Let Me Take Care Of You

10 Capítulo 09 – Apenas apreciando a paisagem.


Notas iniciais
Olá, olá, olá! Quem é vivo sempre aparece não é mesmo? >< . Bem, para quem não se lembra, eu estava sem internet. Ela chegou faz pouquíssimo tempo - questão de dias -, então eu corri para postar o capítulo para vocês. Peço desculpas pela demora tremenda e por não ter respondido alguns comentários. Realmente não tive condições :x Eeeenfim, mas agora, assim como a minha internet, eu estou de volta pessoal! E a fic voltará a ser postada semanalmente, tanto essa quanto YAM, para quem também me acompanha por lá. ♥ Espero que me perdoem e que voltemos ao normal *-* Tenham uma ótima leitura! ♥ P.s: capítulo narrado pela autora.

– Apenas apreciando a paisagem -

O inferno são os outros.

Sartre, filósofo francês existencialista, falava essa frase por achar que o outro desperta em nós aquilo que não queremos ver em nós mesmos, e ela nunca fizera tanto sentido. Lucy comprovou isso ao ouvir as palavras de Natsu. Naquele momento ele havia sido seu inferno por lembrá-la de algo que todo o dia ela tenta esquecer, por trazer algo de si que ela não gosta de entrar em contato.

Jude deveria amá-la e protegê-la, mas isso não acontecia. Lucy não conseguiu lembrar a última vez em que esteve com seu pai sem ter o receio de que uma gota de álcool o transformasse no monstro que lhe era tão familiar.

E nesse momento, um pouco mais calma após ter conseguido ser liberada da aula e caminhar pela cidade, a loira se perguntava como Natsu poderia ter tantas informações a seu respeito. Teriam os boatos se tornado tão fortes a ponto de chegarem aos seus ouvidos? Mas isso não explicaria a riqueza de detalhes e a confiança que ele demonstrou ao falar tudo aquilo, explicaria?

Eu só não entendo como você pode ter deixado chegar a esse ponto.

Essa frase não parava de ecoar em sua mente. E quando foi tentar achar uma explicação para o que fora dito simplesmente não conseguiu. Era como se nem ela mesma soubesse a resposta.

Se sua vida fosse um filme neste momento provavelmente estaria tocando uma daquelas músicas que conseguem ser fofas e tristes ao mesmo tempo. Daquele tipo que te faz correr para descobrir a tradução ou aprender a tocá-la em algum instrumento, caso você esteja familiarizado com um. Mas como este não é o caso, o único barulho que podia ser ouvido agora, além do som dos seus passos, era o sopro do vento forte em seus ouvidos ou o ruído que os pneus dos poucos carros que passavam por ali produziam por entrarem em contato com o asfalto no chão.

O horizonte mostrava que o Sol estava se pondo. Lucy havia passado muito tempo andando sem rumo e nem se dera conta. À tarde tinha mandado uma mensagem para Mira avisando que não poderia trabalhar por não estar se sentindo muito bem, o que não deixava de ser verdade, e que faria hora extra depois para cobrir este dia. O que ela menos queria naquele momento era sorrir para os clientes e fingir que tudo estava bem.

Pode soar clichê, mas Lucy sentia como se ela tivesse levado o tapa ao invés de tê-lo proferido. Não pôde deixar de se lembrar de uma das frases de Harry Potter que sua amiga Levy sempre repetia enquanto fazia uma cara digna de Dumbledore, Palavras são nossa inesgotável fonte de magia. Capazes de ferir e de curar. Não tinha certeza se essas eram as palavras exatas, mas com certeza era algo do tipo.

Sábio Dumbledore.

Não pôde deixar de rir ao imaginar a cara de orgulho que a baixinha faria se soubesse desses seus pensamentos. E o sorriso permaneceu em seu rosto ao avistar uma velha árvore cerejeira que lhe era tão familiar e a bela paisagem que a cercava.

Era possível ver boa parte da cidade dali.

De alguma forma seus pés a trouxeram até aquele local que tanto marcou sua infância sem que ela sequer tivesse consciência disso. Encostou-se no tronco áspero da árvore antiga, fechou os olhos e suspirou ao se deixar ser invadida pelas lembranças.

Ainda podia se imaginar sorrindo e correndo ao redor da grande árvore, usando um vestidinho azul e uma fitinha combinando. Sua mãe atrás de si carregando Spoock, um coelhinho de pelúcia medonho que fazia o papel de vilão, enquanto Lucy carregava Plue, o boneco de neve que salvaria o mundo e que nunca ia para a cama sem antes escovar os dentes.

Como tudo é mais fácil quando se é uma criança. Não há responsabilidades, nem preocupações ou angústias, apenas inocência. O mundo parece tão gentil e acolhedor, coisa da qual hoje em dia Lucy faz questão de discordar, mesmo ainda tendo esperanças a respeito.

– Pensando na vida? – uma voz conhecida reverberou pelo local.

Lucy levou um susto e abriu os olhos instantaneamente dando de cara com a última pessoa que queria ver neste momento.

Natsu estava de pé ao seu lado encarando-a como se ela fosse uma bomba prestes a explodir. O que, em relação a ele, poderia não ser mentira.

Sabe aquela hora em que você simplesmente não tem vontade de falar? Quando você quer apenas curtir o silêncio e o nada? A loira se encontrava em um desses momentos, por isso optou por apenas acenar com a cabeça em concordância e desviar o olhar daqueles olhos ônix penetrantes antes que toda sua raiva se esvaísse. Nem se quisesse conseguiria encará-los por muito tempo.

– Eu entendo se você não quiser conversar comigo, mas se importa se eu me sentar ao seu lado?

Lucy deu de ombros.

– Estamos num local público afinal.

Natsu deu um sorrisinho surpreso. Não conhecia esse lado da loira.

– Tudo bem. – ele levantou as mãos como forma de rendição e sentou-se em seguida.

Para Natsu os segundos pareciam horas. Aquele silêncio desconfortável estava matando-o aos poucos. Queria falar alguma coisa, mas simplesmente não sabia por onde começar, então resolveu iniciar pelo óbvio.

– Desculpa.

Alguns minutos de silêncio se passaram até que Lucy se dignou a respondê-lo.

– Pelo que? – perguntou com indiferença.

Lógico que ela sabia o que ele havia feito – melhor do que qualquer um, por sinal. Só queria poder ouvir tudo pela boca dele.

– Por ter sido um babaca?

– Isso é uma pergunta? – Lucy finalmente o olhou.

– Não? – ele deu um sorriso fraco.

– Tudo bem. – ela suspirou e voltou a fitar o horizonte.

– Não, sério, me desculpa mesmo. Pela idiotice que fiz na biblioteca e pelo ocorrido na sala. Eu não tinha o direito de falar nada daquilo. E te ver chorar foi...

– Deixa pra lá. – Lucy o interrompeu. – Eu só não gosto de focar muito nesse assunto.

E essa era a deixa para que o silêncio se instalasse novamente. Mas não aquele silêncio que te faz querer refletir e pensar em tudo o que te aflige. Era aquele tipo de silêncio que te deixa desconfortável até para respirar.

– Você sabia que a orelha esquerda distingue melhor as conversações do que a direita? – Natsu quebrou o silêncio pegando Lucy desprevenida.

– O que disse? – o tom de surpresa estava presente em sua voz.

– Isso que você ouviu. – ele tocou no brinco perolado do lado direito da orelha da loira. – A direita é melhor em distinguir músicas com som. – falou como se complementasse um raciocínio.

– Por que me disse isso?

– Estava tentando estabelecer uma conversa.

– Sobre audição?

Ele apenas deu de ombros.

– Já funcionou com você antes? – um leve sorriso surgiu nos lábios dela.

– Acabou de funcionar. – Natsu abriu um sorriso encantador.

– Você é estranho.

– Não tem noção do quanto essa informação é falsa.

– Para você. – deu um risinho.

– É bom te ver sorrir. – ele falava como se estivesse conversando consigo mesmo. – Nunca mais quero te ver chorar. – a olhou e pôde fitar suas bochechas coradas, provavelmente graças ao que tinha dito. Não conseguiu deixar de sentir uma pontada de orgulho por isso.

Lucy desviou o olhar no mesmo instante.

– Mas chorar é uma coisa natural, você sabe. – Lucy pôde ouvir Natsu suspirar. – Todo mundo chora afinal.

– Eu não. – o rosado foi rápido ao responder.

– Você não? – o tom de voz dela demonstrava surpresa e desconfiança.

Natsu negou com a cabeça.

– Nem uma vez?

Ele negou novamente.

– Então talvez você não tenha tido um motivo suficiente. – o olhar da loira se perdeu na paisagem à sua frente.

– Talvez. – nesse momento o olhar do rosado se tornou indecifrável.

E lá estava o desconfortável silêncio novamente.

– Para vocês, mulheres, parece ser mais fácil. Como se tivessem o direito social de chorar, sabe?

– Eu discordo. – a voz da loira soou firme. – Se você quer chorar, chore. Ou se quiser sorrir, vá em frente. Só não deixe de ser ou fazer aquilo que acredita por causa de algo ou alguém. Simplesmente não vale a pena, afinal a vida é sua não é? Então tome as rédeas dela. – o olhou de relance e viu que ele parecia pensativo.

Natsu nunca tinha encontrado uma garota como Lucy. Ela parecia saber tanto da vida, mesmo que fosse tão jovem. Não era aquele tipo de garota que fazia de tudo para tentar parecer perfeita o tempo todo. Uma pessoa boa demais para ele, com certeza. E seus lábios, tão perfeitamente esculpidos, o instigavam de tal forma que às vezes se pegava apreciando-os. Seriam macios? Provavelmente. Mas o que em Lucy parecia não o ser?

– O que você está olhando?

Ela nem precisou olhar na direção do rapaz para saber que ele a fitava. Aquela sensação de estar sendo observada estava forte de mais.

– Nada, só estou apreciando a paisagem. – respondeu com um sorrisinho sacana.

Lucy não pôde deixar de corar. Maldito Natsu e esse poder que ele tinha sobre as suas emoções e sobre seu corpo.

– Aquela hora na biblioteca – fez uma pausa para que ela o olhasse. – Se eu tivesse tentado conseguiria?

– Do que está falando?

– O beijo... Se eu tivesse tentado você se afastaria?

Lucy ficou sem reação. Não esperava uma pergunta desse gênero.

– Esta é uma coisa para a qual nunca teremos uma resposta. – deu de ombros e fez o possível para não corar. Não queria entregar seus sentimentos desta forma.

As palavras da moça ficaram reverberando na mente de Natsu diversas vezes. Queria muito saber a resposta. Queria muito sentir os lábios dela próximos aos seus. Queria se certificar de que eles eram tão macios quanto imaginava. Quem sabe não seriam até mais?

Sem ter tempo de pensar ou deixar que houvesse alguma reação, Natsu colocou uma de suas mãos na lateral do rosto de Lucy, fazendo com que os olhos dos dois ficassem vidrados um no outro. De castanho para ônix. Os lábios da loira nunca pareceram tão chamativos e o beijo entre os dois tão possível. Lucy estava sem reação e pôde olhar apenas o momento em que Natsu umedeceu seus lábios antes de senti-los tão próximos como nunca antes.

Eles estavam enfim se beijando. Não um beijo profundo, apenas um rápido roçar de lábios que permitiu que Natsu comprovasse sua teoria. Não havia nada mais macio que os lábios de Lucy.

– Acho que agora nós já podemos ter uma noção.

– Por que fez isso? – Lucy permanecia estática e inconscientemente levou o dedo indicador até seus lábios.

– Não foi nada de mais. Beijo de amigo. – falou com naturalidade.

– Beijo... de amigo. – A Heartfilia falou em voz baixa, como que para si mesma. Os lábios do rosado eram quentinhos e convidativos. Por uns instantes pensou em repetir o gesto, mas sabia que não teria coragem para tal. – Bom saber que somos amigos.

– Você ainda não sabia? – perguntou divertido.

– Na verdade não. Meus amigos não costumam... – parou para refletir e cortou sua fala no mesmo instante. – Deixa pra lá. – corou e olhou para um ponto qualquer.

Natsu sorriu. Ela era realmente encantadora.

Lucy se perguntava o que tudo aquilo significava. O mundo parecia dar voltas e as incertezas se multiplicavam a cada momento.

– Natsu... Você disse que somos amigos, certo?

– Sim.

– Então me diga, o que você sabe sobre mim? – os olhos dela fitavam o chão. Não tinha coragem de olhá-lo diretamente, tanto pelo beijo quanto pelo que acabara de perguntar. – Ou melhor, o que você acha que sabe?

– Pensei que não quisesse falar sobre isso.

– E eu não quero, mas... preciso.

Natsu suspirou.

– Eu não sei muito.

– Mas sabe alguma coisa.

– Sim, mas preferia que você me contasse.

Natsu observou Lucy enquanto ela petrificava. Aquele aparentemente era um assunto delicado para ela.

– Você tinha razão. Eu não quero falar sobre isso. – ela se levantou e bateu um pouco a poeira que estava em sua roupa, que por sinal ainda era a farda do colégio já que não ia para casa desde cedo.

Alguma coisa dizia a Lucy que ela poderia confiar em Natsu, mas ela simplesmente ainda não estava preparada para isso.

– Já vai? – por algum motivo ele simplesmente não queria que ela fosse. Ela acenou com a cabeça em concordância, causando um desânimo no rapaz. – Eu te levo pra casa, já está escuro.

– Não precisa, eu estou acostumada.

– Eu faço questão.

– Sério, não precisa. Eu gosto de pensar enquanto caminho.

– E você não consegue pensar quando está comigo? – um sorriso malicioso surgiu em seus lábios.

– Não é isso. – suas bochechas adquiriram um tom rosado. – Eu só prefiro pensar sozinha.

– Tudo bem. A gente se vê.

– Acho que sim. – ela deu um aceno fraco.

Lucy foi caminhando para casa enquanto revia tudo o que aconteceu no dia de hoje. As coisas que Natsu havia lhe dito no colégio, as horas de trabalho que ela teria que dar um jeito de repor, tudo o que ouviu esta noite e principalmente o beijo.

Agora tinha a certeza absoluta de que Natsu sabia algo sobre sua história. Algo que ele não foi capaz de contar por preferir que ela o contasse. Mas o que poderia dizer? Eu tenho um pai estranho e alcoólatra que se torna agressivo quando bebe? Talvez não com essas palavras, mas a direção seria essa, só não sabia como contar ou como ele iria reagir. Teve uma prévia de seu temperamento esta manhã e já pôde perceber que ele não a entenderia, que a julgaria, julgaria seu pai e até suas amigas por não fazerem algo a respeito, ou simplesmente se afastaria da garota problemática que ela sabia que era. Não que ela assumisse que tinha medo que ele se afastasse, até porque ainda não tinha se dado conta disso.

Sua cabeça dava incontroláveis voltas. Não sabia se se sentia feliz ou desconfortável perto do rosado. Talvez se sentisse das duas formas. Ás vezes era como se o procurasse em meio à multidão apenas para fixar os olhos em seus ônix encantadores, mas em outras fazia de tudo para fingir que ele não existia, para fazer de conta que tudo estava como sempre fora em sua vida. Mas será que conseguiria após a tarde de hoje? Ou melhor, após o beijo, que mesmo que tão inocente, conseguiu marcá-la?

Aquele famoso medo do desconhecido se apoderava de sua mente. E naquele momento não havia nada mais desconhecido para a loira do que Natsu. Sabia que ele tinha uma irmã, mas nada além disso, porém também nunca teve coragem de perguntar coisas a seu respeito. Talvez pelo medo da resposta? Ou por o mistério do rapaz ser aquilo que mais a encantava nele? A certeza que tinha é que queria conhecê-lo melhor e, quem sabe, poder confiar nele um dia.

E em meio a tantas coisas que estavam acontecendo, havia uma da qual a loira não fazia ideia. Alguém a seguia durante todo o trajeto da cerejeira até sua casa só para se certificar de que ela ficaria segura. Mas se perguntassem, ele estava ali apenas apreciando a paisagem.

Notas finais
Nos vemos nos comentários? Até o próximo! Beijocas ♥