Letters About Us
5 Capítulo 5 - Strikes certeiros no meu coração
Notas iniciais
Assim que entro atrás do Fox 2015 preto, pois Anna já estava sentada na frente como de costume, Luna vira para trás para olhar pra mim.
— Uau, alguém está vestida pra matar! Quem será a vítima? – Ela diz com um sorriso suspeito e lança um olhar furtivo para as outras duas.
— Certamente você se não me contar qual foi a desse olhar conspiratório que eu acabei de notar. – Algo ali tinha fugido da minha percepção.
— Não faço a menor ideia do que você está falando. – Ela dá de ombros e se vira pra frente para dar partida no carro.
A cidade continuava tranquila, mas as ruas seguiam com casais juntinhos e sorridentes, tentei me concentrar nas meninas ao invés de olhar para o lado de fora.
— Então, vocês disseram que Gonçalvez está de volta... – Tentei jogar o verde como quem não queria.
— Hum, alguém me parece interessada... – Luna disse e eu consegui ver um sorrisinho pelo retrovisor. – Droga, perdi a aposta.
— Aposta? Que aposta? – Pergunto alternando olhares.
— Apostamos que você iria dar confiança pro fato do Golçalvez agora que sabia que ele estava de volta. Luna discordou e apostou contra. – Anna ri fazendo um sinal de “passa meu dinheiro pra cá” para Luna.
— Não estou dando confiança, só queria saber por que ele voltou assim do nada, da mesma forma que foi embora: sem explicações. – Desvio o olhar pois estou falhando miseravelmente e deixando transparecer a mágoa em minha voz.
— Lia, você sabe que não precisa mentir pra gente né? Nós te conhecemos como a palma da nossa mão. E sabemos que estava apaixonada por ele quando ele foi embora. – Elara diz sem mais nem menos virando para me encarar.
— Não sei do que você está falando, não estava apaixonada por ele, foi algo de momento e sabíamos que não teria como durar. – Falei ainda olhando para fora, pois eu estava mentindo na cara dura e elas sabiam disso.
Elara apenas respirou fundo e soltou o ar em desistência, começando a cantarolar a música do Bruno Mars que tocava no som do carro. O silêncio estava constrangedor graças a mim, e pra variar, eu não conseguia pensar no que dizer pra quebrar aquele clima. Por que a única coisa que eu poderia dizer eu não tinha coragem pra admitir, admitir tudo o que eu senti e que ainda sinto iria ser muito problemático nesse momento.
Chegamos ao boliche e entramos, após pagar as entradas e pegar os tênis fomos andando para a pista para trocar os sapatos e foi quando eu saquei qual era a cartada daquele suposto encontro repentino, os meninos estavam todos ali e assim que avistaram suas namoradas já abriram sorrisos e foram em suas direções. Fiquei um pouco chateada por que aquele era um programa de casais e estava eu, a solteirona ali pra segurar aquele castiçal de palácio. Depois de cumprimentar os meninos me sentei para trocar os sapatos.
— Ei Gonçalvez! Elas chegaram! – Fred anuncia segundos depois e eu quase caio de cara naquele piso encerado enquanto paraliso olhando para os meus cadarços.
Eu não conseguia olhar para cima, estava estática. O medo de olhar e vê-lo novamente era real. E eu não sabia se aguentaria aquela pressão depois de ter lido o que ele escrevera nas cartas. O que eu deveria fazer? Agir normalmente? Falar sobre as cartas? Bancar a egípcia? Aquele turbilhão de pensamentos estava começando a me dar falta de ar e eu precisava manter o controle. Respirei fundo e contei até 10, se eu aguentava 10 segundos eu aguentaria mais 10.
Pareceu uma eternidade enquanto eu amarrava os cadarços, me concentrando apenas neles e não no par de sapatos que estava parado a cerca de 2 metros de mim. Depois de fazer 2 laços perfeitos e realmente não ter mais com o que ganhar tempo eu prendi a respiração e juntei toda a coragem para enfim olhar pra cima.
E ali estava ele. O consagrado fantasma do meu passado, em carne e osso. Lorcan Golçalvez. Fui seguindo-o com o olhar de baixo para cima enquanto levantava a cabeça, ele estava mais magro do que eu me lembrava, suas mãos estavam sendo passadas na calça, como se ele estivesse nervoso e inquieto, quanto mais eu subia o olhar mais eu sabia que estava adiando apenas o inevitável, enfim cheguei ao seu rosto, tão magro quando seu corpo, o cabelo estava curto – adicionei um lembrete mental de retornar nesse momento depois pois aquelas novas informações eram úteis para a lista de fatos do suposto presente –, e seu olhar queimava sobre mim, mas eu ainda não conseguia decifrar o que havia naquele olhar, seria fúria? Seria medo? Seria mágoa?
Ficamos nos encarando até que Elara que estava sentada do meu lado me cutucou sutilmente com seu cotovelo me tirando do transe de segurar meu olhar junto ao dele.
— Gonçalvez, oi, quanto tempo. – Me levantei meio cambaleante, mas mantive a estrutura o máximo que pode, ele não podia saber que eu estava um ovo de tão mexida.
— Amélia, você... você continua linda. – Ele soltou baixo sem mais nem menos, ali estava, sua voz baixa, aquilo no olhar dele era arrependimento.
— Bom, você está magro, não estava comendo onde você estava? – Eu soei mais grossa do que eu imaginei em minha mente e no segundo seguinte eu me arrependi, por que aquela não era eu.
— Bom, é complicado. – Ele abaixou ainda mais a voz, abaixou o rosto e encolheu os ombros, o que significava que eu tinha tocado em uma ferida, com certeza aquilo tinha que ter ligação com ele ter ido embora.
— Pelo menos você voltou pra eu enfim ter minha revanche e ganhar de você uma vez na vida. – Resolvi abaixar a guarda e dei um sorrisinho, por mais que ele houvesse me magoado não era justo atacá-lo com unhas e dentes daquela forma, ainda mais quando ele parecia bastante abatido, resolvi deixar para resolver os assuntos mal revolvidos em outro momento.
— Só por cima do meu cadáver que você vai ganhar de mim Lia. – Ele levantou o rosto e retribuiu meu sorriso, ele podia não ter dito, mas seus olhos agradeceram em silêncio o meu desvio de assunto.
Passei por ele e fui pegar a bola de boliche, peguei a bola número 12, meu número da sorte, me posicionei e lancei com máximo de impulso, acertei 7 dos 10 pinos, em seguida acertei os outros 3.
— Parece que temos um spare aqui não é mesmo? – Digo me virando com as mãos na cintura para encará-lo.
Ele estava sorrindo e passou por mim em silêncio para fazer sua jogada, um maldito strike perfeito.
— Vai ter que fazer melhor que isso se quiser me vencer querida. – Ele sussurra enquanto passa por mim.
Não dava pra negar que aquele homem sabia direitinho o que fazer para mexer comigo e abalar minhas humildes estruturas.
Me sentei do lado de Marco enquanto o resto dos meninos jogavam, e Fred e Alice estavam todo fofos apenas observando, e as meninas conversavam com Gonçalvez em uma distância que não dava pra ouvir o que estava sendo dito, mas elas estavam bastante sérias.
— Ele sente muito por tudo... – Disse Marco sem olhar pra mim. – Sabe disso não sabe?
— No fundo eu sei. Mas isso não muda os fatos e as consequências deles. – Respondo meio sem saber onde ele queria chegar com aquilo.
— Eu imagino que não Lia, todos vimos que você sofreu, no fundo mesmo de longe ele também viu.
— Apenas dê uma chance dele se explicar, está bem? Ele não teve culpa total no que aconteceu, foram as circunstâncias e...
— Quais circunstâncias? – O interrompo tentando conseguir informações.
— Nem tente mocinha, seus truques não funcionam comigo. – Marco diz sério agora me encarando, mas dá um sorrisinho e me cutuca com o cotovelo. – Só quero que saiba que só quero o melhor pra vocês dois, quer juntos, quer separados, ele só merece uma chance de se explicar, não foi justo o que você fez com ele 8 meses atrás.
— Como assim o que eu fiz com ele 8 meses atrás Marco? Do que você está falando? – Ali estava algo novo.
— Como assim Lia? Por favor, você não é assim. Nunca foi de mandar os outros resolverem seus problemas e muito menos foi de se fingir de desentendida.
— Não estou me fazendo de desentendida. Só realmente não sei do que você está falando. Não converso com Gonçalvez há 6 anos, nunca mais tive notícia dele depois que ele foi embora, quer dizer, até hoje a tarde. – Abaixei o tom no final por que aquela informação não precisava ser exposta.
— Você não... Espera, então quer dizer que você não marcou de encontrá-lo e nem mandou ninguém em seu lugar por que não queria mais vê-lo? – Ele ainda parecia incrédulo e aquilo tudo era estranho, mas ele estava tentando acreditar no que eu estava dizendo.
— Você me conhece o suficiente pra saber que se eu pudesse ver o Lorcan ao vivo pra estapeá-lo pelo o que ele fez eu iria sem nem pestanejar. Não faço ideia do que está falando Marco. Agora se você quiser me inteirar sobre, seria bom.
— Isso também cabe a ele Lia... – Ele diz baixo. – Sinto muito mas terão que conversar.
— Mas que caralho! Por que ninguém pode me falar nada nessa merda? Virou segredo de estado? – Aumento um pouco o meu tom e em seguida percebo que chamei atenção indesejada de estranhos e do lindo par de olhos verdes de Lorcan que agora estavam em mim. – Desculpe. Eu só não entendo por que todo esse suspense. Ele está de volta não está? Então pra que?
— Lia foi tudo tão difícil e delicado pra ele, ele não é o mesmo de Lorcan, acho que você percebeu isso. Acha mesmo que o antigo Lorcan teria simplesmente abaixado a cabeça quando você o confrontou sobre estar magro? É óbvio que ele se sente culpado de tudo e ele já sofreu demais, sabemos que não foi justo o que ele fez, mas tentamos entender o lado dele.
— Eu sei Marco. Mas como posso entender o lado dele, se eu nem de fato sei qual é? – Digo olhando para Lorcan que voltara a atenção para as meninas e ria distraído, ele parecia mais leve, mas realmente ele não estava com toda aquela energia do antigo Lorcan.
— Você vai saber Lia, ele pretendia te contar, há 8 meses atrás... mas depois daquele dia pra ele você realmente não queria vê-lo nem pintado a ouro e aquilo acabou com ele. Tudo que ele fez, foi pensando em você, guardando a esperança que ele voltaria pra você e conseguia recuperar todo o tempo perdido. Custamos a convencê-lo a se mudar pra cá novamente, apesar de tudo. – Marco parecia triste tendo que me contar aquilo e eu queria interrompê-lo por que não saberia como consolá-lo, mas no fundo eu sabia que precisava daquela verdade. – Então, agora ele está de volta e já chega de tapar o sol com a peneira, eu e você sabemos que isso é inútil. Só peço pra você pegar leve com ele tá? Vocês dois tiveram o coração partido há 6 anos.
Fiquei alguns segundos pensativa, sem conseguir organizar uma resposta decente, então apenas aceno com a cabeça.
— Tá bem Marco, vou tentar pegar leve com ele. – Digo por fim.
— Ei Amélia, tá me dando colher de chá pra te ganhar de novo passando a sua vez pra mim? –Lorcan diz olhando na minha direção.
— Ta achando que aqui é Disneylândia Gonçalvez? – Pergunto já me levantando para jogar.
— Bom, pode não ser a Disneylândia, mas eu tenho certeza que tem princesa aqui. – Ele dá uma piscadinha sorrindo.
Só reviro os olhos enquanto vou jogar novamente. Faço um strike e ele acerta 9 pinos em sua próxima jogada. Ele me mostra língua e eu fico apenas rindo. Aquilo estava leve e por alguns minutos era realmente possível deixar tudo pra trás, agirmos como se fôssemos amigos normais que estão passando um tempo juntos após um tempo sem se ver.
Mas no fim da noite não éramos apenas amigos normais, éramos uma espécie de casal desengonçado que estava tentando fingir que não estávamos magoados um com o outro, cada qual com seu ressentimento, cada qual com sua culpa. Eu era capaz de perdoá-lo, tudo é um ciclo, até mesmo superar alguém funciona como um ciclo, em uma analogia é como os 5 estágios do luto.
1. Negação: me recusei por meses a acreditar que ele tinha ido, no fundo eu acreditava que ele voltaria, dizia que sentia muito e tudo poderia voltar a ser como era e eu também mentia para todos dizendo que estava bem apesar de ser claramente nítido que eu não estava.
2. Raiva: a ligeira menção ao nome de Gonçalvez me fazia soltar os cachorros em qualquer um que fosse, como se ele fosse alguma espécie de demônio que não devesse ser citado, deveria apenas ser jogado e largado nos confins do mundo e esquecido.
3. Depressão: quando fiquei triste novamente lembrando que era péssima em relacionamentos e deveria ter feito algo de errado para ele ter ido embora, aquela mesma lenga lenga pensando no quanto eu havia sido insuficiente para ele e nunca amaria novamente por que nada e nem ninguém seria igual a Lorcan.
4. Barganha: fui atrás da irmã dele e tentei sugar toda e qualquer informação que ela estivesse disposta a dar, eu de fato tentei suborná-la com seus doces favoritos, mas não funcionou, ela se negou a contar o mínimo que fosse e no fim acabei dando os doces para ela por que fiquei com peso na consciência de ter ido importuná-la.
5. Aceitação: quando enfim percebi que tudo aconteceu como deveria acontecer, era aquilo, o fim, tudo tem um começo, um meio e um final, por que comigo e Lorcan seria diferente? Alguns fins demoram mais do que outros, mas tudo acaba eventualmente. E quando eu passei a aceitar que as coisas não poderiam ser diferentes eu tranquei Lorcan no fundo da minha mente e passei a viver a minha vida da melhor forma possível, foi também quando conheci Lucca e acabei usando-o para terminar de cimentar o buraco onde eu havia enterrado toda as memórias com Lorcan.
Olhando por esse lado, hoje em dia eu aceitava a situação mas eu não trabalhava com flores para ser ver tudo sempre florido em minha frente e no fundo eu sei que mesmo aceitando que tudo é como tem que ser e tudo tem uma razão, por vezes me peguei pensando: e se?
E foi ai que eu errei, esse e se? Alimentou aquela pequena rosa que brotou no túmulo de Lorcan e como toda rosa, aquela também tinha espinhos e hora ou outra eles me espetavam na lembrança de que mesmo aceitando o fim, ele havia me magoado e ele me devia satisfações, e por isso eu não fora capaz de superá-lo completamente e estava tendo aqueles malditos arrepios toda vez que eu pensava nele ou o olhava sorrindo em minha direção. Aquele homem podia estar perdendo no boliche, mas ainda estava causando strikes no meu coração.
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