Notas iniciais
Hey little birds, a música é da Melanie Martinez - Cry Baby link: https://www.youtube.com/watch?v=Zq8C5L80Zj0

Eles me chamam de bebê chorão, mas estou pouco me fodendo

Bebê chorão, eu rio através das minhas lágrimas

Lágrimas caem no chão, eu apenas deixo eles se afogarem.

***

— Eu queria te pedir desculpa pelo o que eu disse, sobre você merecer estar aqui, estava com raiva, não queria ter dito aquilo pra você – me desculpo.

— Mas o que você disse é a mais pura realidade, minha cara e não precisa se desculpar, quando estamos com raiva acabamos falando coisas que nunca imaginávamos dizer e ferindo quem se ama – ela diz e encara um ponto se perdendo em pensamentos.

— Me desculpe, mas a senhora tem muitos devaneios? – pergunta o ser maligno a olhando atentamente.

— Sim, quando guardamos muitos segredos, eles começam a lhe torturar aos poucos até não conseguirmos mais aguenta-los, já conheci pessoas maravilhosas que acabaram se suicidando por causa deles – ela diz e nos olha como se não tivesse dito nada demais, então ri de nossas expressões assustadas.

— Então você é uma exceção – diz Gabriel.

— Como pode ter certeza disso?

— Ora, você esta aqui na nossa frente, preste a dizer quem foi e isso se torna uma confidência, e olhando isso numa situação geral, ninguém sabe nada sobre você, apenas o seu primeiro nome, Olívia, então a sua vida antes desse lugar se torna um segredo – ele deduz receoso.

— Como é inteligente, meu caro, mas quero que seja menos receoso ao falar comigo ou deduzir algo a qualquer outro tipo de pessoa – ela diz ainda sorridente.

— É que eu já não sei que resposta esperar da senhora.

— Oh, tenho certeza disso... – ela fica séria suspirando – Meu nome é Olívia Zorn, sou filha de Stephan e Gisela Zorn, nasci no ano de 1943, dois anos antes de aquela maldita guerra acabar. Chamo-me Olívia, pois quando minha mãe entrou em trabalho de parto numa noite fria, a sua ama de leite, uma espanhola que já estava na casa dos oitenta, que praticamente criou minha mãe e minha tia, me salvou. Minha mãe já tinha perdido um filho, não iria sobreviver se perdesse mais um então em homenagem a mulher que me salvou, minha me nomeou de Olívia.

— Nossa você deve ter um bom anjo da guarda, hein? — comento sorrindo.

— Sim, é claro. Mas o meu anjo da guarda tinha outro nome, Katharina Bernstein, era seu nome, minha prima, uma menina que na época tinha oito anos, mas que parecia ter mais. Naquela noite, ela e minha tia, a irmã gêmea não idêntica de minha mãe, Mariele, haviam pousado em minha casa, pois com a gravidez avançada e arriscada de minha mãe, minha tia não quis arriscar perder mais uma noite. Quando a hora chegou, minha tia foi a primeira a ajudar.

— Mas e seu pai? Onde ele estava? – pergunta Gabriel.

— Meu pai não amava minha mãe, muito menos eu, ele sempre alegava que minha não servia nem para lhe dar um menino, por isso nos deixou sozinhas naquela noite, para ficar com as meretrizes. Bom... – ela sorri não acreditando – aquela menina era maravilhosa. Ela ficou desesperada, então saiu de casa para chamar a ama, que morava na parte pobre da cidade. Tudo mudou naquela noite. Mesmo eu sendo mais nova que ela, sempre foi minha amiga, mas não por obrigação porque éramos primas, e não escondia isso de ninguém, desde pequena sendo a mais inteligente entre as garotas da época. Lembro-me até hoje como ela era, tinha cabelos de fogo, que de longe se via que ela tinha um gênio forte, tinha olhos cor âmbar, assim como o do seu pai e sua mãe. Em todo lugar em que ela ia, chamava a atenção, mesmo quando tentava não ser notada... Você lembra muito ela, menina – ela conclui me encarando, Gabriel segui o seu olhar me encarando também – quando você disse que as pessoas vêm e vão mas as verdadeiras ficam, me remeteu que ela me disse essa mesma frase quando minha mãe faleceu. Eu só tinha três anos e meu pai decidiu que não me queria mais.

— Mais que idiota. Como ele pôde ter feito isso com você e com a sua mãe... Argh – digo indignada, se eu já estou assim no começo imagina quando ela contar tudo.

— Idiota é pouco, minha cara. Mas ele mudou de ideia. Ele disse que só cuidaria de mim se Mariele e Charles Bernstein lhe concedessem a mão de sua única filha, Katharina que na época só tinha onze anos...

Nesse momento, Xavier volta, interrompendo a senhora.

— Desculpem-me atrapalhar essa ótima conversa, mas o horário de visita já acabou e esta na hora de seu descanso Olivia.

Paro o gravador, salvando o arquivo e me levanto sendo seguida pelo ser maligno.

— Xavier, já lhe disse, o quanto eu te acho chato, querido? – diz Olivia sorrindo.

— Muitas vezes, mas tenho a impressão que a senhora me adora – Xavier diz a senhora sorrindo.

— Ora que convencido... – ela olha para mim e Gabriel – vocês irão voltar amanhã, sim?

— Mas é claro que voltaremos dona Olivia – digo.

— Ótimo, então vamos Xavier, leve-me para os meus aposentos, até amanhã crianças.

Ela acena e sai de braços dados com o médico, Eu e Gabriel saímos da clinica e fomos até ao seu fusca.

— Sabe, ela ta começando a me irritar com essa de nos chamar de crianças – comenta Gabriel rindo.

***

Durante todo o trajeto, da clinica ao hotel, fiquei repassando o que Olívia havia nos dito: “Ele disse que só cuidaria de mim se Mariele e Charles Bernstein lhe concedesse a mão de sua única filha, Katharina, que na época só tinha onze anos...”. Não consegui controlar a minha raiva.

— Como um cara, que devia ter seus quase quarenta anos, queria se casar com uma menina de onze? Caralho sei que os tempos eram outros, mas cadê o bom senso?

— Aly, pensa comigo, o cara não gostava da esposa, muito menos da filha. Provavelmente ele se casou por casar, passava a maior parte do seu tempo com prostitutas e bem provável que tanto a Gisela quanto a Olivia tenham apanhado muito dele. Homens assim são perversos, querem exercer a sua autoridade sobre alguém, no caso pessoas que ele acha serem inferiores a ele.

— A minha vontade é de matar esse filho da puta. Eu só espero que os pais dessa menina tenham negado e adotado a Olivia.

Outro fato: Eu sou uma pessoa impulsiva. Quando eu era adolescente era muito difícil controlar isso. Era 8 ou 80, tudo muito intenso, do amor ao desprezo, mas nem por isso eu era uma inconsequente. Sempre dei meu melhor para ofuscar isso da minha personalidade, não era que nem me distrair, isso eu não controlava, era repentino, então eu me isolava. Era até fácil por que eu não interagia com outras pessoas, eu era a super nerd da escola, a excluída.

Mas você não acabou de dizer que se isolava? Sim, mas no começo eu tentava fazer amizade com as pessoas da minha idade, pois me achavam esquisita, e eu não tirava a razão deles, MAS AINDA BEM QUE EU MUDEI, pelos menos nessa parte sim.

Gabriel sempre foi diferente, mais sociável, calmo, extrovertido. Ele era o popular da escola, já que seu pai, na época era o prefeito da cidade. Como éramos vizinhos, ele acabava falando comigo e com o tempo descobrimos gostar das mesmas coisas. Viramos melhores amigos, mas quando fizemos dezesseis, isso ficou sério e acabamos por nos envolver e tudo aquilo que já falei, e eu como era uma boba apaixonada, pensou que ele me pediria em namoro e toda aquela baboseira melosa de adolescente.

Mas, uma semana antes do barraco entre a minha mãe e a dele acontecer, eu o peguei conversando com os seus amigos.

— Cara vamos ao boliche hoje? – disse Charlie, o seu melhor amigo – o Austin vai levar a namorada dele e umas amigas dela – completou malicioso.

— Hoje não vai dá cara. Minha mãe pediu pra cuidar da minha vizinha.

— A sua vizinha não é aquela menina que o povo chama de bebê chorão? – perguntou Igor.

— Cara, você é doido, é o único que conversa com ela... Espera... Vai me dizer que você ta gostando dela? – pergunta Austin horrorizado com a ideia – não me diz que você dá uns pegas no bebê chorão? – ele completou fingindo que passava mal.

— O quê? Não, cuido dela por obrigação quando a mãe e a minha resolvem sair – disse Gabriel.

Nunca me senti tão suja, magoada, triste na minha vida. Poxa, tínhamos marcado de assistir um filme juntos e depois namorar um pouco, como sempre fazíamos.

— Mas e então? Você vai ficar cuidando do bebê chorão ou vai ao boliche se divertir um pouco? – pergunta Charlie.

Por que bebê chorão? Lembra quando eu disse que eu tenho pesadelos? Bom, hoje em eles são menos frequentes, mas nessa época eles eram frequentes, normalmente envolvia lugares escuros onde eu estou presa ou quando não era isso, era com o dia do acidente que matou meu pai. Mas ninguém sabia disso, além dos professores e do Gabriel, o que piorava a situação, pois eu sempre acabava dormindo na sala de aula e acordava aos berros e chorando. Por isso o apelido bebê chorão. Eu nunca me importei, mas naquele momento doeu.

— Eu... – nesse momento ele percebeu que eu estava ouvindo e chorando (só pra variar) então ele ficou paralisado me encarando, com o arrependimento no olhar, ele fez que ia até a mim, mas balancei a cabeça saindo correndo direto para a minha casa.

A minha sorte foi que a minha viu o meu estado e decidiu ficar comigo do que com o namorado, e ele não gostou, HA seu puto. O meu azar foi que o ser maligno veio me procurar, mas eu pedi pra minha mãe ignorar e já que a casa tava toda escura, fingimos que não tinha ninguém. Então ele ligou pro meu celular e eu ignorei, mas ele ligou pro da minha mãe e ela, super diva maravilhosa, falou que tivemos de viajar pra casa da minha tia e que ela já tava voltando, mas que eu tinha ficado lá.

No dia seguinte, eu resolvi mandar uma mensagem pra ele:

“Você sabe que eu ouvi tudo, mas não se preocupe, estou bem, nunca fomos mais que amigos, né? Espero que não fique nada estranho entre nós.”

Ele tentou me ligar novamente, mas eu ignorei. A semana se passou e só nos vimos na noite do barraco – que olha, nunca senti tanto orgulho da minha mãe – não conversamos muito, na verdade só rolou uma troca de olhares – os dele com saudade transbordando e os meus, mesmo com a saudade latente que eu sentia, apenas o encarou com frieza.

Só depois de um ou dois meses voltamos a nos falar, mas já não era a mesma coisa...

Notas finais
Comentem please... beijinhos de luz Cheshire