Lenora e Phillip — Um amor quase impossível
13 Capítulo 12
Capítulo 12
(...)
— ... E eu soube que mesmo com a insistência de seus pais para que ela se casasse com ele, Margareth foi clara ao dizer que jamais permitiria que alguém como Mark a levasse ao altar — Lenora fofocou para a mãe enquanto a mais velha se deliciava com um lanche de peito de peru.
Ela tentou não reparar que aquele era o seu terceiro seguido e segurou qualquer comentário a respeito, sabia que a mãe lhe daria uma bela bronca se trouxesse à tona aquele detalhe de sua alimentação.
— Há uma desconfiança porque aparentemente ela fora pega tendo intimidades com Mark, o irmão caçula do velho Kent, mas é apenas uma desconfiança. — ela prosseguiu. — Só que, ela não quer casar com o Thomas, que se diz perdidamente apaixonado por ela e Margareth também não quer se casar com Mark.
Grace olhou preocupada para a filha.
— E tem mais, correm boatos que até apostas estão sendo feitas sobre quem a levará ao altar — ela fez uma pausa, arrumando-se sobre o sofá antes de prosseguir. — Apostei trinta libras que ela não irá casar-se.
Sua mãe a olhou com fúria.
— Fez uma aposta? Por Deus, Lenora! — reclamou.
— Eu não teria feito uma aposta se não soubesse o que irá acontecer — justificou. — Ela não vai se casar e daqui alguns meses ganhei umas libras a mais.
Lady Barrington bufou em clara desaprovação, mas Lenora sabia que no fundo a mulher estava torcendo para que ela estivesse mesmo certa. Caso contrário, iria perder trinta libras por pura besteira.
— Se Margareth não casar-se com nenhum dos dois, será oficialmente uma solteirona aos vinte e seis anos! — exclamou a mãe. — Como os pais dela permitissem algo assim?
— Ora, por favor, mamãe, Margareth é uma moça já adulta e rica o bastante para não ter de se preocupar em casar-se com o primeiro herdeiro que aparece em sua casa — contou Lenora. — E além disso, tudo indica que ela não irá se casar mesmo. Não vejo problema nisso, a vida de uma solteirona não parece ser tão terrível como a senhora tanto diz.
Os olhos castanhos de sua mãe se arregalaram, a mulher estava pronta para dar uma bronca na filha pelo comentário porque sabia muito bem o que ela queria dizer com tais palavras.
— Enquanto eu estiver viva, meu objetivo é casá-la — declarou. — Pode passar anos, mas eu não vou permitir que se torne uma solteirona como as outras. Não pense que serei como os pais de Margareth que permitam que a filha não tenha um bom futuro.
— Ela é rica mamãe, o dote dela é ainda maior do que o meu. — disse. — Futuro com um homem ela pode não ter, mas com dinheiro...
Lady Barrington não lhe deu chance de terminar de falar.
— Ser fofoqueira não é o bastante, Lenora? Quer também ser uma solteirona?
Por um segundo ela pensou a respeito, apesar da confusão estranha que vinha acontecendo em seu interior e relação a Phillip, Lenora tinha ciência do quão impossível e tolo tais sentimentos eram e decidiu que seria mais sensato deixá-los de lado. Não, ela não iria procurar por um marido, como a mãe insistia que ela fizesse e também não se atiraria para o primeiro que aparecesse e lhe oferecesse uma dança.
Se terminasse a temporada solteira e as demais também, que mal teria? Não era uma herdeira como os irmãos mais velhos, mas tinha um dote que a sustentaria pelo resto de sua vida.
Isso bastava.
— Nem pense em responder — pediu a mãe, começando a devorar o quarto lanche seguido.
As duas ficaram em silêncio durante o tempo em que Grace levou para finalizar o lanche.
— Onde ouviu essa história da Margareth? — a mais velha perguntou de repente, mostrando um interesse genuíno pela fofoca.
Mostrando um riso vitorioso por ter despertado o lado fofoqueiro da mãe — ela tinha a quem puxar afinal — Lenora se inclinou para ela, evitando que outros curiosos se atentassem a sua conversa.
— Gregory, o irmão dela estava conversando comigo e Lady Coublepett no baile de ontem. Essa história partiu dele — respondeu como se estivesse contando um grande segredo e talvez estivesse mesmo.
Até o momento, apenas cinco pessoas estavam sabendo sobre o ato rebelde de Margareth Preston.
Lady Grace suspirou alto.
— E quando encontrou tempo para fazer essa aposta?
— Com o próprio irmão dela — disse. — Acredita que ele está apostando mil libras que a irmã vai casar com Mark? — ela riu. — Não é um tolo? Perderá muito dinheiro.
A mãe concordou.
— Vou começar a proibi-la de passar mais de cinco minutos com aquela velha fofoqueira — resmungou a mulher.
— Você me pareceu bem interessada enquanto ouvia — acusou ela.
— Interesse porque tenho pena dos pais de Margareth, apenas isso. — respondeu dando com os ombros. — Não me agrada nada saber que uma moça de vinte e seis anos tenha se mostrando tão rebelde assim para com seus pais. E que o irmão faz apostas a suas custas.
Lenora nada respondeu, até porque ela estava passando quase pela mesma situação. Com a diferença de que ela jamais seria capaz de um ato como aquele, ao menos não quando a mãe desconfiava de uma possível gravidez e o pai estava no auge de sua saúde.
Fofocar mostrou-se uma eficácia para Lenora. Depois do passeio no dia anterior e o baile onde encontrou-se com Phillip — e tivera uma dança com ele sem que a mãe soubesse —, ela tinha muito, muito no que pensar.
Percebeu que ainda se encontrava incomodada com a questão de sermos apenas amigos. Grandes amigos.
— Lenora?
Por que estava tão incomodada com aquilo? Não era mentira, eram grandes amigos desde que se conheceram. Estavam sempre compartilhando segredos entre si, muitas das vezes segredos nem mesmo lhes pertenciam. Na verdade, eram confidentes do outro.
Mas, por que ainda estava incomodada em ser uma grande amiga dele? Afinal, era isso o que eram, não é?
— Lenora.
Ela piscou ao ouvir o próprio nome pela segunda vez, sua mãe a olhava. Esperando.
— Desculpe-me… Estava apenas pensando. — disse ela, colocando a xícara ainda com chá de volta a bandeja.
— Sobre?…
— Coisas.
A mais velha arqueou uma sobrancelha.
— Não está pensando sobre o ato rebelde de Margareth está?
— Claro que não — negou rapidamente. — Não tem nada a ver sobre a situação dela.
Isso despertou o interesse da mãe e um alívio também.
— Então sobre o que é?
— Ninguém em especial.
Surpreendeu-se por conseguir fingir que pensar em Phillip não era nada demais, ou que ele fosse ninguém em especial.
— Ficou pensativa muito de repente — observou a mais velha. — Quando isso acontece geralmente não é por causa de “ninguém em especial”.
Lenora sabia que a mãe não lhe daria descanso tão cedo, quando ela simplesmente parava de falar e ficava quieta demais todos já desconfiavam de que algo não estava certo. Grace percebeu isso logo de cara, conhecia a filha.
— É melhor contar logo, — ela disse, apesar do tom bem humorado de sua voz estava claro a cobrança por encerrar aquele mistério desnecessário. — Herdou a teimosia de mim, sabe que posso ser bem pior do que é.
Ela bufou. Estava certa.
— Tudo bem — Lenora cedeu. Porque sabia que a mãe iria mesmo atormentá-la; do mesmo jeito que ela faria se fosse o contrário. — Estava apenas pensando em alguém.
— Um cavalheiro?
Apesar da supresa em sua pergunta, Lady Barrington conseguiu esconder o entusiasmo em sua voz e Lenora agradeceu por isso.
— Não. — respondeu ela. — Acho que um amigo, na verdade.
— E qual o problema?
— Não sei ao certo — admitiu.
Porque realmente não sabia o que era, percebia que existia sim um problema, mas não estava conseguindo enxergá-lo e isso vinha acontecendo desde a noite passada.
— Tem algo que está me incomodando.
Lenora uniu as mãos sobre seu colo, notou que mesmo por debaixo das luvas seus dedos pareciam trêmulos.
O corpo todo tremia diante de uma incomum possibilidade que ela soubesse o problema, mas não queria admitir.
— É o fato de ser apenas uma amiga dele é o que a incomoda?
Isso fez com que Lenora erguesse o rosto e olhasse para sua mãe, diferente do que imaginou Lady Barrington não a encarava como quando estava falando sobre casamento. Era algo mais reconfortante, ela não sabia ao certo como descrever, mas sentiu-se mais acolhida com o olhar que recebia.
— Mamãe, não diga bobagens. — tentou desconversar, apenas para não falar mais sobre aquele assunto.
Porque a suspeita da mãe estava certa. Odiava o fato de ela ser astuta.
— Não é bobagem. — disse a mais velha. — Quero que saiba que não estou falando sobre casamento e sim sobre seus sentimentos. Está óbvio que é isso o que a incomoda.
Lenora abaixou o rosto e encarou as mãos outra vez, abriu as palmas e imaginou segurando seus sentimentos naquele mesmo momento.
Então era isso? Seus sentimentos?
— Eu não sei como falar sobre isso.
— Percebo — sua mãe balançou a cabeça levemente. — Você nunca foi muito de falar sobre, provou isso ao me contar sobre esse seu grande amigo apenas agora.
O que diria a ela? Esse amigo que estou falando trata-se de Phillip Weston. Um Weston!
— É complicado.
— Conte-me, talvez eu possa lhe ajudar.
Ela ficou em silêncio durante um tempo, os pensamentos tentando ser organizados, mas isso parecia ainda mais difícil do que pensou. Sempre gostou de falar e nunca encontrou nenhum tipo de dificuldade nisso, mas por alguma razão, isso estava acontecendo naquele momento.
Com sua mãe.
Lady Grace percebeu que a filha não conseguiria falar naquele momento e aproveitou um dos raros momentos de seu silêncio para falar.
— Lenora, você sempre foi mais fechada do que seus irmãos quanto a si mesma e isso é algo bom. Mas há momentos em que o que existe aí dentro precisa ser dito. Há coisas que não podem ser guardadas. — contou muito calmamente. — Sentimentos principalmente.
— Mamãe eu não…
— Não incomodo-me em você preferir manter segredo sobre seus sentimentos e o que mais achar conveniente, mas o que quero dizer é que, você nunca se abre e nesse momento, isso está lhe prejudicando. Consegue entender meu ponto?
— Sim.
— Não sei o que pensa, não sei como está seu coração… Entendo que seja assim, mas chegará um momento em que irá precisar soltar o que existe dentro de você. Se não for para mim, para outra pessoa. Quero que pense nisso.
E Lenora pensou. Muito.
— Eu... — ela começou a falar, mas parou logo em seguida.
Hesitou.
Lenora suspirou, olhou novamente para as mãos, ela sabia que precisava falar aquilo com alguém e quem melhor para fazê-lo do que sua mãe? A mulher a criou, sempre lhe ajudou e a ajudaria com esse assunto também.
— Existe uma possibilidade de eu não querer ser apenas amiga, o que não faz sentido algum porque eu claramente não sinto nada por ele. — as palavras saltaram de seus lábios com tanta rapidez que quando Lenora se dera conta do que dissera, a reação que ela teve a assustou. — Somos amigos, mas de repente isso começou a me incomodar.
Admitiu. Surpreendendo-se com o que dissera, porque não imaginou que seria capaz disso; de dizer a verdade para sua mãe sem que saísse correndo como uma grande covarde.
Grace sorriu de forma compreensiva, mantendo os olhos fixos na filha.
— Realmente não faz ideia do motivo de você começar a se incomodar com isso? Assim de repente? — perguntou com ironia.
O cenho da mais nova se franziu.
— O que está insinuando?
— Lenora, você é inteligente, sabe muito bem o que estou insinuando.
Sim, ela sabia. Mas admitir, dizer as palavras em voz alta parecia estranho.
Era possível que estivesse mesmo tendo sentimentos por Phillip? Eram amigos há quatro anos, isso não ia contra as regras de uma amizade longa como a deles?
— Isso é impossível — Lenora respondeu convicta. — Não há nada que tenha me influenciado isso.
Lady Barrington cruzou as mãos sobre o colo e continuou a encarar a filha com bastante atenção, a teimosia — disse mentalmente — aquela característica de um Barrington era um fator predominante em todos os seus filhos.
Mas em Lenora, era ainda pior porque ela simplesmente não cedia tão facilmente como os outros.
— Acha que para isso acontecer um dos dois precise fazer algo que influencie esse tipo de sentimento?
— Claro que sim. — respondeu a moça, como se aquilo fosse algo muito óbvio.
Um suspiro baixo saiu dos lábios de sua mãe.
— Lenora entenda uma coisa, — Grace esticou a mão em sua direção, como estavam de frente para a outra, ela não precisou de muito esforço para tal. — Nós não temos controle sobre nossos sentimentos, às vezes algo desperta dentro de nós quando menos esperamos e não precisa ver isso como algo ruim.
A mulher deu com os ombros após uma pausa rápida.
— Se está incomodada por achar que não deveria se sentir dessa maneira é porque você acha que precisa estar no controle de tudo, está vendo isso como um incômodo porque nunca se sentiu assim antes, não é algo que possa controlar.
Lenora encarou a mãe.
— Acabou de me chamar de controladora?
Ela sorriu de forma gentil.
— Você sabe que é, — respondeu com um aceno positivo. — E não há nada de errado nisso, mas você sempre foi tão acostumada a ter o controle de tudo e todos que, no primeiro sinal de algo que não possa controlar reage assim — Lady Barrington apontou para a filha. — Você estar começando a sentir algo pelo seu amigo não é algo ruim, mas age como se fosse porque não pode controlar esse sentimento.
É porque ele nunca será aceito por vocês. Ela pensou sobre isso, o fato de Phillip ser da única família que seus pais odiavam na sociedade.
Parecia como uma grande ironia, ela possivelmente estar começando a ter sentimentos pela única pessoa que seus pais jamais aprovariam como marido. Riu internamente com isso, em como tudo isso parecia como uma piada.
Elas não tocaram mais no assunto quando John entrou na sala de visitas e se juntou a elas, apesar de saber que o pai também iria gostar de conversar sobre o assunto, Lenora achou que estaria se expondo demais assim e preferiu agir como se nada estivesse acontecendo.
O que era difícil porque as palavras de sua mãe continuavam em sua mente e mesmo que ela lutasse contra tais sentimentos insanos sobre Phillip, eles se veriam mais frequentemente nos bailes por causa do diário de seu tataravô; o qual ele está traduzindo.
Em dado momento ela deixou a sala e se trancou em seu quarto, pensando sobre a conversa breve que tivera com a mãe e também sobre os próprios sentimentos confusos.
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