Lenora e Phillip — Um amor quase impossível
20 Capítulo 19
Capítulo 19
(...)
Na manhã seguinte, Lenora sentia seu corpo inteiro tomado pelo cansaço.
Passara boa parte da noite acordada, despertara depois do sonho que tivera, um sonho no qual Phillip estava presente, onde eles não tiveram de parar porque corriam o risco de serem pegos nem nada do tipo. Lenora se assustara com o sonho, pois o mesmo se mostrara real demais.
Lembrava-se das sensações que dominaram seu corpo, da forma como ele a tocou e de como ela despertara querendo por mais.
Prendeu a respiração, as cenas de seu sonho se misturaram as lembranças da noite passada, do que fizera com Phillip às escondidas no jardim. Conhecia o próprio corpo para saber que a agitação que sentiu naquele momento e na agitação que sentiu quando despertou do sonho era desejo.
Um desejo que ela não sabia que sentia por alguém. Por ele.
Suspirou, precisava mudar a direção de seus pensamentos. Pensar nos diamantes, na verdade sobre a rixa e o motivo para tal, qualquer coisa que a distraísse.
Andrew e Jane a convidaram para passar parte do dia em sua residência depois do baile da noite anterior e, antes ela teria agradecido por isso, mas naquela manhã ela se amaldiçoava mentalmente por ter aceitado ao convite e prolongar sua estadia no lugar aonde fora beijada e onde não tinha qualquer paz para pensar em tudo o que houve.
— Lenora!
Seu nome veio seguido de um disparo alto, ela sacudiu a cabeça e piscou algumas vezes, tentando de maneira inútil afastar os pensamentos anteriores de sua mente.
— Lenora é sua vez. — Christopher segurava uma pistola e a apontou em direção ao alvo.
— Se demorar demais, a pularemos — avisou Benjamin.
Lenora o olhou e depois para o trigêmeo mais novo, levantou-se e caminhou até o tronco onde quatro pistolas estavam dispostas.
— Ande logo! — dessa vez foi Andrew a reclamar, o mais velho estava de pé, diferente dos outros dois que, após o tiro se encontravam relaxados em suas cadeiras.
Ela nem mesmo retrucou de volta, apenas escolheu uma pistola, a segurou e mirou. Sem pensar, sem piscar, atirou. Acertando o canto esquerdo do alvo.
Seu erro em acertar o centro do alvo fez com que os três soltassem gritos de animação.
As disputas entre irmãos que costumavam fazer eram sempre tiro ao alvo, algo que a mãe não aceitava e o pai se negava a permitir que fizessem isso diante de sua presença. Mas estavam longe dos olhares dos pais e, com os quatro reunidos novamente, era uma oportunidade única de se divertirem entre si.
E apesar de sua mente estar focada apenas em um assunto, ela não conseguiu evitar de reclamar alto quando errou.
— É um milagre!
— Céu e terra são testemunhas: Lenora Barrington errou o primeiro alvo!
Lenora não se virou para ouvi-los, conseguia distinguir as vozes de seus irmãos e tinha total ciência de que eram Benjamin e Christopher a comemorar o erro dela, ela simplesmente não se importava muito.
— Isso nunca aconteceu antes — Andrew comentou, aproximando-se de onde ela estava, pois agora seria sua vez.
Realmente, aquela era a primeira vez que Lenora errava o alvo desde que começaram com a disputa de tiros, os três poderiam achar que apenas tiveram sorte por seu primeiro erro, mas ela sabia a verdadeira razão para isso acontecer.
Sua mente não se encontrava concentrada na disputa como antes, apesar de querer — e muito — se divertir com os três mais velhos, ela não conseguia parar de pensar no beijo.
No desejo de ser beijada novamente e no que isso tinha como significado.
— O que houve com ela? — questionou Christopher.
— Devemos comemorar o erro ou nos preocupar? — Benjamin também perguntou, ele segurava o riso o melhor que conseguia.
Lenora revirou os olhos, uma atitude nada cortês para uma moça, mas quem se importava com isso? Ela estava diante de seus irmãos e não existia necessidade alguma de seguir o decoro, não na frente deles.
— Tiveram apenas sorte.
Retrucou de volta, tentando esquecer-se do beijo. Mas era impossível.
Afinal, tratava-se de seu primeiro beijo.
BUM!
Andrew disparou, ele também não acertou o centro do alvo, mas o tiro dado foi ainda melhor do que o disparado por Lenora. Contudo isso ainda fez os outros dois zombarem de seu tiro.
— Péssimo como sempre irmão. — zombrou Christopher gargalhando alto.
— Mas ainda atirei melhor do que Lenora. — Andrew o fuzilou.
— Isso é verdade — observou Benjamin.
Lenora levou a mão para os lábios, horas se passaram desde que fora beijada e ainda era possível sentir os lábios de Phillip sobre os seus. Assim como as mãos grandes dele a correr por seu corpo. Como isso poderia ser possível? Como era possível que um Weston a tivesse beijado — que ela tivesse dado o primeiro passo para um beijo? E por que ela queria beijá-lo novamente?
BUM!
Foi a vez de Benjamin de atirar, ela assustou-se com o disparo dado e olhou para o alvo, torcendo levemente os lábios quando viu que ele atirou melhor ainda. Próximo ao centro, o ponto pintado em vermelho que deixava claro o local que deveria ser acertado pelos tiros.
Pensar no beijo fez seu coração disparar. Ela não imaginou que isso fosse possível de acontecer, aquele sentimento estranho de ter sido arrebatada por algo mais forte do que ela enquanto Phillip a beijava com tanto desejo e paixão. Lenora apertou as mãos sobre o tecido de seu vestido, sabendo que o estaria amassando.
Ela sabia que algo despertou dentro de si, era grande e muito, muito diferente de tudo o que já sentiu antes. Diferente de tudo o que já sentiu por Phillip antes.
BUM!
O terceiro disparo a assustou também. Lenora ergueu o rosto e viu que Christopher já estava a sua espera, apontando com a pistola usada que seu tiro também fora quase — quase — certeiro no ponto vermelho. Lenora se aproximou, pegou a pistola e mirou.
Seus pensamentos nesse momento a levaram de volta para a noite anterior. A noite em que fora beijada por Phillip Weston. Seu corpo inteiro arrepiou-se com a lembrança, de suas mãos sobre ela, do toque urgente de seus lábios sobre os seus. E da forma como seu próprio corpo reagiu quando ele a beijou; como se ela precisasse dele, como se aquele beijo apenas despertasse nela um sentimento há muito escondido e primitivo dentro dela.
Estaria tendo sentimentos por Phillip após um beijo? Isso ao menos era possível?
BUM!
— Não é possível!
— Maldição!
— Que diabo...
Lenora piscou após ouvir uma mistura de reclamações, seu alvo estava mais a frente e o disparo dado acertou em cheio o ponto vermelho no centro; a deixando feliz e animada o bastante para zombar de seus irmãos.
— E a sorte retorna diretamente para mim — ela fez uma reverência apenas para debochar dos irmãos. — Continuo invicta, como deve ser.
— Errou o primeiro alvo, não está invicta. — reclamou Benjamin.
— O primeiro alvo não conta, tolo — responde ela. — Você mesmo criou essa regra, não se lembra?
Por algum milagre, ela conseguiu sorrir e mostrar desdém com a clara derrota dos irmãos, mas sua mente e seu corpo ainda se encontravam concentrados no beijo. E em tudo o que viera quando os lábios de Phillip tocaram os seus.
Em seu mundo, uma moça ser beijada fora de qualquer compromisso era motivo para um escândalo que abalaria toda a sociedade. Todos comentavam sobre as moças que se deixavam levar pelo calor de um toque ou pelas palavras dos libertinos e Lenora se orgulhava por nunca ter caído nesse tipo de encanto, afinal, sempre se manteve afastada de qualquer libertino que se aproximasse.
Mas Phillip não era um libertino. Era um amigo. Um amigo que a beijou.
Sua mãe sempre se mostrou muito orgulhosa pela filha nunca ter sido protagonista de fofocas como aquelas, mas Lenora certas vezes se sentia... Indesejada. Não que estivesse implorando por um tipo de atenção que poderia denegri-la, nada disso. Mas ela estava com vinte e dois anos, em sua quarta temporada e ninguém nunca ousou ou sequer tentou beijá-la.
Ela sabia que parte disso era porque muitos sempre enxergavam nela a aparência de seus irmãos, mas quando Phillip a beijou... a forma como o fez, como a tocou. Ela sentiu uma verdade não dita em cada ação dele. E sentiu desejada.
E o desejou também.
— Você quando está calada assim nunca é algo bom.
O comentário feito por Benjamin a fez olhar para o trio de irmãos mais velhos, os três estavam juntos, lado a lado e a olhavam com curiosidade.
— Estou apenas pensando.
— Jane disse que estava assim durante o começo do baile também — comentou Andrew. — E Violet e Isabella também disseram o mesmo.
— E daí? Tenho muito no que pensar.
O mais velho concordou.
— Está pensando sobre o conde Fox? Os dois valsaram ontem e ele a olhava como se quisesse levá-la para o altar.
Lenora torceu os lábios.
— Não penso nele. — reclamou. — E ele não me olhou como se quisesse me levar para o altar, ele estava se desculpando porque dançava como se fosse um descontrolado, isso sim.
— Ele pareceu gostar de você. — observou Benjamin. — E se não o espantar, poderá ser sua condessa muito em breve.
Em resposta ela mostrou a pistola e fez menção de atirar no irmão, uma ameaça que não foi levada a sério porque ela jamais seria capaz disso.
— Se não pensa nele, então creio, que talvez seja em outro pretendente em potencial? — foi Christopher quem perguntou.
— Por Deus, não!
Sim!
Sim?
O cenho de Benjamin se franziu.
— Lenora com pretendente? Ela não os coloca para correr como animais assustados?
— Talvez ela tenha batido a cabeça e mudou seu jeito de ser e percebeu que precisa casar-se logo — sugeriu Christopher num tom brincalhão.
— Não penso em pretendentes!
— Se não é em pretendentes, no que pensa tanto? — perguntou Andrew.
Lenora encarou o irmão com impaciência.
— Questões pessoais.
Ela exibiu um sorriso forçado, algo que deixava claro que aquela conversa acabara ali mesmo.
— Questões pessoas geralmente envolvem casamento. — insistiu Andrew, com um humor perigoso.
— Pensar demais seja lá no que for está lhe atrapalhando — resmungou Benjamin. — Se concentre e venha logo atirar, é o último tiro. O ponto final.
Ela segurou a única pistola que sobrou e se posicionou ao lado de Christopher, os quatro alvos estavam mais à frente. A regra era simples, todos atirariam depois da contagem e quem acertasse o centro venceria.
— Um — Andrew começou a contar. — Dois — os pensamentos de Lenora se distanciaram novamente, mas seus olhos se mantiveram fixos no alvo. — Três!
O som uníssono dos quatro disparos lhe doera a cabeça, mas era um som que ela já se acostumara, nem mesmo importou-se com o barulho alto das pistolas, seus pensamentos a levaram de volta para o momento do beijo e seu corpo reagiu com a lembrança. Enquanto isso, os três mais velhos apenas reclamavam pela derrota.
E apesar de ela ter saído vitoriosa na brincadeira, Lenora conseguiu comemorar muito pouco, porque dentro de si, um verdadeiro reboliço de sentimentos acontecia em seu interior e ela não sabia como lidar com isso.
Estaria tendo sentimentos por Phillip? E se realmente estivesse, como tudo entre eles ficaria agora? Como poderia continuar sendo sua amiga quando a simples menção de seu nome fazia com que suas pernas fraquejassem e seu coração disparasse contra o peito?
Era loucura, — Lenora sabia disso — pensar que seu primeiro beijo tinha o poder de despertar em alguém sentimentos por outra pessoa. Mas... E se isso estivesse acontecendo com ela? E se na verdade, esse sentimento sempre esteve presente dentro de si e ela precisou beijá-lo para ter conhecimento disso?
E por que quando pensava sobre isso, sobre Phillip Weston, tudo o que vinha em sua mente era desastre. Sua família jamais permitiria que ela o tivesse como pretendente.
Mas... ela o queria.
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Em Pambley, Phillip seguia pensando sobre o beijo e de como sentia que isso mudara tudo entre ele e Lenora. Foi difícil conseguir dormir, sempre que seus olhos se fechavam algo em seu subconsciente gritava para que ele despertasse. Era inaceitável que conseguisse dormir depois do que fez a Lenora.
Na verdade, depois de retribuir ao beijo que ela lhe dera.
Verdade seja dita, ele gostara daquilo. De senti-la, dos toques, dos suspiros... Passara tempo demais tentando imaginar como seria beijá-la e quando finalmente aconteceu, ele viu que o que sua mente tanto tentou imaginar não chegou nem perto da realidade e de seu anseio por mais.
Não seria tolo em acreditar que isso — que o beijo iria vir a acontecer uma segunda vez. Era maduro e realista o bastante para ter em mente de que o ato não tornaria a acontecer. E todos os motivos eram conhecidos e igualmente temidos.
Sentado de frente para sua mesa ele encarava o amontoado de correspondências não lidas e não sabia bem o que fazer com elas. Sua mente não lhe dava descanso e também não permitia que ele se ocupasse com outros afazeres ou pensamentos. Era loucura pensar no beijo, foi uma loucura ainda maior tê-la beijado.
Mas se deu conta de que cometeu loucuras demais para uma única noite, começara concordando em ir procurar os diamantes, seguiu em invadir a casa dela, se esconder em seu armário para que não fossem pegos e terminou a noite a beijando.
Mas o beijo era um assunto completamente diferente, era uma loucura que o levaria para a morte certa e a desonra de Lenora.
Phillip inspirou fundo, nem mesmo a bagunça que seus irmãos estavam fazendo o irritava ou causava em si algum incômodo, sua mente se encontrava desligada demais do que o cercava. Ele apenas queria pensar. A respeito do beijo, do que faria, de como tudo ficaria entre ele e Lenora.
Os pais dela o caçariam e seus três irmãos mais velhos... Eram super protetores com Lenora e muito provavelmente o matariam facilmente. Nem mesmo iriam exigir um casamento pela desonra, afinal, eles jamais permitiriam que tal união acontecesse; mesmo que a honra de sua filha estivesse em jogo. Nem mesmo se contassem que a rixa não passava de uma grande mentira criada.
— Deus me ajude — resmungou alto.
Um beijo poderia arruinar muita coisa, ele sabia disso, mas nunca de fato acreditou que fosse verdade. Era um romântico, beijos costumavam significar um desejo incontrolável pela outra pessoa e ao pensar no beijo entre ele e Lenora a única coisa que vinha em mente era: Desastre. Não apenas por eles serem amigos, mas pela questão de suas famílias.
Percebendo que não iria conseguir distanciar tais pensamentos, Phillip decidiu que deveria se ocupar com algo, e decidiu que arrumar toda a papelada jogada sobre sua mesa. Começou a organizar, ou pelo menos a tentar, sua mesa, haviam contratos, convites, correspondências... Papel demais para dar conta, mas pela primeira vez enxergou isso como algo bom para si, dessa maneira, sua mente se ocuparia com algo que não tivesse relação alguma com Lenora.
— Convites...
Murmurou ao pegar o primeiro bolo de correspondências de sua mesa, uma quantidade alta de convites para bailes, recitais e todo o tipo de evento possível que aconteceria durante e depois da temporada naquele ano.
Eventos que exigiam sua presença como visconde.
Sem prestar muita atenção ele respondeu alguns, recusou outros e quando abriu o último cartão, quase caiu para trás.
— Lorde e Lady Barrington o convidam para o baile de máscaras em celebração ao aniversário de Lady Grace... — ele parou de ler quando o sobrenome Barrington preencheu todo do seu campo de visão.
Verificou a data e sentiu que a própria morte estivesse marcando a data de sua tão certa morte, daqui a duas semanas.
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