Les Marcheé
23 Após aquela conversa
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Após aquela conversa nada agradável com a Imperatriz, Lorde Meyne se dirigiu para a ala oeste, com seu coração tomado pela raiva e vergonha de tudo o que sua esposa havia causado.
Não tinha tempo a perder e nada a temer. Aquilo tudo havia ido longe demais e teria que ter seu fim naquele dia.
Havia feito sua escolha sem sombras de dúvidas. Quando a Imperatriz deixou-o, de maneira rude e furiosa, ele dirigiu-se aos aposentos de sua esposa.
No seu quarto, sozinha, Lady Hestea separava o que levaria para Boandis para o grande dia. Deveria parecer apenas uma viagem para assistir um casamento importante. Mas somente ela sabia quais suas verdadeiras intenções.
Foi quando Ahiel entrou no quarto, assustou e irritou a Lady.
— Mas que inferno você faz aqui!
Ahiel não respondeu, apenas continuou parada enquanto a porta se fechava sozinha atrás de si. Por alguns breves segundos, Lady Hestea temeu. Era terrível a sensação que Ahiel, às vezes, lhe causava quando tomava essa atitude de ficar imóvel, apenas olhando com aqueles olhos cinzas que pareciam ver a alma.
Lady Hestea avançou com violência contra Ahiel, tomando-a pelo braço a puxou em direção à porta, com a intenção de jogá-la para fora. Ao abrir a porta, se deparou com quem menos queria encontrar nesse momento: Lorde Meyne.
Sua primeira reação foi fechar bruscamente a porta, batendo com grande estrondo e lacrando com sua magia. Ela podia sentir toda a ira que emanava do Lorde Mago do Gelo. Naquele momento ela soube que havia sido descoberta.
Olhou para Ahiel, pensou no quanto a menina tinha a ver com tudo aquilo. Seriam mesmo verdadeiros os poderes que, às vezes, sua filha parecia demonstrar, como o de ler a alma e saber dos segredos no coração?
Lorde Meyne, sem aviso, escancarou as portas e sua magia tornou tudo frio e congelado. Sua ira era tamanha que não foi apenas uma fina camada de gelo a cobrir o quarto, mas parecia que o mais rigoroso inverno estava concentrado unicamente ali. Muitos espelhos, cristais e enfeites, bem como as vidraças das janelas começaram a se partir devido a baixa temperatura.
Ele entrou a passos lentos, poderia ter gritado de tanta raiva, mas a expressão apavorada de Lady Hestea lhe fazia ter vontade de rir. Ela, por sua vez, recuava como um rato encurralado diante de um grande predador, e seus passos vacilantes escorregavam pelo piso congelado e frio.
Contudo, Lorde Meyne não apreciava causar medo aos seus opositores, e ver sua esposa daquela maneira lhe deixou desconfortável. Olhou para Ahiel, ainda parada observando a cena e, cruzando por ela, fez-lhe um sinal para que saísse do quarto, o que foi imediatamente atendido.
O Lorde Mago do Gelo não esperava que sua esposa na situação lamentável em que estava, subjugada e desmascarada, de repente, tomasse uma atitude tão altiva, reunindo sua magia para atacá-lo. Ele foi surpreendido com tamanha força que o fez recuar alguns passos, tendo plena noção que a Dama Albina deveria ser temida.
Lady Hestea mostrou que sua ousadia não tinha limites, havia muitas outras formas de tentar se redimir diante dos fatos, mas ela escolheu algo bem diferente de rendição ao ignorar o poder de seu esposo que, afinal, era um Lorde Tione, o Lorde Mago do Gelo; ela precisaria muito mais do fizera para causar-lhe algum dano.
Em um encantamento rápido, ele a imobilizou e pensou qual punição lhe seria mais dolorosa no momento. Cruzando por ela, foi até o armário principal onde ela guardava todos os seus vestidos mais caros. Lorde Meyne gritou pelas veilanas, que alguns segundos depois, entraram juntas em espanto e surpresa pelo que estava acontecendo ali.
Um a um, todos os vestidos, sapatos, acessórios, tudo o que era de cor roxa e tons semelhantes foram sendo arrancados violentamente do armário e jogados no chão. Furioso, Lorde Meyne vasculhou de cima a baixo, tomando tudo o que lhe surgia à frente que não deveria pertencer a sua esposa, como se assim, pudesse também, arrancar de Lady Hestea tudo o que lhe houvesse corrompido o caráter. E dele, tudo o que estava ameaçando sua perda principal, tudo o que ameaçava afastá-lo da Imperatriz.
As veilanas assistiam a tudo disfarçando sua alegria, pois nenhuma delas simpatizava com Lady Hestea e estavam, na verdade, vibrando em felicidade.
Com um olhar, Lorde Meyne pediu ajuda às veilanas, poderia fazer sozinho, mas queria ser mais rápido e causar maior humilhação para Lady Hestea. Abraçando largamente aquela pilha de itens caros, se dirigindo a janela, sem piedade jogou para baixo, as veilanas o acompanharam e com um tipo de prazer visível, imitaram seu gesto.
O quarto de Lady Hestea era em uma torre bastante alta, o vento era forte e tratou de espalhar todos os seus pertences enquanto eles caiam rumo ao chão. Mas antes que chegassem ao seu destino final, Lorde Meyne fez questão de se certificar que nada pudesse ser resgatado e, usando sua magia congelante, sem nenhum constrangimento, destruiu tudo durante a queda tornando-os restos de trapos e farrapos.
Lady Hestea, a princípio emudeceu, mas em seguida, passou a gritar histericamente. Livrando-se da imobilidade, correu até a janela e se debruçou com força no parapeito como se pretendesse segurar alguma coisa, ou impedir o inevitável. Algumas das veilanas podiam jurar que ela ia se jogar junto com seus itens. Nesse momento, Lorde Meyne sentiu vontade de jogá-la também e fazer com ela o mesmo que havia feito com seus pertences, mas achava que ela deveria pagar mais alto pela traição e maldade antes de receber o castigo final.
Ele teria outras formas de castigá-la, mas sabia que tudo o que ela mais amava eram os itens que davam a ela ilusão de ser a própria Imperatriz e isso a atingiu de forma muito mais grave e dolorosa do que se fosse uma agressão física.
Lorde Meyne a segurou e jogou-a de volta no chão do quarto, ordenou às veilanas.
— Tirem as roupas dela! — vociferou entre os dentes e as veilana imediatamente começaram a despedir Lady Hestea.
Sem nenhuma educação ou cautela, lhe arrancavam as vestes sem se importar se rasgavam. Rapidamente, estava a Dama Albina nua, escabelada, corpo e rosto em completo desastre pelos arranhões e tapas que as veilanas, propositalmente, lhe davam aproveitando a oportunidade única. E as próprias veilanas jogaram o restante pela janela.
Lady Hestea se encolheu no chão, chorava em um misto de ódio e medo. Nesse momento, olhou para o Lorde Mago, que estava em pé na sua frente, pensou em usar todo seu poder contra ele, mas estava assustada demais para tal ato. Ele, com um grito de ordem chamou atenção das veilanas.
— Prestem bem atenção, pois todas aqui são testemunhas! — arrancou a aliança que usava na mão esquerda como sinal de seu casamento e completou. — A partir desse momento, nosso casamento está desfeito. Você não é mais minha esposa. Eu a rejeito assim como rejeito toda a vida que tive ao teu lado e me desfaço de qualquer laço matrimonial que um dia tive contigo. E desse dia em diante, vou esquecê-la para sempre, mas, sem antes lembrar-me de estar presente no dia da tua punição pela traição a Les Marcheé.
Jogando a aliança no chão em direção de Lady Hestea, que se encolheu ainda mais ao som do pesado metal batendo contra o piso de mármore congelado. E pela magia, a aliança também congelou e partiu, quebrando para sempre aquele casamento infeliz, fazendo com que Lady Hestea perdesse muito mais do que itens luxuosos, esposo ou títulos.
Ali, naquele momento, com consentimento das Musas, a Dama Albina perdeu grande parte do seu poder. Podia sentir muito da sua magia sumindo e lhe abandonando.
Lorde Meyne se virou e saiu do quarto cruzando a porta sem olhar para trás, pois ali, nada mais tinha a ver com ele.
No dia seguinte seria o casamento de Lorde Shaido com Lady Mclin, porém, Lady Hestea não poderia comparecer para concluir seus planos, felizmente.
Quando Lorde Meyne dobrou o corredor, foi surpreendido por suas filhas que estavam de mãos dadas. Ahiel não tinha expressão, tinha o olhar vago e distante como sempre, porém, Allegra parecia um pouco constrangida e acuada. Lorde Meyne não sabia o que fazer, não queria que suas filhas tivessem ouvido tudo aquilo. Na verdade, não esperava que elas estivessem por perto, mas Ahiel não havia ido muito longe e Allegra fora atraída pela confusão.
Quando se curvou para pegar Allegra no colo, sentiu que alguém se aproximava pelas suas costas, aquela presença bem conhecida, aquela sensação nostálgica que sentia sempre diante daquela personalidade, como de um passado de outras Eras. Aquela indescritível dor no peito e aquele perfume doce e sensual.
Sem impedir as lágrimas de caírem, com Allegra no colo, Lorde Meyne virou-se lentamente e, agora sim, era o roxo de sua memória, a única digna de usar aquela maravilhosa cor.
Curvou-se respeitosamente para Lady Beriune, que tinha aquele enigmático sorriso de canto. A Imperatriz cruzou por ele lentamente, sustentando um olhar enigmático e ao passar por Ahiel, Lady Beriune lhe fez um carinho nos cabelos e recebeu uma simpática reverência, seguida de um sorriso; o sorriso de Ahiel que somente Lady Beriune conseguia ver.
Assim como apareceu, a Imperatriz desapareceu. Deixando ali o Lorde Mago do Gelo entre lágrimas e abraços de suas filhas com uma grande certeza: finalmente, fez algo certo em sua vida e foi merecedor do perdão da Imperatriz. Talvez, merecesse permanecer um pouco mais ao lado dela, como era seu único desejo.
Então, veio uma sensação de despertar, como se ao desfazer os laços com Lady Hestea, tivesse lhe aberto uma nova porta lhe mostrando que finalmente estava vivo, realmente acordado e, verdadeiramente, ciente de que aquele amor secreto que guardava em seu coração não era um erro do destino, mas algo muito maior e muito mais antigo que ele pudesse explicar no momento.
A vida inteira apaixonado pela Imperatriz, talvez, fosse algo muito além do que apenas sentimentos; havia um enigma naquele amor.
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