A rua vermelha era agitada. Clientes de toda espécie vão em busca das damas de companhia do bordel mais tradicional de Paris. Servia também como casa de massagem, com homens bem tratados pelas mulheres com lingerie durante a sessão. E as putas cobravam caro pela hora, com os valores em torno de 500 euros ou mais, dependendo da mulher.

E, com esse cenário, temos três damas distintas e com menos de um ano de carreira: Marine, Brigitte e Leonor.

Marine era a moça mais velha do trio novato. Com quase 1 ano, a loira alta e esbelta era requisitada até mesmo entre os clientes políticos.

Brigitte só era baixinha, mas muito quente e adorava até mesmo um BDSM. Sua aparência diminuta e jovem, cabelos castanhos ondulados e carisma davam-lhe o apelido de Lolita.

Leonor era a mais novata do bordel. Sua peculiar pinta na bunda deixava os homens com desejos animalescos. Era a de estatura mediana, cabelos pretos ondulados e lábios carnudos.

Mas havia muitas outras garotas quentes e cheias de amor para dar naquele bordel. E os preços variavam, porém não eram tão baratos. Pois, assim como um prato feito por um chef renomado, as damas faziam parte do cardápio do badalado bordel Rouge.

Rouge existia desde os primordios do século XX, em 1920, após a primeira guerra mundial. Muitos soldados sobreviventes visitavam a França a fim de terem acesso aos prazeres carnais após lutarem nas trincheiras sangrentas. O nome do local era Bordeaux, sobrenome do fundador, mas a palavra VERMELHO foi inserida por causa do simbolismo do sangue que os soldados carregavam nas mãos, por isso o nome completo era ROUGE BORDEAUX.

Mas Rouge Bordeaux passava por um momento delicado, pois, além dos escândalos de políticos indo se divertir à custa de dinheiro público, a polícia achara cocaína em um dos quartos. A denúncia anônima pegou todos de surpresa.

— Meninas, esse ano estamos completando 104 anos de existência. Vamos comemorar com descontos e novas posições. Sejam criativas — falou o gerente chamado Pirlo, que era um gay de meia-idade que mais parecia um pai para as prostitutas.

Brigitte levantou o braço.

— Não vou abaixar o meu preço só porque a sociedade quer. E os meus direitos?

— Queridinha... e puta tem direito? Puta tem que abrir as pernas e fingir orgasmo. Não tem como manter os preços com o escândalo das drogas. O labéu em nosso prostíbulo foi tão grande que nem mesmo os clientes mais tradicionais querem voltar aqui. Agora caiam fora todas! Tenho que resolver pendências contábeis.

As prostitutas saíram do escritório de Pirlo. Mas o assunto sobre a cocaína ainda rendia. A mais afetada era Marine. Ela era uma das garotas que utilizavam a droga durante o programa. Pegou Leonor pelo braço e a encostou contra a parede.

— Não se faça de santinha. Foi você que denunciou, não foi?

— Não faço ideia do que esteja falando.

— Naquele dia, minha melhor amiga foi presa como traficante. Eu a vi sair algemada e colocada para dentro da viatura policial. Antes, porém, ela se virou para mim e disse "Leonor". Fala, sua vadia!

— Fui eu sim, e daí? Nem mesmo Pirlo tava sabendo das artimanhas de vocês — Leonor se desvencilhou — Aqui fazemos sexo. Se quer droga, vai numa biqueira.

As palavras de Leonor deixaram Marine furiosa. A loira jurou a si mesma que mataria a novata haja o que houvesse.

Leonor foi para a área dos fumantes. Pequeno jardim nos fundos do casarão.

— Quer um? — Brigitte ofereceu cigarro para Leonor.

Merci. A clientela está fraca hoje.

— Nem me fale. Desde o dia que drogas foram achadas, aqui diminuiu o movimento. Não que eu seja a favor de usar pó. Mas também usa quem quer. A sua cara não me parece boa.

Leonor se sentia culpada por ter feito a denúncia. O fato era que drogas haviam acabado com parte da sua família.

— Droga — Brigitte olhou o grupo do prostíbulo.

— Que foi? — Leonor perguntou.

— Aquele pobre coitado que fiquei por duas vezes. Maldito stalker que acha que vai se casar comigo. O que faço?

Leonor não havia conseguido um único cliente naquele dia. Ofereceu-se para trocar de lugar com Brigitte e ajudá-la com o cliente. Brigitte agradeceu muito por Leonor fazê-lo.

À noite, voltando dum ateliê, Pirlo andava pelas ruas chuvosas da cidade de volta ao casarão. Observou um homem alto e bonito esperando na frente do bordel.

— Você é o cliente de dois dias atrás.

— Boa noite!

— Tá esperando alguém?

— Sim.

— Há 31 moças para você escolher e estamos na promoção. Por que ficar parado nesse chuvisco?

— Prefiro esperar. Perdão... sou um homem bastante seletivo.

— Esses clientes estão mais exigentes do que nunca. Sorte a sua ficar. A pessoa que você quer pode estar com a agenda cheia ou simplesmente não te querer. Um dos requisitos daqui é o respeito mútuo. Se ela não te quer, contenha-se.

Antes de entrar, Pirlo viu um coldre na cintura do homem. Não era incomum policiais também fazerem parte da clientela.

Horas depois...

Pirlo mexia no notebook quando escutou um barulho estrondoso semelhante a um tiro. Um tiro havia sido disparado no interior do prostíbulo. Saiu do escritório imediatamente, passando pelos corredores e dos quartos. As prostitutas que estavam dentro saíram.

— Não, meu senhor! Não.

Uma das prostitutas havia levado um tiro no salão de dança. A cortina vermelha se misturava ao sangue da moça. O corpo caído era o claro sinal de que ali não tinha mais uma vida. O pior aconteceu. E Pirlo nem se preocupava com a reputação do Rouge Bordeaux, e sim da garota morta.

A ambulância e a polícia chegaram pouco tempo depois. Uma aglomeração de gente ao redor do casarão. A reportagem. O nome do prostíbulo mais badalado da França caiu ainda mais. Seria o momento de fechar as portas ou diminuir ainda mais os preços? O fato era que o "vermelho" no nome deixava tudo mais macabro. O ROUGE era por causa do sangue nas mãos dos soldados. Agora o mesmo ROUGE tinha sangue em seu piso.