Les mots bleus
1 Les mots bleus
Notas iniciais
"Je lui dirai les mots bleus
Les mots qu'on dit avec les yeux"
(eu direi a ele as palavras azuis
as palavras que dizemos com os olhos)
Freddy franziu o cenho. Olhou em volta, à procura de algum rosto conhecido, mas em meio a tanta gente parecida, isso se tornava uma tarefa muito complicada. Aproveitou a passagem de um garçom e pegou uma taça de champanhe, e logo depois, um outro passou com uma bandeja de canapés. No seu aniversário de dezesseis anos, três semanas antes, o cardápio tinha cachorro quente e Coca-Cola. Não poderia dizer que não gostava daquele mundo de gente rica. Perambulou um pouco entre os convivas, tentando encontrar o amigo, mas não conseguiu localizá-lo em lugar algum. Olhou um instante para as próprias mãos e as sentiu trêmulas.
— Ok, não seja ridículo. Só vai lá e fala com ele.
— Ora, ora, se não é o Talentoso Sr. Taylor. — Freddy sobressaltou-se ao sentir a mão pesada do Sr. Rockefeller em seu ombro. Os olhos azuis o encaravam com desdém, e o os lábios se curvavam num sorriso cínico. — Não esperava vê-lo aqui — o homem disse. Em sua fala estava implícito que a presença do garoto, além de não ser esperada, também não era desejada. Freddy não soube o que responder. — Seja bem-vindo à nossa humilde casa, Sr. Taylor — o Sr. Rockfeller continuou.
— Obrigado — Freddy gaguejou. As brincadeiras maldosas do Sr. Rockefeller sempre o deixavam sem jeito. Não sabia qual era o problema daquele homem, que sempre parecia olhá-lo com superioridade. — Eu vou... ahm, procurar o Johnny.
— Se encontrá-lo, avise-o de que eu e todos os convidados o aguardamos.
— Ok — respondeu antes de dar as costas. Não era à toa que seu amigo estava escondido em vez de aproveitar a própria festa de aniversário: o pai dele conseguia acabar com qualquer clima.
Depois de mais algumas voltas aleatórias entre os convidados, Freddy parou e refletiu consigo sobre o possível lugar onde John poderia estar. Apesar de a casa ser enorme, não foi tão difícil adivinhar. Enchia-lhe o peito saber que conhecia John tão bem ao ponto de prever o comportamento dele. Depois de atravessar o jardim e se afastar da área da festa, deixando para trás a música e o som das vozes, Freddy avistou o amigo sentado de pernas cruzadas na borda da piscina. Aproximou-se devagar para não assustá-lo e também para dar a si mesmo um pouco mais de coragem.
— Hey... — Acenou. John levantou a cabeça e pareceu surpreso por vê-lo.
— Você veio!
Freddy deu de ombros.
— Você me convidou — respondeu e, contente por ver um pequeno sorriso nos lábios de John, sentou ao lado dele. — Por que você está escondido?
— Não estou escondido.
— Aham... É o seu aniversário, cara, você deveria estar comemorando! Se divertindo — Freddy falou e o momento seguinte passou em silêncio. Já estava acostumado com a economia de palavras do amigo por isso esperou.
— Não consigo me divertir com o meu pai por perto. Ele não me deixa em paz. Fica o tempo todo me exibindo pros amigos, como se eu fosse um troféu... desculpa, não devia ficar falando essas coisas.
Freddy viu os olhos de John encherem d’água, então pegou na mão dele.
— Ei, não fica assim, cara.
— Eu o odeio tanto, Freddy.
— Esquece ele — sugeriu e viu o olhar cético do amigo. Não era como se John não quisesse esquecer. — Só por agora, pensa em qualquer coisa, menos nele, ok? Hum?
John se esforçou, mas a única coisa em sua cabeça era a relação turbulenta que tinha com o pai e o quanto aquela vida de fingimentos o incomodava.
— Vamos dar o fora daqui — Freddy decidiu, de repente. Ficou em pé e estendeu a mão para John.
— Eu não posso.
— Claro que pode. — John hesitou por alguns segundos antes de aceitar a ajuda para se levantar. No entanto, antes que pudesse pensar direito no que faria, Freddy o empurrou na piscina.
— Freddy, você ficou maluco? — esbravejou depois de voltar à superfície. Ficou boiando na água, em dúvida se ficava mais irritado com o amigo, que estava rindo da sua cara, ou com o frio. — Você é ridículo, sabia? — Nadou para perto da borda e pediu ajuda para sair da água.
Freddy podia pressentir a armadilha, mas não era exatamente a vítima. Estendeu a mão para John e no segundo seguinte, foi puxado para a água. No lugar da cara emburrada, ouviu uma risada vindo de John. Nadou até ele e empurrou sua cabeça para o fundo novamente.
Os dois ficaram nessa brincadeira por vários minutos, um nadando atrás do outro, até que pararam e se encararam.
Freddy ensaiara milhares de vezes em frente ao espelho, mas as palavras simplesmente não vinham naquele momento.
— Eu... ahm...
“John, eu gosto de você”. Por que era tão difícil?
Como não conseguiu falar, tocou o rosto dele com a ponta gelada dos dedos. John acompanhou o gesto, com um misto de curiosidade e surpresa. Freddy se demorou na bochecha, depois retirou uma mecha do cabelo molhado que caía sobre os olhos dele.
Será que aquele era mesmo o melhor momento para se declarar? A pergunta se desfez tão rápido quanto surgiu porque àquela altura já havia arriscado.
Apesar da água fria, John sentiu uma espécie de calor tomar seu corpo. Uma pequena parte de si temia que o pai aparecesse de repente e os visse juntos. Mas, ao menos daquela vez, conseguiu ignorar seu lado covarde ao se permitir a leveza de ter dezesseis anos e se concentrar no momento, na sensação de ter os lábios de Freddy pressionados contra os seus.
— Feliz aniversário — Freddy sussurrou, com a boca encostada ao ouvido dele. Por um instante, teve medo que o outro o repelisse. Ter correspondido ao beijo não era garantia nenhuma de que havia reciprocidade naquele sentimento. — John? — arriscou, diante do silêncio prolongado.
— Isso... está errado, Freddy — ele disse, sem muita certeza. — Meu pai... vai me matar. Pior, vai matar você.
Freddy deu de ombros.
— Não tenho medo dele, Johnny — garantiu, mas dessa vez era ele quem não parecia certo do que dizia. — Não me importo com ele, só me importo com você.
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