Les Marcheé

25 Lorde Shaido não fez nada


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Passaram-se os dias e Lorde Shaido não fez nada... Sempre com a desculpa de estar pensando no que faria para não dar margem em um conflito desnecessário.

Lady Khei já perdia a razão pela ausência de tato e atitude do amigo, certamente sendo governador, os assuntos relacionados ao povo eram de maior importância que os pessoais. Mas isso não era motivo para adiar uma atitude sobre o ocorrido, afinal, Lady Mclin estava sequestrada e era uma pessoa importante em Boandis.

Não tardou para Lady Khei reunir grandes personalidades de Boandis, além daquelas que vieram junto com ela de Imperah. Exatamente como a misteriosa Lady Elissa lhe disse, recebeu grande apoio e honras pela liderança e coragem.

De acordo com muito do que aprendeu com Belle e os livros, estava pronta para exercer seu papel na liderança e abrir novos caminhos. Seu primeiro plano era ir até Bherto, conversar com seu irmão e sua amiga. Saber se ambos estavam bem e como poderia amenizar aquela tensão entre as famílias e o governo.

No Palácio de Linmor, Lady Khei discutia com seus pais sobre a loucura do irmão.

— É evidente que ele perdeu a razão em nome do amor. Mas alguém precisa ir lá e fazer algo a respeito de Lady Mclin.

— Minha filha, você acha que Lady Mclin não é capaz de enfrentar a situação sozinha? — sua mãe contestava.

— Mas mãe! Não sabemos em qual situação ela se encontra! — disse alterada. — E se ela estiver sendo ameaçada, enclausurada ou torturada?

— Mas que exagero minha filha! — Lorde Rowah levanta-se da poltrona. — Que tipo de juízo você faz do seu irmão?

— Me desculpe, pai — sentou-se e se deu por vencida. — Tem razão, meu irmão ama Loren e não faria mal a ela. Mas de qualquer forma, é necessário intervir para ter certeza que seja feita a vontade dela, e não a dele.

— De qualquer forma, não há o que fazer se o governador não ordenar.

— Como pais e como irmã, temos o direito de ir até Bertho. Ainda são terras Protherois.

— Exatamente por isso — Lorde Rowah sentou-se novamente, entristecido. — É uma grande vergonha para nós o que seu irmão fez. Agora, Bertho está repleto de magia, não ousamos ir até lá.

Lady Khei revirou os olhos em profunda discordância.

— De novo essa história? — levantou-se irritada. — Lady Irebe me avisou sobre isso, é bem verdade que o poder Protheroi deverá ser retomado pelas novas gerações, porque se dependesse dos mais velhos, morreria para sempre!

— Mas o quê? — Lady Nilla olhou para a filha, assustada.

— Quem disse esse absurdo? – contestou Lorde Rowah.

— Enfim, isso não importa. Apenas continuem como estão: indiferentes.

Dizendo assim, Lady Khei se retirou da sala, deixando seus pais em dúvidas.

Era de suma importância que Lady Mclin fosse salva antes que houvesse mais mágoas ou que a escuridão cobrisse totalmente seu coração. Os pensamentos vingativos e malignos haviam sido despertados no dia em que fora raptada do seu casamento. Mesmo que soubesse sobre seu futuro ao lado de Lorde Shaido, Lady Mclin não conseguia perdoar Lorde Codhe pela atitude daquele dia.

O que se pode fazer a respeito das decisões dos corações rejeitados? Não há poder que possa mudar a mente. O amor é maior que todos os poderes, nem sempre suas consequências são boas. Na maioria das vezes, causa sofrimento e tristeza.

Quem sabe o destino estivesse fazendo seu papel, aparentemente parecendo tortuoso e errado, contudo, futuramente, seria das trevas que nasceria a luz? Pois ninguém nasce maligno... o mal vai sendo moldado pelo tempo; e assim como nasce, também morre.

Se agora Lady Mclin estava cheia de ódio, seu coração poderia ser moldado de acordo com o ambiente que Lorde Codhe havia preparado para recebê-la e do quanto o coração dele estava, sinceramente, repleto de amor para doar à ela.

A região de Bherto era desconhecida para Lady Mclin, pois ficava longe; era quase outra cidade. Se não estivesse tão furiosa teria visto que as paisagens por onde passavam eram lindas.

Naquela noite em que fora sequestrada de seu próprio casamento até a lua parecia decepcionada; havia perdido parte do seu brilho. Os campos verdes que terminavam no horizonte onde se levantavam montes rochosos eram belos, intercalados por pequenas incidências de mata fechada, talvez, até inexploradas. Mas Lady Mclin não via nada disso, com os olhos nublados pelas lágrimas de mágoa e ódio.

Estava em silêncio, ouvia os lordes da Ordem Protheroi conversando entre si, até mesmo Lorde Codhe, às vezes, dizia alguma coisa, mas ela não prestava atenção. Só queria chegar onde quer que fosse e poder achar um lugar solitário para chorar as mágoas pelo destino tortuoso.

Havia muito pelo que chorar e se lamentar. Todos poderiam crer que ela choraria por seu casamento destruído, pela oportunidade perdida de se casar com seu grande amor da infância, mas ela não choraria por isso. Era uma mágoa muito maior e mais profunda.

Choraria por nunca ter sido amada por Lorde Shaido, por ter estado sempre na condição submissa de deixar os outros ditarem sua vida. Ela tinha culpa por ter concordado com aquele casamento, mesmo sabendo que não seria bom, aceitou pela vaidade de realizar seu sonho. Agora, choraria por sua covardia de não ter dito “não” para seu desejo.

Era verdade que não podia ver muito sobre o futuro para si, mas ela via claramente o futuro de Lorde Shaido ao lado dela: um homem infeliz, preso por uma promessa, que viveria sua vida sem gosto nenhum, sem objetivo nenhum, a não ser, aquele que lhe era devido como governador. E por isso, com o tempo, seu brilho, convicção e sabedoria iam esmaecer e ela seria a responsável por isso.

Como não haveria de chorar, sabendo todo o mal que causaria ao homem que mais amava? Por culpa dela, ele jamais teria a chance sequer de viver o amor verdadeiro. E falando em amor, também chorava por Lorde Codhe.

Por quantos anos, seu melhor amigo desde a infância, esteve apaixonado, esperando por ela? O quanto ele sofria pela separação, pela distância e a indiferença que ela sempre proporcionou a ele, mesmo sabendo dos sentimentos existentes ali?

Ela merecia o título de bruxa, era como todos diziam, Lady Mclin se via má e com uma falsa bondade para com os outros. Uma desculpa para tentar aliviar a culpa que carregava por ter feito mal a todos os que lhe amavam verdadeiramente.

Choraria, por ter precisado de Lorde Codhe para lhe tirar daquela situação em que ela mesma havia concordado estar. E justamente, aquele que ela mais magoou foi quem lhe salvou. Sua fúria e desespero não eram por Lorde Codhe ou pelo que ele havia feito, era por si mesma.

Quando percebeu, já cruzavam os portões do castelo de Bherto. Finalmente, enxugou as lágrimas e olhou em volta, sentindo que o cavalo tinha uma marcha lenta, quase agradável e, Lorde Codhe, a mantinha em seus braços da melhor forma possível, lhe proporcionando um conforto que somente agora ela notara.

Então, ela chorou novamente, porque mais uma vez sentiu o amor e preocupação dele, enquanto ela estava perdida em lamentações e culpa. Odiava-se.

— Chegamos! — anunciou ele. — Aqui você poderá descansar o tempo que quiser e pensar sobre um novo rumo na sua vida.

Ela não respondeu. Deteve-se em olhar ao redor e analisar aquele castelo, que aparentemente, seria seu lar por algum tempo. Por quanto tempo? Ela não saberia dizer, mas sentiu um calor agradável e algo que lhe dizia que seria bom estar ali, como se fosse uma fortaleza segura para se esconder de tudo e de todos.

Ele continuou falando, guiando-a pelas amplas salas e quartos, com pisos de ônix, paredes de ardósia, cortinas de veludo escarlate e mobílias de madeira talhada e tingidas com betume cobre. Havia também muitos adornos de diferentes metais e grandes lustres que iluminavam amplamente.

O castelo inteiro havia sido decorado com muito bom gosto, requinte e conforto. Todos os cômodos tinham sintonia e seguiam o mesmo padrão estético na decoração. Tudo muito sóbrio, quase pesado, com predominância do preto, cinza e bordo.

Mas o que chamou a atenção de Loren, foi o quarto destinado para si. Não combinava com o resto, era completamente diferente. Mesmo que mantivesse o ar sério e luxuoso, ainda sim, havia um toque de romantismo.

As paredes haviam sido cobertas por tecidos brocados, numa paleta terrosa e esverdeada, com motivos arabescados que combinavam com a tapeçaria no chão. As cortinas eram de seda, assim como a colcha e todos os estofamentos dos móveis, que eram de madeira ornamentada e, contrariando todo o resto da mobília do castelo, ali eram brancas.

Havia um enxoval bordado de ouro especialmente pra ela, com as letras de seu nome entre motivos florais bem miúdos e delicados. Também tinha veludo e matelassê. Ao centro, um lustre de cristal e objetos de ouro envelhecido.

— Veja Loren — mostrou orgulhoso a penteadeira no canto do quarto. — Desde o primeiro dia em Imperah até o último, guardei os mais belos frascos de cristal, porque sabia que um dia teria a chance de lhe dar esses presentes.

Lady Mclin sentou-se na banqueta em frente a penteadeira e olhou curiosa para todos aqueles frascos coloridos, lindos, adornados de pedras preciosas como jóias raras. Sem dúvida, uma coleção de valor inestimável.

— E tem mais no quarto anexo, porque são muitos — explicou com certa alegria. — Esses estão cheios de perfumes, mas os outros, você poderá encher com suas poções mágicas.

— Quantos anos dedicou-se em colecionar esses frascos para me presentear? — disse pegando um em tons de verde menta.

— Todos os dias que estive longe, sem poder vê-la — falou olhando-a pela imagem refletida no grande espelho oval. — Era a forma que tinha de me sentir próximo de você e das suas experiências de poções mágicas, que você tanto gostava de fazer.

Lady Mclin abriu um sorriso pela primeira vez e cheirou a fragrância do frasco. O aroma agradável e rico lhe fez esquecer momentaneamente tudo o que acabara de passar. Em seguida, foi verificando um por um, até que suas narinas não eram mais capazes de diferenciar os cheiros.

Lorde Codhe ficou ali, parado, apenas observando em silêncio a forma com que Lady Mclin examinava cada frasco, como uma criança com seu brinquedo novo. Ele estava orgulhoso e satisfeito, pois sabia que seu presente tinha sido bem-vindo.

— Eu vou deixá-la sozinha, para que possa descansar.

— Eu agradeço.

Lorde Codhe se retirou do quarto, fechando a porta sem tranca-la. A imensa demonstração de amor dele deixou-a encantada e de alguma forma, aliviada. E as horas daquela primeira noite avançaram, trazendo o sono e cansaço. Já havia examinado seu quarto nos mínimos detalhes e seu coração estava mais calmo.

Tirou seu vestido de casamento que lhe pareceu sem graça diante de tantos itens bonitos e elegantes que Lorde Codhe havia lhe presenteado. Vestia agora uma camisola de cetim, esvoaçante e ricamente bordada, peça que fazia parte daquele luxuoso enxoval feito especialmente para si.

Deitou-se na cama macia e fitou o lustre de cristal. Pensou que não era digna de tanto, mas estava sentindo algo bom em seu coração, algo quente e confortável como se tudo o que estivera a pensar sobre si não era totalmente verdadeiro. Talvez, ela não fosse uma bruxa tão maligna, pois sentia-se, pela primeira vez, amada, e isso começou a influenciar seus pensamentos. Uma sensação diferente que até então nunca havia provado e naquele momento tão confuso e angustiante foi um bálsamo.

Nos seus sentimentos, Lorde Codhe ganhou um lugar diferente do que ocupava até então, pois agora, ela o via muito mais próximo e gostava dessa proximidade. Adormeceu pensando em tudo o que lhe acontecera e, principalmente, pensando em Codhe e no quanto foi providencial aquele sequestro.

Quem sabe ali estava sua chance de recomeçar e fazer diferente.

Perambulando pelas salas do castelo de Bherto, Lorde Codhe estava inquieto e pensativo. Os dias haviam se passado em silêncio, no qual ambos evitavam falar sobre qualquer assunto que pudesse gerar novas mágoas.

Certo de que o coração dela estava confuso, mas não com ódio, ele esperava que ela pudesse abandonar sua obsessão por Lorde Shaido. Fora para isso que a trouxera ali, arriscando toda sua reputação com aquele sequestro visto como um ato imoral e absurdo. Ele não era um sequestrados maquiavélico que roubava donzelas do altar e não estava totalmente orgulhoso de seu feito, mas foi a solução desesperada que encontrou dadas as circunstâncias em que Loren, como noiva, se encontrava.

Ele conhecia muito bem sua amada desde a infância e o tempo que passou longe não mudou isso, já que Loren não demonstrava nenhuma mudança de caráter, gostos ou escolhas. Tinha a intenção de usar desse conhecimento para conquistá-la, mesmo que precisasse ir ao extremo, como fez ao sequestra-la no altar de seu casamento. Conhecia os gostos, desejos e obsessões de Loren e, pretendia suprir todos, para que ela mudasse seus sentimentos de uma vez por todas.

Loren estava tão perto como nunca estivera antes. A vontade de estar ao lado dela aumentava, mas ele respeitaria o isolamento que ela impôs, afinal, ainda que o ato tenha sido pensado para o bem — e ela mesmo reconheceu isso —, havia certo rancor pela maneira abrupta com que foi feito.

Eles se encontravam poucas vezes no dia, contudo essa frequência estava aumentando gradativamente, o que significava que Loren estava se sentindo mais confortável na presença dele.

Lorde Codhe pegou-se caminhando em direção a ala do castelo reservada para ela, no entanto, deteve-se. O dia já amanhecia e ele sentiu a presença de invasores em suas terras e isso o irritou. Já tinha emoções suficientes para lidar dentro de si, não precisava ser perturbado por outros.