Capítulo 2

(...)

Phillip Weston não queria estar naquele baile e mesmo por ter comparecido a um evento que pouco apreciava, percebera que estava conseguindo se divertir; ao menos dessa vez. Durante a noite fora feito de alvo para inúmeras artimanhas das mães casamenteiras, ficou até surpreso quando uma delas jogou sua filha debutante em sua direção para que a jovem tropeçasse e fosse resgatada por ele.

Ele deveria ter se acostumado com isso, em quatro anos desde que passara a ser chamado de solteiro mais cobiçado era esperado que todas as armadilhas, conversas e convites para os demais eventos obtivessem resultado. Contudo, para a infelicidade de muitas mães, ele não casaria com suas filhas, existia ainda apenas uma e para sua própria infelicidade, ela não estava ao seu alcance.

Após conversar durante muitos minutos com Lady Plistzzen, ele decidiu andar um pouco pelo salão, sabia que Lenora estava presente porque acabou por escutar uma conversa aonde um rapaz mais jovem que ele resmungava sobre ela tê-lo colocado para correr antes que ele sequer conseguisse abrir a boca. Caminhava pelo salão porque sabia que acabaria a encontrando em algum momento e, Lenora era a única moça ali presente com quem ele gostava realmente de passar seu tempo em tais eventos; ainda que vez e outra precisassem disfarçar para que a mãe da moça não a pegasse no flagra com um Weston.

Não demorou muito para que a encontrasse, era fácil reconhecer Lenora das outras moças, ela sempre se destacava por onde estava e não era diferente naquele momento. Phillip franziu o cenho ao vê-la no centro do salão a dançar com o futuro duque Edward Haskett, bem sabia que ela o detestava e também sabia que era muito incomum que Lenora estivesse dançando.

O visconde passou a prestar mais atenção nela, percebendo em poucos instantes que ela não queria estar ali com o libertino que Haskett era. Em certo momento, foi necessário segurar o riso diante a feição aborrecida da moça e do olhar orgulhoso estampado no rosto do futuro duque. Contudo, para os demais, o par formado para aquela valsa muito agradava; como uma bela pintura, eles estavam sendo admirados.

Phillip engoliu seco com tal observação, muitos sabiam de sua amizade com a caçula Barrington, mas era segredo que a moça fazia seu coração bater mais forte; nem mesmo ela sabia sobre isso. Até porque, se alguém acabasse por descobrir de seu amor por Lenora, não demoraria para que a fofoca chegasse aos ouvidos da família Barrington e ele fosse caçado por seu pai e irmãos mais velhos.

— Visconde Weston! — o moço se assustou quando um velho senhor o chamou. O senhor estava ao seu lado e mostrava um sorriso muito animado em vê-lo.

— Lorde Carter — Phillip virou-se a contragosto, olhando rapidamente para o senhor ao seu lado para logo então cumprimentá-lo. — Que prazer o senhor por aqui.

— Digo o mesmo do milorde — o outro o saudou de volta. — E o que está achando da temporada?

— Um pouco cedo para dizer, não acha?

Lorde Carter balançou a cabeça, mas não parecia estar de fato prestando atenção em suas palavras e Phillip começou a temer o motivo disso.

— Claro, claro — disse ele com um aceno rápido. — Mas há boatos de que teremos casamentos interessantes este ano. Pretende o milorde ter um desses casamentos?

Phillip piscou quando entendeu. Eis o motivo.

Existiam sim, as mães casamenteiras, aquelas que faziam de tudo para ver suas filhas bem casadas, o número de pais casamenteiros por muitas vezes era ainda maior e eram ainda piores. Pois parte do destino de suas filhas estavam em suas mãos e era comum que seus pais — quando vivos — apelassem por acordos benéficos para suas filhas em troca de um bom casamento. Como era o caso de Lorde Carter, o maior pai casamenteiro de toda Londres.

Phillip já esperava por essa atenção na questão de um casamento, desde que assumiu o título de seu falecido pai como o novo visconde de Pambley, não tardou para que pais e mães o procurassem para jogá-lo a um casamento. Ele não seria mentiroso, haviam muitas jovens belíssimas e que dariam excelentes esposas, mas nenhuma delas chegavam aos pés de Lenora.

Verdade seja dita, apenas a Barrington caçula fizera seu coração bater mais acelerado, ele queria apenas ela e nenhuma outra.

Seu pai o havia preparado para tudo o que viria no momento em que assumisse o título, a cobrança de um casamento, afinal, era esperado que ele escolhesse uma moça para ser viscondessa o quanto antes. O preparou para as inúmeras responsabilidades que viriam após sua morte e quando pai sofrera um acidente terrível envolvendo um cavalo e uma árvore, isso de fato aconteceu. Phillip se tornou o novo visconde e arcou com todas as responsabilidades, desde suas funções como visconde a criação de seus dois irmãos mais novos.

Despesas, o dinheiro de sua família... O futuro de seus irmãos. Tudo de uma só vez. Mas seu pai não o preparou para enfrentar as mães e pais casamenteiros.

— Lorde Carter creio que...

— O milorde precisa conhecer minha filha... — o mais velho começou a falar, tagarelar, na verdade sobre sua filha e as tantas qualidades que ela possuía. Phillip acreditava nisso, mas acreditava que ele não era o homem certo para ela.

Uma vez que tinha olhos apenas para uma dama em questão.

Ele deixou o homem falar mais um pouco, fazia alguns comentários demostrando um pouco de interesse para não parecer muito desrespeitoso e quando achou que já tinha escutado o suficiente sobre a filha mais velha de Carter, inventou alguma desculpa para se esquivar da conversa e se afastar do senhor. O visconde continuou próximo aos cantos do salão, notando que a valsa já estava em seu fim e escolheu um lugar estratégico para ficar, de onde conseguia uma visão ampla do centro, de onde conseguia ver Lenora a dançar com Haskett.

Quando a valsa finamente terminou, após longos minutos, rápida como sempre era, Lenora se afastou do futuro duque e encaminhou para uma direção oposta, o deixando sozinho no centro. De onde estava, ele a viu se enfiar por entre os convidados até ela finalmente encontrá-lo.

Ela suspirou e veio em sua direção, mostrando um sorriso leve de puro alívio ao finalmente vê-lo no baile.

— Eu imaginava que a minha noite poderia estar desagradável, mas notei que a sua saiu vitoriosa nessa disputa. — troçou quando ela chegou perto o suficiente dele.

Lenora tinha uma expressão firme no rosto e não se mostrava nada contente com a dança que tivera com o futuro duque, a irritação em seus olhos e feições eram tão óbvias que apenas um tolo não perceberia isso.

— De todas as pessoas aqui presentes a quem minha mãe poderia ter me jogado para uma dança, ela o fez com Haskett! — reclamou num tom baixo, isso apenas melhorou seu humor.

E ela notou isso.

— Não ouse rir — o advertiu de forma séria, ainda que fosse claro que não seria tais palavras que o impediria. — Foi um momento terrível e jamais quero que se repita.

— Não entendo a razão de Haskett persegui-la, ele pretende casar-se com você algum dia?

Phillip sabia que aquela pergunta, envolvendo um matrimônio com o maior libertino da sociedade a deixaria mais irritada. E também, ele gostaria de saber se Haskett tinha de fato a intenção de cortejá-la ou não.

— Por Deus, não! — exclamou mais alto, esquecendo-se da blasfêmia que acabara de proferir. — Haskett apenas faz isso por causa do orgulho ferido.

Ele assentiu.

— Ah sim, lembro-me bem de que a senhorita o rejeitou com muita classe no ano anterior. — disse, fingindo surpresa. — Nenhuma outra moça teria feito isso, sabe disso, não é?

— Sim, eu sei, mas eu jamais me casaria com um libertino. Sendo ele duque ou até o próprio rei.

Phillip mordeu o lábio com uma expressão pensativa.

— Ouvi dizer que os libertinos são maridos excelentes — ele inclinou o corpo para frente e mostrou um sorriso travesso para ela.

Ela o olhou quase chocada.

— Sabe que acaba de dizer-me o mesmo que minha mãe? — perguntou.

— Lady Barrington concorda que devemos encontrar um libertino para levá-la ao altar? Então devemos fazer isso enquanto ainda há tempo — ele fingiu procurar por alguém no meio dos convidados.

Lenora o olhou quase chocada, tossiu — não para limpar a garganta ou porque não estivesse se sentindo bem, mas por ter ficado perplexa com o que acabara de ouvir — seu rosto corou e ele achou que nunca a viu daquela maneira antes. Era algo completamente inédito.

— O quê? Não! — negou rapidamente quando se recuperou. — Não diga loucuras milorde.

— Milorde? Quando começamos a nos tratar com tamanha formalidade?

Lenora revirou os olhos.

— Desculpe-me, Phillip — ela se corrigiu logo em seguida.

Seu coração acelerou as batidas, ele sempre gostou da maneira como seu nome era dito por Lenora, simples e como uma bela melodia para seus ouvidos. Isso tirou dele um riso espontâneo e ele percebeu tarde demais o que acabara de acontecer.

— Enfim, pense de maneira positiva — ele disse, tentando disfarçar o riso que acabara brotando em seus lábios antes que ela o percebesse. — Apenas teve uma única valsa com Haskett, poderia ser bem pior.

Ela o olhou com os olhos estreitados.

— Pior como?

Ele deu com os ombros.

— Você poderia ter sido jogada para alguma armadilha de casamento. — respondeu, lembrando-se de seu próprio exemplo. Aquele era o único momento de verdadeira paz que estava tendo desde que chegara.

— Isso é verdade — ela concordou. — Todos estão eufóricos, estão comentando sobre termos casamentos grandes este ano.

Foi a vez de Phillip concordar.

— Alguns acham que um desses casamentos será o meu.

Lenora no mesmo instante virou o rosto e o corpo em sua direção, ela sempre teve olhos grandes e quando os mesmos se arregalaram, Phillip teve apenas um vislumbre mais intenso da cor castanha deles.

— Não sabia que estava procurando por uma esposa — comentou ela, ainda um pouco chocada e interessada também.

— Não estou — assumiu. Percebendo que dizer tais palavras em voz alta o deixou desconfortável, porque estava claramente mentindo. Não, ele não estava procurando por uma esposa, até porque já havia encontrado a moça certa para sua vida, porém, ele nunca a teria. — Mas todos estão achando que estou e por isso jogaram meu nome nesse assunto.

— Bem, isso com toda certeza agitou as moças. — disse ela. — Muito em breve elas começam a persegui-lo como se fosse um pedaço de carne.

Phillip tentou manter-se sério, mas não conseguiu fazer isso por muito tempo, sem que percebessem estava rindo e Lenora ria junto.

— Lorde Carter está olhando em nossa direção — comentou ele e era mesmo verdade. O pai casamenteiro estava junto a uma roda de outros senhores e vez e outra lançava em sua direção um olhar desconfiado. Phillip não gostou disso.

— Lorde Carter? — Lenora olhou na mesma direção. — Com toda certeza é para casar a filha, ano passado ele tentou empurrar o filho dele para mim.

— É mesmo?

— Foi terrível, o rapaz estava muito nervoso e quase derramou chá em mim — ela segurou o riso com a lembrança. — Bastou para os dois sairem de minha casa antes que alguém pudesse saber de algo.

— Ele agora está atrás de mim.

Disse ele tenso. E sabia que não seria o único, todos queriam casar suas filhas com um visconde e muitas filhas queriam tornar-se viscondessas.

— Não se preocupe muito, Mary Carter deixou claro ao pai que apenas se casaria com o filho do vigário — segredou. — Ela não terá olhos para você.

Novamente os dois riram, Phillip um pouco mais aliviado pela fofoca que lhe foi contada. Não que tivesse algum problema com Lorde Carter, apenas não queria ser alvo de artimanhas e jogadas para casar-se com uma moça que não queria.

— Acho que sua mãe está a procurando — contou ele de repente quando viu Lady Barrington andar pelo salão, a mulher olhava de um lado para o outro como se estivesse caçando alguém.

Caçando Lenora.

A moça olhou na mesma direção e rapidamente se encolheu.

— Por Deus! — blasfemou baixo. — Provavelmente ela quer me apresentar mais um possível candidato, apenas finja que não estou aqui.

Ele riu.

— Ela não vai olhar nessa direção, acabou de me avistar e ela nem sonharia que estamos juntos aqui no canto — disse, e era verdade.

Lady Grace nunca chegava perto de Phillip mais do que era necessário, apenas quando estavam em eventos sociais aonde era preciso cumprimentá-lo. Mas apenas isso.

— Não subestime ela — avisou, encolhendo-se ainda mais. — Nossas famílias se odeiam, mas se ela me procura fará questão de olhar em todos os cantos do salão.

Ele não notou, mas Lenora ficou mais próxima de si e ao lado do enorme corpo de Phillip, ela praticamente desaparecia ao seu lado.

— Ela parou — continuou a falar sobre cada passo dado por ela. — E creio que não sairá de onde está por um bom tempo, ela está conversando com Prudence.

— Prudence? E o que ela quer com a minha mãe?

— Pode ir até lá descobrir — ele sugeriu e Lenora o encarou furiosa no mesmo instante. — Sabia que negaria essa ideia.

Não demorou para que ambos rissem mais uma vez. Lenora voltou a olhar na direção em que a mãe estava e de repente arregalou os olhos.

— Acho que ela me viu!

Phillip olhou para a mesma direção.

— Acho que ela está vindo para cá.

— O quê?!

Lenora quase gritou, agitou-se e se afastou de Phillip, olhando para os lados como se procurasse pelo melhor lugar de fuga.

Foi então que ele teve uma ideia.

— Dance comigo. — ele fez um gesto em sua direção, um convite.

Ela o olhou quase chocada.

— Minha mãe irá nos ver — o lembrou com presa. — não quero que ela faça uma cena se acaso nos ver dançando.

— Sim, ela irá nos ver, mas não irá ousar fazer uma cena. — devolveu. — Não durante uma valsa.

— Ela vai perguntar...

— Ela está se aproximando...

Lenora pareceu pensar em seu pedido, apesar de nenhum dos dois se importarem com a rixa existente entre suas famílias, ela temia que a mãe fizesse uma cena sem necessidade se os visse juntos. Mas a ideia de Phillip era boa, ele sabia que ela sabia disso.

— Está bem – concordou ela, após uma pausa que pareceu longa demais. — Creio que seria rude da minha parte recusar.

Phillip deu-lhe o braço e os dois seguiram para o centro do salão, a música acabara de começar, então Lenora lhe deu a mão e fez uma reverência ao iniciarem a valsa.

E enquanto isso, a mãe de Lenora assistia a dança surpresa, reconhecendo o visconde e chocando-se ainda mais pela ousadia do rapaz Weston.