Les Marcheé

6 A primeira impressão


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A primeira impressão que Lorde Shaido teve ao entrar na biblioteca era de estar num conto de fadas. A iluminação artificial era completamente diferente da luz solar, as prateleiras brilhavam de forma nebulosa como em um sonho e com essa sensação ele avistou a bibliotecária, envolta em uma magia azul incandescente.

Pela primeira vez, ele notou que seu coração se acelerou, e que ali estava uma donzela digna de elogios.

Aproximou-se do balcão com sua postura nobre e austera, convicto de sua notoriedade, cumprimentou a moça e apresentou-se, pedindo em seguida as informações de que precisava. Educadamente, a moça demonstrou-se solicita e nobre, em momento algum lhe abriu um sorriso, tratou-o com respeito e dignidade, mas sem nenhum tipo de interesse além do profissional.

No entanto, isso o irritou, pois dela queria um sorriso e um resquício de admiração em sua pessoa. Vendo que sua postura envolta de poder e charme não influenciara em nada o interesse da moça, resignou-se, pegou seus livros e foi concluir seus estudos em uma mesa próxima ao balcão de onde podia observar a bela moça.

Observava, também, a movimentação da biblioteca, que era pouca, quase nenhuma. Se surpreendeu quando uma garotinha muito pequena veio até o balcão, chamando a bibliotecária pelo nome de Belle, como se fossem íntimas, solicitou ajuda para pegar um livro de uma prateleira mais alta.

Lorde Shaido agradeceu mentalmente à menina por revelar o nome da moça, fazia planos para descobrir mais sobre Belle e ganhar dela um precioso sorriso. Sua concentração nos seus estudos daquela noite era quase nula, tendo em vista o enorme esforço em desviar o olhar da bibliotecária, teve sua atenção mais perturbada ainda por aquela criança. Pensou o porquê de alguém tão jovem estar ali, sozinha durante a noite.

A garotinha loira e branca, de olhos azulados e cabelos ondulados, tinha apenas quatro anos de idade e já lia livros de gente grande, como sociologia, política e guerra, mas também lia contos de fadas e adorava, principalmente, os ilustrados. Ele a achou muito inteligente em suas falas e gosto literário; pensava em ter uma filha letrada e concentrada assim como aquela menina. Observava a forma como ambas conversavam e se perguntava quem seriam os pais da menina.

Aproximar-se daquela garotinha, que parecia tão íntima da bibliotecária, seria uma ótima desculpa para conversar com Belle, assim, Lorde Shaido levantou-se e educadamente se introduziu na conversa. A menina logo demonstrou empolgação em fazer nova amizade, apresentou-se formalmente para ele como Allegra Vell e iniciaram uma conversa tranquila sobre alguns livros e coisas que ela gostava de fazer na biblioteca, enquanto a bibliotecária Belle voltava a seus afazeres.

No momento em que conversavam distraidamente, entrou na biblioteca um rapaz impressionantemente exótico. Lorde Shaido nunca havia visto alguém assim, lera sobre essas características consideradas divinas em livros, mas nunca pensou que veria alguém pessoalmente. O rapaz era albino.

Sua presença encheu a biblioteca com uma aura de poder e glória, era impossível não se impressionar com sua aparência. Ele tinha a pele tão branca que parecia refletir a luz, seu rosto era muito expressivo e Lorde Shaido ponderou considerá-lo bonito.

Seus cabelos brancos e longos estavam desalinhados, parcialmente presos por uma trança tramada com um cordão de prata, enquanto outra parte das madeixas estavam soltas. Reparou em suas vestes ricamente elaboradas, sem dúvida era alguém de alta posição, usava o uniforme Imperial nas cores preto e branco com detalhes em roxo e dourado. Lorde Shaido sabia que ele era importante pela característica da insígnia que usava, cujo símbolo buscou associar em sua mente a qual estirpe pertencia.

O jovem albino, alto e elegante, aproximou-se de Allegra e Lorde Shaido. Seus olhos rosáceos olhavam para baixo diretamente para a menina, com um olhar sério e reprovador, mas deixava escapar no canto dos lábios um sorriso divertido e de cumplicidade. O loiro cumprimentou-o com uma leve reverência em respeito, mas o albino o ignorou completamente, o que deixou Lorde Shaido nervoso e muito irritado.

Allegra, por sua vez, não parecia surpresa em ver o rapaz. Apertou os lábios em um riso sapeca e seus olhos diziam algo que Lorde Shaido não compreendeu. Colocou as mãozinhas para trás e olhou para o chão fingindo algum tipo de arrependimento, quando o jovem albino olhou-a de maneira autoritária, ela soltou um risinho de quem se divertia com a brincadeira.

— Vamos para casa e conversaremos em particular sobre ter-me feito vir aqui buscá-la — disse o albino.

— Ahhhh Lorde Meeeeeeeeeyne.... — Falou com sua voz infantil, arrastando o nome do rapaz como uma tentativa de convencê-lo a não repreendê-la.

O lorde albino abriu a boca em indignação como se fosse falar algo, mas não emitiu som algum, apenas levantou uma sobrancelha e lhe deu um olhar que deveria dizer muito para Allegra, pois esta fechou o sorriso, ficando de repente temerosa.

O rapaz descruzou os braços, olhou para Belle e a cumprimentou com uma leve reverência, que foi imediatamente correspondida com um sorriso. Sim, a linda bibliotecária sorriu para o jovem albino e isso não passou despercebido por Lorde Shaido, que sentiu algo lhe formigar o sangue nas veias.

Virando-se de costas, o albino imediatamente começou a dirigir-se para a saída sem olhar para trás, enquanto ouvia Allegra se despedir.

— Até breve, Lorde Shaido, preciso ir agora — disse com uma reverência exagerada e indo até o outro lorde, que parou e olhou para trás, apenas virando um pouco a cabeça.

— Shaido? Então é você o famoso Lorde Shaido... — falou sem emoção e abriu meio sorriso em curiosidade.

— Sim, e o lorde deveria ser mais cortês quando for cumprimentado por alguém — veio a resposta seca e sem pensar do loiro. Estava irritado com o que julgou ser arrogância. — Os nobres mesmo de posições altíssimas, não devem ser arrogantes ou presunçosos para com aqueles que são seus inferiores, seja lá quem for, não o direito de me ignorar!

Lorde Shaido não era qualquer; era lorde, tinha sangue nobre, títulos e estava entre os melhores alunos de Imperah. Não poderia, de fato, ser ignorado, mesmo que fosse por alguém de alta estirpe, principalmente, se esse alguém ganhasse um sorriso de Belle tão facilmente.

Lorde Meyne, em surpresa com aquela resposta, se virou bruscamente como se fosse avançar no loiro. No ato esbarrou em Allegra que estava logo atrás, derrubando-a no chão. Com a queda da menina e um gritinho de dor, o albino mudou sua postura imediatamente, se abaixando e pegando a menina no colo.

— Ops, me desculpe... Não se machucou? — falou de forma rápida e demonstrando preocupação, o que fez a menina rir, e Lorde Shaido pensar que, talvez, ele não fosse tão arrogante assim. Agora, ele parecia engraçado e desastrado.

— Não deve rir de mim, estou falando sério! — falou baixo ajeitando os cabelos da menina e voltou seu olhar para o loiro que ria disfarçadamente. — Está rindo do quê? Mal educado, não parece ser um lorde, deve ter comprado os títulos! — disse em provocação.

— Fique o lorde sabendo que meus títulos são muitos por herança e vários por honra e mérito. Meu avô é governador de Boandis, cidade do litoral, e eu sou seu sucessor legítimo — falou com orgulho e soberba.

— Grande coisa... — Lorde Meyne sussurrou apenas para si e retorceu os lábios em desdém, virando-se para sair, carregando Allegra no colo.

Mas Lorde Shaido ouviu aquele desaforo. Queria ir atrás dele, chamá-lo para um duelo, fazer seu cajado Enarah abrir-lhe a cabeça e colocar algum respeito ali dentro à força, marcar seu rosto; quem sabe uma cicatriz naquela face bonita e branca não o deixaria menos exibido? Mas Lorde Meyne Vell não estava preocupado com o orgulho ferido do outro, tinha suas próprias preocupações e segredos.

Um desses segredos ele compartilhava com Allegra, sua princesinha, filha caçula. Só ele sabia que Allegra frequentava a biblioteca durante a noite. Depois que as veilanas a colocavam para dormir, ela fugia silenciosamente e chamava pelo pai para levá-la a lugares fora do castelo que não podia ir sozinha.

Naquela noite, por um motivo desconhecido, sua esposa cruzou os corredores em direção ao quarto da filha, todas as veilanas já estavam em descanso pelas tarefas cumpridas, não encontrou ninguém no quarto de Allegra e isso lhe pareceu um motivo para escândalo.

— Veilanas! VEILANAS! — gritava Lady Hestea nos corredores. Os quartos das veilanas responsáveis pela menina ficavam bem próximos, justamente para atender mais rapidamente as necessidades de Allegra. Logo estavam todas no corredor correndo até a Lady.

— Veilanas, onde está minha filha? Foi me dito que já havia ido dormir, mas não está na cama, nem em lugar algum! —falou alto em tom de ira.

As veilanas se entreolharam, e não sabiam o que responder.

— Nós fizemos como todas as noites! A colocamos na cama, e esperamos até ela adormecer, apagamos as luzes, saímos e fechando a porta. — a mais velha falou, já demonstrando nervosismo.

Os gritos de Lady Hestea não passaram despercebidos por sua filha primogênita Ahiel, que sempre zelava pela segurança de Allegra e tinha ótimos motivos para isso. Quando ouviu os gritos da mãe no corredor, correu para ver do que se tratava, chegando exatamente no mesmo momento em que ela dizia.

— A questão é que minha filha não está no quarto e vocês, suas antas inúteis, precisam dar uma resposta de onde ela está!

Ahiel sabia que se a mãe descobrisse que a pequena frequentava lugares diferentes do permitido, com o consentimento do pai em desafio as suas ordens tão absolutas, Meyne Vell, Lorde Mago do Gelo, da Tríade Imperial, seu querido pai, estaria com problemas. Melhor do que qualquer um, Ahiel conhecia a situação delicada de sua família, principalmente, o conturbado casamento de seus pais. Com um olhar apurado e sem dizer nenhuma palavra, saiu rapidamente em busca dele.

Era essa a hora que Lorde Meyne costumava levar Allegra para seus passeios secretos, quando a mãe se retirava para descansar. Porém, ao encontrá-lo, teve a surpresa em saber que desta vez, ele não havia levado Allegra, provavelmente, a pequena tinha ido sozinha, já que conhecia bem o caminho.

Por isso, naquela noite, Lorde Meyne correu até a biblioteca não pensando em nada além de sua pequena filha. A caçula tinha apenas quatro anos de idade, mas sua mente era esperta como de um adulto. De todos os segredos dele, este que tinha em cumplicidade com Allegra era um dos menores, mas não menos preocupante.

Lorde Meyne Vell era jovem, tinha vinte e dois anos, foi esposo e pai muito cedo. A família Vell sempre teve favores especiais dos Imperadores desde as eras passadas, tudo devido à característica única e considerada especialmente exótica: o albinismo.

Muitos membros da família nasciam com as características albinas. Em Les Marcheé não havia uma explicação para isso e por serem tão diferentes, eram considerados quase como divindades. Essa beleza exótica fazia com que todos fossem agraciados com títulos de maior nobreza. Era comum na família casamentos entre parentes, justamente para não perder a genética e permanecer em posição favorável no império.

Com o passar do tempo, o número de albinos estava diminuindo na família e isso era preocupante. Havia naqueles dias apenas três pessoas com essa característica: Meyne Vell, sua irmã gêmea Laurel Vell, que nunca era vista publicamente; e sua prima Hestea Velece. Por isso, quando Meyne completou quinze anos, a idade mínima para contrair matrimônio, foi obrigado a casar-se com sua prima Hestea e dar início a uma possível nova geração de albinos.

Não era com ela que Meyne queria se casar algum dia. Seu sonho era se casar com sua primeira paixão, um amor impossível desde sua infância, que logo se tornou proibido, por isso, ele guardava em segredo muito bem escondido.

Há muito tempo ouvia sobre suas responsabilidades, uma vez que, era o único homem até o momento com a herança tão preciosa da família. Ele não ficou triste com a notícia de seu casamento arranjado; até gostava da prima. Achava ela bonita e esperta, pensou que seria fácil ter uma família feliz.

Idealizou toda uma vida a dois, seria um bom esposo, um bom pai, protegeria, amaria e faria de tudo por sua família. Trataria sua esposa e filhos com muito amor, respeito e dedicação; seriam uma família feliz e unida, onde ele se empenharia para que nada faltasse, para que sempre tivessem o melhor. Manteria os títulos e conquistaria novos, era excelente em magia e progrediria constantemente, se tornaria poderoso e importante, ocuparia alto cargo e para sempre teriam orgulho dele.

Mas no primeiro ano de casamento, partes dos seus sonhos foram destruídos. Hestea não o amava, não simpatizava nem um pouco, na verdade, ela o detestava e estava decidida a fazer todos que a obrigaram se casar arrependerem-se profundamente.

Ela era mimada, egoísta, traiçoeira e vingativa. Apenas um ano mais velha que ele, sua mente era voltada para o mal como a de uma bruxa velha em maldades. Evidentemente, nem ela, nem a família queriam perder os títulos e favores que suas características albinas proporcionavam. Bem aconselhada, usava isso com destreza a seu favor.

Aceitou o casamento fingindo bom grado. Quando engravidou, orou as Musas para que a criança nascesse albina e pudesse ganhar mais títulos e riquezas por ter dado à luz a mais um ser iluminado, como todos costumavam chamá-los. Seus sonhos eram altos, acreditava que conseguiria acumular tanto poder e glória que um dia se tornaria Imperatriz, mudando muitas coisas nos reinos; faria um Império ao seu gosto, onde todos a louvariam como se fosse uma das Musas.

Mesmo com seu coração maldoso, conseguiu a graça de conceber uma criança albina. Por algum motivo específico, as Musas lhe atenderam, ou, teria sido apenas a genética?

Quando deu à luz foi grande a euforia na casa. Era uma menina e recebeu o nome de Ahiel, mas Hestea era jovem demais para saber como cuidar de um bebê, sem paciência, sem compreensão, principalmente, sem amor. Duas veilanas cuidavam de Ahiel, também a irmã de Hestea, Reiea Velece, que tinha quatorze anos e adorava crianças; quando a sobrinha nasceu, ela passou a dedicar sua vida ao bebê.

Reiea passou a morar junto com o jovem casal. No intuito de cuidar da pequena Ahiel, e presenciou as situações mais adversas na casa, que apesar dos seus quatorze anos e ideias infantis, sabia que as coisas ali estavam muito erradas e que sua irmã era, sim, uma pessoa muito ruim; não só pela forma com que tratava os outros, mas as coisas que fazia propositalmente, principalmente para o esposo.

Hestea não suportava o choro de Ahiel e passava vários dias sem sequer ver a filha. Passava seus dias estudando artes, música, pintura e atividades que sua mãe diziam ser importantes para o status na corte. Gastava dinheiro em coisas supérfluas e caras. Era vaidosa, gostava de se maquiar e tingir os cabelos em tons pastel, cada semana de uma cor diferente, todos os seus vestidos, jóias e acessórios tinham que combinar com a cor dos seus cabelos. Por isso, as despesas eram enormes por conta dos seus caprichos. Não gostava de repetir roupas e dizia que morreria de depressão se não comprasse um sapato novo a cada final de semana.

Também gastava uma boa quantia pagando as veilanas de Bellephorte para lhe contar sobre as roupas e acessórios da Imperatriz. Tentava imitá-la em tudo, fosse nos penteados, nos gestos e até nas vestimentas. No entanto, havia algo terminantemente proibido para qualquer um que não fosse da família imperial ou que não tivesse algum vínculo muito próximo: o uso da cor roxa.

A cor roxa era a favorita da Imperatriz e foi adotada como um de seus símbolos. Por isso, Hestea desejava muito ter itens dessa cor, mesmo que não pudesse usar publicamente. Tudo que era roxo era muito caro, porque era destinado somente a família imperial e algumas pessoas muito próximas, mas Hestea não se importava em pagar, apenas para se vestir da cabeça ao pés e se admirar no espelho, fingindo ser a própria Imperatriz.

Reiea sempre a repreendia por essa péssima conduta e isso gerou certo ódio entre as irmãs. Hestea fazia coisas desagradáveis o tempo todo, fosse uma fofoca, uma mentira, uma provocação. Não media palavras de insultos a todos que era inferiores a ela e até mesmo sua filha, ainda um bebê, sofria com seus acessos de fúria e birra.

Hestea perdia a paciência por qualquer motivo e batia no bebê com qualquer coisa que estivesse ao seu alcance, fosse um chinelo, uma peça de roupa, um livro, uma bandeja... por isso, Reiea fazia questão de nunca deixar Ahiel sozinha com a mãe.

Quando Meyne questionava sobre os hematomas da filha, Hestea descaradamente mentia, até chorava se dizendo culpada, porque sem querer se descuidou e quando viu, Ahiel havia dado um passo em falso e caído, ou havia resvalado na banheira e batido na borda, ou havia punido a veilana irresponsável que tinha deixado sua linda e amada bebezinha se machucar. Reiea, quando ouvia essas coisas, sentia nojo, tinha tanta pena de Meyne; porque ele acreditava.

Meyne era tão bom, tão inocente que tudo o que lhe falavam ele dava créditos. Não conseguia ver maldade em nada nem ninguém, nunca se irritava, não tinha inimigos e não odiava ninguém. Detestava discussões e sempre era o primeiro a pedir desculpas caso acontecesse alguma ofensa. Ele era bom demais e isso o fazia ser daquelas pessoas que sempre são enganadas e, consequentemente, sofrem.

— Meyne, meu cunhado! Quando vais perceber que minha irmã te faz de tolo e é ela quem maltrata a própria filha? — Reiea o alertava em particular quando tinha oportunidade.

— Por favor, ela é sua irmã! Vocês têm o mesmo sangue, com certeza, ela jamais seria capaz de fazer algo assim.

— Olha como está cego! Ela coloca sonífero todas as noites pra te fazer dormir!

— Eu durmo porque sempre estou muito cansado devido aos estudos e tantas responsabilidades! Todos sabem que se eu pudesse, dormiria para sempre!

— Quantas vezes ela preparou-lhe uma refeição, de gosto ácido e horrível para ter ver comer e rir pelas tuas costas!

— Ela apenas não é boa cozinheira, mas não faz de propósito. Até porque cozinhar não é uma responsabilidade dela.

— Os cofres da família estão se esvaziando com os caprichos dela.

— Quem se importa com dinheiro? Amor e alegria são mais importantes. Reiea, pare de ser fofoqueira!

— Meu querido cunhado, o que você tem de bonito, tem de burro! Boboca!

E essas eram basicamente as conversas que tinham. Reiea sempre terminava com uma pequena briga ou ofensa que Meyne nunca retrucava. Ele podia ser apenas um adolescente e sua mente ainda ser quase infantil para a maioria das coisas, mas sabia o que acontecia ao seu redor, apenas tentava fazer de tudo para que seu casamento ficasse estável, pois dependia dessa união o futuro da família.

E tinha aquele segredo no coração, aquele outro amor impossível que o fazia chorar em silêncio, que motivava a seguir em frente e se tornar cada vez melhor e maior. Nunca teria aquele amor, mas seria alguém importante para, no mínimo, ganhar notoriedade da sua verdadeira amada. Por isso, se esforçava cada dia mais, para ganhar seu valor e reconhecimento.

Quando completou dezoito anos e recebeu sua cadeira no Coirlem, foi o mais jovem da história daquela Era em Les Marcheé a alcançar um alto nível de magia e dominar um selo Tione, uma magia antiga, poderosa e perigosa, que quando invocada assumia a forma de um dragão.

Recebeu o título de Lorde Mago do Gelo. Sua arma bélica mágica era uma orbe e o dragão que seu selo Tione invocava era feito de luz gélida. Uma criatura enorme que brilhava prateado como a lua cheia, sua aura era fria e congelante, seu poder era proveniente diretamente das Musas e sua existência tão antiga quanto o início das eras. Era lindo e assustador, por isso, Lorde Meyne não via motivos de invocá-lo, afinal, quem precisava nos dias atuais de tamanho poder?

Esse era o terceiro selo Tione que havia sido dominado — chamado Cintilante — com a graça das Musas nessa Era. Assim, Lorde Meyne teve a honra de completar a Tríade Imperial, onde conheceu as outras duas importantes personalidade que haviam dominado outros Tiones antes dele, cujos nomes só ouvira falar: Lorde Guy Protheroi, Mago da Noite e Lady Crissânea Laetícia, Maga do Sol. Meyne estava tendo um momento muito feliz em sua vida. Seus sonhos começavam a se realizar.

Essa novidade muito agradou Lady Hestea, e o trato com seu esposo sofreu uma mudança como da água para o vinho. Esforçava-se muito em carinho e simpatia, treinava o dia todo sorrisos e palavras delicadas, cheias de doçura e amor. Tudo para que fosse considerada uma esposa perfeita, bondosa e respeitável. Sua intenção era ganhar a confiança da própria Imperatriz, torna-se sua amiga mais íntima, descobrir-lhe os segredos e, quem sabe, poder ter a Imperatriz em suas mãos a ponto de usurpar o seu lugar?

Era um pensamento sujo, maligno e até certo ponto infantil, mas seus ideais a moviam em todos os atos. Esforçou-se para fazer parte do Coirlem, sendo esposa teve privilégios e conseguiu muitas amizades através de sua postura falsa e dissimulada. Enganava a muitos, recebia muitos elogios e inclusive presentes caros. De fato, era linda e chamava atenção por onde passava e disso ela sempre tirava vantagens. Aproveitou-se da bonança do momento e engravidou novamente, pedindo a benção para ter outra criança albina para usar como trunfo.

Contudo, a Imperatriz inteligente e muito cautelosa, tinha no sangue a sabedoria, uma linhagem imperial de longa data. Ela não se deixaria enganar tão facilmente, não tinha nenhum vínculo de amizade íntima com a família Velece, mas conhecia todos os seus membros, principalmente a esposa de Lorde Meyne.

A Imperatriz passou a observar atentamente Lady Hestea e seu comportamento na corte. Quando esta foi até sua presença pedir mais títulos, mais soberania, mais posses e mais regalias pelo fato de ser mãe de uma criança iluminada e, supostamente, estar esperando por outra, a Imperatriz fez questão de negar, alegando que o fato de gerar uma criança albina não era motivo para nenhum tipo de benefício.

Fez ainda mais, criou uma lei onde tornava os títulos pessoais e independentes, ou seja, se os títulos eram dados ao esposo, a esposa não tinha direito algum de se valer deles, teria que conquistar seus próprios títulos por herança ou méritos.

Essa mudança na lei fez a ira de Lady Hestea ser a maior de toda sua vida. Sentiu que a Imperatriz havia feito por gosto, somente para humilhá-la e torná-la uma qualquer, já que ela não possuía título algum a não ser por herança de sua família. Toda sua pompa e poder se dava aos títulos de Meyne. Agora, nem mesmo ter dado à luz a um filho albino lhe valia alguma coisa. Aquelas crianças nem precisavam existir.

Se ela não poderia ser poderosa, nenhum outro de sua família seria. Secretamente, maquinou seu plano e esperou ansiosa a oportunidade para por em prática sua maldade. Era mais que uma questão de orgulho, era pessoal, queria derrubar a Imperatriz e traçou seus objetivos com esse ponto fixo.

Lembrou-se que, no passado, houve um poder maior de todos que necessitou da ajuda direta das Musas para ser controlado, sabia que nos dias atuais, ainda havia descendentes daqueles. Essa seria sua arma contra a Imperatriz Beriune de Les Marcheé. Lady Hestea a faria cair mesmo que tivesse que despertar novamente um mal há muito tempo esquecido.

Contudo, em sua mente pequena conjurada pela maldade, parecia ter esquecido que ao lado da Imperatriz, havia um Imperador. Também se esquecera de que era casada e que seu esposo agora pertencia a Tríade, braço direito do Império.

Notas finais
Obrigada por chegarem até aqui!! ♥