Capítulo 3

(...)

Aquela sem dúvida fora a valsa mais curta que Lenora dançou em seus quatro anos, não que a companhia de Phillip fosse desagradável, muito pelo contrário, ela apenas desejava que o tempo em que tiveram durasse um pouco mais.

Nesse tempo em que valsaram conversaram sobre quase todos os tipos de assuntos, desde suas famílias a algo mais triviais.

E o mais importante, conseguiram despistar sua mãe, ela a viu se afastar novamente com Prudence.

Lenora percebeu que apesar daquela noite ter tido momentos deveras desagradáveis — por exemplo com o futuro duque Haskett — o convite para dançar feito por Phillip pareceu apagar tais momentos. Estar em sua companhia tornava tudo mais simples, quando se encontravam nos bailes e eventos ela não precisava agir como esperavam que ela o fizesse, riam alto, zombavam de algumas situações constrangedoras e muitas vezes até mencionavam os planos de matrimônio que suas famílias armavam às escondidas.

— Obrigada pela dança — falou ela quando a música terminou, ambos fazendo uma pequena reverência.

Seguiram juntos uma direção diferente, um pouco mais afastados dos demais. Os dois sempre preferiam ficar nos cantos do salão, Lenora longe da visão astuta de sua mãe e Phillip longe da visão das mães casamenteiras e suas filhas. No início houve recusa de sua parte, ele não achava correto que privasse a moça de convites para valsas, mas depois de um tempo até mesmo ele percebera que ela o fazia por escolha própria.

Ele assentiu educadamente e murmurou um agradecimento, estava prestes a se separar dela quando algo o fez parar. Lenora o olhou sem entender, uma vez que ele parecia ter visto o próprio diabo se aproximar. Primeiro ela imaginou que fosse sua mãe ou algum de seus irmãos a se aproximar, mas então ouviram:

— Visconde Weston!

Era uma voz feminina e não demorou para que os dois a reconhecesse. Apesar de Lenora sentir-se um pouco mais aliviada por não ser ninguém de sua família, ela sentiu o corpo estremecer com a mulher que se aproximava. Olharam para o mesmo lado e avistaram Lady Coublepett se aproximar de onde estavam. A mulher já de uma idade desconhecida pela sociedade era a mestra das fofocas, qualquer escândalo, qualquer burburinho partia de seus lábios.

A mulher apesar de muito fofoqueira e às vezes um tanto inconveniente com suas verdades duras — bem, era isso o que muitos sempre diziam sobre ela, Lenora gostava de sua personalidade — ninguém podia negar a sabedoria daquela mulher e a astúcia de seus comentários; fossem eles para o bem ou para o mal.

— Quanto aceitaria para ficar ao meu lado enquanto ela fala comigo? — perguntou de repente, sua voz demonstrava pressa.

— Phillip eu... — Lenora não soube o que dizer, não precisava de dinheiro, principalmente de seu dinheiro. E não aceitaria ser subornada por um motivo como aquele. — Não precisa oferecer-me dinheiro.

— Eu lhe dou trinta libras para ficar comigo, aqui.

Lenora quase engasgou. Trinta libras era um dinheiro e tanto, ela nunca imaginou que Phillip temesse Lady Coublepett ao ponto de lhe oferecer um valor alto como aquele.

— Salve-me. Como a salvei de sua mãe. — gemeu Phillip quase implorando.

Havia terror em seus olhos; apesar de ela achar aquilo um verdadeiro exagero.

Lenora olhou por cima do ombro e avistou Lady Coublepett se aproximar deles, seus passos eram firmes e todos por quem passavam abaixavam suas faces e olhavam para o chão como se temessem serem encarados pelos olhos ardilosos da mulher.

— Feito! — concordou ela com um sorriso travesso, não pelo dinheiro, mas porque sabia que acharia graça disso dias mais tarde. O respeitável Visconde de Pambley com medo de Lady Coublepett e de sua língua afiada e fofocas.

Eles esperaram até que a mulher enfim aproximou-se deles, Phillip a cumprimentou primeiro, puxando seu braço para depositar um beijo rápido em sua mão enluvada. Lenora o fez logo em seguida, uma reverência curta e sorriu, mas sem que tivesse sido obrigada a tal. Ela gostava de Lady Coublepett e a considerava uma companhia sem igual, mesmo que em seus encontros a mulher resmungava sobre sua falta de opção para marido.

— Lady Coublepett, é um prazer vê-la. — disse a moça, observando como as feições dela se relaxavam com o passar dos segundos.

— Bem, ouço muitos me dizerem isso e sei que tratam-se de palavras mentirosas — retrucou ela com uma careta. — Mas vindo de você, minha jovem, sei que é um sentimento verdadeiro e recíproco.

— Eu já disse que gosto de sua companhia, — disse Lenora. — os demais são tolos por não saberem aprecia-lá como faço.

Lady Coublepett assentiu um pouco surpresa, Phillip nada disse até então, mas ela se virou em sua direção e mostrou um daqueles sorrisos perigosos. O mesmo que ela sempre fazia quando tinha uma nova fofoca para fazer ou um escândalo para contar.

— Faz muito bem escolher essa aqui para companhia, milorde. — comentou ela, olhando-o como se conseguisse saber todos os seus segredos. — De todas as moças solteiras é quem mais possui inteligência.

Ele concordou.

— Nunca duvidei disso. — falou, olhando-a rapidamente.

— Hum — murmurou Lady Coublepett. — Pois se sabe disso, por qual motivo não casa-se com ela?

A pergunta fez com que ambos engasgassem com o ar, tanto Lenora quanto Phillip abriram a boca para que pudessem responder, porém antes que conseguissem isso a mulher já estava rindo alto. Atraindo a atenção de alguns convidados por perto.

— Rá! — ela quase gritou, os assustando. — Eu sei sobre a rixa entre suas famílias e imagino o que aconteceria se os dois casassem.

Depois do que pareceu apenas meio segundo, ela acrescentou:

— Mas pergunto-me o motivo de estarem sempre juntos se sabem que ambas as famílias não se entendem — observou, franzindo os lábios com leveza. — Trata-se de um ato de rebeldia?

Dessa vez os dois foram mais rápidos em encontrar as palavras certas para respondê-la.

— Claro que não. — disse Phillip.

— Nunca faríamos isso. — concordou Lenora com um aceno leve.

— Apenas gostamos da companhia do outro. — concluiu o visconde num tom juvenil.

Lady Coublepett os olhou com os olhos estreitados, como se buscasse neles algo que pudesse dizer para constrangê-los outra vez; como fizera com o assunto de casamento. Lenora não sentiu-se tão constrangida como Phillip, tal palavra era dita com mais frequência do que ela gostaria e sempre seguida com algum nome e mesmo que dissesse a mulher que não faria algo assim, ela estaria mentindo se dissesse que tal possibilidade passara por sua mente anos antes.

Em um cenário completamente diferente, é claro. Um no qual aquela estranha rixa entre suas famílias não existia, casar-se com Phillip não era impossível.

Apenas uma opção da qual jamais deveria ser considerada, jamais. Frisou em seus pensamentos. Jamais. Por duas razões: Não podia jamais casar-se com um Weston. E ela não o amava, não o prenderia a um casamento sem amor quando sabia que era isso o que ele buscava.

— Isso é uma verdade, caso contrário não estariam nem a meio metro de distância do outro — comentou, no mesmo tom de antes. Ambos sabiam que ela iria fazer mais um comentário e preparam-se para isso. — Só acho incomum que fiquem sempre escondidos dos demais, cantos de salão são apenas para as solteironas e você, minha jovem, assim como você, milorde, não fazem parte de tal categoria.

— No canto conseguimos uma visão de todo o salão e assim, torna-se fácil comentar sobre o que vemos — foi Lenora quem respondeu, mostrando um sorriso levemente presunçoso.

A outra por sua vez não se abalou, mas ergueu uma sobrancelha.

— Não minha para mim, sei que apenas ficam nos cantos para que suas famílias não os vejam juntos — novamente ela fora certeira, até demais.

Lenora reprimiu a vontade de revirar os olhos.

— Está se divertindo essa noite, Lady Coublepett? — Phillip perguntou de repente, levando o assunto para outra direção.

A mulher deu com os ombros.

— Já estive em bailes melhores — disse com desdém, olhando ao redor do grande salão. — Infelizmente não se fazem mais bailes como antigamente, tudo era mais simples e muito mais divertido.

Nisso Lenora tinha de concordar, apesar de aquela ser apenas sua quarta temporada, ela percebera a diferença dos bailes passados para os atuais. Em especial na movimentação da sociedade que tornou-se... Fatídica.

— Poderia nos contar alguma fofoca ou escândalo que esteja sabendo Lady Coublepett — sugeriu a moça com um sorriso inocente, esperançoso até.

— E por qual razão eu faria isso?

Lenora deu com os ombros.

— A senhora sempre sabe sobre tudo o que acontece na sociedade, adoraríamos saber o que se tem acontecido desde que a temporada começou. — respondeu simplesmente.

Novamente a mulher estreiou os olhos, como se reprovasse sua fala, mas sorriu.

— Lenora Barrington como sempre afiada em suas palavras — comentou ela com um tom orgulhoso. — Eu disse que ela é inteligente.

Como fizera antes,Phillip concordou.

— E eu disse que nunca duvidei disso.

A senhora sorriu em clara aprovação.

— Deveria casar-se com ela, milorde. — observou ela, seus olhos brilhavam enquanto alternava a direção deles para Lenora e logo em seguida para Phillip. Ela parecia olhar para duas joias, pois até mostrava um sorriso abobado. — Caso se demore demais um tolo qualquer ficará com ela e você se lamentará por isso.

Ela o viu abrir a boca várias vezes e nenhuma palavra sair.

— Acho que vi minha tia — comentou ele, procurando um meio de escapar.

— É impossível fazer isso a essa altura — avisou Lady Coublepett. — E nem se dê ao trabalho de mentir, você, milorde é o único Weston presente nesse baile. Além disso, estou para me retirar, o sofrimento dos dois está para terminar.

Ao lado de Phillip, Lenora se esforçava para não rir, ela nunca imaginou que veria um homem como ele, grande e forte como era, tentar escapar de uma velha senhora por causa de sua astúcia e audácia em dizer o que bem queria. Em especial algo que tivesse qualquer relação com casamento.

— Somente um milagre nos permitiria tal união, Lady Coublepett. — brincou a mais jovem. — Mas quando planejarmos melhor nosso grande ato de rebeldia, será a primeira a saber disso.

Dessa vez até Phillip gargalhou.

— E faremos questão de que toda a Londres saiba sobre a união. — ele ousou entrar na brincadeira. Tirando um novo sorriso da mais velha.

Lady Coublepett balançou a cabeça várias vezes, como se aprovasse tudo aquilo.

— Deus nos proteja se isso acontecer! — exclamou ela, levando a mão até o coração. — Conseguem imaginar versões menores de vocês dois?

— Estávamos conversando sobre isso antes da senhora chegar.

— Phillip! Tratava-se de um segredo! — Lenora fingiu chocar-se com o segredo revelado.

Os três riram ao mesmo tempo.

— Perdoarei a zombaria dos dois apenas porque gosto de vocês, mas guardem as palavras de uma velha fofoqueira: — Lady Coublepett empinou o queixo. — Eu sempre sei mais do que aparento.

Ambos piscaram surpresos, não só pelo que foi dito pela mais velha, mas pela forma como tais palavras soaram; como se realmente existisse algo entre eles que estavam tentando esconder dela.

— Bem, agora se me derem licença, está na hora de atormentar outra pobre alma com a minha presença — anunciou depois de alguns instantes em um silêncio estranho.

Lady Coublepett virou-se para Lenora primeiro e a cumprimentou com um aceno muito curto com a cabeça, mas sem de fato olhá-la ou dar atenção a ela. Seus olhos estavam fixos na figura alta e forte de Phillip ao seu lado.

— Srta. Barrington, — ela despediu-se da moça e virou-se para Phillip. — Milorde, temos muito o que conversar, mas em outra ocasião.

E dizendo isso ela os deixou, deu-lhe as costas e caminhou pelo salão. Por onde passava ou algumas pessoas se afastavam ou fingiam não vê-la, Lenora achava aquele tipo de cena engraçado, uma vez que toda a sociedade a temia apenas pela sua língua.

Quando Lady Coublepett já estava longe o bastante deles, ambos se entreolharam em silêncio e foi então que soltaram uma alta gargalhada. Alguns dos convidados que estavam mais próximo dos dois olharam em sua direção, mas retornaram para seus pares.

— O que foi tudo isso?

— Não pergunte a mim — ela disse. — Acho que Lady Coublepett finalmente perdeu a sensatez de vez!

Eles teriam conversado por mais tempo, mas quando Lenora avistou a mãe se aproximar outra vez por entre a multidão de convidados ela compreendeu que não mais poderia fugir dela. Phillip apressou-se em se afastar, mesmo que toda a sociedade tivesse conhecimento da rixa entre os Barrington e os Weston eles nunca deixavam que fossem vistos por seus familiares; mesmo que em bailes, recitais e demais eventos não se desgrudassem do outro.

E como já era esperado, a mãe a puxou para longe do canto do salão, com a desculpa de ter um ótimo cavalheiro para apresentar a filha. Lenora não sabia, mas enquanto era arrastada para conhecer um solteiro que sua mãe jurava ser excelente escolha, Phillip se esquivava de algumas apresentações até finalmente decidir ir embora.

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Mais tarde naquela mesma noite, após chegar em sua casa e verificar se seus irmãos estavam dormindo e bem, Phillip se trancou em seu escritório. Ignorou as pilhas de papeladas sobre sua mesa e jogou-se sobre a cadeira, fechando os olhos não porque estava cansado, mas porque precisava pensar e verdade seja dita, ele tinha muito no que pensar.

Aquela não era a primeira vez que Lady Coublepett o abordava, apesar da língua nada sútil da mulher para assuntos, ele apreciava em demasia sua companhia e a tinha em grande estima. Contudo aquela fora a primeira vez que ela o abordou com Lenora junto, se Phillip soubesse tudo o que seria dito jamais teria prometido a moça trinta libras para que ela ficasse ao seu lado; esse foi seu erro.

Ele nunca se importou que os demais os vissem juntos, era de conhecimento de todos sobre a rixa de suas famílias, mas não era segredo que os dois filhos de ambas as famílias tinham uma amizade que ambas as famílias desconheciam.

Apenas suas próprias famílias não sabiam disso e quando acontecia de ou a mãe de Lenora avistá-la e/ou qualquer outro membro de sua família, Phillip se apressava em afastar-se dela. O mesmo acontecia com ele, porém Lenora sempre se mostrava bem mais provida de inteligência para suas fugas mirabolantes.

Mas essa não era a questão que martelava em sua mente naquela noite, desde que Lady Coublepett sugerira que eles devessem casar-se aquela simples fala vinha lhe causando um estranho desconforto em todo seu corpo. Casar-se com Lenora, pensou outra vez, como fizera em sua carruagem enquanto retornava para sua residência, mentiroso que seria se falasse que tal possibilidade nunca passara por sua mente. Phillip pensou, diversas vezes, em tê-la como esposa.

Desde o primeiro momento em que a viu.

Após conhecê-la melhor, ele descobriu que Lenora era tudo o que buscava em alguém, provida de uma inteligência que poderia constranger outros cavalheiros, mas não a ele. Com um bom humor e falas que o faziam pensar se ela não seria alguma parente perdida de Lady Coublepett e claro, ela era belíssima. Phillip não compreendia como aquela poderia ser sua quarta temporada, Lenora era encantadora e somente um grande tolo não enxergava isso.

Mas...

Mas a rixa entre suas famílias o impedia de tomar tal decisão sem que causasse alguma guerra ou destruição. Mesmo que desejasse e tivesse desejado há muito levá-la para o altar e torná-la sua, não podia fazer isso enquanto suas famílias continuassem a nutrir aquela estranha e nada cortês briga entre si.

E ele tinha apenas uma certeza, Lenora Barrington jamais seria sua esposa.