Letras Azuis
1 Prólogo
A figura esguia repousou o computador num canto qualquer da mesa de centro. A janela do editor de textos parecia encará-lo tristemente na atmosfera fria da madrugada. Dez ou doze palavras repousavam na página em branco, um agrupamento de letras estúpidas que não fazia sentido nenhum. Ele bebericou a vodka artesanal cujo comercial prometia felicidade e inspiração para qualquer artista. Deixou escapar um suspiro e revirou os olhos para o próprio reflexo. Seu corpo preenchido de uma exasperação meio nauseada pelo meio litro de álcool ingerido.
Se sua mãe estivesse presente, teria dito "dedique-se e você conseguirá" sem nem ao menos hesitar. A infância dura no interior de Pernambuco obrigou Dona Lúcia a lutar para ter o que queria, não existiam oportunidades caindo do céu para aqueles que morriam de fome. O escritor tinha sido criado em um ambiente completamente diferente. Menino prodígio fruto de uma relação conturbada que, por incrível que pareça, resultaria em uma infância saudável. Foi ensinado a correr atrás de seus objetivos e nunca cogitar a possibilidade de desistir. No entanto, observando aquelas palavras vazias ordenadas nos pixels do computador, a desistência parecia o melhor pecado para se cometer.
Uma televisão ligada podia ser ouvida a distância. O vizinho tinha o costume de assistir lutas no último volume. Chovia um pouco do lado de fora para contrastar a seca criativa que o escritor enfrentava. Tinha a sensação de que era um inútil, sentado na frente de uma tela iluminada esperando que um milagre acontecesse. Como se algum ser divino pudesse dar-lhe a história que precisava. De impulso, puxou o computador de volta para o colo e começou a digitar. Apagou. Agora tinha menos palavras do que antes. Tinha de ser um romance, isso era certeza. De resto, não era capaz de definir sequer um personagem. Lhe faltavam ideias, sentia-se abandonado pelo talento que desde pequeno o tinha acompanhado.
O relógio indicou a hora que avançava. Não tinha mais jeito para aquela madrugada. Três horas de sua vida e metade de uma garrafa de bebida desperdiçadas sem conseguir escrever nem mesmo um parágrafo. Fechou o computador sem se importar em desligá-lo corretamente. A tontura veio dançando em seu corpo quando tentou levantar-se. Imaginava que alguém lá no céu estava rindo dele agora. Um escritor patético, bêbado e burro. Não tinha a capacidade de redigir sequer um poema. Estava fraco, pequeno e afundado no sofá de couro. Pensou consigo mesmo quantos iria decepcionar caso descobrissem que dentro dele não havia nem mesmo uma centelha daquele artista promissor que um dia fora.
Caminhou cambaleando até a porta do quarto. Cair no sono parecia-lhe a melhor opção. "A noite é dos bêbados, das putas e dos que morrem de amor.", tinha lido mais cedo numa dessas páginas de frases genéricas. De alguma forma, naquele momento específico, ele se encaixava em todas aquelas categorias. O escritor tateava debilmente no escuro em busca do interruptor quando escutou a primeira batida na porta. Um baque surdo que se repetiu mais duas vezes ecoando na escuridão do corredor principal. Xingou baixinho enquanto fazia o caminho de volta até a entrada. Provavelmente encontraria o vizinho embriagado, fedendo e com metade da barriga de fora esperando ansiosamente para comentar o resultado da luta e pedir alguma coisa emprestada no meio da madrugada. Já tinha se acostumado com tamanha inconveniência naquela vizinhança.
Não foi um homem gordo e baixinho que encontrou quando abriu a porta. Uma mulher esperava pacientemente na entrada da casa com um sorriso grande e caloroso que o fez imediatamente lembrar de sua mãe. Seus olhos castanhos brilhavam no acender e apagar das luzes de Natal que dependuravam-se num prego enferrujado sobre a porta. Apesar de seus olhos hipnotizantes, o que mais chamou-lhe a atenção fora o cabelo. As ondas tingidas em um azul brilhante caíam em longas cascatas que contrastavam sua pele alva como a neve. A mulher parecia prestes a fazer uma audição para o papel principal num filme de sucesso dirigido por Lars Von Trier
— Mil perdões pelo horário, soube que você é escritor. É verdade? — Ela indagou com a voz mais angelical que ele já ouvira.
— Sim, sou escritor. — Respondeu com um pouco de receio. Não sabia mais se podia se denominar assim tendo em vista o fracasso que obtivera em todas as tentativas de escrever um conto sequer nos últimos meses.
— Perfeito. Você é o escritor que eu procurava. — A mulher ajeitou o cabelo e deixando os fios repousarem sobre o ombro esquerdo. — Preciso que você escreva a minha história.
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