. Entretanto o Gerald, não é um “Atleta” igual nos filmes né? — A loira sabia muito bem do que estava se referindo, desde o afro-americano ter feito parte dos Red Eagles, seu físico havia mudado muito, possuía músculos fortes e usava roupas mais descoladas, quase um metido a popular.
— Tem razão, ele pode ter entrado esse ano, mas o Gerald sempre será único para mim, nunca iria trair minha confiança. — Phoebe concordou com a resposta da Pataki, assim ambas sentaram-se no banco do ponto de ônibus, para esperar o transporte escolar chegar. — Mas como sabe disso? digo…. que ele só tem olhos para mim, ele te contou, por acaso? – Indaga para a loira.
— Er… óbvio! — Gargalhava de nervoso. — Mudando de assunto, você sabe quem são as novas animadoras do time?
— Lila, Rhonda, Bennett e Summer. – A japonesa bufou. — Basicamente as garotas mais bonitas da nossa sala.
— Ridículas. — Murmurou a loira, pois as regras dos atletas eram as seguintes: Terem as garotas mais magras e encorpadas do time, sendo as padronizadas e cheias de maquiagem no rosto.
Ano passado haviam escolhido Helga para fazer parte, ela realmente não entendia o motivo, se achava nada atraente, mas percebeu porque a chamaram —Helga era loira de olhos claros — mesmo assim preferiu recusar o convite, nem ferrando vestiria uma saia curta para entreter um bando de sexistas. Não que Gerald fosse desse grupo, todavia sabia muito bem do que se tratava. — Nem duvido, se a capitã for a Lila, não é da minha conta e nem devo me importar com isso.
— Ela não é tão rude quanto você pensa, Helga! — Phoebe discordou daquela opinião. — Ah, olha, o ônibus chegou.
As garotas, embora o assunto estivesse interessante, decidiram se levantar para entrar no transporte; viram o motorista insatisfeito pedindo para a dupla se apressar. Phoebe e Helga escolheram lugares um pouco mais ao fundo, o ruim de se sentar nos fundos, era porque os alunos agiam como bagunceiros ou fumavam cigarro de maconha, porém ninguém sequer pôde tomar iniciativa.
O ônibus deu início rumo ao PS.118; quando sairia do ponto, mais alguém, ou melhor, um grupo de skatistas tinha interrompido, os três meninos desciam ladeira a baixo até alcançarem o veículo. Assim dando brecha para entrarem naquele transporte suportável mesmo lotado com muitas pessoas dentro.
Stinky, Harold e Sid cumprimentam o homem, pedindo desculpas pelo atraso.
— Vê se vocês chegam no horário certo! — Advertiu o senhor. — Dai-me paciência.
— Foi, mal, tio! — Sid retirou o pirulito sabor cereja da boca, ajeitando a franja comprida de seu cabelo. Sid era o rapaz mais underground de toda a turma, agora com muito estilo e atitude. Usava calças xadrez largas, tênis All Stars e camiseta da banda Ramones; muitos boatos dizem que ele havia se envolvido com Rhonda na época mas que atualmente é mais apegado a Harold… Seria algum envolvimento amoroso? — Fiquei cuidando de Jojo, e esqueci do horário.
— Isso que dá ser dono de um coelho bagunceiro, e porque esse nome, Jojo? Parece personagem de anime! — Stinky debochou, vendo a cara desanimada do amigo.
— Corta essa Stinky! — Sid rebateu. — Foi o único nome legal que pensei, e 'tá eu assisti alguns episódios de Jojo Bizarre adventures. — Até que ao explorar todo o ônibus encarou alguém familiar, uma das ex-namoradas de Peterson. — Aì, aquela não é a Helga G Pataki? — Helga não era mais muito próxima dos meninos, porém os conhecia e sabia que não haviam mudado nada, contudo, Sid percebeu algumas mudanças nela; parecia alguém doce e amante de leitura, e o modo que sorria ao ver a janela próxima de seu lugar dizia tudo.
— Sim, ela continua a mesma desde que nos conhecemos. — Stinky sorriu ladino.
— Então, por que vocês não se falam? — Perguntou o rapaz.
— Desencana Sid! — Harold encostou suas mãos nos seus ombros, o de cabelos pretos havia se afastado um pouco, percebeu que aquilo estava íntimo demais e seu rosto qualquer hora iria queimar pela vergonha, o mais baixo reparou e então limpou a garganta. — Ela é só perda de tempo, Stinky está é interessado na gostosa da Wellington.
— Vira essa boca pra lá bochechudo! — O punk lhe deu um tapa na orelha, Harold era bom com provocações. — Vem gente, vamos procurar um lugar pra sentar.
O grupo após a conversa afiada pôde finalmente se sentar em um lugar discreto para que pudessem dividir cigarros e isqueiros entre si. Na maioria das vezes os alunos faziam coisas proibidas, além do bullying e dos aviõezinhos de papel, também muitas das vezes praticavam assédio moral e físico; o que revoltava Helga, pois o motorista incompetente fazia absolutamente nada a respeito daquilo.
Phoebe muitas das vezes—quando seu namorado não estava por perto — observava garotos comentarem sobre seu corpo e a despirem com os olhos.
Apenas meros jovens do terceiro ano faziam aquilo sem remorso, porém não deixava isso passar, levavam diversos tapas na cara quando precisavam. Sem contar que Helga odiava sentimentalismo enquanto fazia garotos chorarem.
O transporte deu sua última parada e muitos dos colegas estranharam quando uma figura loira reconhecível subiu —o antigo e ex-querido menino do bairro de repente surgiu. Arnold Shortman, o próprio.
— Bom dia, Senhor Walsh! — A voz inconfundível, chamou a atenção de muitos, inclusive a de Heyerdahl. Boquiaberta pela notícia inesperada, Arnold voltou após 3 anos, estava diferente, e muito mais bonito do que Helga se lembrava.
A loira, no entanto, distraída com suas músicas, sentiu a japonesa cutucá-la, a mais nova falava apressada e muito ansiosa. Não sabia o que dizer, os pegaram de surpresa.
— Helga! — Phoebe exclamou — Por favor, você precisa ver isso!
— O quê? não está vendo que estou…. — Rapidamente encarou o óbvio, ao olhar para frente, e não parecia nada surpreendente. — Só podem estar de brincadeira comigo?!
[...]
Alguns dias atrás, a família Phillipe concordou com a decisão de seu primogênito. Arnold pôde sorrir mais animado, pois estaria em casa dentro de alguns dias; e próximo dos seus amigos. Naquele fuso-horário maluco no qual estava nada acostumado, Stella telefonou para a pensão de seus sogros quando ouviu uma voz rouca respondê-la.
— Alô? — Era Gertrudes pelo outro lado da linha, bocejando pois ainda era 7:00 da manhã em ponto. A velha Gertrudes era um pouco fora dos padrões, sem ter obrigações diárias acordava um pouco tarde; cuidar de todos na pensão era muito presunçoso. — Ah, Stella! grande e querida nora! — A grisalha riu. — Como vai Arnold?
— O assunto é sobre ele, senhora Shortman. — A historiadora sorriu. — Arnold andou entediado recentemente, mas ele acabou nos revelando que estava sentindo muita saudade de vocês, tem problema de seu neto, morar com vocês?
A avó faltava chorar de felicidade, depois de anos abraçaria seu neto já crescido e mudado. Gertrudes sabia o quanto ele era um menino de ouro; maravilhada chamou por seu marido para anunciar a nova e boa notícia: “Phill, nosso neto voltará para casa, não é emocionante!?” A nora ouviu sua sogra de voz elevada, ria pelo ato engraçado. De repente o telefone foi entregue ao avô.
— Claro que o rapazinho pode ficar! — Phill se aproximou mais do telefone fixo. — Entendo como ele se sente.
— Ah, sim! — A mulher suspirou. — Estamos preocupados, ultimamente ele anda muito sozinho e se tranca no quarto, não é mais o Arnold que costumava ser, então está tudo bem para vocês, né?
— Sim, jovem Stella! — Phill concordou — O aguardamos ansiosamente.
— Certo! – Desligou a chamada.
Stella se sensibilizou, no entanto, preferiu sentar ao lado de seu marido cansado após horas de trabalho; o homem parou de ler o jornal e percebeu sua esposa satisfeita. Miles também ficou aliviado por seu filho estar feliz, de alguma forma seria bom para ele conviver novamente naquele lugar.
— Oh, Miles, isso foi mesmo uma boa ideia? — Se referiu a ligação.
— Saiba que será a melhor decisão, Arnold amadureceu o suficiente para ter as próprias escolhas, querida. — Certamente tinha que concordar, o menino já cresceu e viveu o que deram a ele. — Tenha fé que isso dará certo.
— Assim, espero.
O dia seguinte enfim passou, Arnold ajeitou as bagagens, pegando o passaporte dos bolsos; e por fim se despediu de seus pais, uma lágrima se atreveu a cair por seu rosto, porém eles sabiam que o garoto seria incapaz de os ignorar. Eles eram o melhor presente da vida dele, os laços se desfazem, e assim o loiro adentrou no avião, curtindo a vista das nuvens. Por um momento sentiu medo — aquela carta de Helga era carregada de palavras dolorosas.
Havia o afetado como uma flecha perfurando dentro de seu peito. Era agora ou nunca — consertaria os erros.
Começaria primeiramente por recomeçar. Falar com Helga Pataki, mesmo sendo uma tarefa difícil, nem ao menos sabia se ela ainda era descontrolada e nervosa como antes, talvez tenha mudado de imediato.
Arnold finalmente estava em paz, em seu antigo país, antigo lar, antigo bairro, lá estava o jovem encarando a pensão dos seus avós, deveras gigantesca—um prédio colorido com 6 metros de altura; por lá viviam alguns vizinhos trabalhadores entre os humildes sem moradias.
A situação daquele bairro às vezes piorava na questão financeira, muitos saiam desempregados ou empresas faliam facilmente. Contudo, graças à caridade do casal idoso, todos tiveram direito a lar e boa alimentação; podiam ter qualquer tipo de bicho de estimação, incluindo ratos, cobras, sapos, pássaros. Até mesmo um porco, sendo ele Abner.
O menino bateu na porta, chamando por sua avó, como estava deduzindo, aquele lugar não mudou absolutamente nada. Os mesmos vizinhos, as mesmas crianças brincando e o barulho de construção atrás das paredes. A senhora abraçou o neto com muito esmero, dando beijos em seu rosto que não se animava há anos.
— Arnold, quanto tempo! — Dizia a grisalha. — Esperei a vida inteira para te encontrar são e salvo, olha como você cresceu. — Obviamente Arnold estaria crescido.
— Não exagere vovó, está tudo bem – Riu — Também senti saudades de todos.
— Que bom, imaginei que sentiria. — A mais velha o acompanhou até a sua casa, no andar de cima. — Geralmente vinha aquele seu melhor amigo te visitar mas você não apareceu mais. — Gertrudes com certeza se referia a Gerald. — Mas vocês dois ainda conversam, pelo WhatsApp e essas coisas? Certo? — Como era muito presa no passado, a idosa não conseguia entender muito sobre a tecnologia, restava no entanto pronunciar nomes de aplicativos de modo cômico. — Pois essa nova geração de vocês… como já dizia Einstein.
— Eu, sei, geração de idiotas! — Revirou os olhos, adivinhando o que Gertrudes falaria. — Melhor irmos ver o vovô.
Voltando ao ambiente da casa, a avó e seu neto se dirigiram até a sala de estar.
Arnold encarou a estante de madeira, ainda intacta; com Dvds, televisão de 5 polegadas, artigos esportivos e o velho sofá de couro preto. Era incrível como o tempo de infância retornava a fazer parte de si.
Depois encarou a cozinha, de piso porcelanato, mesa de madeira, uma pia, um fogão, e um armário branco. A cada passo dado por este espaço, o menino se sentia aquela criança de 9 anos, na qual descobria a vida através de boas vivências. Deparou-se então com o seu avô, que diferente dos dias comuns estava vestido como um general, tomando uma xícara de café.
Gertrudes e Arnold foram até o senhor, outro que havia ficado animado pela milagrosa presença do neto. A cabeça do mais velho estava raspada em um perfeito corte militar, de alguma forma fez o seu neto relembrar das histórias que ele contava sobre a segunda guerra mundial, quando os japoneses enfrentaram os EUA.
— Olá, vovô! — Arnold o abraçou, a saudade era tanta que não conseguia se segurar para não chorar ali mesmo.
— Rapazinho, é tão bom te ver! — Phill o retribuiu, mas acabou percebendo que Arnold não era mais um “rapazinho” — Quer dizer… você está mais alto e também bem mais velho, quase um homem não é?
— Sim, pois é!
Com toda a emoção, Arnold pôde descansar, já tinham passado dias para que voltasse para o colégio, pela sua sorte a transferência do instituto Méndez fora entregue ao PS.118. Durante a noite passou o tempo arrumando suas roupas dentro do closet, seu quarto ainda estava do mesmo jeito; porém todas as coisas que guardava não estavam mais ali. Apesar de ter jogado fora em Buenos Aires, se arrependeu. O quarto agora tinha espaço para outras coisas, e as trocaria quando chegasse a hora.
“Bem vindo ao lar, Arnold!”
[...]
Helga ainda estava desacreditada, queria poder esquecer ter visto aquilo com os seus próprios olhos, aquilo foi real e não tinha como ignorar sua realidade. Analisou o jovem de cima a baixo. Arnold estava mais alto, seus cabelos estavam lisos e sedosos, não armados como antes. Até mesmo seu estilo de roupas mudou, este que consistia em calças azuis rasgadas no joelho, camiseta esverdeada e tênis da marca Nike—sua aparência estava mais desejável. Sem aquele boné naquela cabeça era impossível não enxergar seus olhos.
O que houve com o “cabeça de bigorna?” Helga pensou boquiaberta.
Por sorte, Gerald não estava naquele ônibus, se estivesse, estaria desacreditado assim como ela.
— Helga? Acorda garota! Isso não é um sonho. — Phoebe tentou a cutucar, ela ao menos piscava ou olhava para a amiga. Helga pareceu ter congelado e sem mais nem menos a japonesa deu-lhe um beliscão.
A loira resmungou um “ai”. Assim, virando o rosto para o campo de visão da Heyerdahl assustada; não apenas elas agiam daquela forma, até mesmo os garotos não tiravam os olhos de Arnold. Fora uma surpresa para todo mundo, o loiro sequer os cumprimentou, já que sua música estava muito alta e, para a sorte da Pataki, ele se distanciou se sentando mais para frente.
— Eu 'tô bem Phoebs! — Helga, pelo constrangimento, elevou a voz por acidente, não gostaria de passar vergonha de novo. — Quer dizer… sim, eu tô muito bem, de verdade, maravilhosa!
— Se tranquilize, ele não parece que irá falar connosco, acho que não hoje. — A japonesa ignorou logo, esperando o ônibus chegar no PS.118.
Ao chegarem, todos os alunos desceram.
[...]
Um calafrio subiu-lhe pela espinha dorsal e no estômago surgiu uma sensação — a sensação de rejeição, ela era a causa de alguns dos pesadelo de Helga. Um medo que a perseguia silenciosamente.
— Helga, tem certeza de que está tudo bem? — Disse Phoebe segurando seu caderno em mãos, correndo até a melhor amiga.
— Pare de se preocupar comigo, estou bem. — Engolia em seco, Helga já tinha problemas demais para ter que desabafar.
— Phoebs, Helga! — Uma voz masculina as fizeram virar para frente, o atleta Johanssen as cumprimentou, e logo depois beijou os lábios de Phoebe e como Helga odiava segurar vela, se afastou alguns passos deles. — Que ótimo encontrar vocês, cara hoje o treino foi puxado. — Balançou a cabeça distraído.
— Então é verdade sobre os boatos de que haverá o grande jogo na semana que vem? — A namorada perguntou enquanto caminhava atrás de Helga, o moreno no entanto seguiu os passos das colegas.
— Infelizmente, será contra os Blue Lions. — Gerald suspirou — Mas vocês estarão lá para me assistirem, não vão?
— Não prometo nada, mas vou tentar. — Helga se pronunciou. — Na verdade o assunto da escola é outro.
— Como assim? – Gerald não entendeu
— Um antigo aluno voltou para o colégio.— Phoebe falou por ela.
— Jura? Quem é?
Helga não queria dizer aquele maldito nome; já estavam quase na porta da sala de aula para ter que falar sobre quem viu.
Até que um encontro inesperado aconteceu. O grupo de Stinky chegava no corredor, Rhonda como sempre andava de mãos dadas com o rapaz, e Sid e Harold bebiam latinhas de Pepsi cola. Quando de repente logo atrás deles Arnold apareceu, ele aparentava estar descontraído e não se preocupava pelo que estava por vir.
Gerald e os demais garotos então perceberam. Até a ruiva que Helga tanto odeia estava estranha; os alunos não esperavam revê-lo daquele jeito depois de nenhuma notícia, até que o atleta teve chance de se pronunciar antes de todos.
— Arnold? é você? – O moreno boquiaberto se aproximava do jovem e o loiro se virou para o maior.
— Oi, Gerald! — o cumprimentou, mas não conseguia lhe dar um abraço ou dizer que estava feliz, estava neutro. — E, olá pessoal, é muito bom rever vocês.
Os outros garotos, assim como Johanssen, chegaram próximos a ele, inclusive Lila, que não conseguia falar nada ainda —seu coração acelerava sem parar. Mais companhias foram chegando.
— Nós também estamos felizes. — Disse Stinky e Sid em uníssono.
Arnold notou a diferença entre seus colegas. Gerald estava mais alto e mais musculoso, um físico atlético e tanto, ele usava uma jaqueta colegial vermelha com o símbolo do time costurado sobre o tecido. Quanto aos outros, não haviam mudado tanto, exceto Stinky, que se apaixonou por skate. Agora só faltava saber como Helga também estava diferente, porém a loira não se juntou com eles, se afastou por completo.
Para ninguém ter de suportar o silêncio desconfortável, Harold enfim falou.
— E, aí!? — Harold franzia a sobrancelha desconfiado. — Podemos saber o porquê sumiu e parou de falar conosco durante 3 anos? — Indagou.
— Harold, pare com isso! — Sid o alarmou — Ele está aqui, isso é mais importante.
— Sim, eu não esqueci vocês, dou a minha palavra. — Arnold tentou explicar da sua maneira, porém era tarde demais. — O passado foi só….
— Harold tem razão, ele sumiu e sequer deu notícias sobre a vida nova, sinto muito Arnold, mas…. Não te perdoo por isso. — Gerald se interferiu e logo de seguida tocou o sinal para a primeira aula. — Vamos nos atrasar!
Os alunos entraram na sala.
Lila encarou Arnold, mas após aquilo não sabia o que diria, por isso optou por também entrar para a classe. Helga sentiu o arrependimento e viu como os erros do passado nem sempre se vão tão tarde. Os meninos o deixaram sozinho, e ela não pôde fazer nada a respeito; sabia que era a hora errada, também errou no passado, pois aquela carta de despedida, feita para ele, deve ter destruído o coração do rapaz em mil pedaços.
Sem perder tempo a loira sentou em sua cadeira, a aula se iniciou com leitura; como estava sem opção, a Pataki escolheu “Razão e Sensibilidade” de Jane Austen— como é o livro que ela mais leu, fazer uma resenha sobre ele seria a coisa mais fácil de sua lista.
Muita coisa estava acontecendo, e tudo isso em apenas um dia, as cartas estavam circulando e de alguma forma isso tinha que acabar bem.
Perdida na leitura, a adolescente percebia que todos os seus problemas e preocupações — os conflitos familiares, as cartas, as suas mentiras e segredos — sumiram aos poucos. Quanto mais Helga se infiltrava nas palavras, frases e parágrafos daquele livro, menos peso os seus dilemas aplicavam na sua mente. Por uma fração de segundos — talvez minutos — ela sentiu-se leve. Quase livre. Ler a deixava mais calma e paciente.
Quando enfim se passou algum tempo, uma figura ruiva jogou um bilhete em sua mesa. De início, Helga quis ignorar, mas por fim marcou a página do livro em que ficou — para mais tarde conseguir retornar com a leitura —, fechou o livro e agarrou o papel dobrado.
Percebeu num instante de quem era: Eugene Horowitz, e sem precisar adivinhar, Helga também sabia o principal assunto.
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