Les Marcheé
30 Lorde Codhe se reuniu
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Na manhã seguinte, Lorde Codhe se reuniu com a Ordem Protheroi, a qual comentou sobre as boas contribuições de Lady Mclin durante o tempo em que ele esteve fora, em Imperah. Na sua ausência, ela agira como uma genuína Senhora do Castelo, acrescentando conhecimento, encanto e poder de forma que tais feitos não poderiam ser ignorados. Contudo, ele ainda relutava em aceitar o engajamento dela naquela batalha, pois não sabia até que ponto era capaz de garantir-lhe a vida.
Seria a maior batalha de sua geração e poucos sabiam sobre isso. Por isso, discutiam com cuidado o assunto. Estavam reunidos na Torre Bhertophel quando um servo veio avisar-lhe.
— Lorde Codhe, Lady Mclin se aproxima do portão principal.
— Obrigada, preparem-lhe uma boa recepção. Estarei esperando por ela aqui — disse se levantando.
— Imediatamente, Senhor — reverenciou e saiu.
Dispensados os lordes da Ordem, que assentiram e se retiraram, Lorde Codhe sentou-se novamente e cruzou os braços, refletindo sobre seus atos. Fora bobagem crer que pudesse mantê-la distante, mas fez sua tentativa, embora temesse que isso causasse a ira da sua amada.
Lady Mclin, ao retornar para Bherto estava irritada pela atitude protetora de Lorde Codhe, não magoada, mas suficientemente ofendida. Depois de algumas conversas com seus familiares, chegou a conclusão que ele agira por puro instinto de proteção, contudo, ela não era mais aquela Loren indefesa que precisava ser protegida como um ser frágil e inocente; ela havia mudado, se tornado independente, poderosa e pretendia mostrar isso a todos que duvidassem de suas capacidades.
Cruzou os portões e foi recebida por alguns Lordes da Ordem Protheroi, havia ganho apreço e respeito da maioria deles após suas trocas de conhecimentos. Veilanas e servos também estavam ali para recebê-la, demonstrando alegria em revê-la.
— Bem vinda, Lady Mclin! — saudavam-na.
Alguns servos lhe ajudavam a desmontar do cavalo e outras veilanas auxiliavam retirando-lhe as luvas, capa de viagem e as bagagens que trazia consigo.
— Obrigada pela cortesia em me receberem novamente. Onde está o Lorde do Castelo?
— Espera pela Senhora na Torre Bhertophel — informou o servo.
— Obrigada — sorriu brevemente, apenas o suficiente para ser cortês e dirigiu-se a passos rápidos para a torre.
Ao chegar, usou ambas as mãos para escancarar as portas de forma espalhafatosa e adentrou a sala com passos graciosos e elegantes, mas não menos irritados.
— Bom dia, meu Lorde! — sua voz soou salaz com um sorriso sestroso. — Sentiu minha falta?
— Mais do que posso descrever — respondeu no mesmo tom se levantando.
— Pois me parece que não. O que pensou conseguir com essa atitude tola?
Ele pretendia abraçá-la e beijá-la dando-lhe boas vindas e confessando seu arrependimento por tê-la deixado. Porém, sentiu a irritação dela e parou na metade do caminho, avaliando o quanto ela estava brava com o episódio.
Não foi necessário muito tempo, logo Lady Mclin apressou-se em esboçar novamente um sorriso travesso e acabar com a distância entre eles, envolvendo-o em seus braços e beijando com volúpia. Lorde Codhe retribuiu e pretendia prolongar o momento, mas foi interrompido.
— Não pense que poderá me abandonar ou se livrar de mim — disse sussurrando rente ao ouvido. — Mesmo que não me queira ou se canse de mim, estarei com você.
Ele sorriu e a abraçou com mais força. Não vislumbrava uma separação, porém, a forma com que aquelas palavras foram ditas, soavam mais como ameaça.
— Onde está minha doce e gentil Loren?
— Se é aquela menina tola e ingênua que você deseja, só lamento por você — afastou-se e de repente pareceu petulante. — O tempo não volta, o que sou agora é minha verdadeira essência.
Ele bufou contrariado.
— Como pode alguém mudar drasticamente em tão pouco tempo? — questionou.
— Quantos anos você esteve em Imperah, sem notícia alguma a meu respeito? — devolveu áspera.
Ele ficou em silêncio pensando, era verdade. Talvez, não tivesse sido uma mudança rápida e radical, mas sim gradual; ele não estava presente para ver. Não poderia acusá-la.
Ela continuou com o mesmo tom:
— Pode você voltar a ser o Codhe que cantava no coral e acompanhava eu e Khei na floresta fazendo experiências e poções? — falou em tom provocativo. — Quantas novas experiências você viveu? Quantas tantas outras coisas aconteceram na sua vida nesses anos, que te transformaram e te fazem ser o que você é hoje?
— Eu ainda sei cantar — retrucou zombeteiro.
— E eu ainda sei fazer poções — riu e completou maliciosa —, mas aprendi muitas outras coisas e por isso mudei.
Ele resignou-se, afinal, ela tinha toda razão. Ele também não era mais o garoto de antes, havia passado por tantas coisas nos últimos anos, provavelmente, Loren também havia tido suas mudanças e ele erroneamente continuava querendo crer que ela ainda era aquela menina ingênua e alegre da sua infância. Precisava ser sincero, na verdade, estava cada dia gostando mais daquela nova mulher que surgia diante dos seus olhos. Formavam um belo casal; harmonioso em poder e calor.
— Meu lorde, vamos nos unir pelo bem do reino — disse olhando profundamente nos olhos deles. — Me dê a honra de liderar ao seu lado!
— Podemos fazer um acordo — não aceitaria tão facilmente, ainda desejava uma garantia que ela pudesse ficar segura.
— Se me for benéfico — sorriu sagaz.
— Se casará comigo e carregará o nome Protheroi, estando ao meu lado em domínio e poder sobre Bherto.
— Uma oferta maravilhosa para ser livre de segundas intenções — sabia que haveria uma condição. — Qual parte do contrato deverei cumprir?
— Não deverá jamais deixar o castelo, por motivo algum. Não tomara parte de nenhuma batalha fora dos portões e respeitará minhas decisões como palavra final.
Ela se afastou rindo alto e sarcástica.
— Ou seja, quase uma veilana! Tem certeza que é uma esposa para liderar ao seu lado que deseja?
— Veilanas não tem acesso ao poder da Torre Bhertophel, muito menos, a responsabilidade sobre os encantamentos de armas e equipamentos.
Ela ficou séria e, por um instante, bestificada.
— Está me dando poder sobre o maior tesouro do castelo? Abrindo mão do coração de Bherto? Onde se consolida todo poder e onde, também, habita Ventura?
— Estou compartilhando meu poder e dando-lhe responsabilidade de tornar a Ordem Protheroi ainda mais poderosa.
Ela gargalhou e imediatamente tapou a boca com as mãos. O maior desejo em seu coração não era apenas ter poder e magia, mas sim, mostrar ao mundo o quão poderosa havia se tornado; ali estava a oportunidade mais que perfeita. Sentia-se completa e radiante, com a certeza que cumpriria seu papel com esmero e faria a Ordem Protheroi ser a maior e mais gloriosa de todos os tempos.
— Com tal responsabilidade, provavelmente, não terei tempo de me afastar do castelo, tampouco desejaria! — abraçou-o irradiando felicidade.
— Isso é um sim?
— Sem dúvidas!
O acordo foi selado com um beijo caloroso, cheio de volúpia e entrega. Uma união de corpo, coração e poder em nome de algo maior. Ambos sabiam das proporções que aquela batalha poderia tomar e sua função era impedir que o mal se alastrasse. Não era apenas o objetivo de manter a paz que era comum, mas também, havia o desejo de um futuro juntos em um reino de paz e tranquilidade, onde pudessem desfrutar de dias felizes para sempre.
A esperança dos Kailes estava depositada em Lady Hestea, pois somente ela poderia lançar a Maldição dos Mil Anos que despertaria a alma adormecida de Yaksha, trazendo-a de volta a Les Marcheé.
Ao ter conhecimento desses planos, Lorde Meyne fez a escolha mais sábia e desfez seu casamento com a traidora Dama Albina. Naquele mesmo dia, após encontrá-lo no corredor junto das filhas, a Imperatriz se empenhou em manter Lady Hestea numa prisão longe de todos e com proteção mágica. Todavia, não poderia impedir que ela retomasse seus poderes, havia colocado uma restrição nesse sentido, mas não tardaria a ser quebrada.
Na verdade, Lady Beriune contava com isso, pois desejava saber quais os próximos passos da Dama Albina. Assim, permitiu que ela voltasse a ser poderosa, observando-a de perto em seu confinamento.
Após recuperar sua magia, Lady Hestea não agiu. Não fez nenhum esforço para sair de sua prisão, não fez nenhum escândalo, nem ameaças de vingança. Estava silenciosa e contida, algo completamente fora de sua personalidade e isso deixou todos intrigados. Quando questionada, ela se dizia arrependida e sentia-se tola por ter sido iludida durante tanto tempo pelos Kailes.
Passado algumas semanas, devido ao seu bom comportamento e as constantes indagações de Allegra sobre a ausência da mãe, Lady Hestea foi conduzida para seu próprio quarto onde seria mantida sob vigilância, para que pudesse receber visitas das filhas acompanhadas pelo pai, Lorde Meyne.
A Dama Albina parecia ter perdido o entusiasmo e a vontade de viver. Seus cabelos voltaram ao branco natural e não mais coloridos, não os prendia em penteados elaborados, não usava suas jóias nem seus vestidos exuberantes. Seus olhos tinham perdido o brilho e o fraco rímel que usava nos cílios brancos, para torná-los negros e dar maior destaque, não eram suficientes para acender seu olhar triste e arrependido.
Talvez, porque todas as suas maquiagens foram destruídas por Lorde Meyne, ou ela havia perdido, realmente, o interesse em se embelezar. Ostentar agora parecia ser bobagem e ela não fazia nenhuma questão. E quando recebeu a visita de Allegra, abraçou-a com força e carinho; pela primeira vez, chorou pesadamente.
Aquela cena comoveu a todos os presentes. Lorde Meyne já havia visto inúmeras encenações de sua esposa e sabia prontamente todas as artimanhas dela, porém, ele se surpreendeu com lágrimas aparentemente tão verdadeiras, um olhar triste e derrotado, uma mulher tão indefesa e arrependida; ele quase foi convencido…
Quase.
Allegra, em sua inocência e tristeza, relutou em sair do quarto, foi queixar-se diretamente com a Imperatriz, pedir que soltasse sua mãe, pois seja lá o que ela tivesse feito de errado, com certeza já tinha se arrependido; era nisso que Allegra cria.
Lorde Meyne tentou explicar para Allegra que não era algo tão simples assim e que não deveria aborrecesse a Imperatriz com coisas desse tipo. Contudo, inacreditavelmente, Lady Beriune ouviu a pequena menina e atendeu seu pedido. O Lorde Mago do Gelo ficou chocado com a decisão, pois não acreditava no arrependimento da esposa, apesar de sentir certa mudança nela.
Entretanto, Lady Beriune não atendeu ao pedido porque Allegra o fez, e sim porque precisava que Lady Hestea agisse sem encenações.
Lady Hestea foi liberta de sua prisão e algumas coisas retomadas, como seus poderes em totalidade e os títulos de nobreza. Outras, entretanto, foram perdidas para sempre e fariam falta para a Dama Albina, como seus itens caros que mantinham seu padrão de beleza acima das demais damas e o apoio que tinha de muitos na corte de Bellephorte. Depois do ocorrido ninguém desejava estender-lhe a mão, nem mesmo sua mãe, cujos ensinamentos lhe levaram a chegar naquele ponto.
Todos haviam lhe virado a face, com razão. Traição era um crime imperdoável e comentava-se sobre a extrema benevolência da Imperatriz em perdoá-la. A maioria discordava do perdão, até porque Lady Hestea havia por muitos anos enganado muitos fingindo uma índole que não possuía e isso irritava a todos.
O que mais temia aconteceu: fora abandonada e estava só. Esse sentimento lhe causava horror e ódio. Soube que alguns começavam a acreditar no seu arrependimento e diziam que, talvez, tenha sido esse vislumbre de esperança que Lady Beriune tinha visto na Dama Albina; por isso a perdoou.
Ledo engano. Lady Hestea tinha muitos sentimentos controversos no seu interior, mas nenhum era de arrependimento. Ouvir todos falando na grande benevolência da Imperatriz, em sua suprema sabedoria, amabilidade, capacidade de perdoar e compaixão, fazia Lady Hestea se revirar de nojo e crescer ainda mais seu ódio e repúdio por Lady Beriune.
Concluiu os preparativos para a tão esperada viagem. Não teria um grande evento como o casamento do governador, mas não importava porque seu plano estava bem vivo e faria acontecer. Na primeira oportunidade procurou novamente seus mestres Kailes para se vangloriar pela conduta que levou até mesmo a Imperatriz perdoá-la e libertá-la.
— Vejam os Senhores como fizeram excelente escolha! — dizia com sorriso gabo. — Não há ninguém melhor que eu, capaz de enganar até mesmo a Imperatriz!
— Cuidado Hestea! Não subestime esta que impera sobre esta Era — disse uma voz, vinda do vulto coberto por um manto de sombras. — O poder dela antecede gerações e provém de algo que você não é capaz de compreender em totalidade.
— O poder dela e todo seu Império está chegando ao fim! Quando eu lançar a Maldição dos Mil Anos, o poder de Yaksha será dado a mim e serei eu a nova Imperatriz! Não é mesmo, Mestres Kailes?
— Claro! — disseram em uníssono.
Era mentira. Evidentemente, como os Imperadores bem sabiam, Lady Hestea era apenas um instrumento para acordar e libertar a alma da Imperatriz das trevas, jamais Yaksha Kaile compartilharia seu poder, menos ainda, doar a ponto de deixar outra assumir seu trono. Porém, a Dama Albina nada sabia disso e sua mente era pequena demais para pensar nessa possibilidade.
No entanto, os Kailes não poderia correr o risco de deixá-la saber que era meramente um fantoche e continuaram com suas mentiras e bajulos.
— O último passo deve ser dado! — disse o Kaile de voz tenebrosa enquanto se aproximava dela. — Você precisa preparar seu coração para receber o poder de Yaksha.
— A poderosa Insígnia de Kalanthos — disse outro vulto com voz grave, mais afastado.
Um terceiro Mestre se aproximou e com um gesto indicou o caminho para Lady Hestea até o centro do salão, onde havia um altar feito com rubis negros e vanadinitas. Ao lado, um pote de tinta preta e penas de pavão negro. Ela obedeceu e o Kaile iniciou o ritual, tatuando em seu peito uma insígnia de poder.
— Com este encanto, você será plenamente capaz de lançar a maldição — disse o Kaile, enquanto fazia a tatuagem, gravando com as penas a pele branca da lady.
— Esta é a Insígnia de Kalanthos, dos dias antigos e negros — disse o segundo, com voz grave.
— Esta insígnia representa o sono de Yaksha e trará o poder dela para dentro de você — revelou o terceiro, com voz assombrosa.
— E ninguém, além de um Kaile, poderá retirar o poder contigo nesse símbolo! — disse o primeiro, soltando as penas e virando fora a tinta.
— Agora vá e cumpra seu destino de imperar sobre todos! — os três disseram em uníssono.
Ela se retirou e voltou aos seus aposentos. No caminho, teve uma ideia que lhe pareceu muito apropriada. Era sabido que o selo Tione Resplandecente estava novamente trancado e sem ninguém para dominá-lo, desde que Lady Crissânea desaparecera, a Imperatriz manteve o selo guardado.
Sempre teve inveja da beleza, poder e luz que a Lady Maga do Sol possuía e desejou para si aquele selo. Não contou essa decisão aos Kailes, porque eles, provavelmente não aprovariam ela colocar assuntos e desejos pessoais à frente dos prioritários, que era lançar a maldição. Por isso, agiu em segredo sobre isso, além do mais, queria vingar-se de Lorde Meyne pela grande humilhação que lhe fizera passar; sabia a forma perfeita para fazê-lo sofrer.
Foi até o quarto de Allegra e ordenou as veilana que cuidavam da menina.
— Arrumem as malas de Allegra e preparem-se — falou amavelmente e as veilanas estranharam. — Faremos uma viagem divertida, vamos para Boandis, passar alguns dias nas belas praias de águas quentes.
— Nós iremos também? — perguntou a veilana, incrédula.
— Sim! — respondeu com um sorriso entusiasta. — Será uma oportunidade de vocês conhecerem a praia.
— A Imperatriz concorda com essa viagem? — perguntou a segunda veilana, temerosa.
— Mas é claro! — falou gentil e comovida. — Ela própria sugeriu que eu viajasse, para repensar minhas atitudes, das quais estou muito arrependida — mentiu.
As veilanas acreditaram e Allegra ficou muito feliz. A própria lady ajudou nos preparativos e convenceu-as de que havia mudado seus pensamentos. Assim que tudo ficou pronto, enquanto Allegra estava distraída brincando na sacada, a Dama Albina se livrou das malas e das veilanas, envolvendo-as em uma nuvem venenosa e fazendo-as sumir. Uma solução rápida para que ninguém soubesse do que estava fazendo, nem para onde havia ido.
— Vamos minha querida! Está na hora — chamou a menina docemente.
— Sim mamãe. E as veilanas?
— Foram na frente com as malas — disse com um sorriso falso.
Com um gesto de mãos e palavras de encanto, materializou um portal, grande, de forma circular, que pairava no ar e mostrava do outro lado uma bela praia com montanhas ao redor.
— Waaaaaau! — Allegra exclamou surpreendida pelo que a mãe fizera. — Que legal!
— Sim meu docinho! Mamãe está ainda mais poderosa agora, você não acha?
A menina concordou alegre, pois não fazia ideia de que todo aquele novo poder era proveniente da insígnia de Kalanthos, símbolos de maldade e trevas. Lady Hestea pegou Allegra no colo e explicou:
— Vamos viajar rapidamente, sem necessidade de trem. Chegaremos em Boandis dentro de alguns instantes — soltou uma risada alta e estridente.
Assim que cruzaram o portal, ele se desfez como poeira ao vento.
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