Les Marcheé
21 Naquele ano
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Naquele ano, a cidade se transformou outra vez. Se antes era em maioria um povo humilde que mal sabia a respeito da magia, agora conviviam com nobres de várias classes e estirpes, aprendendo com eles e compartilhando poderes. Desenvolviam laços de amizade, simpatia e, inclusive, matrimoniais.
Desde a infância, Lorde Shaido nunca foi a favor de guerras, por isso, seu foco estava no bem-estar do povo e não nos exércitos ou armamento. Ele queria manter a paz e continuar seu governo em harmonia. Entretanto, não era tolo ou descuidado e muito herdara de seu pai e avó; a Ordem Levi sempre estava bem equipada e se antes não eram tão atentos, depois daquela maldição de anos atrás, agora estavam sempre alertas.
Lorde Shaido procrastinava seu casamento, dando como desculpa as preocupações com o progresso e desenvolvimento de Boandis, que a cada dia recebia mais e mais habitantes, muitos destes, nas terras de Bherto, onde ninguém fazia ideia do que realmente acontecia. E ao final daquele ano, que havia se passado em tranquilidade, decidiu celebrar seu casamento.
Já era sabido que Boandis estava dividida sobre esse assunto, não tão recente assim. O que magoava, principalmente, Lady Mclin, pois mesmo depois de tantos anos, não conseguia crer que o povo ainda a visse como uma ameaça, além de que, inúmeros nobres detentores de magia também haviam demonstrado insatisfação com a união, e as comoções contra eram superiores ao pequeno grupo a favor.
Mesmo assim, não se deixou abalar e manteve sua mágoa guardada secretamente. Os preparativos finais estavam indo conforme o planejado, até mesmo seu lindo vestido em tom verde claro, estava tendo os últimos bordados, com pérolas e cristais. Em breve teria um sonho realizado e quem sabe seria, finalmente, feliz para sempre.
A magia era algo em constante evolução e aprimoramento. A mágica que estava presente em todo império, não era estática ou previsível, estava sempre mudando. Por isso, era normal que poderes nascessem e morressem.
As Musas controlavam a magia e delas provinha todo poder que fosse para o bem. Mantinham a ordem daquele universo que era o seu domínio, mas não tinham controle sobre a magia negra, que crescia através dos tempos, igualmente em movimento e expansão.
Elas escolhiam aqueles que deveriam manter a paz e a ordem, oferecendo-lhes sua graça. Tinham a capacidade de ver a essência de cada ser para fazerem as melhores escolhas. Por isso, nos tempos atuais, quando o poder cada vez mais se expandia, eram vários os agraciados.
O mal entrava fácil e se espalhava rápido, se alimentando dos corações perdidos e sofridos. Todas as pessoas magoadas ou que, por algum motivo, abandonaram a razão, verdade ou bondade, eram fonte de propagação da magia escura, ainda que isso não as tornassem más, mas suas emoções e sentimentos opostos eram alimentos agradáveis para o mal.
As Musas não tinham controle sobre o coração de ninguém, nem controlavam as vontades ou os pensamentos. Mas aquelas pessoas que se mantinham justas e benevolentes, eram por elas recompensadas com constantes evoluções de poderes para que pudessem, em nome das Musas, combater as trevas e converter a tristeza em felicidade.
O poder das Musas era infinito e sempre mutável. Era tão expansivo que precisava ser compartilhado. Mas nenhuma Musa queria ver seu poder desperdiçado, pervertido ou profanado. Assim, se preocupavam com a evolução daqueles que estavam sob seus domínios e associados com seus poderes.
Desde o início das Eras — quando sequer eram chamadas de Musas, e sim pelo seu nome original, essas divindades já estavam atentas, principalmente, ao mal que nunca descansava.
Porém, com o passar do tempo, quando abandonaram a forma física que haviam assumido durante aquele tempo em que ocorreu a Batalha das Sombras, não puderam mais interceder diretamente, pois haviam voltado a ser magia junto das estrelas. Isso fez o mal se espalhar mais facilmente pela mente e coração do povo. Sem algo físico para ver e tocar, era mais difícil acreditar.
Pannastovik não estava sendo suficiente quando o nível de poder que fazia oposição começou a se elevar novamente, pois apenas prever e sentir, sem poder confrontar, impedir ou subjugar, não seria de grande valia para os tempos que as Musas previram no futuro.
Foi para precaução que, a mais jovem das Musas, Bellepo, foi enviada para o meio do povo para ser parte do império, estar junto, sentir, ver e saber; como também viver e agir. As Musas sabiam do poder negro que lhe confrontava, e esse poder aumentava de forma descontrolada, ganhando adeptos que se organizavam com um único propósito: tomar Les Marcheé para si.
Os principais representantes dessa força maligna eram os Kailes, uma Ordem tão antiga quanto as próprias Musas, que cruzavam os tempos se alimentando dos sentimentos negativos das pessoas e conquistavam carisma de muitos através de sua distorção sobre justiça e poder. Os Kailes eram a ganância, egoísmo, falsidade e, principalmente, a inveja.
Os tempos que as Musas previram havia chegado, e Bellepo ficou preocupada. Pediu auxilio às suas irmãs mais velhas, que fizessem novas escolhas poderosas, para que novos poderes entrassem nos reinos.
O selo Tione Flamejante,estava sim, corrompido pelo poder maligno do passado, mas pela intervenção direta da Musa — Ventura, a Justiça, havia sido convertido novamente para o bem, como era em sua forma original. Era imprescindível que houvesse mais que três Tiones para aquele momento.
Entretanto, a Tríade estava desfeita, pois Lady Crissânea havia desaparecido por completo. A Maga do Sol partiu de Imperah sem dizer para onde ia. Deixou para trás toda sua vida de brilho e encanto, inclusive, o selo Tione Resplandecente que foi guardado a salvo, esperando por seu próximo dominador.
A Imperatriz guardou o selo e devolveu-o às Musas, pois eram elas que escolhiam seus favoritos entre aqueles que possuiam poder elevado e coração verdadeiro. Lady Beriune esperava ansiosa por aquele que as Musas agraciariam com esse Tione, tão importante para Les Marcheé.
Se Lorde Guy tivesse imaginado a proporção que alcançaria a perda gradativa de poderes de Lady Crissânea, não teria respeitado a decisão dela de ficar reclusa com pensamento de culpa e abandono, mas quando ele percebeu, ela havia desaparecido. Por isso, o Lorde Mago da Noite, que sempre fora fiel às Musas e aos Imperadores, agora se revoltava, porque não entendia o motivo das Musas terem tirado as dádivas de Lady Crissânea. Não era algo que sua mente poderia entender, deveria apenas aceitar, no entanto, era difícil por se tratar de sua amada Lady Crissânea.
O Lorde Mago da Noite anunciou seu desejo de ir procurar por ela. Não era um pedido, era sua decisão. Antes mesmo que os Imperadores pudessem se opor ou concordar, ele estava decidido a renunciar seu título e seu Tione, se isso fosse empecilho para que pudesse partir.
Contudo, Lady Beriune era conhecedora dos sentimentos de seus fiéis como também a forma das Musas agirem. Se elas não despojaram Lorde Guy de seus poderes, não seria ela a fazê-lo. Permitiu que ele continuasse com o selo Tione Umbroso e o deixou partir. Afinal, precisava daquele poder e contava com a ignorância de Lady Hestea para que os Kailes não obtivessem sucesso.
Lady Hestea, agora fingia estar alheia a tudo, pois se deu conta que suas ações estavam expondo-lhe demais e não seria possível dominar o Tione Flamejante. Assim, quando soube que havia um Tione disponível e ao alcance, mudou seus planos para alcançar o Tione Resplandecente.
Se fosse bem sucedida, o auxílio do Dragão de Luz lhe daria poder para conseguir sua supremacia e subjugar os Imperadores. Faria isso com uma nova maldição, bem mais poderosa e mortal.
No ano que se passou, ela tornou-se experiente e os Kailes haviam lhe passado quase todo o conhecimento e poder que possuíam. De fato, agora seria um erro considerar Lady Hestea como alguém inofensiva. Poderia, e provavelmente lançaria uma maldição capaz de destruir, matar e perverter. Uma maldição tão poderosa e eficaz que poderia ruir o império inteiro.
Se conseguisse, não precisaria mais de máscaras, não teria mais importância relações sociais, hierarquia, moral ou ética, não tinha mais porque se preocupar com lar, família ou amor. Se fosse bem sucedida seria o que sempre quis ser: livre, poderosa, dona de si e do mundo. Teria, finalmente, tudo o que sempre desejou. Teria todas as cabeças curvadas diante de si e principalmente, sua vingança contra aquela que lhe tirou o que sempre mais desejou: o poder e o amor.
Seu olhar nunca deixou Boandis, ainda mais depois que os gêmeos Protherois retornaram para o litoral. Ela soube do grande casamento que aconteceria no fim daquele ano de paz e bonança, e decidiu usar aquela oportunidade para fazer o gran finale de seu espetáculos.
Nas ruínas dos grandes salões subterrâneos, lúgubres e escarlates, onde se ocultavam os Kailes, Lady Hestea fez sua última visita antes de pôr em ação seus planos.
— Em breve, haverá uma celebração importante naquela maldita cidade de Boandis, que os Lordes tanto odeiam! — a lady informou para os cincos seres encapuzados.
— Nossa privação de poder está prestes a chegar ao fim — disse o primeiro, com voz grave.
— E após muitas eras, temos a oportunidade de lançar a Maldição dos Mil Anos — disse o segundo, com voz tenebrosa.
— E novamente, aquelas que agora eles chamam de Musas, pagarão pela sua bondade — disse o terceiro, com voz sinistra.
— E a tolice de compartilhar o poder chegará ao fim! — disse o quarto, com perversidade.
— E o poder será todo seu, grande Dama Albina! — disse o quinto, com voz bajuladora.
— É o que mais desejo — Lady Hestea elevou seus pensamentos. — O poder, a juventude eterna, a imortalidade e o domínio sobre tudo e todos! Eu, como a única fonte de vida e poder!
— É claro que sim! O poder será todo seu! — falou novamente o primeiro.
— Começaremos por Boandis! Para o despertar do desespero — disse o último, entre gargalhadas maléficas.
E o salão se encheu de gargalhadas, como se o inferno comemorasse um grande feito. Lady Hestea, completamente ensandecida pela possibilidade de ter tamanho poder prometido pelos Kailes, deixou os salões com tudo o que precisava saber para realizar o maldito feito.
Os dias de Lady Beriune eram cheios e nunca repetitivos. Com muitas tarefas, de um lado para outro, sempre em muitas funções, para o povo e para si.
Naquela manhã de sol, estava ocupada com as tintas das penas que não estavam escrevendo adequadamente. Assinar sentenças — de liberdade ou de morte —, era uma das coisas que costumava fazer pessoalmente, porque gostava.
— Preciso de tintas mais frescas, ou vou ficar nisso o dia inteiro — reclamou para suas veilanas que lhe acompanhavam nos trabalhos diários.
— Vou providenciar imediatamente — se dispôs a primeira, saindo para providenciar nova tinta.
— E você, pode por gentileza, pedir um chá de menta para mim? — perguntou gentilmente à segunda, que imediatamente reverenciou e deixou a sala.
Assim que estava sozinha notou aquela tão bem conhecida e bem-vinda presença.
— Meu Lorde amado, por que não vem ao seu castelo pela porta da frente, com pompa e louvor, como um Imperador merece? — Lady Beriune sorriu feliz em ver o esposo.
— Porque não preciso de pompa e louvor — Lorde Thwar devolveu o sorriso, mas não estava calmo. — Os Lordes Lynzeth sentiram algo interessante em Boandis. Acho que minha amada deveria ir ver pessoalmente.
— É tão interessante assim? — demonstrou interesse e surpresa.
— Sim, um poder estranho, bondoso e acolhedor, mas que tem uma gota de rancor e sombras — cruzou os braços e se escorou na borda da mesa, ficando de costas para Lady Beriune. — Um enigma, pois faz muito tempo que não vemos nada do tipo.
— Interessante. Ahiel me falou sobre essa pessoa — inclinou a cadeira para trás, lembrando-se da conversa que teve com a primogênita de Lorde Meyne.
— Deveria trazê-la para perto, para que seu coração não caia em trevas — olhou para trás para encarar a esposa, com um olhar persuasivo.
— Talvez sim! — esboçou um sorriso animado. — Se essa gota de rancor e sombra evoluir eu farei como me sugere, mas não acho certo me intrometer na vida particular sem que seja necessário. Espero que ela seja feliz para que essa gota evapore. Você sabe? Ela se casará em breve!
— Sim, eu sei. Com Lorde Shaido Levi, uma união interessante mesmo que não haja muito amor envolvido — descruzou os braços e levantou a mão direita lembrando de acrescentar algo em sua fala. — Você sabe que Mclin é...
Ouviu-se o leve toque na porta e a veilana que havia ido busca mais tintas estava de volta. Antes que ela entrasse na sala e encontrasse o casal imperial em uma conversa privada, Lorde Thwar sumiu na densa névoa escura, sem concluir o que dizia.
Lady Beriune fechou o sorriso e suspirou resignada. Ficou pensando na jovem Lady Mclin e no que Ahiel havia lhe dito: sobre ambas terem o mesmo poder de ver a verdade no coração alheio.Talvez, se mudasse o título de bruxa para maga, soaria um pouco melhor. Afinal, ela não era má, pelo menos, não ainda.
Havia também os Protherois, que causavam alguma inquietude na Imperatriz. Seria bom ir ao litoral, verificar pessoalmente como as coisas estavam indo por lá. Sabia que as atitudes de Lorde Codhe despertavam suspeitas, principalmente da própria irmã, que não estava nada satisfeita.
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