Les Marcheé
28 Lady Mclin
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Lady Mclin estava quase convencida que o amor e as coisas boas que Lorde Codhe lhe proporcionava ali, definitivamente, lhe despertaram sentimentos intensos o suficiente para se considerar apaixonada. Seu coração se preenchia de novas e boas emoções, mas tinha uma parte que ainda estava vazia, como se faltasse algo para completar.
Quando ele recebeu a convocação para o julgamento e partiu, deixou Lady Mclin como a Senhora do Castelo e ela sentiu-se lisonjeada por mais esse voto de confiança. Abriu-se a possibilidade de explorar o Castelo em lugares que ele parecia não ter a intenção de mostrar a ela. A Torre Bhertophel, em particular, lhe chamava a atenção, com pesadas portas de ferro, sempre trancadas e guardadas por vigias, dia e noite. Sentia enorme curiosidade em ver o que havia ali, mas ele nunca mencionou nem ela perguntou.
No mesmo dia em que Lorde Codhe partiu para Imperah, ela decidiu saciar sua curiosidade.
— Minha Lady, mesmo sendo autoridade aqui, não posso permitir que passe — disse o guarda que fazia plantão na porta que dava acesso a torre.
— O que há nessa torre que não posso ver?
— Não sei, senhora. Por favor, todo o castelo lhe é concedido, somente esta torre devo guardar com minha vida.
Ele sabia o que havia na torre e Lady Mclin achou bobagem ele mentir para ela. Mas como o convenceria a deixa-la passar? Sua curiosidade ficou ainda maior depois dessa declaração e ela cogitou a ideia de usar seus poderes para persuadi-lo.
— Está bem. Não vou importuná-lo — virou-se e voltou para seu quarto. Já tinha ideia de como o convenceria.
Rapidamente, em seu quarto, preparou um pó do sono e voltou quase correndo, para o acesso a torre, onde o guarda continuava estático.
— Desculpe incomodá-lo novamente, mas poderia abrir a porta para mim? — perguntou com um sorriso sincero.
O guarda suspirou e quase devolveu o sorriso, mas não teve tempo para responder, pois Lady Mclin trazia na palma da mão o pó sonífero altamente poderoso e soprou diretamente no rosto do guarda. Ele caiu em sono profundo imediatamente. Abrir a porta e entrar foi a parte mais fácil para ela.
Ao entrar, se deparou com os salões de forja e o arsenal de armas mágicas. Sempre soube dos rumores sobre a existência desses itens e ficou eufórica por encontrar o maior tesouro de Lorde Codhe. As armas expostas, com organização exemplar, enchiam os olhos por beleza, poder e magia. Ver, tocar, sentir e até respirar ali era como absorver todo aquele poder.
Finalmente, teve total ciência do quão poderoso Lorde Codhe havia se tornado e sentiu, enfim, a última parte de seu coração ser preenchida.
Ficou o resto do dia ali, admirando, estudando e compreendendo tudo o que continha naqueles salões da Torre Bhertophel.
— Acorde! — falou grave para o guarda, que estava deitado no chão. — Agora já vi e compreendo tudo o que está nesta torre, não há motivos para me impedir de ir e vir aqui.
— Minha Lady, quando o Lorde voltar, certamente morrerei — falava assustado se levantando apressadamente.
— Não precisa temer, foi minha vontade e cuidarei para que não seja punido pelo que fiz. Não morrerá, te garanto. Até porque Lorde Codhe não é esse tipo de pessoa. — falou firme, surpreendendo o homem.
E dando as costas ao guarda, voltou para seu quarto. No caminho encontrou algumas veilana que demonstraram aflição pelo sumiço durante o dia, mas Lady Mclin as tranquilizou e todas notaram uma visível felicidade na lady.
No dia seguinte, sua mente era dominada pela Torre Bhertophel e todo o poder que Lorde Codhe mantinha lá. Pensou em tudo o que tinha a sua volta, no quanto de magia e glória havia ao seu redor. Tinha quase certeza que a própria Musa do fogo e das batalhas vivia ali e isso era a origem da essência que continha o Castelo de Bherto. Olhou sua imagem sem graça no espelho, sentiu-se patética na sua simplicidade que não condizia no lugar onde estava, nem no poder que possuía, acreditou que deveria iniciar uma mudança para algo que espelhasse seu novo coração, baseado agora no que vivia ali.
Lorde Codhe havia desafiado grandes autoridades para tê-la ao lado dele e agora que conhecera todo o poder que detinha, não o envergonharia, pelo contrário, seria o auxilio perfeito, acrescentando e o fazendo prosperar.
Agora percebeu que as cores escuras que ele tanto gostava e ela um dia reclamara, de fato combinavam com toda a atmosfera de Bherto, com sua magia pesada, intensamente misteriosa e marcante. Lady Mclin decidiu que faria parte daquele todo, sentia-se segura e comprometida com tudo o que se relacionava ao Lorde Mago do Fogo.
Porém, entre suas roupas, não tinha nada de tons escuros, mas isso era fácil de resolver. Com suas poções, reuniu elementos e criou tinturas apropriadas. E para os tecidos mais pesados, mandou um mensageiro até o atelier da família, buscar tintas escuras, suficientes para tingir todas as suas roupas. Gostava delas, das suas formas e tecidos, apenas não queria mais usar cores tão suaves e sem graça, que a faziam sentir-se fora do contexto diante de tudo o que definia Bherto.
Lady Mclin convocou os nobres da Ordem para conhecê-los e compreender melhor seus poderes e convicções. Apresentou-se trajando um vestido verde escuro com espartilho negro, manto e luvas também negras. Todos no castelo estranharam a mudança, porém, recebeu elogios e os nobres da Ordem ficaram admirados com sua beleza e notoriedade.
Ela parecia fazer parte de Bherto desde sempre e estava em sintonia com o poder contido ali. Agora, despojada de ingenuidade, medos ou mágoas, dedicou os dias em que Lorde Codhe estava ausente para reuniões com a Ordem, onde compartilhavam conhecimentos em magia e poder. Lady Mclin ensinou-lhe muitas novas, entre elas, uma muito poderosa: a magia de cura. Ela lhes mostrou encantamentos, poções e previsões válidas para o futuro, enquanto eles lhe falavam de estratégias de batalha, dos ideais de justiça, das forjas e do poder do fogo.
Passados cinco dias que Lorde Codhe estava ausente e Lady Mclin ganhara total respeito como Senhora do Castelo, ela recebeu uma visita desconhecida. A veilana anunciou uma misteriosa dama ruiva, que trajava negro e tinha intensos olhos de cor âmbar.
A dama entrou no salão com tal poder que a cada passo, parecia poder fazer ruir o castelo inteiro. Quando Lady Mclin olhou nos olhos dela, para saber a respeito e ver seu coração, viu uma intensa chama ardente que poderia incendiar Boandis toda. Recuou assustada, sentindo suas pernas fraquejarem, deu alguns passos vacilantes para trás e caiu diante da misteriosa dama.
— Levante-se Mclin, eu tenho algo a lhe revelar — a dama ruiva falou e sua voz era uma ordem que preencheu o salão.
— Quem é você? — perguntou com receio em ouvir aquela fala. Sabia que ninguém no mundo poderia conter uma magia tão feroz e grandiosa, sem ser temido.
— Está com medo? — a dama sorriu e avançou para dentro do Castelo, cruzando por Loren, que permanecia imóvel.
Lady Mclin reuniu suas forças e levantou-se, quando olhou em volta, todas as veilana e guardas estavam caídos, em profundo sono. Seguiu por onde a dama havia passado, notou que por onde ela passava quem estava em seu caminho adormecia; sentiu novamente um medo terrível.
— Não precisa temer, sou sua amiga! — a voz veio daqueles lábios pintados de vermelho vivo. — Vamos até a Torre Bhertophel e lhe falarei.
— Não! Não sei quem é você nem o que deseja, não permitirei que vá até lá — falou autoritária e preparou-se para enfrentar a estranha em defesa do seu castelo e de tudo o que ele guardava.
— Que bobagens Loren, eu tenho estado naquela torre desde que Lorde Codhe mudou-se para este Castelo!
Com essas palavras, Lady Mclin soube de quem se tratava a dama. Seu corpo todo tremeu em espanto, fraquejando novamente caiu de joelhos no chão exclamando:
— Oh! Não pode ser... pelas Musas...a dama é...
— Isso mesmo! — surgiu diante de Loren e, com as mão na cintura numa pose de superioridade, concluiu: — E agora que você está completamente envolvida, preciso que conheça-me e permaneça do meu lado.
— Não há dúvidas sobre isso — reverenciou profundamente. — Entrego-me às suas Ordens, Musa Ventura.
Ventura sorriu largamente, girou o corpo agitando os cabelos longos vermelhos, que dançaram no ar como labaredas de fogo. Seguiu com passos firmes até a Torre Bhertophel, acompanhada por Lady Mclin em total espanto e euforia.
Uma preocupação a menos sobre os ombros de Lorde Shaido. Depois do julgamento, sentia-se aliviado e de certa forma livre. Nunca desejou se casar com Lady Mclin, era verdade que tinha carinho e amizade por ela, mas nada além disso. Diferente do que sentia por Belle, desde o primeiro momento em que a viu na biblioteca.
Retornaria à Boandis no dia seguinte, mas não o faria sem antes falar com Belle. Com esse pensamento e o coração repleto de sentimentos, esperou o entardecer e dirigiu-se até a biblioteca, onde sabia encontrar a moça.
Pretendia acrescentar na sua declaração as cartas escritas para ela, em forma de poemas, pensamentos e músicas. Reunidas em uma caixa de madeira, ornamentada com arabescos pintados com ouro, guardadas com dedicação para o dia em que abrisse seu coração. Esse dia havia chego e ele não o deixaria passar. Poderia não ter outra oportunidade.
Entrar naquele local novamente depois de tanto tempo era nostálgico e foi inevitável suspirar alto com a ideia de rever sua amada. Havia poucas pessoas, cada qual concentrada nos seus livros, porém, Belle não estava em sua mesa e isso fez seu coração doer com a possibilidade de não encontrá-la.
Andou entre as estantes em busca da bibliotecária, logo foi reconhecido por alguns que transitavam pelos corredores que reverenciavam e demonstravam surpresa e emoção em ver Lorde Shaido ali. Ele apenas retribuía os cumprimentos, mas não dava oportunidades de maiores aproximações. Seu objetivo era claro, entretanto, não encontrar Belle lhe deixou aflito.
Começou a andar mais rapidamente entre as estantes, espiando em todos os corredores, olhando atento de um lado para outro. Até que uma doce e conhecida voz lhe chamou a atenção.
— Boa noite, Lorde Shaido. Procura algo? — Belle surgiu no corredor com uma pilha de livros nos braços.
—Sim, procuro algo específico e muito valioso — caminhou rapidamente até a moça, sentindo seu coração bater mais forte.
— Diga-me Lorde, com certeza posso ajudá-lo — Belle confiava em seu amplo conhecimento de todo o conteúdo que havia na biblioteca e não duvidava que pudesse prestar auxilio ao pedido do Lorde.
— Acabei de encontrar — disse parando na frente da moça e abrindo um leve sorriso. Olhou com saudades para aqueles olhos azuis tão belos que lhe roubavam suspiros.
Belle baixou o olhar para a pilha de livros que trazia junto a si, julgando se tratar de algum dos livros que carregava. E sua suspeita intensificou ainda mais quando o jovem lorde tomou os livros de seus braços, lhe aliviando o peso.
— Um desses livros? — perguntou um pouco surpresa, pois eram todos livros de contos infantis.
— Não. Procurava por você — falou sério sem desviar o olhar.
O olhar que Lorde Shaido sustentou nos olhos dela transmitiu todos seus sentimentos e eram muitos, intensos e verdadeiros. Não saberia colocar em palavras e esperou poder fazê-la entendê-los através de sua alma, abrindo-se para ela em total transparência. Deixou-a saber, do quanto seu coração estava apaixonado e que guardou esse sentimento há muito tempo.
— Belle, há algo além do meu coração que desejo lhe mostrar para que compreenda em totalidade tudo o que corresponde sobre a essência dos meus sentimentos — falou observando todas as reações da moça, buscando uma aprovação para continuar o que pretendia.
— Há algo além do seu coração que desejo ver — ela falou suspirando e aquela frase deu grandes esperanças para ele. — E também há algo além do que sente por mim que precisa saber.
A esperança que ele sentiu no momento veio seguida de mistérios, deixando-o intrigado. A princípio julgou ser uma permissão para continuar, mas quando ela se afastou voltando para sua mesa, ele pensou na possibilidade de ser rejeitado. Não teve opção a não ser segui-la.
— Belle, por favor. Não se ofenda com meus sentimentos, asseguro-lhe que são verdadeiros. Do contrário, não teria me aberto de forma tão comprometedora.
— Não me ofende em nada, Lorde Shaido, mas não posso ficar feliz em saber que nutre por mim um sentimento tão belo e intenso do qual não posso corresponder.
— Aceite meu convite, jante comigo esta noite — falou quase suplicante. — Amanhã retornarei à Boandis e não gostaria de partir sem uma resposta.
— Conhece meus horários, sabe que não é possível me afastar da biblioteca para um jantar.
— Então, isto é uma recusa. Ama alguém? — perguntou com voz baixa, mas que demonstrava certo ciúme com a possibilidade.
— Não. Não esse tipo de amor — chegou até sua mesa e virou-se para encará-lo. — Qual resposta exatamente o lorde deseja?
— Case-se comigo e venha governar Boandis ao meu lado — falou direto.
Seu coração estava tão aflito e transbordando de sentimentos que não controlou as palavras.
— Seria perfeito! — ela abriu um sorriso. O tão famoso e raro sorriso de Belle, enquanto seus olhos pareciam vislumbrar um sonho.
Lorde Shaido foi surpreendido por aquela resposta e aquele sorriso. Não esperava uma reação do tipo, pois até o momento Belle somente havia feito crer que não correspondia, no entanto, ali estava sua amada brilhando em um sorriso sincero e perfeito. Ele gaguejou e não conseguiu falar mais nada, um sentimento de alegria e realização estava prestes a tomar conta do seu ser, mas se deu conta que havia algo por detrás daquelas palavras e do olhar de Belle. Não seria tão simples assim.
— O que significa isso Belle? Pareceu-me uma afirmação positiva, mas sinto que não estamos na mesma sintonia — conseguiu dizer.
— Imaginar-me governando uma cidade é algo perfeito, que traria muitos benefícios para o reino — sorriu novamente. — Essa possibilidade me faz sorrir e sentir-me realizada. Porém, isso não é possível no momento e se este é o pedido para o qual deseja uma resposta, infelizmente, é um não — seu sorriso havia sumido e olhava-o séria e irredutível.
— Desculpe pela maneira precipitada. Este não foi o local certo, nem o momento oportuno para um pedido deste nível — inclinou-se aproximando-se dela. — Ignore meu pedido equivocado, pois meu desejo, primeiramente, é dar início em um relacionamento no qual possamos nos conhecer melhor e compreender o que há em nossos corações.
— Eu tenho total compreensão do que há no meu coração e agora, também, do que há no seu — falou irredutível. — Agradeço seus sentimentos por mim, espero que os mantenha com carinho, mas minha recusa permanece a mesma.
Ele a encarou por alguns segundos, sentindo seu coração se partir e surgir um sentimento estranho, como mágoa ou ira pela rejeição. Poderia questionar o porquê, entretanto, reconhecia que aquele não era um local apropriado para esse tipo de discussão. Não havia mais nada o que ser feito no momento, estava ciente que fora impulsivo e isso poderia ter atrapalhado na interpretação de suas intenções.
— Belle, eu reconheço que é muito recente para que tenha uma resposta, dar-lhe-ei um tempo para refletir sobre o que a deixei saber — tomou a mão de Belle e depositou um beijo cortes — Boa noite Belle.
Retirou-se fingindo controle e tranquilidade, mas seu coração estava acelerado e seu sangue pulsando em misto de sentimentos bons e ruins. Não desistiria; isso era certo.
No dia seguinte, Lorde Shaido retornou à Boandis como era o previsto. Fez mais outra tentativa de demonstrar seus sentimentos para Belle enviando-lhe a caixa contendo cartas, poemas e músicas. Esperava com isso, fazê-la repensar sobre a decisão negativa.
Retornando ao litoral, não teria tanto tempo para pensar nos sentimentos de seu coração, pois as necessidades do povo eram maiores que as pessoais. Desde o ocorrido no casamento, a cidade havia se dividido em opiniões divergentes.
As notícias chegavam mais rápido do que qualquer meio de transporte, esse era um dos mistérios que ninguém sabia explicar. Por isso, quando Lorde Shaido chegou em Boandis, todos já sabiam da decisão da Imperatriz. Ele notou grande comoção do povo, rumores corriam sobre quem o governador escolheria como noiva e não faltavam palpites ou pretendentes.
Manter sua vida privada longe de espectadores não seria tão simples, porém, o que lhe parecia impossível no momento era trazer Belle para junto de si.
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