Letters About Us

6 Capítulo 6 - Efeito inebriante que derruba minhas barreiras


Notas iniciais
Heeey! Boa leitura!

— Em minha humilde opinião eu acredito que mereço uma jogada extra por que a Amélia me distraiu. – Diz Lorcan todo pomposo em frente à nossa banca de amigos que aturavam como jurados perante a acusação de que Lorcan havia errado feio sua última jogada por que eu o havia distraído dizendo que havia uma aranha perto do seu pé na hora em que ele iria arremessar, tá bem, talvez eu tivesse jogado sujo, mas eu não achei que ele cairia assim tão fácil.

— Eu discordo disso. – Digo tentando me defender mas sabendo que seria difícil.

— Amélia Machado, você sabia do meu pavor de aranha e jogou sujo, admita, você é má. – Ele diz me fuzilando.

— Você que foi besta de cair, olha onde estamos, por que teria uma aranha ali?

— Me diga você, por que não teria uma aranha ali?

— Ta bom, ta bom, chega. Vamos disputar quem ganhou em 1 jogada, quem acertar mais pinos ganha. – Diz Alice decidida enquanto o resto ria daquela situação nem um pouco infantil.

— Que vença o melhor. – Digo oferecendo a mão para que ele apertasse.

Ele aperta forte e me encara bem fundo. Não prolongo aquele olhar ou entraria fundo demais naquele mar verde esmeralda e não conseguiria mais sair até que me afogasse.

— Que vença o melhor. – Ele repete soltando minha mão e quebrando o encanto. – Primeiro as princesas. – Ele solta a mesma piscadela de antes e solta um sorrisinho com o canto do lado, aquele safado estava me testando sem dó nem piedade.

— Como quiser. – Digo pegando a bola e me preparando, me concentrei, respirei fundo me posicionando corretamente, peguei o impulso e lancei a bola bem no centro, caíram 9 pinos, o último balançou mas permaneceu de pé.

Lorcan passa por mim pegando a bola e abro espaço para ele, me concentro em cada ligeiro movimento que seu corpo faz, como seu ombro direito arqueava para trás em busca da angulação perfeita, em como seu cenho franzia tentando localizar perfeitamente onde deveria jogar para um strike perfeito, em como ele parecia inspirar e expirar lentamente, ficar observando-o estava me inebriando tanto quanto como se eu estivesse embriagada após vários copos de cerveja e aquilo não era bom, eu não deveria estar sentindo aquilo e muito menos alimento a ânsia que eu tinha de captar cada detalhe. Ele então pegou o impulso e lançou a bola, prendi a respiração, os pinos foram caindo lentamente, até que finalizaram em 9, então o solitário balançou, girou e caiu. Droga.

— Foi bom jogar contra você de novo querida Lia. – Lorcan diz vindo para me cumprimentar, mas tinha o sorriso mais idiota possível em seu rosto.

— Você sabe que teria perdido se não tivesse tido essa chance. – Digo cruzando os braços, enquanto ele apenas ri do meu emburramento.

— Isso me parece uma desculpa bem esfarrapada para alguém que já perdeu 2 vezes. Agora, como você perdeu e eu ganhei, acho que eu mereço um prêmio, não? – Ele diz pomposo.

— Não tinha nenhuma aposta em jogo querido.

— Estou dizendo que acho que mereço, agora se mereço de fato é com você, não comigo. – Ele dá de ombros.

— Isso depende do que você quer como prêmio. – Digo cética.

— Um café apenas, pra podermos botar o papo em dia, se é que me entende. – Ele agora estava mais sério, o ar brincalhão havia sumido e ele parecia prestes a pisar em ovos. – Temos assuntos pendentes Amélia e acho que deveríamos resolver isso de uma vez por todas, não acha? Merecemos um pouco de paz. – Ele estava com um ar bastante triste, como se realmente quisesse dar um final pra aquilo.

Por 1 segundo pensei em confrontá-lo ali mas em seguida me lembrei de como ele havia ficado quando eu o confrontara mais cedo sobre sua suposta magreza e lembrei também de tudo o que Marco havia dito, não seria justo com nenhum dos dois se eu esquivasse de suas tentativas como se fosse a dona de uma verdade absoluta que eu sequer sabia um mísero detalhe que fosse.

— Ta bem Gonçalvez, eu trabalho amanhã, mas tenho 2 horas de folga na parte da tarde. Então, se quiser aparecer por lá, acho que dá pra começarmos a resolver isso. – Digo tentando parecer o mais amigável comigo, mas eu estava com medo de não estar pronta para ouvir o que estivesse por vir.

— Ok, eu passo na Prisco amanhã a tarde na minha hora de folga então. – Ele diz sorrindo aliviado.

— Já acabaram aí? Estamos com fome! – Fred diz massageando a barriga como se não comece a dias, um clássico caso de um homem que possuía um buraco negro ao invés de um estômago.

— E quando você não está? – Respondemos em uníssono, o que foi bem inesperado, nos encaramos e em seguida rimos juntos por que aquilo era bem idiota, mas acho que velhos hábitos nunca morriam de fato.

O resto da noite estava seguindo tranquilamente, o boliche ficava em um shopping, então fomos para a praça de alimentação pedir porções de batata e cerveja, apenas pra quem não estava dirigindo, claro. Eu sentia que estava rindo atoa e a proximidade de Lorcan na mesa não estava ajudando em nada aquela repentina onda de calor. Por que será que era tão difícil convencer meu próprio corpo de que o certo era evitar Lorcan, querê-lo bem longe e não cada vez mais perto?

Quando as meninas já estavam pra lá de Bagdá mas ainda conscientes do que estava ao redor, resolvemos que já era hora de ir e foi quando as coisas saíram levemente do controle. Pois Luna havia bebido e ela estava de carro, mas eu imaginei que os meninos tivessem ido de carro e cada uma voltaria com seu namorado. O “x” daquela suposta equação era: onde eu me encaixava naquela situação? Pensei em chamar um Uber, pois não queria incomodar ninguém, estava iniciando o aplicativo depois de dividirmos a conta e enquanto as meninas foram ao banheiro.

— Ei, o que você tá fazendo? – Diz Luna chegando por trás de mim, ela estava levemente alterada, menos do que as meninas.

— Estou chamando um Uber, você tá com 0 condições de dirigir amiga. E quando te vi bebendo imaginei que Marco quem voltaria dirigindo.

— E você achou que a gente não ia te deixar em casa? Por favor Amélia! Que tipo de amiga você acha que eu sou? – Ela diz levemente ofendida.

— Lia está precisando de carona pra casa? – Lorcan magicamente surge, como se tivesse sentido uma donzela em perigo.

— Não preciso não, estou chamando um Uber, tá tudo certo, pode ficar tranquilo. – Digo me esquivando de qualquer opção que ele tivesse a oferecer.

— Lorcan, você conhece a Amélia e sabe o quanto ela é teimosa, faz ela acreditar que não tem o menor problema aceitar uma carona, por favor?

— Está tudo bem, ela pode ir comigo, eu trouxe um capacete a mais quando estava vindo. – Ele diz dando de ombros.

— Não, com certeza não, agradeço a oferta, mas obrigada.

— Lia por favor. Ou você vai comigo ou vai com ele, nem pensar que vou te deixar entrar em Uber desse jeito. – Luna diz me dando um ultimato, depois alterna o olhar entre Gonçalvez e eu e me puxa para o cantinho para começar a sussurrar. – Lia, lembra do que conversamos no carro hoje cedo? Não adianta tentar mentir para nós e para si mesma, fingir que você não sente o que sente só torna o sentimento mais forte e mais impossível de controlar, vai por mim.

— E você quer que eu faça o que Luna? – Sussurro soltando o ar em rendição. – Eu não posso ignorar isso e ignorar ele, apenas um dos dois é fazível.

— Não ignore ambos.

— Você já sabe, não é? – Concluo de repente. Luna estava conversando com ele mais cedo, quando ele estava sério, ele com certeza já havia contado para elas o motivo de ter ido embora, só assim para ela vir com esse papo. Quero dizer, tudo bem, ela já sabia o que eu sentia mesmo que eu tentasse mentir, Luna sempre foi boa pra ler nas entrelinhas e descobrir quando as entrelinhas escondiam segredos, ela estava tentando me fazer enxergar a situação de outra forma por que queria que eu desse uma segunda chance a ele e se ela havia chegado à conclusão de que ele merecia uma segunda chance, com certeza a justificativa que ele havia dado era bastante plausível.

— Já sei o que? – Ela diz fazendo a desentendida, mas solta uma piscadinha que eu quase não vi, o que significava que ela não iria me contar, mas que eu deveria descobrir sozinha por que valia a pena, era o clássico “vai por mim, eu sei o que estou fazendo”.

— Gonçalvez a proposta da carona ainda está de pé? – Me viro perguntando ao dito cujo que estava parado alternando o peso entre os dois pés.

— Ma ma mas é claro. – Ele até gaguejou estupefato com a decisão, acho que no fundo ele oferecera sem esperanças de que eu de fato aceitaria, estava ficando com dó pela forma como ele estava agindo, como se fosse um pária e merecesse ser rejeitado.

— Então vamos. – Digo por fim. – Por que as meninas estão demorando tanto? – Direciono a pergunta para Luna mas ela apenas dá de ombros.

— Você sabe que Elara e Alice juntas no banheiro é como se fossem pra Nárnia e perdessem a noção do tempo. Pode ir, me despeço delas por você e você explica tudo depois. Vai lá. – Ela encoraja com um sorrisinho, no fundo eu sabia que ela havia tramado parte daquilo, mas deixei pra lá.

Segui Lorcan até o estacionamento perto de uma moto Harley Davidson. Puta merda o Lorcan tinha uma Harley Davidson, tá bom que eu sabia que a família do Lorcan tinha uma condição muito boa de vida, mas não tão boa.

— Caralho Golçalvez, quantos órgãos você teve que penhorar? – Pergunto estupefata.

— O que? – Ele parecia confuso então viu meus olhos brilhando enquanto olhava para a moto. – Ah, essa belezinha, digamos que meu pai deixou de herança pra mim, e quando eu estava em condições enfim pude pilotá-la.

Engraçado, essa era uma das únicas vezes que Lorcan falou de seu pai, eu só sabia que ele havia morrido poucos meses antes de eu conhecê-lo, não cheguei a saber qual foi a causa e Lorcan nunca tocava no assunto então achei mais prudente evitar perguntar. Não deixei de notar o uso da frase “estava em condições” eu estava pendendo para o lado da balança que indicava que Lorcan havia ido embora por que estava doente, apenas isso justificaria o fato dele ter voltado magro, ter sumido dentre as cartas dizendo que talvez não voltaria, mas o que será que de fato o havia acometido?

Ele me entrega o capacete e sobe na moto, monto atrás dele procurando um local para me segurar, e ele deu partida. Estava bastante tranquila até que ele passou por um quebra-mola, eu desavisada dei um solavanco e avancei para frente, bati a cabeça em suas costas.

— Ouch, tá tudo bem ai? – Ele pergunta olhando de esguelha para trás.

— Acho que sim.

— Seria melhor se você se segurasse em mim querida. – Ele sugeste sereno, mas tenho certeza que estava com um micro sorrisinho por baixo do capacete.

— Está tentando me coagir a te abraçar Gonçalvez?

— Longe de mim. – Ele diz rindo. – Só estou presando pela sua segurança.

Resolvo soltar o local que estava segurando e o abraço, num reflexo ele coloca uma mão por cima das minhas que se uniram em sua barriga. Aquilo fora bem inesperado e seu toque fez com que meu corpo inteiro se eletrizasse, talvez fosse o resto do álcool em meu organismo, ou talvez aquele era o efeito genuíno do que a presença daquele homem era capaz de fazer comigo e minhas estruturas de defesa. Ele parecia hipnotizado, pois também ficou com a mão ali parado, ambos partilhando aquele momento estranho de intimidade sem falar nada. Quando mexi o rosto um pouco para cima, ele sacudiu a cabeça e soltou a minha mão. Mas nenhum dos dois falou nada, talvez por vergonha, talvez por medo, ou talvez por não ter o que dizer.

Seu perfume ainda era o mesmo, forte e inebriante, que tomava meu nariz e me fazia imaginar se eu seria capaz de sentir qualquer outro cheiro novamente, por que eu só queria sentir aquele cheiro. Foi a minha vez de sacudir a cabeça e tentar afastar aqueles pensamentos da minha cabeça, eram terríveis para minha sanidade e eu com certeza faria alguma cagada se continuasse alimentando-os.

Enfim ele chegou em minha casa. E não consegui deixar de reparar duas coisas: ele sabia onde eu morava sem que eu tivesse dito meu endereço e sua moto era diferente da que o homem misterioso havia parado mais cedo para entregar o vaso de lírios. A primeira informação me sacudiu e a segunda me fizera voltar para a estaca 0 de satisfação.

— Então, é isso. Obrigada pela carona Lorcan. – Digo entregando o capacete a ele.

Ele pega o capacete e dá uma risada.

— Qual a graça?

— É a primeira vez que me chamou de Lorcan desde o começo da noite. – Ele diz olhando-me nos olhos e em seguida fitando meus lábios. Ficamos ali parados naquele transe novamente apenas olhando um para o outro, sabendo o que queríamos fazer, no entanto sem saber se de fato deveríamos. – Bom, boa noite Lia, nos vemos no café amanhã. – Ele desvencilha o olhar primeiro e sobe na moto de novo, rapidamente dando partida.

— Boa noite Lorcan. – Digo quando ele já está na esquina e não consegue mais me ouvir, ainda bem, pois eu estava seriamente preocupada se era possível perceber toda a carga sentimental que deixei escapar quando pronunciei seu nome

Eu estava trilhando um perigoso caminho, mas por uma razão desconhecida parecia impossível que eu me desviasse dele.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Beijoos!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.