Lendas da meia-noite

5 Maldita profecia


— Sabe que dia é hoje? — Perguntou Donen entrando na casa dos Cooper para a pequena Sophia.

— O dia em que eu farei minha primeira vigília! — Comemorou a garota abraçando Donen.

— Ah, Donen, como vai? — Perguntou Bradley batendo nas costas do amigo.

— Bem, muito bem. Onde está minha querida Laura?

— Foi ao mercado, fazer compras para o almoço. Quer ficar e comer conosco?

— Claro. Tudo para ver minha irmã. — Ele comenta e se dirige para a sala de estar.

Todos sentam na sala e conversam. Donen é um ótimo tio para as crianças. Elizabeth pouco falava, mas Sophia já conversava por todos. Tyler estava realmente mudado, era outra criança com muito mais energia e mais alegria.

— Então Tyler, acha que já consegue ser um grande lenhador? — Pergunta Donen, impressionado com a mudança do garoto.

— Eu não sei. Tenho que ser muito mais forte para conseguir ser que nem meu pai.

— Ah, então quer ser igual a esse fracote aqui? — Ele brinca batendo nas costas de Bradley que ri. — Mas não é muito difícil!

— Cuidado Donen... Sabe que ganho de você numa queda de braço. — Adverte brincalhão.

— Melhor mudarmos de assunto não? Mas relaxe Tyler, terá muito tempo para ficar forte. — Donen pisca para o sobrinho. — E a minha pequena princesa curiosa? Está ansiosa?

— Não entendo toda essa animação. — Elizabeth faz-se ouvir pela primeira vez na vez, lembrando a todos de sua presença.

— Bem, eu estou muito ansiosa para a primeira vigília. — Responde Sophia ignorando a irmã.

— Lize, a primeira vigília é o seu primeiro passo para realmente fazer parte da vila, você sabe. – Donen fala mansamente.

— É tudo uma porcaria. Todas as histórias que vocês contam, toda essa história de proteger a vila e fazer parte dela, não tem sentido, no final são todos egoístas e ninguém se incomoda em magoar outra pessoa. Se a Sophia está animada para fazer parte desta besteira, então ela é mais idiota do que pensava.

— Relaxa Sô, ela só está brava porque o namorado a rejeitou. – Comenta Tyler, rindo.

— Cala a boca Tyler! – Grita Elizabeth levantando do sofá.

— Elizabeth Pepper Cooper! – Chama seu pai. – Essa não é a educação que eu te dei. Peça desculpas para os seus irmãos agora!

— Não! Eles são idiotas e você também! Todos são idiotas ignorantes! — Ela grita e sai da sala correndo.

Todos ficam pasmos com o ocorrido. O pai, chocado e não acostumado com o comportamento da filha, não reage no momento, mas Sophia sim.

— Eu vou falar com ela. – Fala apressada e corre para que seu pai não a impeça de ir falar com sua irmã.

Ela sobe as escadas e vira para o corredor da direita, se direciona para a segunda porta à esquerda, bate na porta, ninguém responde e ela abre mesmo assim.

— Saia Sophia. Não quero você aqui. – Resmunga Elizabeth sentada na cama, encostada na cabeceira de madeira e abraçada com seu travesseiro com a fronha rosa.

— Por quê?

— Porque eu quero ficar em paz. Será possível?

— Você está sendo uma idiota, sabia? Mamãe vai vir e brigar com você.

— Claro que vai. Ninguém liga pra mim. Tenho sempre que ser a irmã mais velha amável e meiga, eu não posso ter meus dias ruins? Não posso simplesmente estar mal, sem que venham me irritar?

— Isso parece mais solidão do que paz. — Sophia senta na frente da irmã.

— Acho que sou a única que não vê diferença... — Lize funga o nariz e desvia o olhar para o armário ao lado.

— Lize... Conta-me o que está te incomodando, quem sabe eu te ajude.

— Ninguém pode me ajudar.

— Nunca se sabe... — Sophia sorri.

— O Edmundo... Ele preferiu a Clarisse Ford e me deixou de lado. E sou apaixonada por ele há três anos. Agora, só porque ela aparece com um vestido mais bonito e cabelo penteado ele corre atrás dela. Eu vou acabar sozinha, pois se nem o Edmundo me quer, quem vai querer?

— Muitos outros garotos podem te querer. Elizabeth, você é linda e inteligente, qualquer um teria sorte de te ter como namorada, ainda não é o fim do mundo.

— Claro que é! Até você tem um namorado, e eu não! Vou acabar sozinha, estou vendo isso.

— Espera... — Sophia começa a rir. — Eu não tenho um namorado.

— Ah não? E o Christopher Halley?

— Que nojo! Ele é meu amigo, não namorado.

— Espere mais uns dois ou três anos e vamos ver até onde essa amizade levará vocês dois.

— Argh! Você é nojenta. Por que só pensa nessas coisas?

— Porque é o que realmente importa. – Elizabeth sorri encarando o travesseiro. – Eu já deveria ter um noivo...

— Você é tão... – Sophia se prepara para ofender a irmã por se importar com essas coisas que ela não considera nada importante quando reconsidera e prefere ficar quieta. – Deixa pra lá. Vou descer e esperar o almoço.

— Faça como quiser. – A irmã mais velha se limita a responder.

A menina do cabelo desgrenhado se levanta da cama da irmã e bate a porta do quarto, caminha pelo corredor e desce as escadas quando escuta a voz da mãe na cozinha e sai em disparada para lá.

— Mãe! O almoço vai demorar muito para ficar pronto? – Ela pergunta encostada no batente da porta.

Laura estava cortando legumes enquanto conversava com Donen e o marido, eles estavam rindo muito até Sophia chamar a atenção dela na cozinha.

— Ah, querida, vai demorar um pouco. Vá brincar lá fora, sim?

— Está bem, vou chamar o Chris. – Sophia corre para sair de casa, como se cada segundo fosse importante.

E talvez fosse.

— Mas essa menina não para quieta! – Ri Donen, de braços cruzados.

— Não mesmo. – Concorda Bradley sentado à mesa de madeira.

— Amor, vá pegar lenha para o fogão, sim? Irei cozinhar os legumes agora.

— Tudo bem, já volto. – O marido sai do recinto, deixando Laura e Donen sozinhos na cozinha.

— Não sei como aguenta cozinhar todos os dias.

— Ah, é fácil quando pega o jeito. – Laura responde. – Eu não sei como você aguenta servir bebidas o dia todo e ainda contar lendas de meia-noite para as crianças...

— Já sei aonde quer chegar. – Donen ri. Laura nunca aprovou que assustar crianças fosse seu passatempo. – As crianças precisam dessas lendas. São a nossa tradição e formação!

— A Sophia acordou chorando, o Brad te contou? Teve um pesadelo com a maldita bruxa!

— Eu também tive vários pesadelos quando pequeno e não me afetaram em nada na vida.

— Tem certeza? – Laura brinca. – Você virou o próprio Contador de Histórias que assusta as crianças.

— É que alguém tem que assumir a tarefa de passar a cultura para frente.

— Sei. Alguém tem que assustar as crianças para que chorem a noite inteira. – Ironiza Laura.

— Ei! – Ele se aproxima de sua irmã caçula que terminava de cortar cenouras. – Olha, lamento que Sophia tenha tido pesadelos por culpa das lendas, mas ela adora escutá-las! Você tem uma criança muito inteligente e curiosa, não a prive do que ela gosta só por causa de uns pesadelos.

— Queria saber se diria a mesma coisa de tivesse filhos.

— Não ligue para ela, Donen. Essas mães são cheias de frescuras! – Brinca Bradley entrando na cozinha carregando lenha para o fogão.

— Com certeza Brad! – Eles riem, mas Laura permanece séria.

— Ótimo, já se divertiram muito? Ajudem-me ou então saiam da minha cozinha.

— Calma Laura. Donen disse que veio aqui conversar sobre a Sophia. – Lembra Bradley terminando de pôr a lenha no fogão.

— Acho que ele já falou sobre isso.

— Não, não era sobre as lendas que eu quero falar. Sentem-se. – Ele pede perdendo a postura engraçada tão típica.

Laura põe os legumes para ferver na água e senta ao lado de seu marido e ambos de frente para Donen, que estava sério e um tanto preocupado.

— Hoje é a primeira vigília da pequena, vocês sabem o quanto perigoso é. Mas creio que com Sophia será ainda mais perigoso.

Laura ri.

— Irmão, perigoso não seria um termo muito forte?

— Perigoso é o termo perfeito para essa ocasião. Sabe... Eu andei pesquisando na biblioteca da Vila. Há algumas profecias interessantes. A maioria é muito antiga, mas uma é recente e vem acompanhada com um desenho que lembra a sua caçula. – Donen tira do bolso da calça um papel amarelado e dobrado e entrega para os pais da menina. – Diz que essa garota desenhada será quem irá abrir os portões do místico e derrubar os muros que separam dois mundos distintos. Restabelecendo o caos e o medo, e então ela morre pelas mãos da deusa, e tudo começará sob a vigília.

— Você não pode acreditar nisso e muito menos nos pedir para acreditar! – Protesta Bradley. Laura não fala nada, apenas encara o desenho.

— Acalmasse Brad. Profecias nada mais são do que uma versão possível do futuro, talvez uma pequena coisa acabe mudando todo o rumo dessa história, ou já mudou. Só quero que sejam atentos e, por favor, acreditem em mim.

— Sabe Donen... Você sempre acreditou nessas fantasias. Não sei o motivo, mas sempre fui seu oposto. Cética. Então por que acha que iria acreditar nesse misticismo todo agora?

— Porque eu adoro a pequena. E eu sei que vocês querem protegê-la, e mesmo não acreditando nessas coisas, tomarão cuidados para que nada disso tenha a mínima possibilidade de ser verdade. Fiquem atentos aos sinais. É importante.

— Que sinais? – Perguntou Laura.

— Um comportamento diferente é um bom exemplo. Qualquer coisa anormal nela seria um sinal.

— Espera. Laura, você está mesmo acreditando nisso? São lendas! Nada dessas coisas são reais. Se por acaso achou um desenho que aparenta ser nossa filha, é só uma coincidência. Afinal, um dia alguém com as mesmas características iriam aparecer. Esses papéis têm quantos anos? – Questiona Bradley.

— Cerca de duzentos e cinquenta anos. Não vou forçá-los a acreditar, nunca que irei fazer uma coisa dessas. Mas fiquem atentos. Ela é curiosa demais e esperta demais, gente assim se machuca fácil. De um jeito ou de outro, vai ser bom ficar de olho nela. – Donen fala ainda sério.

— Obrigada irmão, com certeza ficaremos atentos. Pelo sim e pelo não, vale à pena ter precaução. – Laura sorri.

No fundo Laura não era tão cética quanto pregava desde a infância, sempre temeu a chance de todas essas lendas serem verdade, e era sempre precavida com tudo. Preferia a realidade, ao contrário do irmão que preferia o místico. Mas Bradley era o homem mais cético que se pode encontrar naquela Vila.

— Bem, eu ainda não acredito em nada dessa baboseira. Mas obrigado mesmo assim pela preocupação. – O pai de Sophia levanta e devolve a folha para Donen. – Vou chamar as crianças para comer.

— Faça-me esse favor querido, a sopa de legumes está quase pronta. – Bradley se despede da mulher com um beijo e vai chamar seus filhos para almoçarem antes da vigília de Sophia. – Obrigada Donen, por vir aqui e nos avisar. Pode não ser verdade, mas o precavido morreu de velhice, não?

— Com certeza irmãzinha. Eu adoro a Sophia mais do que qualquer bêbado ou ouvinte que me apareça em minha taverna.

— Acho que você é um dos poucos que têm paciência com ela. Nem os irmãos a suportam às vezes. Ela disse que ninguém da Vila gosta dela.

— Sophia é uma criança difícil, diferente de todas. A curiosidade dela é extrema, ela tem sede de conhecimento. E acredite quando digo que haverá um dia em que todos da Vila irão agradecê-la muito um dia. Toda essa inteligência sabe-se lá onde irá levá-la. O céu é o limite para essa pequena garotinha.