Lendas de Zaron
1 Prólogo
x.
Há milhares de anos, existiu um reino onde todas as raças das terras de Zaron conviviam pacificamente. Em uma época onde não haviam guerras, não havia fome ou pobreza. Quando ainda não existia o mal, quando os seres não eram egoístas, egocêntricos e nem cruéis...
Escondido em um passado tão distante que nem o ancião mais antigo do reino dos elfos podia dizer se era verdade, ou se era apenas uma história para contar para as crianças, tudo que se sabia era considerado apenas isso, mitos e lendas.
A história de como o Cajado da Verdade surgiu da terra e trouxe a desgraça para todos os povos de Zaron.
Damien lembrava perfeitamente como tudo aconteceu, como se fosse ontem. Como se não tivessem passado milhares de anos.
Do dia que foi expulso dos portões do Inferno. Do dia que perdeu tudo.
Perdeu mais do que, em qualquer momento da sua existência milenar, sequer pensou que possuía.
A fome fazia o estômago de Phillip doer de maneiras que nunca achou que fossem fisicamente possíveis. Por Deus, ele facilmente mataria um homem em troca de um pedaço de pão. Doía tanto, mais tanto, que nem mesmo sentia mais frio. Os trapos que vestia não eram adequados ao clima frio, mas essa era a menor preocupação agora.
Kuupa Keep , o grande reino dos humanos, ficava localizado entre aquelas montanhas geladas e com uma floresta imponente ao redor, no que parecia ser onde o mundo acabava. Não que tivesse visto muito do resto do mundo para ter certeza, mas gostava de pensar que aquele era o fim.
Todo o reino tinha um aspecto acabado e cheirava muito mal, a coisa suja, não havia nada de muito luxuoso onde a maioria dos cidadãos comuns vivia. A maioria deles também era pobre – só não tanto quanto Pip – e vivia da maneira que conseguia em um reino que havia declarado abertamente guerra há quase oito anos, já que todo o dinheiro estava voltado para manter o conflito. E eles, os humanos, estavam perdendo.
O loiro não era daquela terra. Ainda criança e com os pais vivos, atravessou um oceano inteiro para chegar daquele lado do globo e nessa época as coisas não eram ruins. Muito melhores que a ilha, o vilarejo, que sua família tinha abandonado em busca de uma promessa e um sonho de uma vida melhor, em uma grande capital.
Mas, como sempre, coisas boas duram pouco e, algum tempo depois de chegar, a Coroa declarou guerra aos elfos e tudo ficou cada vez pior. Pip não sabia de muito e nem teria como saber, mas essa guerra era responsável pelos seus pais mortos e por sua fome, então não gostava dela.
O céu era coberto por nuvens cinzas quase o tempo inteiro, tudo tinha aquele aspecto descolorido e até triste. Nem mesmo na rua mais movimentada de toda a cidade, onde ficava o comércio, conseguia ser muito diferente.
Pip estava escondido em um beco quando olhou ao redor, à procura de alguém distraído. Orgulho era a última coisa que sentia por considerar seriamente roubar, havia muito mais medo em ser pegue e de cortarem sua mão.
Mas ninguém naquele lugar infeliz lhe daria um pedaço de pão se não tivesse dinheiro, então essa era a sua única opção. A comida do lixo tinha feito Pip ficar doente por dias e quase morrer, não tinha vontade de arriscar novamente.
Não ficou muito tempo procurando antes de avistar uma moça distraída olhando uma barraca de tecidos e falando com o vendedor. A cesta dela estava cheia de comida. Seu estômago e ele mal sentiu o chão gelado sob os pés quando deixou o beco sujo. Andou de cabeça baixa para perto da mulher e mal conseguindo conter o nervosismo.
Pensou em desistir muitas vezes, temendo profundamente que alguém no meio da multidão fosse-lhe ver discretamente tirar o pão escuro de dentro da cesta, mas suas mãos se moveram sozinhas.
Em posse da comida, Pip se arrependeu no mesmo instante, sentiu vontade genuína de colocar o pão de volta na cesta e sair envergonhado, mas, no meio de todas aquelas pessoas, alguém viu. Alguém gritou “ ladrão ” e o garoto agarrou o pão com mais força antes de correr para longe.
Se colocou no meio de uma das ruelas confusas da cidade e estava tão cansado quanto aflito quando mordeu um pedaço grande demais, sem mastigar o suficiente e engoliu. Olhou com medo para o lugar de onde tinha vindo, temendo que alguém lhe achasse e todas as consequências disso.
O arrependimento se misturou com o alívio de conseguir finalmente acabar com a fome, de um jeito que não conseguiria separar mais, e mordeu um pedaço mais moderado. Não conseguiu identificar o gosto, mas com certeza era a melhor coisa que tinha comido em toda a sua vida.
Pip gostaria de ficar ali por dois ou três minutos, terminar de comer com alguma calma e nem mesmo sabia se conseguiria correr novamente. Mas não importava, ele logo precisaria.
Ainda não tinham desistido de pegá-lo. Dois adultos apareceram na entrada da ruela olhando ao redor e o loiro não estava exatamente escondido. Recuou de medo e o “ei!” de um dos homens foi o incentivo que faltava para que fugisse de novo. Ele correu para mais ruas estreitas e confusas, com casas pobres, até que estava na periferia da cidade e mais perto da floresta.
Era um lugar perigoso, todos sabiam disso, mas Pip preferia encarar a floresta escura do que lidar com as consequências daquele roubo.
Não pensou duas vezes quando pulou o muro de meio metro e entrou na floresta. A terra era fria e úmida, cheia de folhas mortas, e as árvores altas e imponentes. Pouca luz natural passava pelas copas cheias e o ambiente conseguiu ser bem mais gelado que na cidade, fazendo os ossos doerem de frio.
Ofegante, Pip parou de correr e olhou para trás, felizmente não viu nenhuma outra alma viva e se encostou em uma árvore para descansar. Ele finalmente sentiu que poderia comer o resto do pão e assim fez. Enfiou um último pedaço amassado na boca ansiosamente, mas comendo com mais calma.
Porém, não teve muito tempo para relaxar.
— O que você está fazendo aqui?
Não tinha visto ou escutado a figura de capuz chegando e o susto foi inevitável. Ele não estava ali da última vez que olhou e tinha sido muito rápido. Já estava pronto para correr de novo, não conseguia lembrar da última vez que fugir não fosse a solução dos seus problemas.
Mas Pip não correu.
O homem abaixou o capuz e revelou um rosto que nunca havia visto na sua vida, mas que também era estranhamente familiar. Ele era doentiamente branco acinzentado, com o cabelo preto e olhos vermelhos, que nem mesmo os elfos tinham.
O estranho tentou se aproximar, Pip deu um passo para trás e bateu com as costas no tronco da árvore, mas não se viu tão assustado quanto deveria. O rosto dele não era estranho, havia algo ali que Pip ainda não estava entendendo.
Que sensação era aquela?
— Damien?
Anjos e demônios não têm alma e a morte, diferente do que é para os seres destinados a caminhar na Terra, significa o fim de uma existência
Ao menos foi isso que Deus disse há muito, muito tempo atrás...
Com o passar das décadas, Damien viu que talvez não devesse ter acreditado nele.
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