Let Me Take Care Of You

9 PARTE VIII – LIFE WITH THE GOVERNMENT


Greg sentia-se extremamente embaraçado. Ele estivera dormindo, babando, no colo de Mycroft, com a camisa parcialmente aberta, e o ar geral de quem tinha tido uma ótima transa. Levando em conta que Joshua certamente ouvira o grito de Mycroft, ele estava positivamente constrangido ao ver o sorriso contido que o motorista ostentava ao acordá-los quando eles chegaram a casa segura. Mycroft tinha seu habitual ar de confiança, nem um pouco incomodado de estar dormindo profundamente com a cabeça de Gregory em seu colo. Eles arrumaram suas roupas da melhor maneira possível e desceram do carro em frente à Knight’s Hill.

Era uma casa térrea de tijolos a vista, com pé direito alto e amplas janelas. O terreno era cercado por muros e um portão de ferro trabalhado, e um gramado bem cuidado ocupava a frente da casa, com arbustos de rosas cercando a edificação numa adorável moldura. Ao entrar pela pesada porta de madeira, eles se viram em um pequeno vestíbulo na ponta de um corredor, que se abria, de um lado, para uma confortável sala de estar com lareira, e do outro, para uma sala de jantar integrada à cozinha. Havia mais duas portas de cada lado do corredor central, que se abria ao fundo em um par de portas francesas, que deixavam a mostra uma varanda de onde era possível apreciar a vista alta da colina, e um pequeno jardim.

Enquanto Joshua levava a mala de Greg até o vestíbulo, Mycroft ofereceu-lhe galantemente o braço. Greg tomou-o com um sorriso, apoiando-se na bengala com a outra mão, caminhando vagarosamente pela entrada bem cuidada em direção aos degraus da entrada. Depois do frio cortante do final do inverno, o interior aquecido da casa era uma mudança bem vinda.

- Como você vê, meu querido, – Mycroft falou, enquanto o ajudava a tirar o casaco e o pendurava, ao lado do seu, no cabide junto à porta – a casa é térrea, o que vai poupar seu quadril. Eu pensei em ficarmos na nossa casa em Wimbledon, mas não queria que você forçasse seus ferimentos subindo e descendo as escadas. – ele conduziu Greg até a sala de estar, onde a lareira já os aguardava acesa. Havia um par de poltronas confortáveis junto ao fogo, e estantes com livros e DVDs forravam as paredes. Do lado oposto à lareira, uma grande TV de tela plana ocupava a parede, de frente para um sofá gigantesco. Mycroft fê-lo sentar-se junto ao fogo – O segundo quarto já foi preparado para suas sessões de fisioterapia; a primeira sessão é amanhã, às três da tarde. E agora, — ele falou, tirando o paletó e colocando-o cuidadosamente no encosto da poltrona – eu vou preparar nosso almoço. Fique aqui e descanse um pouco, Gregory.

- Você vai preparar o almoço? – Greg ignorou o pedido de Mycroft e ergueu-se devagar, mancando até a sala de jantar conjugada à cozinha. Ele puxou uma das cadeiras da mesa de refeições e sentou-se, observando Mycroft amarrar um avental imaculadamente branco na cintura e começar a tirar ingredientes da geladeira, colocando-os na ilha central – E os eu trabalho? O Reino não corre o risco de desmoronar no tempo que leva pra preparar um ensopado? – Mycroft olhou-o exasperado por sobre o nariz, enquanto cortava tomates com uma habilidade que faria corar alguns chefs renomados.

- Não seja tolo, Gregory. Primeiro, eu não faço ensopados. – Greg riu, apoiando o queixo na mão e apreciando a agilidade de Mycroft ao cortar filés de frango – Segundo, eu posso trabalhar e cozinhar ao mesmo tempo, desde que eu use isso. – ele apontou com a faca para sua orelha, onde Greg viu o minúsculo dispositivo bege; um fone bluetooth, ele pensou – Se for um assunto que requeira maior atenção e pesquisa, eu vou até o escritório; se não, posso muito bem gerenciar uma crise internacional enquanto preparo osmeletes. Não vai ser a primeira vez. – Greg gargalhou com gosto.

- Modesto, você, não é? – Mycroft sorriu de lado, enquanto batia uma tigela de ovos e Deus sabe o que mais. – E o que meu chef particular vai preparar para meu deleite?

- Algo simples, apenas para remover a lembrança da comida pavorosa de St. Bart’s do seu paladar. Uma omelete de legumes e queijo, filés de frango e uma salada de vegetais frescos. – ele piscou para Greg sobre o ombro, enquanto virava os filés na frigideira. – Prometo caprichar no jantar.

- Você vai fazer o jantar, também? – Greg perguntou, espantado. Mycroft era um cozinheiro sensacional; droga, ele era amigo pessoal do maldito Gordon Ramsay! Mas ele normalmente estava ocupado demais para cozinhar qualquer coisa que tomasse mais tempo do que o café da manhã; os deveres de fogão normalmente ficavam por conta de Greg. Mas as poucas vezes em que ele tivera a sorte de provar os talentos culinários de Mycroft foram inesquecíveis.

- Certamente não vai ser você, Gregory, querido. Você está convalescendo. – Greg fez uma careta ao ouvir a palavra; fazia ele se sentir um inválido – E caso não tenha notado, aqui não é Londres; não há um delivery em cada esquina.

- My, eu não estou morrendo. – as costas de Mycroft tensionaram-se ao ouvir isso, e Greg apressou-se em emendar – Eu sei que eu fiquei num estado delicado e tudo, mas eu estou aqui: remendado, um pouco alquebrado, mas vivo e relativamente inteiro. E não vai ser preparar uma refeição que vai me matar! – Mycroft parou de preparar a salada, apoiando as mãos espalmadas no balcão e encarando Greg com um brilho de aço nos olhos azuis.

- Gregory... desde que você foi morar comigo, você cuida de mim, diariamente. Cuida para que eu durma, cuida para que eu me alimente durante o expediente, cuida para que eu não exagere nas minhas dietas...

- Que você não precisa. – Greg cortou-o, e Mycroft lhe lançou um olhar exasperado.

- Isso não vem ao caso nesse momento. Eu sei que eu trabalho demais, e que um relacionamento comigo é qualquer coisa que não fácil, e o que você faz por mim é muito, muito mais do que eu mereço... mas você agora está numa posição em que precisa de atenções. Por favor, Gregory, me permita. Deixe-me cuidar de você, com o mesmo desvelo e ternura com que você cuida de mim. – Greg sentiu a garganta apertar-se, e ficou sem palavras. Como ele podia negar isso a Mycroft? Como ele podia negar qualquer coisa a Mycroft, quando ele pedia com um tom de voz repleto de carinho, e um olhar quente e doce? Quem visse Mycroft naquele momento, ou em qualquer outro momento junto de Greg, iria questionar o porquê de ele ser chamado, em um tom de temeroso respeito, de “Homem de Gelo”. O verdadeiro Mycroft era qualquer coisa, menos frio.

- My... – ele ergueu-se com cuidado e mancou até a cozinha, encostando-se ao balcão e abrindo os braços. Mycroft largou o que estava fazendo e abraçou-o, enterrando a cabeça na curva do pescoço de Greg. – Eu... claro que eu vou adorar que você cuide de mim. Eu só não quero que você fique mais preocupado do que deve. Você se afastou do escritório, me arranjou o maldito fisioterapeuta do Príncipe Charles...

- De Camilla, na verdade. – ele murmurou, sem erguer a cabeça, acariciando a pele sensível do pescoço com o nariz. Greg bufou.

- Que seja, o médico da Duquesa da Cornualha... vai cozinhar pra mim, mesmo eu sabendo que isso vai acabar fazendo você passar as madrugadas trabalhando para compensar as horas perdidas... nem se eu fizesse uma lista e entregasse nas mãos de Deus, eu não encontraria um homem mais perfeito para mim do que você. – ele beijou a têmpora de Mycroft, acariciando-lhe as costas devagar – Posso ajudar a colocar a mesa, ao menos? – Mycroft sorriu e desvencilhou-se dos braços de Greg, indo terminar a salada.

- Por favor. Arrume talheres e copos; há uma jarra de chá gelado no refrigerador, eu já levo os pratos servidos. – Greg fez o que lhe foi pedido com presteza, e sentou-se para aguardar que Mycroft trouxesse a comida. O político largou-lhe um prato com dois filés de frangos perfeitamente dourados, uma omelete lindíssima, onde ele conseguia distinguir pedaços de tomate, cenoura e azeitonas, e uma porção de salada de folhas verdes cobertas com um molho de aparência deliciosa. Ele então olhou para o prato que Mycroft colocava em seu próprio lugar, antes de sentar-se: um filé de frango minúsculo, uma profusão de folhas verdes com nada além do mais leve toque de azeite de oliva e... nada mais.

- Mycroft. – Greg cortou sua omelete ao meio e colocou-a no prato do outro, cortando-lhe o protesto com uma mão erguida – Não quero ouvir reclamações. Eu já disse, você não precisa dessas dietas malucas.

- Você não tem como saber. — Mycroft falou quietamente, sem erguer os olhos. Greg retesou-se no assento e não ergueu o olhar. Imagem corporal; aquele era um assunto tabu entre os dois. Especialmente porque, depois de dois meses e meio de relacionamento (ainda que um mês Greg tenha passado no hospital), ele nunca, nem uma vez, vira Mycroft nu. O político corria para o banheiro para trocar de roupa, e no momento em que deitava na cama, apagava as luzes; mesmo enquanto eles se beijavam e acariciavam, Greg não tinha o menor vislumbre do corpo do amante; o que ele achava extremamente injusto, uma vez que Mycroft conhecia cada polegada do seu próprio corpo. Mas ele já vira vezes demais as interações entre os dois irmãos, já ouvira comentários ferinos demais da parte de Sherlock, para entender que Mycroft tiveram problemas de peso na infância e na adolescência, e tinha um grave problema com seu corpo; que seu amante, tão seguro de si quando se tratava de sua mente e sua capacidade laboral, sofria por não ter a forma esguia (magrela, na mente de Greg) do irmão; que Mycroft envergonhava-se do corpo que trazia debaixo dos ternos bem ajustados – ainda que eles deixassem muito pouco par a imaginação e que, pelo que Greg era capaz de ver, não havia do que se envergonhar. Ainda assim, ele aceitava as hesitações e receios de seu Mycroft, e não tentava forçar uma atitude da parte dele. Mas, em pouco tempo, Greg não ia mais aceitar luzes apagadas e banhos separados; quando ele finalmente clamasse posse completa de Mycroft, ele pretendia fazê-lo de forma que ele pudesse observar e memorizar cada milímetro daquela pele pálida e tão macia ao toque. Ele balançou a cabeça, guardando esses pensamentos para mais tarde, e estendeu a mão, acariciando os dedos de Mycroft sobre a mesa.

- Ainda não tenho como saber. – ele provocou, forçando um sorriso. – Vamos lá, My. Por mim? — Mycroft ergueu o olhar e deu um sorriso contido, cortando a omelete em pequenos pedaços.

- Você sempre consegue me dobrar, Gregory, querido. – Greg ergueu as sobrancelhas, enquanto servia os dois de chá.

- Assim espero, My. Assim espero.

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Depois de limpar a cozinha, Mycroft mostrou a Greg o quarto em que os dois dormiriam, bem como o escritório onde ele passaria a maior parte dos dias.

- A porta vai permanecer aberta quase que o tempo todo, meu querido. – ele falou, enquanto conduzia Greg até a varanda nos fundos, de onde era possível apreciar o pequeno jardim e uma incrível vista da região. – Só vou fechá-la em caso de teleconferência, ou de alguma ligação de natureza mais... delicada. – ele sentou-se no balanço e fez sinal para que o policial sentasse ao lado dele. – E então, o que achou da vista? – Greg observava o semblante relaxado de Mycroft, que abrira mão da gravata e usava apenas seu sobretudo sobre o colete, e sorria.

- Não podia ser melhor. – ele inclinou-se e beijou o político suavemente, abraçando-o sobre o encosto do balanço e fazendo-o recostar a cabeça em seu ombro – Quanto tempo nós temos, antes que o dever chame?

- Até que uma ligação nos interrompa. – ele retesou-se ao ouvir o toque de seu celular, e grunhiu. – Como agora, por exemplo. – Mycroft levou a mão até o minúsculo dispositivo em sua orelha e pressionou-o, sem erguer a cabeça do ombro de Greg. – Mycroft Holmes. – o político ergueu o corpo, sentando-se com a coluna muito reta, uma expressão de absoluto repúdio em seu rosto, ainda que sua voz fosse tão polida e melíflua como sempre – Ah, Ootori-san! Ohisashiburi desu ne? Ogenki desu ka? – ele lançou um olhar de desculpas para Greg e entrou na casa em direção ao escritório. – Watakushi ha genki desu, okagesama de. Saa, Ootori-san ha... – a voz perdeu-se ao fechar a porta do escritório, e Greg recostou-se com um suspiro no balanço, desejando um cigarro. O sol fraco da tarde não era suficiente para aquecer o ar gelado de março, e Greg decidiu entrar e acomodar-se com um livro em frente à lareira.

A tarde arrastou-se, preguiçosa. Greg ficou sentado na poltrona, com as pernas estendidas em direção ao fogo, até que suas costas começaram a protestar. Quando ele olhou para o relógio sobre o mantel, ficou surpreso ao ver que já eram mais de quatro da tarde. Resolveu preparar um chá, e ver se Mycroft podia tirar dez minutos para comer algo... entre outras coisas. Ele ainda lembrava-se dos pãezinhos doces que sua mãe fazia quando ele era criança – e que ele depois costumava fazer para suas filhas. Eram simples e ficavam prontos rapidamente, e ele resolveu fazê-los como agradecimento – se ele conseguisse entender como funcionava o maldito forno de última geração que o político instalara na cozinha.

Meia hora mais tarde, Mycroft entrou na cozinha, atraído pelo cheiro que emanava do forno, e encontrou Greg começando a arrumar uma bandeja.

- Hey, My. – ele ergueu a cabeça e sorriu, fazendo as entranhas de Mycroft dissolverem-se, qualquer pensamento de admoesta-lo por estar forçando a perna banido de sua mente. – Eu já ia mesmo chamar você para o chá. Eu até levaria a bandeja até o escritório, mas... – Mycroft abriu uma porta sob a ilha central e puxou um antigo carrinho dobrável, que montou com presteza – Mas Sr. Holmes, como o senhor é prevenido! – Greg debochou, começando a arrumar os apetrechos para o chá sobre o tampo – E então, o que você está fazendo é muito confidencial, ou eu posso me juntar a você no escritório para o chá?

- Por favor, eu insisto. – Mycroft sorriu – Não é nada de natureza extremamente confidencial, e sua presença sempre me ajuda a pensar melhor, Gregory. Agora, — o político agachou-se para espiar o forno – o que você fez, que está cheirando tão maravilhosamente bem?

- Não é nada sofisticado, My, não se anime – Greg avisou, pegando geleia, mel e manteiga e arrumando-as junto às xícaras – Minha mãe sempre fazia isso para o lanche, e eu costumava fazer para as meninas, também. Ela chamava de pain au minute, porque eles são rápidos de fazer. – ele ergueu os olhos e viu que Mycroft o observava com um ar misto de espanto e encantamento nos olhos.

- Pain au minute? – ele perguntou, como que para ter certeza – Você fez uma fornada de pain au minute?

- Sim – Greg estranhou a reação de Mycroft – Minha mãe disse que foi nana Lestrade quem ensinou ela a fazer, porque meu pai adorava quando era criança, e – ele foi interrompido pelos lábios de Mycroft, que capturaram os seus num beijo passional, pressionando-o contra o balcão, as mãos enterradas nos cabelos curtos de sua nuca. Quando romperam o beijo, Greg ofegava, ostentando um sorriso enorme – Fico feliz de ver que meus dotes culinários também são apreciados, mas posso saber o porquê da reação? – Mycroft encostou a testa na dele, com um sorriso saudoso e um olhar distante.

- Quando éramos crianças, havia uma governanta em nossa casa, Madame Lefevre... ela era criada de nossa avó, em Lyon, mas veio morar com Mamãe quando ela casou-se. – Greg interrompeu-o

- E sua avó morava em Lyon porque....

- Porque ela era francesa de nascimento, é claro. – ele falou, acariciando as costas de Greg – O sobrenome de solteira da minha avó era Vernet. Ela conheceu meu avô, que era irlandês, durante uma viagem à Itália. Eles moraram na Inglaterra até minha mãe entrar na Universidade, e então voltaram para Lyon, onde viveram até o fim. Ainda temos posse da casa deles; um chalé adorável, Gregory. Tenho que leva-lo lá na primavera. – Greg beijou-o de leve nos lábios.

- Posso viver com você minha vida inteira, Mycroft Holmes, e ainda encontrar o que me surpreenda. – o político olhou-o com doçura.

- Então tenho que garantir que haja alguns mistérios para mantê-lo ocupado ao longo dos anos, meu querido. – Greg sorriu e desvencilhou-se dele para tirar os pãezinhos do forno.

- Agora termine a história, My. – ele pegou um prato largo e começou a arrumar os pães caprichosamente. Mycroft começou a preparar um bule de chá.

- Bem, Madame Lefevre era uma mulher muito rígida e disciplinadora, mas também era justa, e sabia ser muito carinhosa. Quando eu era pequeno, sempre que eu alcançava algum mérito acadêmico, aprendia algo novo, ou quando eu passava por alguma dificuldade ou doença e precisava ser animado, ela preparava uma fornada de pain au minute só para mim. – ele sorriu enquanto terminava de arrumar as coisas no carrinho, e fez sinal para que Greg o seguisse, indo para o escritório – Eu sempre lutei com meu peso, desde criança, e minha mãe controlava com mão de ferro tudo o que eu comia, raramente permitindo uma indulgência, uma gulodice. Mas Madame Lefevre era da opinião de que, quando uma criança era boa, ela precisava de uma recompensa; e essa recompensa sempre vinha em forma de pains au minute. – ele ficou em silêncio por alguns instantes, enquanto arrumava o chá no escritório, sinalizando para que Greg sentasse na cadeira diante da escrivaninha. – Quando eu fui para a Universidade, toda a vez que eu voltava para casa, ela tinha uma fornada de pãezinhos me esperando. Sherlock costumava sentar no meu colo e comê-los comigo; era uma das poucas coisas, além de seus experimentos, capazes de fazê-lo ficar sentado por mais de cinco minutos. Então, quando eu tinha dezessete anos, ela faleceu. Foi uma morte muito serena, durante o sono. Ela já estava bastante avançada em anos. – ele serviu o chá e sentou-se no lado oposto da mesa, um olhar distante e triste — E seis meses depois, foi a vez do meu pai. Como eu senti falta dela durante os primeiros meses depois do falecimento dele... Por mais que eu ame minha mãe, Gregory, a verdadeira figura materna da minha infância foi Madame Lefevre. E você pode achar engraçado, mas já faz 27 anos que eu não como um pain au minute. O último que comi foi ela quem fez. – Greg sentiu um nó na garganta, pensando que talvez houvesse estragado tudo.

- Mycroft, se você não quiser, eu entendo... – Mycroft interrompeu-o, passando geleia de framboesa em um dos pãezinhos.

- Gregory, você teve todo esse trabalho por mim, e sem saber, fez uma das coisas que eu, a minha vida inteira, associei com recompensa, com bem-estar, com... com sentir-se amado. Obrigado, meu querido. – ele sorriu e deu uma grande mordida, gemendo ao sentir o gosto. – Meu Deus, Gregory, é melhor ainda do que eu me lembrava. – Mycroft terminou de comer, sujando os lábios de geleia, e Greg não conseguia desviar os olhos da expressão extasiada do outro, o corpo reagindo ao ouvir os pequenos ruídos satisfeitos que ele fazia ao comer, encarando a pequena mancha de geleia no lábio superior de Mycroft. Ele pigarreou, pegando um pão para si e cobrindo-o de mel e manteiga, enfiando-o inteiro na boca, enquanto encarava o político com as sobrancelhas erguidas. Mycroft sorriu, os olhos subitamente acesos e provocativos, e lambeu a geleia dos lábios com lentidão deliberada. – Dois podem jogar esse jogo, meu querido.

- Pensei que o senhor tinha trabalho a fazer, Sr. Holmes.

- Mas eu posso tirar um intervalo de dez minutos. – ele sorriu, lambendo as pontas dos dedos. Mas antes que pudesse fazer outro movimento, seu telefone tocou, e ele grunhiu em frustração. Greg fez menção de erguer-se, mas ele gesticulou com a mão para que ele sentasse novamente – Fique, por favor, meu querido. Não deve ser nada muito sério. – ele atendeu o telefone, recostando-se na cadeira. – Mycroft Holmes. Ah, David. Sim, o senhor Ootori já me ligou. – Greg terminou seu chá e ergueu-se da cadeira, contornando a mesa e ficando em pé atrás de Mycroft, começando a massagear os ombros tensos do amante, que se recostou em suas mãos com um suspiro contido. – Não, eu não creio que a situação tenha como piorar, sinceramente. Já estou preparando um plano de contingência, mas o embaixador deixou claro que não vai aceitar nenhum... David, quer se acalmar, por favor? – ele falou irritado. Greg escolheu este momento para inclinar-se e mordiscar o lóbulo da orelha esquerda de Mycroft, fazendo-o encolher-se e conter uma risada. Ele deu um tapa na mão de Greg sem muita vontade, acabando por segurá-la e acariciar-lhe a palma com o polegar. – Anthea vai passar aí amanhã pela manhã com os arquivos que você precisará para a reunião, e mais o projeto. Se você achar necessário, podemos fazer uma videoconferência antes da reunião, mas acho que não haverá nenhuma real dificuldade, meu caro. – A mão de Greg que ainda estava em seu ombro começou a deslizar em direção a seu peito, começando a brincar com os botões da camisa, e ele fechou os olhos. – Está bem, eu vou ligar para ele e ver o quanto eu consigo extrair antes da reunião. Sim, agora, David. Assim que e tiver as informações, eu ligo de volta. Obrigado. – ele desligou o telefone e puxou Greg para um beijo, segurando-lhe ambas as mãos. – Mil desculpas, meu querido, mas o assunto que eu tenho que tratar agora é de extrema delicadeza e extremo segredo. Podemos adiar este momento até depois do jantar? – Greg suspirou e beijou-lhe os cabelos avermelhados, olhando-o com um sorriso travesso.

- Talvez durante? Tenho certeza que deve haver algum vinho nessa sua adega que harmonize com um gênio de 1,85m e voz sensual. – Mycroft sorriu e olhou-o com a cabeça inclinada.

- Você terá que esperar até mais tarde para descobrir, meu querido.

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Greg ficou surpreso ao descobrir que Mycroft tinha todos os filmes de James Bond em DVD. Definitivamente, ele encontrara como o quê ocupar suas horas ociosas durante aqueles 15 dias; ele tinha quase cinquenta anos de 007 para assistir. Ele já terminara de assistir Dr. No, e estava nos primeiros minutos de From Russia With Love quando ouviu a voz de Mycroft ecoando no corredor, dirigindo-se para a cozinha.

- Daniels, eu deixei bem claro depois da última vez: qualquer problema que a CIA tenha em território britânico deve passar por mim, primeiro. Não quero outro incidente como o que aconteceu com Adler. E eu tenho certeza que seus agentes não desejam lidar com meu irmão novamente. – Greg desligou o filme e seguiu Mycroft até a cozinha. Era extremamente divertido vê-lo com o rosto fechado numa carranca, o tom de voz mortalmente sério, enquanto atava o avental na cintura e começava a reunir os ingredientes necessários para o jantar. Ele sentou-se na mesma cadeira em que sentara pela manhã e cruzou os braços, observando a discussão unilateral, divertido. – Eu não quero saber se você falou com Sir Anthony. Independente de títulos ou falta deles, Daniels, é bom você lembrar quem realmente tem a palavra final nos assuntos do Serviço Secreto. – Greg pensou, não pela primeira vez, se havia algo de errado com ele por ficar tremendamente excitado ao ouvir Mycroft todo mandão e perigoso. Este camarada Daniels devia estar realmente dando nos nervos de Mycroft, se a violência que ele estava aplicando no corte das costeletas de cordeiro era alguma indicação. Ele respirou fundo e largou a faca, ligando o fogo sob uma panela cheia de batatas. – Eu vou entrar em contato com Sir Anthony em duas horas. Se ele me passar alguma informação diferente da que eu espero, bem... haverá consequências. Tenha uma boa noite. – ele lavou as mãos e removeu o dispositivo bluetooth do ouvido, colocando-o no bolso com um suspiro irritado. – Francamente, era de se esperar que depois de toda aquela bagunça no ano passado eles teriam aprendido a lição. – ele mexeu a panela com o molho, corrigindo o tempero e baixando o fogo.

- Você fala daquela confusão toda com o agente da CIA que invadiu Baker Street e acabou no hospital, depois de ter acidentalmente caído da janela cinco vezes?

- Não apenas isso, mas sim, em grande parte esta é a razão. O chefe da CIA parece esquecer como funciona o Serviço Secreto Britânico. Claro, é muito mais fácil lidar com Sir Anthony do que comigo. – ele murmurou, enquanto colocava o cordeiro no forno. – Pobre Tony tem setenta e oito anos e mal pode esperar pra que finalmente o substituam... – pegando uma garrafa de vinho tinto na pequena adega refrigerada e um par de taças, ele foi sentar-se ao lado de Greg. Serviu-lhes o vinho e ergueu a própria taça num brinde. – A um jantar tranquilo antes de uma tempestade de trabalho. – Greg riu e bateu sua taça contra a de Mycroft.

- Saúde. Qual o cardápio da noite, Chef Holmes? – ele perguntou, em tom de deboche. Mycroft deu-lhe um tapa na coxa e ergueu-se para terminar o jantar.

- Costeletas de cordeiro com molho de hortelã, purê de batatas e vegetais frescos. – ele terminou de preparar o purê enquanto Greg bebericava o vinho, relaxando e apreciando o aroma do cordeiro no forno. Um belo homem, uma boa refeição, um bom vinho... o que mais ele poderia querer? ‘Uma boa noite de sexo’, foi o que lhe veio à mente, mas ele rapidamente baniu esse pensamento. Não enquanto ele não estivesse em melhor forma. Não enquanto ele não pudesse prensar Mycroft contra a cama e fazê-lo implorar por alívio aos gritos... Ele engoliu rapidamente o resto do vinho, tentando desviar seus pensamentos.

Eles jantaram num clima ameno e tranquilo, e depois de dois pratos da comida maravilhosa de Mycroft, bem como três taças de um excelente tinto, Greg sentia-se agradavelmente sonolento. Depois de cuidarem da louça, Mycroft pediu desculpas e retirou-se novamente para o escritório, e o policial sabia que havia uma grande probabilidade do político nem mesmo chegar perto do quarto naquela noite. Ele foi até a sala buscar o livro que estava lendo naquela manhã – o primeiro volume da trilogia Dark Heavens, de Kylie Chan -, antes de ir ao banheiro trocar de roupa e preparar-se para dormir. Ele deitou-se e leu até que seus olhos estivessem pesados demais para manterem-se abertos; mas depois de apagar a luz e acomodar-se para dormir, o sono escapou-lhe entre os dedos. Ele virou-se na cama, desassossegado, pelo que pareceram horas. Até que, um longo tempo depois de ter se recolhido, quando ele parara de brigar com seu cérebro e decidira simplesmente ficar deitado, de olhos fechados, repassando na mente seus casos em aberto, ele ouviu a porta abrir-se cuidadosamente, e a cama ceder sob o peso do corpo de Mycroft. Sem nem abrir os olhos, ele rolou e aninhou-se contra a forma do outro, enterrando o rosto na curva longa do pescoço, sentindo o sono toma-lo quase que de imediato, enquanto um beijo suave era depositado no topo de sua cabeça. Seu último pensamento coerente foi “Posso me acostumar a uma vida assim”.

Notas finais
São tantos reviews adoráveis!! Eu respondi a todos, espero não ter esquecido ninguém. Obrigada a todos os que acompanham a história =D