Capítulo 21

(...)

Lenora não conseguiu manter a compostura por mais do que alguns segundos, após simplesmente cuspir o que tinha na boca e sujar Christopher, tossiu apenas para tentar esconder seu espanto pelo anúncio.

Afinal, ela não imaginava e tão pouco esperava que o conde Jonathan Fox fosse fazer uma visita a ela.

— Que diabos Lenora!... — resmungou Christopher, tentando de alguma maneira limpar a sujeira que o acertara.

Andrew e Benjamin foram quem mais se agitaram, os dois encararam Lenora engasgada e logo em seguida olharam para Jeffs, que pacientemente aguardava por alguma resposta. De quem quer que fosse.

— Lenora se apronte, Chris, tente limpar essa nojeira rápido — Andrew, o mais velho, tomou o controle da situação.

Colocou-se de pé rápido demais para um homem comum, caminhou até o mordomo e pegou o cartão que o homem tinha em mãos.

O observou com atenção, notando o nome e o brasão da família Fox em evidência.

— Céus... — resmungou igualmente surpreso. — É mesmo o conde.

Lenora arregalou os olhos de forma nada cortês, levantou-se também, ignorando a ordem anterior dada, correu até o irmão e tirou de suas mãos o cartão. Ela o teria rasgado, mas Benjamin se adiantou em tirá-lo de sua mão — como se tivesse previsto que ela tentaria algo do tipo — e também o analisou.

— O que ele faz aqui? — reclamou a mais nova, fixando os olhos castanhos sobre Jeffs, que assistia com paciência o desenrolar da cena.

Antes de responder, o mordomo torceu os lábios numa expressão lamentosa, ele convivia com a família tempo o suficiente para saber da fama de Lenora e de sua inclinação para não querer visitas de cavalheiros e por esse mesmo motivo, evitou dizer o que a presença do conde Fox significava.

Mas sua expressão já dizia tudo. E Lenora entendeu.

— Não se faça de tola, — resmungou Andrew com repreensão. — O conde está aqui, o que acha que ele quer?

— É uma visita de cortejo... — comentou Benjamin animado, chocado também. Um tanto esperançoso demais. — É uma visita de cortejo!

— Mande-o embora, Jeffs — pediu Lenora, virando-se para o mordomo novamente.

— Não faça nada disso Jeffs, — Andrew interveio antes que o homem realmente cumprisse o pedido. — Ele é o conde, Lenora.

— E daí? — deu com os ombros. — Isso não o torna aceitável para uma visita.

— E lá vamos nós novamente — Benjamin se afastou quando percebeu o que estava para acontecer.

Lenora não queria visitas, tão pouco aquelas que significavam a tentativa de um cortejo. Agradeceu por não ter a mãe presente em casa, caso contrário a mulher já estaria organizando e pensando no futuro casamento.

Contudo, imaginou que teria ao menos um pouco de apoio de seus irmãos, Christopher não se envolveu na conversa até o momento e, se ele não se ressentisse pelo resto de biscoito cuspido em sua camisa, Lenora poderia usá-lo como aliado para afugentar o conde antes mesmo de ele tentar algo.

Porém, o problema real ali era Andrew. O responsável da família. Aquele que ficaria responsável por cuidar dos irmãos quando o pai fosse dessa terra para sempre. E pela expressão em rosto, ele não aceitaria que a irmã dispensasse o conde antes de ele sequer ter a chance de um cumprimento.

— Lenora, por Deus! — exclamou o mais velho, aproximando-se dela e diminuindo seu tom de voz para que não parecesse que ele estivesse gritando. — Estamos falando sobre o conde Fox, ele veio até aqui para uma visita, creio que seria cortês de sua parte ao menos dar a ele uma recepção mais amigável.

O rosto da caçula ganhou uma carranca emburrada.

— Eu não quero uma visita — declarou firme. — Não me importa se ele é conde ou o próprio rei, não vou aceitá-lo.

Andrew nada disse, apenas manteve uma expressão séria e firme em seu rosto, o qual Lenora também. Cruzando os braços no processo. Os dois ficaram a se encararem, esperando quem se mostrasse mais fraco em sua teimosia.

— Ah, pelo amor de Deus! — Christopher finalmente se envolveu, ainda terminava de retirar alguns restos mastigados de biscoitos, mas isso não o impediu de interferir naquela conversa.

— Não se envolva nisso! — Lenora apontou para ele, sequer desviando os olhos de Andrew.

— Deixe de teimosia, Lenora — retrucou ele. — O conde já está aqui, esperando pela visita e queira goste ou não, ele terá a chance da visita.

Desviando os olhos do mais velho dos três irmãos, Lenora encarou Christopher como se fosse traída — e internamente sentia que fora mesmo —, abriu a boca pronta para retrucar, mas foi interrompida por Benjamin que voltou a se envolver na conversa.

— Ele está certo, Lenora — disse, seu tom era mais calmo e menos hostil do que o usado por Andrew. — Ao menos tente, não estamos pedindo para que se case com ele, apenas para ser gentil e permitir a visita.

— Seria descortês de sua parte recusá-lo quando ele já está dentro de casa.

Ela bufou alto, deixando transparecer seu descontentamento por estar sendo vencida pelos irmãos. Era verdade, ela aceitar a visita não significava que iria casar-se com o conde logo em seguida, mas permitir sua visita era como dizer que ele tinha liberdade para tentar um cortejo e isso parecia ir contra tudo o que Lenora queria para a própria vida.

Além disso, recusar a visita do conde quando ela confessou para Andrew que não recusou uma valsa com o visconde da família rival a fazia uma grande hipócrita. Claro, que ela não recusou a valsa com Phillip por outros motivos, mas ele não precisava saber disso.

— Se eu concordar com a visita, não esperem que eu aja como uma perfeita tonta, vocês sabem como sou e não vou me transformar numa imbecil para agradá-lo. — alertou, mantendo a carranca fechada em seu rosto.

Andrew revirou os olhos, Benjamin fez uma careta e Christopher apenas deu com os ombros.

— Bem, se isso não resultar em uma vergonha para a família pode fazer o que bem quiser, — responde Benjamin. — Mas lembre-se de que colocar-se em risco também coloca toda a família em risco. É nosso nome em jogo.

— Sei disso — responde impaciente.

— Ótimo! — Andrew esboçou um sorriso vitorioso. — Jeffs mande-o vir, Christopher, peça aos criados mais biscoitos e mais chá, já deixamos o conde esperar demais.

O terceiro mais velho assentiu e saiu em disparada, antes mesmo do mordomo.

— E você, por Deus, tente parecer uma moça de família e não uma descontrolada. — Andrew virou-se para Lenora.

Ela não respondeu, apenas revirou os olhos — como fizera ante — e fez uma careta que, se a mãe tivesse visto, com toda certeza iria lhe dar uma bela bronca.

Lenora voltou para o sofá, fez questão de deixar o bordado à mostra e deixar o desenho ou o que deveria ser um desenho em evidência, se fosse para acabar com qualquer expectativa do conde, que ela o fizesse bem feito. Seu rosto manteve-se sério e emburrado e mesmo com algumas repreensões de seus irmãos, ela não desfez a carranca, apenas a intensificou até o conde aparecer.

●●●

Lenora se perguntava quem contara a ele sobre os jacintos, afinal, seu gosto pelas flores lilás era uma informação que poucos tinham conhecimento e, não deixou de reparar no pensamento desconfiado de que alguém de sua família contara a ele sobre sua preferência pelos jacintos.

E Jonathan acertara em cheio ao trazer um buquê grande deles. Ao menos foi isso o que seus irmãos comentaram antes de deixá-los sozinhos.

Ela admirava seus esforços, Fox era um homem que parecia saber o que queria e mostrava isso em suas atitudes, ele viera para a visita deixando claro que não faria o mesmo que os demais cavalheiros. Não recitou poesia, não a elogiou e tão pouco fizera comentários a respeito de sua aparência ou do vestido verde que ela usava naquele dia.

O conde fazia os comentários certos, mantendo uma conversa agradável e fluída. Isso a fez franzir o cenho, Fox estava acertando demais, algo que somente Phillip o fizera antes. E quando ousou um pedido por um passeio — supervisionado, é claro — pelo Hyde Park, seus irmãos não hesitaram em permitir.

Claro que, os três se mantinham afastados dos dois, mantendo-se distantes a exatos oito passos deles para ao menos fingir lhe dar um pouco de privacidade.

A caminhada gerou olhares — como Lenora esperava e odiava que acontecia — e receber essa atenção a deixou com o humor fragilizado. Lenora deixara claro que o passeio não passava de uma formalidade e que não tinha segundas intenções e isso pareceu controlar o conde, contudo, ela não tinha a mesma habilidade para com os pensamentos daqueles que a vissem.

Seria questão de tempo até que estivessem comentando sobre ela e o conde e o passeio deles no parque.

— .... E acredito que seja uma ótima maneira de diversão — Jonathan prosseguia com sua fala sobre as atividades ao ar livre que gostava de fazer.

— Prefiro o tiro ao alvo — murmura sem muito entusiasmo.

O conde se surpreendeu.

— Tiro ao alvo? — pergunta espantado. — E seus pais a permitem algo do tipo?

— Claro que não, — diz com frieza. — Mas eles sabem que pratico a atividade.

A informação recém contada faz com que Jonathan esboce um sorriso orgulhoso.

— E o que mais a senhorita gosta como atividade?

Foi necessário um grande esforço para que ela não soltasse uma blasfêmia qualquer, a conversa com o conde estava se estendendo bem mais do que ela gostaria e mesmo que tivesse deixado claro que aquilo não significava absolutamente nada para ela, à medida que seguiam caminhando e os olhares de curiosos se tornava algo mais frequente, ela percebia que até a noite, a sociedade estaria fofocando sobre aquele passeio.

E o que ele significava.

— Escute, creio que seja...

— Oh, visconde Weston! — o conde exclamou a saudação com animação.

Lenora arregalou os olhos no segundo em que ouviu o sobrenome de Phillip. Ao virar-se o viu, uma semana depois do ocorrido — o beijo — encontrá-lo tornou-se uma expectativa particular, afinal, foram sete dias longe do outro. E ela gostaria de tê-lo encontrado sozinha, não acompanhada.

— Vossa graça — ele saudou o conde com a cortesia de sempre, esboçando um sorriso simples para o rapaz e virando-se em direção a Lenora.

Nesse momento, ela sentiu que poderia cair no chão. Suas pernas se tornaram fracas, seu coração disparou contra o peito e a garganta secou, o ar lhe faltou e sua mente a levou de volta ao beijo. Ao toque dos lábios de Phillip sobre os seus.

— Srta. Barrington — Phillip a saudou de forma diferente, a cumprimentou com uma reverência demorada ao curvar-se para frente.

Ela sorriu e então, logo atrás dele avistou os dois irmãos mais novos de Phillip; Kate e Charles. Os dois a encarou com fúria e fingiram cortesia ao saudá-la também, mas ao saudar o conde, a cortesia era algo real.

Eles não trocaram nenhuma palavra, afinal tratava-se de um encontro inesperado e apenas se cumprimentaram porque estavam na mesma direção, porém isso não impediu Lenora de lançar um olhar significativo para Phillip.

Um pedido de socorro.

●●●

Phillip desejou encontrá-la depois do beijo, mas ele nunca imaginou que esse encontro aconteceria durante um passeio descontraído no parque. Tão pouco que ela estaria acompanhada pelo conde Fox sob a supervisão dos três irmãos mais velhos logo atrás.

Encontrá-la novamente — depois de tê-la beijado — se mostrou uma surpresa da qual ele não estava preparado para ter. Não com seus irmãos, não com os irmãos dela presente, não com ela junto ao conde! E Phillip não estava nada pronto para sentir o que sentiu ao vê-la.

Lenora o encarou com um sorriso contido, algo discreto e que — ele percebeu — ser feito com muito esforço. No começo a presença do conde o deixou intrigado, afinal, ela nunca fora vista antes caminhando com um cavalheiro pelo parque, mas então, quando ela lançou a ele aquele olhar...

Ele entendeu.

Ela queria ajuda, mas como ele a ajudaria com seus irmãos logo atrás dele? Como ajudaria com Andrew, Benjamin e Christopher atrás dela? Sentiu-se incapaz, porque realmente estava e tudo o que conseguiu fazer foi sussurrar um sinto muito pela própria incapacidade.

— O conde está cortejando a Barrington? — perguntou Kate, o tirando de seus próprios devaneios ao lembrar-se do encontro que acontecera a pouco.

Phillip fez uma careta.

— Não sei. — responde dando com os ombros de forma indiferente. Ele poderia estar, mas de acordo com o olhar de Lenora, soubera que essa não era uma vontade compartilhada por ambos os lados.

— Deus queira que sim, quem sabe se ela casar-se com ele deixa de ser uma das suas candidatas — murmurou Charles. — Não que haja uma possibilidade de ela um dia se tornar uma Weston.

— Deus não permitiria tal castigo. — é Kate a falar.

O visconde para de ouvir a conversa dos dois e começa a reviver aquele encontro. Estava mais do que claro o que acontecia ali, mas para sua felicidade particular — e secreta — apenas o conde mostrava interesse em um cortejo.

Isso deu a Phillip um pouco de esperança, afinal, eles precisavam conversar sobre o beijo e o que ele significava para eles. O que aconteceria entre eles? Como ficariam? Questões pendentes, questões que ele como um cavalheiro de respeito não podia simplesmente ignorar e também não podia ignorar, pelo bem de Lenora.

Phillip e seus irmãos seguiram de volta para Pambley, com os dois se divertindo entre ofender secretamente a família Barrington e com Phillip a pensar sobre o que faria em relação a ele e Lenora.