Les Marcheé
20 Algumas semanas depois
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Algumas semanas depois, ao pôr do sol de um dia nublado, Codhe abriu os olhos, despertando lentamente para o mundo. Khei estava na sala e seus ouvidos atentos ouviram o movimento no quarto, correu para ver seu irmão e foi tomada por grande felicidade ao vê-lo desperto e sentado na cama, ainda sonolento.
Ela jogou-se descuidadamente sobre ele, envolvendo-o num abraço escandalosamente feliz e apertado, enquanto gritava seu nome e ria empolgada. Se não fosse tão intensa, não seria Khei. Codhe ainda lento, apenas abraçou a irmã, sendo obrigado a deitar-se novamente na cama devido ao grande escarcéu que sua irmã fazia.
Codhe riu e tentou se desvencilhar do abraço eufórico, mas foi inútil, sentia-se sem forças para afastá-la e apenas continuou ali.
— Se você me apertar tanto, vou voltar a desmaiar!
— Boboca! Eu senti sua falta, eu senti medo, achei que você nunca mais ia acordar, que ia virar o belo adormecido! Eu quase pedi para Belle te beijar!
— O quê? — de repente as forças de Codhe voltaram e ele acordou por completo, empurrando Khei. — Você não fez isso? Você não foi estúpida de falar um absurdo desses, logo para Belle?
— Ué, eu sei que você tem interesse nela e acho que ela também tem interesse em você! Eu apoio!
— Fique quieta! Se alguém ouvir você falando essas asneiras, vai ser vergonhoso para mim!
— Mas é a verdade! Ela veio te ver todos os dias! — riu e falou cada vez mais alto. — É óbvio que ela tem um interesse secreto, mas é tão recatada que não demonstra.
— Ela não tem interesse em mim, pare de se iludir! — Codhe se levantou e ficou parado, perdido no meio do quarto. — Que dia é hoje? Quanto tempo eu dormi?
— Tempo demais. Daqui cinco dias completa um mês! — falou baixo e com pesar. — Você tem ideia do quando eu estou preocupada? Não apenas por você estar dormindo, mas agora que você acordou, não tenho certeza de como você será daqui pra frente.
— Que bobagem! Eu sou eu, como sempre. Pareço diferente? — olhou para Khei fazendo uma careta de deboche.
— Não seja besta! Você sabe que agora tem muito poder. É o detentor de um selo Tione e isso não é pouca coisa! — Khei quase esbravejava num misto de orgulho e preocupação. — Somente três pessoas em Les Marcheé possuem esse poder, você é a quarta!
— Como você sabe de tudo isso? — Ele riu de lado e lançou um olhar desconfiado. — Com quem você andou conversando sobre essas coisas de selos e poderes?
— Com Belle, já falei, ela veio aqui todos os dias e me revelou várias coisas — levantou e começou a escolher roupas para o irmão. — Vá logo se banhar e começar a se vestir decentemente, porque precisamos ir ao palácio Ímpar o quanto antes.
— Não gosto daquele lugar.
— Vai começar a gostar, já que vai ser lorde e lá vai ser sua residência a partir de agora.
— Quem disse? — questionou levantando uma sobrancelha.
— Belle.
— Está confiando em tudo o que Belle diz, vocês não eram tão amigas assim — voltou a sentar na cama demonstrando certo cansaço na voz.
— Sempre fomos amigas, mas a amizade cresceu enquanto você dormia! Agora deixa de birra e vá logo!
— Eu tenho outros planos... — soou enigmático.
— Antes dos seus planos, vamos para Ímpar! — falou decidida como se desse um último aviso. — Eu não esperei tanto tempo pra você acordar e me privar de ter meu título de lady. Depois que eu for nomeada e ganhar minha cadeira no Coirlem, você faz o que quiser.
— Ficou mandona enquanto eu dormia também hein! — franziu a testa e fez cara de indignação. — Tudo bem, eu vou, mas não agora.
Sua voz ficou mais baixa e Khei se deu conta que realmente era impossível que ele acordasse e já estivesse pronto para todas as atividades, era evidente que dormir por quase um mês o havia esgotado. Khei sentiu-se idiota novamente e voltou a sentar-se na cama abraçando-o.
— Sim, me desculpe, fiquei tão empolgada com você ter despertado que não me dei conta da realidade — encostou a cabeça no ombro de Codhe e suspirou. — Desculpe-me, há muitas coisas a serem feitas antes que você possa sair por aí normalmente, você deve estar faminto, dolorido, desnorteado...Eu estava achando que você ia acordar todo poderoso e não precisaria de mais nada.
— Dominar um Tione não me faz uma divindade — falou pensativo.
— Estou percebendo — sorriu.
Khei se deu conta que agiu sem pensar, se arrependeu profundamente e tratou de verificar quais as reais necessidades do irmão. Ele notou o quanto a irmã se sentiu constrangida por agir impulsivamente e tentou amenizar:
— Amanhã bem cedo, nós iremos! Amanhã estarei totalmente bem e não tardaremos mais para assumir os lugares que nos são devidos.
— Claro, me desculpe, sinceramente. Vou providenciar para que você se recupere completamente.
Khei deixou o quarto com um sorriso e a sensação de que finalmente, tudo ia ficar bem. Seu irmão continuava o mesmo de sempre e continuariam juntos, como sempre.
Porém, quando Codhe garantiu para sua irmã que continuava o mesmo, não havia dito com sinceridade. Ele sentia que havia mudado e com o tempo todos notariam essas mudanças.
Nos dias que se sucederam, aquele ano chegou ao fim. Ao fazerem parte do Coirlem, em elevada honra por seus status, cada um recebeu uma arma bélica, como era a tradição.
Lorde Codhe Protheroi, Mago do Fogo, detentor do Tione Flamejante, com graça e poder direto da Musa Ventura, recebeu uma alabarda de grande porte, lâmina incandescente e haste negra adornada de ouro e rubis. O encantamento de sua magia dava-lhe o efeito de estar sempre sendo circulada por labaredas de fogo que lembravam a forma de um dragão. Encarnathe, foi como a nomeou.
Lady Khei Protheroi recebeu uma glaive no mesmo design da arma do irmão. Eram gêmeos e decidiram manter o padrão semelhante até mesmo nas armas. Porém, Khei preferia algo de aparência mais leve. Não possuía uma magia tão elevada como um Tione, mas tinha poder suficiente — pela herança em seus sangue — para encantá-la de forma notável e esse encanto em sua arma bélica dava-lhe o efeito de estar sempre sendo circulada por labaredas de fogo que lembravam pássaros. Enchantare, foi como ela a chamou.
O uniforme que ambos adotaram eram de cor negra, com detalhes em dourado e vermelho. Se antes vestiam-se com simplicidade, agora seus trajes estavam de acordo com seus títulos e nobreza. Porém, a elegância que Lorde Codhe carregava tinha um misto de trevas e fúria, que transpareciam pela magia que o envolvia e moldava sua personalidade. Enquanto Lady Khei mantinha sua aura extrovertida e feminina.
Lorde Codhe manteve seus longos cabelos vermelhos, e nunca lhe foram tão propícios como agora. Combinava com todo o conceito e lhe davam um ar, no mínimo, poderoso. Lady Khei pintou apenas as pontas dos cabelos de vermelho, mantendo o preto na maior parte; gostava de delinear os olhos e nunca dispensava os lábios pintados de vermelho intenso.
Lorde Codhe se recusou a mudar para o palácio de Isle, o que desagradou a irmã. Ela sentia que agora haviam coisas ocultas entre eles, o que a deixava mais receosa. Antes que a primavera terminasse, Lorde Codhe anunciou que iria voltar a Boandis. Lady Khei procurou por Belle para auxílio, e ambas decidiram que seria melhor ela acompanhar o irmão e ficar atenta ao que ele estava secretamente planejando.
Ele escreveu aos seus pais solicitando o castelo de Bherto nas terras produtoras de beterraba, onde se localizava os engenhos para produção de açúcar, de onde vinham grandes rendas para a família. Seus pais entenderam que ele desejava assumir parte dos negócios, já tomando parte do que seria sua herança. Porém, os planos de Lorde Codhe eram outros.
Na verdade, ele desejava terras onde pudesse residir com sua futura noiva e precisava de grandes extensões para iniciar seus planos, que não tinham a ver com plantações de beterraba. Antes mesmo de seu retorno, enviou os projetos para a reforma do castelo e ampliação.
Era de conhecimento geral a fascinação de Lorde Codhe por armas de vários tipos, em especial as bélicas. Desde que chegara a Imperah, havia colecionado muitas, tendo grande parte delas já despachado à Boandis. Estavam todas cuidadosamente guardadas no palácio de Linmor. Seus pais não se importavam com esse gosto específico do filho e não viam mal algum; consideravam como um esporte. Nenhuma das armas eram encantadas ou possuíam qualquer magia, portanto, não representavam perigo. Eram artefatos bonitos, antigos e bem feitos.
Os gêmeos Protherois retornaram ao litoral. Porém, não estavam sozinho, pois durante seu tempo de estudos, eram admirados por muitos de seus mestres bem como alunos, colegas e outros membros do Coirlem. Quando Lorde Codhe dominou o Tione, sua fama se espalhou por todo império fazendo com que vários lhe seguissem e quisessem fazer parte de sua companhia.
O mesmo ocorreu com Lady Khei, quando muitas pessoas anunciaram o desejo de segui-la em seus propósitos, mesmo ela ainda não tendo nada definido.
Ao retornar para Boandis, tinha consigo um grupo considerável de nobres e fiéis aos seus propósitos, suficientes para defender os seus interesses. Foram recebidos com grande festa e homenagens. Os gêmeos estavam felizes por retornarem às suas origens, família e amigos.
Qualquer um sabia que os gêmeos Protherois, por causa do Tione e o título de Lorde Mago, agora tinham notoriedade em todo e qualquer lugar onde fossem ou estivessem. Seu retorno a Boandis foi ainda mais extasiante do que quando Lorde Shaido retornou. Além de que o motivo não era uma obrigação, e sim, uma escolha. Isso fez com que toda Boandis se sentisse ainda mais privilegiada.
O castelo de Bherto, localizado nas vastas terras costeiras de Boandis, tornou-se residência oficial de Lorde Codhe, enquanto Lady Khei preferiu ficar na cidade no palácio de Linmor. Esta foi a primeira vez que os gêmeos decidiram se separar e cada um viver o seu próprio caminho.
Foi uma grande mudança, mas surpreendentemente não foi uma decisão difícil, ambos sabiam exatamente como desejavam seguir suas vidas. E não estavam de fato separados, apesar da relativa distância, ainda estavam na mesma cidade e seus corações continuariam juntos.
Dos que mais lamentaram essa separação foram os pais. Se por um lado estavam felizes pela volta dos filhos, por outro as preocupações tornaram-se imensuravelmente maiores, pois agora seu filho era um Lorde Mago e não haveria nada que pudessem fazer para expulsar a magia de sua família. Era um ponto sem retorno, onde eles apenas tinham que aceitar o destino.
Entre as coisas que mudaram em Boandis, desde a época em que eram crianças até aquele momento, foi o aumento da população, pois pessoas de várias partes de Les Marcheé fixaram residência no litoral, primeiramente por causa de Lorde Shaido e agora novamente outras tantas vinham para o litoral por causa dos gêmeos Protherois.
Era uma mudança previsível, já que tanto pessoas simples como nobres, desejavam ficar perto daqueles lordes que veneravam e escolhiam como seus líderes e senhores. Essa ocasional migração acontecia com frequência, principalmente, quando emergiam na sociedade Lordes ou Ladys com poderes superiores.
Algo ainda mais esperado que o retorno, era o jantar de boas-vindas dos Levis para os jovens Protherois. Enquanto que para Lorde Codhe, o que mais desejava era reencontrar Loren Macrin, sua amada e um dos motivos que o fizeram voltar.
Não tardou a acontecer, no Palácio do Governo, juntamente com o governador Lorde Shaido Levi e seu ministério; que incluía sua noiva Lady Mclin. Desse encontro, todos tinham grandes expectativas e temores. Lorde Codhe estava satisfeito em rever o antigo amigo, mesmo que a amizade tivesse se perdido, ao menos agora ambos eram lordes e poderiam olhar de igual para igual.
Ao saber que o antigo amigo estava noivo de Lady Mclin, Lorde Codhe ficou feliz, pois aquela união representava um alivio para seus temores em relação à Loren. Cogitava a ideia de que ela poderia ainda amar Lorde Shaido e que aquele casamento a faria infeliz caso ainda nutrisse algo pelo governador, mas isso poderia ser amenizado com sua presença. Agora que era o Lorde Mago do Fogo e havia decidido seus objetivos, nada o impediria de ser feliz com Loren. Só precisava encontrá-la.
Ele havia perguntado por Loren assim que retornou, mas ninguém se lembrava desse nome, onde ela havia ido, ou em qual momento no tempo Loren Macrin havia desaparecido. Isso trouxe um resquício de preocupação e estranheza, mas algo passageiro, pois não acreditava que os Macins, tão populares com seu famoso atelier de tapeçaria, tivessem ido embora ou caído na miséria. Ele iria procurá-los e saber onde estava Loren.
Era inegável o excelente governo que Lorde Shaido estava mantendo. Isso satisfazia as expectativas dos gêmeos e deixava Lady Khei ainda mais contente por saber que o litoral estava em boas mãos. Lorde Shaido estava seguro e feliz, não havia nada para temer sobre a volta de seus amigos, pelo contrário, por mais que não deixasse transparecer seus sentimentos, entre todos, talvez fosse o que mais ansiava por isso.
Porém, Lady Mclin temia, pois sabia que o coração de Lorde Codhe nunca mudou ao seu respeito e isso a deixava apreensiva. Temia a reação dele quando tivesse ciência que ela era, na verdade, Loren Macrin. Teve muito trabalho para apagar seu nome da mente das pessoas e fazê-las esquecerem-se daquela menina boba e fracassada, mas se tratando dos Protherois, sabia que logo seria reconhecida. Por isso, estava evitando ao máximo o encontro com os gêmeos, ainda que estivesse ciente que não tardaria a acontecer; não seria adiado além de alguns dias após o retorno deles.
Foi naquele jantar de boas-vindas que tudo se esclareceu e Lorde Cohde entendeu o porquê não havia encontrado Loren. Nem precisou ir até os Macrins, pois quando viu Lady Mclin, a reconheceu imediatamente.
Um misto de amor e ódio dominou seu coração, impedindo-o de agir como desejava e não mais pensava com clareza diante daquela descoberta. Não poderia ser diferente, tantos anos pensando em Loren sem ter nenhuma notícia, com o único desejo de voltar e casar-se com ela, agora, descobri-la outra pessoa e pior: noiva de Lorde Shaido. Era tudo culpa dele e ele sabia disso, o arrependimento do tempo perdido o fez perder a lógica do motivo de ter retornado. Todavia, estavam todos ali e precisavam seguir adiante.
Ela parecia feliz e de alguma maneira, demonstrou alegria pelo retorno deles. Talvez, pela antiga amizade que tinha com Khei, mas era notável o imenso receio que ela tinha em relação a ele. Lorde Codhe não a culpava, sabia que havia mudado muito em aparência, não apenas o desenvolvimento de seu físico, tão diferente do garoto magro e mirrado que era na adolescência, mas principalmente, sua personalidade e toda a aura de poder ardente e terrível que o cercava devido ao Tione Flamejante.
Loren, agora Lady Mclin, ainda que com outro nome, poder e todas as qualidades e atributos que o tempo concede às mulheres, permanecia com uma maneira pura e simples de ser e agir, o que contrastava muito com Lorde Codhe. De certa forma, também era contrastante com Lorde Shaido, o qual não agia como o noivo. Na verdade, Lady Mclin parecia não combinar como par para ninguém.
Com o passar dos dias, Lady Khei, feliz, se esforçava para que a amizade e união voltasse como nos velhos tempos. Estavam juntos, porém, seus corações estavam totalmente separados. Lorde Codhe não teve seus sentimentos por Lady Mclin amenizados, pelo contrário, estar perto dela despertou um desejo ainda maior. No entanto, sentia que dela não vinha nenhum tipo de amor, mas sim, que seus sentimentos eram todos dirigidos para Lorde Shaido, seu noivo.
Ela parecia feliz com o casamento e de fato estava satisfeita, porque ela conhecia o coração de Lorde Shaido e dos sentimentos dele em relação a ela, ainda que não fosse um amor correspondido, ela considerava o suficiente e se sentia capaz de amar por ambos.
Contudo, Lorde Codhe não estava ciente sobre esses sentimentos e a única ciência que possuía era que Lorde Shaido não amava Lady Mclin e estava disposto a seguir com aquele noivado apenas para fortalecer o poder de seu governo. Isso irritava Lorde Codhe, pois considerava injusto e cruel.
No castelo de Bherto, ele se isolou de todos, remoendo suas mágoas. Não aceitou nenhuma cadeira no governo de Boandis. Em segredo planejou uma forma de alcançar seus objetivos de um forma diferente do plano inicial, já que muitas coisas imprevistas aconteceram, e nisso era apoiado por todos aqueles que o seguiam incondicionalmente.
Não poupou esforços e tinha outro objetivo — até mais importante, além de Loren. Desde o princípio sua ideia não era levar para Bherto trabalhadores para as plantações de beterrabas, mas sim, criar um exército, compartilhar sua magia e treina-los para defender seus interesses. Tinha o benefício que nenhum daqueles homens estavam ali obrigados, eram todos seus admiradores e a maioria eram nobres dotados de magia, já experientes.
Por isso, Lorde Codhe em seu castelo, silencioso e em segredo ergueu uma nova Ordem que levou seu sobrenome, onde todos os lordes tinham grande magia e armas poderosas. Antes, consideradas apenas itens de museu ou belas para exposição, nas mãos do Lorde Mago do Fogo, as armas ganharam vida e outra função, foram encantadas e aprimoradas. As forjas de Bherto foram acesas e de muitas regiões longínquas vieram artífices juntar-se à Ordem Protheroi para cada vez mais aumentar aquele poderio.
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