Let Me Take Care Of You
6 Capítulo 05– OTVNI, alienígena cor de rosa.
Notas iniciais

– OTVNI, alienígena cor de rosa -
Filmes de romance, desde que eu comecei a me ver como mulher, sempre foram um martírio para mim. Histórias bonitas em que o mocinho chega para salvar a pobre mocinha indefesa de todo o mal me perturbam. Não por não acreditar que isso possa acontecer – talvez seja como ganhar na loteria –, mas sim por saber que eu não tenho essa sorte toda, afinal uma garota que tropeça em seus próprios pés não pode ser considerada sortuda não é mesmo?
Desligo a TV onde passava um daqueles filmes de romance água com açúcar que reprisam de novo e de novo antes que você consiga dizer a palavra “otorrinolaringologista” mais de uma vez. Achei que se eu assistisse alguma coisa meus pensamentos fugiriam um pouco do meu atual problema – ou maior problema –, o roubo da bendita notificação. Mas é como a minha mãe dizia, “você não pode correr de um problema, pois ele sempre vai achar um jeito de correr atrás de você”.
Erza e Levy insistem em dizer que foi a Sherry quem pegou e Juvia acha que foi algum dos insuportáveis da nossa sala para me irritar, o que acontece com uma certa frequência, admito. Mas eu acho que seria óbvio de mais, sem falar que ninguém, a não ser minhas amigas e o diretor, sabia da existência dessa notificação. A pergunta que não quer calar é, o que essa pessoa ganha roubando isso, ou melhor, me prejudicando?
Decido tomar um banho e dar uma passeada de bicicleta pela cidade para espairecer. Normalmente quando meu pai está em casa eu fico aqui com ele para fazê-lo companhia e impedir que beba, mas – voltando a outro problema – ele não aparece por aqui há dias. Eu até chamaria a polícia se não estivéssemos falando do Jude, mas se ele não aparecer até amanhã eu tomarei uma atitude. Se Deus quiser nada de ruim terá acontecido com ele.
Balanço a cabeça tentando espantar os maus pensamentos da minha mente. Não quero me preocupar ainda, pelo menos não agora.
Troco de roupa e fico feliz ao notar que hoje poderei usar uma regata – branca por sinal. Pode parecer besteira, mas infelizmente essa não é uma coisa muito comum para mim e quando acontece é motivo de festa. Ponho um short jeans e um all star verde água e prendo meu cabelo em um rabo de cavalo alto. Pego minha bolsinha e saio de casa batendo a porta e fechando-a logo em seguida. Minha bicicleta azul, com alguns detalhes na cor branca, me esperava encostada na parede do quintal como eu havia a deixado da última vez em que a usei, que por sinal faz um bom tempo.
Andar de bicicleta ou simplesmente caminhar em algum lugar neutro para pensar sempre foi para mim como uma espécie de válvula de escape. É uma forma que eu encontrei de poder pensar nos meus problemas sem me deixar ser afundada por eles.
A cidade estava bem agitada, afinal era sábado. Alguns garotos empinavam pipa na rua – perto demais de um poste de rede elétrica para o meu gosto –, uns jovens andavam de patins e algumas garotas brincavam de pular corda. Como eu sinto falta da minha infância, principalmente – ou melhor, exclusivamente – das partes em que a mamãe estava presente. Ainda lembro-me da festa que ela fazia quando brincávamos de amarelinha e eu conseguia chegar ao Céu.
É engraçado como um sorriso brota em meus lábios sempre que penso nela e como ele morre instantaneamente ao pensar em tudo o que seu desaparecimento me fez passar. Tento não pensar muito nisso, mas às vezes meu pai faz questão de me lembrar. Na verdade não sinto que nesses momentos ele seja o meu pai de verdade, não acho digno chamar aquele ser bêbado e asqueroso de pai, meu pai é o Jude são e carinhoso, o outro é apenas uma espécie de doença maligna que aparece quando a imunidade fica baixa.
A paisagem fica cada vez mais turva à medida que a velocidade de minhas pedaladas vai aumentando. Você já parou pra pensar em como é libertador sentir o vento batendo no seu rosto? Nesse momento não há dívidas, não há hematomas e nem lágrimas, não há sofrimento, dor e nem saudade. Somos apenas eu e o vento, eu e o sentimento de liberdade.
Há quem diga que a felicidade, assim como a liberdade, não existe. O que existe são momentos felizes, momentos de liberdade. Nunca parei pra refletir sobre isso, mas acho que esse é um desses momentos.
Em um minuto maior de distração quando meus pensamentos estavam além do mundo da Lua, como se eu pudesse ver tudo em câmera lenta, minha bicicleta atinge um objeto talvez voador não identificado. Só tive tempo de ver um vulto rosa antes de cair bruscamente no chão.
Sinto uma forte dor na cabeça e minha perna esquerda, que ficou por baixo da bicicleta, parece ter sido triturada por um caminhão.
– Ai. – reclamo ao, com dificuldade, conseguir sentar.
Meus cotovelos estavam ralados, minhas pernas machucadas, minha cabeça latejava, sentia um incômodo em minhas costelas e nem minhas mãos saíram ilesas. Meus olhos dobraram de tamanho ao sentir um líquido quente escorrer pela minha testa, mas um peso pareceu ter sido tirado de meus ombros quando eu levei minha mão até o local e vi que era apenas um corte.
– Você é louca?! Não sabe por onde anda? – uma voz masculina e irritada gritava aumentando ainda mais minha dor de cabeça. – Lucy? – agora parecia surpresa e diria até preocupada.
– Desculpa. – falei em um tom baixo sem me preocupar com quem havia sido meu alvo. Minha visão estava ficando turva. Apoiei minha cabeça em meus joelhos para tentar ficar menos zonza.
– Você está bem? – se agachou para ficar mais ou menos da minha altura.
– Natsu? Você é o OTVNI* que eu atropelei? – minha visão ia ficando mais clara aos poucos e eu já podia ver sua feição preocupada.
– OTVNI? Meu Deus Lucy, você tá sangrando! – tocou de leve na minha testa.
– E você está me seguindo por acaso? – perguntei desconfiada. Ando esbarrando muito nele ultimamente.
– Lógico. Meu hobby predileto é perseguir loiras estranhas. – revirou os olhos.
– Estranho é você. – tentei levantar, mas uma forte tontura me impediu.
– Eu ajudo você. – me ajudou a levantar e após me encostar em uma árvore pegou minha bicicleta.
– Obrigada.
– Obrigada nada, vamos. – me puxou pela cintura fazendo com que minhas costelas protestassem.
– O que é que você tá fazendo?! – corei.
– Te ajudando a andar oras. Vou te levar até o hospital.
– Não! – falei mais alto do que precisava. – Quer dizer, não precisa se preocupar. Eu só preciso ir pra casa. – me fitou por uns instantes como se estivesse em um conflito interno. Eu simplesmente odeio hospitais.
– Tudo bem. – suspirou. – Onde você mora?
Pensei por um tempo se devia ou não dar meu endereço para um rapaz que eu mal conhecia, mas afinal que outra escolha eu tinha? Com certeza não conseguiria chegar até lá sozinha.
– Ou prefere ir para a minha casa? – deu um sorriso malicioso que me fez gelar. Lembrava um pouco o dele. – Calma, eu só estava brincando. – falou na defensiva. Minha feição ficou tão assustada assim?
– Tudo bem. – sorri fraco.
O expliquei como fazer para chegar até minha casa e ele pareceu entender com facilidade mesmo que não fosse uma rota muito comum, talvez por termos nos encontrado outro dia no caminho para a escola.
Durante o percurso não falei muito. Ao contrário do rosado eu estava mais concentrada em conseguir andar, ou melhor, mancar direito e não surtar com a quantidade de sangue que saía de diversas partes do meu corpo.
Nunca pensei que Natsu fizesse o tipo cuidadoso, mas a todo o momento ele perguntava se eu estava bem, se não estava com dor ou se não queria que ele me levasse no colo. Eu até riria de tudo isso, mas no momento minhas costelas não me permitem.
– É aqui. – apontei para a casa amarela.
– Cadê a chave? – perguntou ao pararmos na porta.
– Na bolsa. – que por sinal estava nas mãos dele.
Depois de uns tempos revirando aquele objeto – é incrível como os homens não conseguem achar nada ali – Natsu finalmente conseguiu achar meu chaveiro em formato de estrela que continha a minha chave.
– Você poderia me ajudar a chegar até o meu quarto? – perguntei ao chegarmos na sala.
– Tudo bem. – ele sorriu brincalhão – Sabia que essa é a primeira vez que me dizem essa frase nesse contexto? Normalmente eu trato de bêbadas e não de machucadas.
– Eu não sei o que falar sobre isso.
– E nem precisa. – ele sorriu. Depois eu que sou a estranha.
Deixamos a bicicleta na sala e com a ajuda de Natsu consegui subir as escadas.
– Obrigada. – sorri ao sentar em minha cama.
– Onde fica o kit de primeiros socorros? – falou ignorando meu agradecimento.
– Você vai cuidar de mim? – arqueei uma sobrancelha.
– Não se sinta especial nem nada. Eu faria isso por qualquer um. – é impressão minha ou ele corou? Não pude ver direito porque ele acabou virando o rosto.
– Tudo bem. É que eu não estou acostumada. – ri.
Percebi que ele ia falar algo, mas se conteve. Se for algo relacionado ao dia da quadra é melhor mesmo que ele tenha preferido guardar para si.
– Onde fica? – retomou o assunto.
– No banheiro. Primeira gaveta do móvel. – ele assentiu e se foi.
Comecei a olhar o prejuízo em meu corpo. Fora tudo o que eu já havia notado antes, pude ver que uma de minhas coxas estava parcialmente ralada e o sangue nas minhas pernas já estava seco. Sem falar que minha blusa parecia nunca ter sido branca em toda a sua vida. Maldito asfalto áspero.
Natsu voltou trazendo consigo uma caixa branca com a tampa vermelha – típica de primeiros socorros – que era da minha mãe e se ajoelhou à minha frente.
– Você sabe fazer isso? Não precisa se incomodar, eu... – fui interrompida.
– Deixa comigo. – sorriu de forma simpática e eu não consegui não sorrir de volta.
Ele pegou um pouco de álcool iodado e passou nos meus cotovelos. Eu respirava pesadamente para não reclamar ou gemer de dor. Depois passou um pouco em minhas mãos, joelhos e panturrilhas. Meus olhos seguiam sua mão constantemente com certa admiração. Seu toque era delicado e preciso, como se já tivesse feito isso antes. Deu uma atenção maior à minha perna que havia sido esmagada e em seguida partiu para a minha coxa, sempre trocando de algodão ao passar de uma parte do corpo para outra. Suspirei ao sentir seu toque e acho que ele percebeu. Xinguei-me mentalmente por isso.
Sua mão foi subindo e descendo pela minha coxa com delicadeza. Seus olhos pareciam bem concentrados no que estava fazendo. Não sei dizer se essa concentração era graças ao meu corpo ou ao meu ferimento, mas não posso negar que ficaria lisonjeada se fosse pela primeira opção.
– Agora vamos para a sua testa. – falou ao aparentemente sair de um transe.
Trocou de algodão novamente e o umedeceu. A distância entre nós dois agora era bem menor. Seus olhos sempre foram assim tão profundos e misteriosos, Natsu?
Ele viu que eu o estava encarando o desviou o olhar no mesmo instante, voltando sua atenção para o meu corte. Provavelmente deve estar pensando que estou caidinha por ele e não quer nada disso. Dou um sorriso interno ao constatar a minha idiotice. Mais um ponto pra você Lucy.
Começo a fitar um canto sem importância do quarto. Poderia olhar para qualquer lugar menos para aqueles olhos ônix penetrantes. A rachadura próxima à porta do banheiro nunca me pareceu tão atraente.
– Pronto. Mais algum lugar que eu esqueci?
A minha boca. Essa com certeza seria a pior cantada do mundo – mesmo que fosse o que eu tinha vontade de dizer – então opto pela verdade pura e sem sal.
– Só as minhas costelas, mas nada que uma boa trouxa de gelo não resolva. – sorri sem graça.
– Tudo bem. Tem isso na sua geladeira? – se levantou.
– Não precisa Natsu, sério. Você já fez muito por mim, não quero mais incomodar.
– Não é incômodo. – sorriu e nesse momento pude ver um corte em seu pescoço. Como eu posso não ter visto isso antes?
– Você está machucado. – apontei para o corte.
– Isso aqui? – pegou no pescoço. – Não é nada. – deu um riso nervoso.
– É sim. Vem cá. – ele me olhou incerto, mas acabou se aproximando e voltando à sua posição anterior. – Isso pode infeccionar se não cuidar direito. – falei enquanto umedecia um algodão.
Coloquei o algodão em seu corte e não pude deixar de notar a careta engraçada que se formou em seu rosto. Sorri.
– Qual é a graça? – arqueou uma sobrancelha.
– Você. – voltei a rir.
– Fico feliz em te divertir. – fez um biquinho fofo.
Nada respondi.
– Pronto, acho que agora você não corre mais risco de vida. – finalizei colocando uma gaze e esparadrapo.
– Tem certeza?
– Dou minha palavra.
– Dizem que se você der um beijinho cura mais rápido.
– Então vai ser caso de morte. – falei brincalhona.
– É assim que você retribui o cara que salvou a sua vida? – perguntou fingindo indignação.
– Não exagera Natsu. – sorri. – Mas muito obrigada. – fui dar um beijo em sua bochecha, mas ele virou o rosto e nós quase demos um selinho. Tenho certeza de que corei do dedão do pé até o último fio de cabelo.
Me peguei de novo encarando seus olhos. Dizem que os olhos são a porta para a alma. Se isso fosse verdade, Natsu, não saberia muito bem o que dizer da sua, mas com certeza seria uma das mais bonitas.
Vi que ele me encarava de volta e fiquei sem saber o que fazer. Seu rosto foi se aproximando do meu lentamente e de forma incerta, como se esperasse que eu fugisse a qualquer momento. Nós iríamos nos beijar? Eu queria mesmo isso? Eu me arrependeria depois?
O ruim de quando eu estou sob pressão é que eu sempre acabo fazendo a escolha errada. Nesse caso foi jogar meu corpo para trás fazendo com que eu deitasse na cama antes que nossos lábios se tocassem. Maldita eu, maldita pressão, maldito OTVNI alienígena cor de rosa que me desestabiliza.
– É melhor eu ir embora. Você precisa descansar. – seu tom de voz começou meio fraco, mas foi ganhando força com o passar das palavras.
– Tudo bem. Quer que eu te leve na porta? – sentei na cama novamente com uma certa dificuldade.
– Não precisa, eu conheço a saída. – ele por acaso é bipolar?
– Ok. Então a gente se vê no colégio. – sorri sem graça.
– A gente se vê. – acenou com a cabeça e se retirou.
Fiquei apenas encarando a porta pela qual ele havia acabado de passar. Quando eu vou conseguir te entender, Natsu?
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