Letters About Us

2 Capítulo 2 - 6 anos depois


Notas iniciais
Heey, tem alguém ai? Espero que gostem!

Estou concentrada na torta que estou decorando para colocar na vitrine da cafeteria e doceria Prisco, cujo dono é meu tio, afinal, tenho certeza que quase todas irão sair até o fim dessa semana. Estamos na famigerada semana do dia dos namorados, ou a semana do o dia onde os homens compram flores e chocolates ou qualquer que seja o que estiver em alta no mercado, basicamente, verdade seja dia: o dia dos namorados foi uma completa invenção do capitalismo. Não me levem a mal, mas por que justo no dia dos namorados os homens sentem a necessidade de presentear suas amadas com declarações afetadas? Casais deveriam demonstrar isso naturalmente, não esperar apenas um dia do ano pra isso, afinal, as pequenas demonstrações deveriam estar nas pequenas coisas do dia-a-dia.

Sim, sou levemente amargurada com essa data, pois curiosamente nenhum dos meus namoros viveu o suficiente para passar por um desses dias, minto, apenas um deles viveu por um tempo considerável, mas digamos apenas que nenhum dos dois tinha muitas aspirações para tal. Vamos a fatos mais concretos de por que sou a última fã desse dia.

1. Meu primeiro namorado era um imbecil e uma porta no quesito demonstrar que amava sua namorada, por que na verdade ele não me amava, só queria colocar suas garrinhas em mim para controlar toda e qualquer ação que tivesse respeito a minha vida.

2. Lorcan Golçalvez, o homem que quebrou meu coração e foi embora sem dar uma justificativa plausível, eu deveria parabenizá-lo por sua capacidade de ter sumido do mapa, mas na verdade não quero vê-lo nem se ele fosse o descobridor da cura para todos os cânceres. Apenas nossos amigos sabiam pra onde ele havia ido, mas diziam que fizeram uma espécie de juramento e que apenas ele tinha o direito de me contar.

3. E chegamos ao último e forte concorrente para o prêmio de babaca do ano, Lucca Carvalho. Foi meu namoro mais duradouro, chegamos a morar juntos. Estávamos para completar 5 anos de namoro, porém era algo mais prático do que fato aquele amor arrebatador dos livros e filmes. Ainda estaríamos juntos, porém a má sorte bateu na minha porta novamente então ele terminou comigo. Mas não foi aqueles términos chatos sabe, ele conseguiu se superar fazendo isso no dia de nosso aniversário de namoro. Eu só planejava um jantar diferente sabe, nada muito estravagante por que esse nunca fora meu forte. Porém nossos amigos pensavam diferente de nós e armaram uma festa surpresa em nosso apartamento – o que ele não sabia, eu havia descoberto por que tive que passar em casa mais cedo, quando cheguei eles já estavam lá ­– ou seja, no fim da noite a surpresa foi ele ter terminado comigo, por um motivo que eu me neguei a escutar, aquilo foi uma total vergonha pra mim.

Claramente eu não tenho sorte no amor, quando o cupido olha pra mim ele deve rir bastante. Depois desse infeliz acaso, acabei me mudando novamente pois obviamente não seria possível continuar morando com ele. Fiquei casa da minha irmã a procura de emprego, por que meu antigo emprego era na cidade vizinha e devido a não estar mais com Lorcan, não morar mais lá tornava a situação mais difícil, quando meu tio descobriu que eu estava de volta e desempregada me ofereceu o emprego de chef dos doces, então com o salário eu aluguei meu próprio apartamento e estava ajeitando-o aos poucos.

— Esse ficou lindo Lia. – Meu tio se aproxima examinando a torta que eu havia terminado de decorar, por mais que eu não fosse lá muito romântica eu havia decorado com rosas de glacê branco e salmão. – O movimento hoje está bem tranquilo, então o que acha de tirar folga hoje à tarde? No final da semana o café ficará mais cheio então teremos mais encomendas... Receio que terei que pedir para que você fique depois do horário dependendo da demanda.

— Hum, está bem, pode ser. – Sorrio concordando, meu tio não era do tipo que usurpava do meu trabalho, porém eu reconhecia todo o seu esforço por ter aberto o café sozinho e acho que ele ficou feliz depois que as vendas duplicaram com as encomendas das tortas e doces que eu fazia conforme foi ficando mais conhecido. – Até amanhã então. – Retiro o avental, a touca e as luvas e pego meu casaco e minha bolsa para ir embora.

Já eram 11h da manhã então resolvi que iria almoçar na rua e aproveitar a folga para desempacotar mais algumas coisas naquela tarde. Ligo para Luna e pergunto se ela gostaria de almoçar comigo, ela diz que sim e que irá levar as garotas com ela. Uma coisa de boa de ter voltado pra cá era ter de novo Anna, Elara e Luna comigo, éramos amigas desde os 13 anos e estudamos juntas até os 18, elas namoravam os amigos do Gonçalvez e em parte foram as responsáveis por nossa aproximação.

— Meninas, eu sei que vocês tinham planos pra hoje e também sei que estou atrapalhando. – Resolvo dizer depois que elas chegam e passamos pela porta do restaurante que ficava há 4 quadras do meu apartamento. – Mas eu estava querendo dar uma ajeitada no meu apartamento hoje e queria saber se vocês topariam me ajuda?

— Lia, você não está atrapalhando, dissemos que íamos ajudar quando você se mudasse lembra? – Luna fala na hora.

— Lembro, mas é a semana do dia dos namorados e vocês são românticas incuráveis então tenho certeza que vocês têm algum planejamento para hoje e para o resto da semana.

Aquela frase realmente ficou pairando na minha cabeça, aparentemente fui a única do grupo não havia continuado com seu namorado do colégio e aquilo me deixava chateada, por que tinha tudo pra dar certo e aparentemente o cupido só escolheu encerrar o expediente na minha vez.

— Você está consciente do que está dizendo Amélia? Hoje ainda é segunda-feira, temos planos só sexta-feira – Diz Elara.

— Você não está nos atrapalhando. De toda forma eles nos avisaram hoje certo passar o dia com um antigo amigo que voltou pra cá recentemente. – Ana explica.

— Antigo amigo? – pergunto sem esconder a curiosidade.

— É... Você também o conhece Lia. – Elara responde meio sem graça. – Eu diria que o conhece bem até demais.

— Conheço?

— Sim, e mais uma dica: Ele costumava ter uma queda por você. – Ela responde.

— Queda? Acho que queda é pouco. – Anna diz, fazendo as meninas rirem. – Talvez um precipício seja mais adequado pra descrever.

— Queda por quem? – Me faço de desentendida, apesar de ter ouvido muito bem o que Elara disse.

— Por você Amélia! – Luna responde.

Ah não, não pode ser, não, não é quem eu estou pensando, ele foi embora há 6 anos... Não é possível que ele voltaria agora... Ou será que seria?

— E quem é ele?

— Lorcan Gonçalvez. – Ela responde.

— Você está brincando né? – Pergunto, tomada por uma estranha faísca que por anos tentei esconder, mas pela expressão que ela faz em resposta... – Não, você não está brincando.

Depois que almoçamos Luna nos levou até meu apartamento, ela ficou com a cozinha, eu fiquei com as coisas do quarto e Elara e Anna ficaram com a sala. Quando estava praticamente tudo ajeitado elas foram embora e disseram que me mandariam mensagem depois para fazermos alguma coisa.

Faltavam apenas duas caixas para desempacotar, então me sentei no tapete e abri uma delas, me deparando com muitas cartas dentro, todas envoltas por fitas azuis grafite, minha cor favorita, todas estavam fechadas, como se nunca tivessem sido abertas – o que acho que de fato não foram. Estranho... Nunca havia notado essas cartas, pelo menos não que me lembre, o que me leva a crer, que se não sabia da existência delas, não as abri e muito menos as li. Peguei uma que estava no topo e procurei pelo remetente, apenas a data do ano, exatos 5 anos atrás, 2014... Não havia remetente, sem aguentar mais de curiosidade a abri.

“Querida Lia, perdão, querida Amélia,

Sei que devo ter perdido o direito de te chamar pelo seu apelido devido aos últimos acontecimentos, mas me senti na necessidade de te escrever pra quem sabe esclarecer algumas pequenas coisas. Sabe Amélia, não é segredo pra ninguém que eu sempre tive uma queda por você, afinal, é quase impossível fazer com que os garotos ficassem quietos anos atrás, principalmente se estivessem com suas amigas. Mas também não é segredo que eu fui o homem mais feliz do mundo depois daquele dia em que nos beijamos e principalmente no dia que você aceitou namorar comigo, você estava deslumbrante naquele dia, difícil dizer um dia em que você não esteja simplesmente linda. Porém não é segredo que você tem um namorado agora, pelo que fiquei sabendo... e se tenho direito a opinar, ele não é digno de você e no fundo eu acho que você sabe disso.

Eu estou escrevendo por que primeiramente gostaria de dizer por que foi que eu me apaixonei por você, a garota sorridente de olhos amendoados e cabelos ondulados e acobreados. Chame de amor à primeira vista ou me chame de idiota se quiser, afinal, eu quem ainda sou o bobo apaixonado aqui, mas você sempre brilhou por si mesma e eu sempre te admirei por ter coragem de ser você mesma independentemente das influências. Enfim, eu já estou bastante vermelho de vergonha por enfim estar me declarando pra você, mesmo que seja por carta, quando eu deveria ter aproveitado aquele dia na cachoeira e talvez as coisas teriam sido diferentes, mas eu não consegui. Então, quem sabe eu consiga ser tão corajoso quanto você e escrever novamente.

Beijos, L”

Espera, cachoeira? Eu só havia ido até a cachoeira com uma pessoa e eu não conseguia acreditar no que estava a minha frente, era uma carta do Gonçalvez, e por que eu não havia aberto aquilo antes? Isso era muito estranho, aquela carta havia chegado pouco depois de eu começar a namorar, então por que eu não havia recebido? Gonçalvez havia ido embora há 6 anos e enviara aquilo um ano depois.

Não conseguindo me conter peguei outra carta e a abri.

“Querida Amélia,

Aqui estou eu novamente, estou em um dilema moral se continuo a te escrever ou não, por que sei a carga emocional do que estou escrevendo e eu odiaria alterar o curso atual da sua vida, bom, talvez não odiaria tanto assim dependendo da nova direção... fiquei sabendo que você realmente correu atrás do que queria e entrou no curso de gastronomia, estou feliz por você, de verdade, sempre foi seu sonho né? Sabe qual costumava ser o meu? Ter a honra de namorar com você, mas acho que o destino não foi gentil comigo e me levou para longe quando meu sonho estava se tornando realidade, acredite se quiser, mas eu não parei de pensar em você nesse 1 ano e 1 mês que passei longe eu tentei tirar você da minha cabeça e não consegui, acho que essa é minha última esperança de que talvez ainda possamos ter uma chance.

Beijos, L”

Foram necessárias 2 cartas pra trazer de volta aquele sentimento que eu custei a engolir quando ele foi embora sem mais nem menos, simplesmente sumiu do mapa, eu checava as redes sociais, tentei ligar para os irmãos dele, para a mãe dele e nada, só um completo vazio e silêncio, até que um dia eu desisti. Peguei a outra carta.

“Querida Amélia,

Hoje é um dia muito importante pra mim e por mais que eu tenha te afastado eu gostaria que estivesse aqui comigo, eu sei que o que fiz foi muito errado, eu nunca deveria ter te trancado pra fora como fiz e infelizmente ainda não sei o que fazer para me redimir disso. Mas infelizmente o ser humano não é perfeito e eu estou longe de ser Amélia. Gostaria que estivesse aqui comigo, pode ser que eu fique um tempo sem mandar alguma carta, se essa for a última, só quero que saiba que... que eu amo você.

Beijos, L”

Essa última carta havia sido como um tapa. Só a possibilidade de algo ter acontecido com ele já deixava meu coração apertado. Mas a julgar as demais cartas na caixa acho que ele estava bem, aquilo de certa forma acalmou um pouco a pequena pontada de preocupação que havia cintilado em mim por alguns segundos. Já estava para abrir a quarta carta, quando meu interfone tocou, fechei a caixa com cuidado e fui atender.

— Quem é? ­

— Oi Lia, sou eu, Lucca. – Ouço a voz do canalha que havia terminado comigo há 8 meses atrás.

— O que você quer Lucca? – Pergunto com uma pitada de raiva na voz. – Aliás, como descobriu meu endereço?

— Eu liguei pra sua irmã e ela me passou.

— Ah que ótimo, minha própria família me traindo agora. Você ainda não disse o que você quer. – Digo sem paciência e anotando mentalmente para ligar para Zoe dar uma bronca nela, afinal qual a parte do “Zoe nunca mais quero ver aquele homem na minha frente” não havia ficado clara o suficiente?

— Eu só quero conversar com você Lia, sinto que algumas coisas ficam mal resolvidas entre nós.

— Ah você sente alguma coisa agora? Deveria ter pensado nisso antes de terminar comigo seu idiota. – A raiva já era nítida no meu tom de voz, mas não dava pra evitar o quanto eu estava magoada.

— Lia por favor, só te peço pra ir comigo tomar um café e ouvir o que eu tenho a dizer, se depois disso você quiser ir embora, tudo bem.

— Já desço, mas você vai ter 20 minutos para dizer o que quer e só. – Digo me rendendo e desligando o interfone para trocar de roupa.

Me olho no espelho e resolvo passar apenas um lip tint para dar aquele ar saudável a minha boca. Resolvi usar um jeans claro folgado com alguns rasgos, uma camiseta preta, meu all star branco e uma jaqueta jeans preta, por costume borrifei perfume no pescoço e nos pulsos, 1 segundo depois me amaldiçoei mentalmente por estar me arrumando e gastando perfume para sair com aquele idiota. Então pego minha bolsa e ao passar meu olhar pela caixa uma pontada curiosa me atinge para saber o que mais havia escrito ali, mas jogo ela para longe, aquele não era o momento ideal, era melhor que eu me concentrasse em uma pendência por vez ou perderia as estribeiras, assim que tenho certeza de ter conferido 3 vezes se de fato havia tracado a porta desço para encontrar Lucca.

Ele estava no térreo, com uma camisa verde musgo que deixava aparente seus músculos do braço, uma calça jeans um pouco justa, literalmente naquela pose de personagem literário, com as mãos no bolso dianteiro e cabeça baixa, seu cabelo estava maior do que a última vez que o vi e a barba por fazer também era aparente. Quando saí do elevador e ele ouviu o barulho das portas ele olhou para cima, na minha direção, logo abriu um sorriso inocente, tentei abrir um sorriso mínimo só pela educação.

Veio todo cordial e no último segundo me abraçou, fiquei estática. Por que será que pessoas que fazem cagadas conosco tem uma estranha mania de achar que continuam tendo intimidade para certas ações?

— Você está linda Lia. É bom te ver. – Ele diz quando me solta.

— É, você também não está ruim quanto eu gostaria. – Digo com um sorriso amarelo.

— Ah então você gostaria que eu estivesse acabado para não se sentir mais atraída por mim, né? – Ele diz rindo um pouco.

— Não deixe isso subir pra cabeça.

— Fica tranquila que eu não mordo querida, quero dizer, a menos que você queira. – Ele sorri de forma safada.

— Olha Lucca, eu vim aqui pra você se justificar, não pra você dar em cima de mim, seus 20 minutos já estão valendo, então eu me preocuparia mais em falar logo o que você tem a dizer, antes que eu desista. – Digo cruzando os braços.

— Ok, me desculpe, vamos? – Ele me oferece o braço, mas eu recuso e só passo por ele. – Prometo que não irá se arrepender.

— Isso é o que veremos.

Notas finais
Beijos e até o próximo!