Lendas da meia-noite
6 A primeira vigília de Sophia
Sophia e Christopher estavam juntos quando foram designados para fazer a primeira vigília. O muro era grande e feito de pedra, mal se via além dele. Não havia uma única falha sequer. Chris segurava uma tocha e Sophia trazia consigo um apito amarrado no pescoço. Eles andavam, tinham como objetivo percorrer todo o muro a noite inteira. Seriam liberados cinco e meia da manhã, quando o galo da fazenda de Mary Hunter cantar.
— Será que dá pra escalar? — Sophia indaga olhando para cima.
— Nem pense nisso! É muito alto e você pode cair. — Repreende seu amigo.
— Pare de ter medo das coisas. E eu não queria subir na Muralha mesmo. Só estava pensando alto.
— Sei... Pensando alto.
— É isso mesmo, pensando alto, algum problema? É para não cair no sono. — Ela sorri, escapando pela tangente.
— Você sempre foi assim?
— Assim como?
— Estranha.
— Sim, e você sempre foi assim também?
— Assim como? — Pergunta se preparando para a resposta de Sophia.
— Chato. — Ela sorri.
Os dois começam a rir por um bom tempo. Divertiam-se muito juntos. Ambos se sentiam como se fossem melhores amigos de anos. A garota, com a conversa da irmã mais velha repassando em sua cabeça, encabula, e agradece à escuridão do momento por Christopher não perceber quando lhe fez a pergunta:
— Você já pensou em namorar?
— O quê? Bem... Acho que não. Eu não penso muito nessas coisas. Acho que me preocupo mais com outras coisas. E sem falar que vocês, garotas, são complicadas.
— Complicadas?
— É. Bem, você não, mas as garotas normais só vivem em bando e são frescas.
— Então eu não sou normal? — Sophia ri mais lisonjeada do que ofendida com o comentário de seu amigo.
— Não. Você é legal. — Ele ri.
— Você também. — Sophia acaricia o braço de seu amigo num sinal de carinho por ele e continua andando.
A garota do cabelo desgrenhado enxerga uma moita que aparentava ser aconchegante.
— Vamos sentar um pouco? — Ela pede.
— Já? Estamos andando faz nem quinze minutos.
— Mas já estou cansada. — Ela insiste.
— Está bem, sua folgada, vamos.
Eles se dirigem para a moita e Christopher apoia a tocha na muralha de pedra. Encostam a cabeça na parede e olham para o céu estrelado. Ambos adoram olhar para o céu. Imaginam as estrelas dançando especialmente para eles. Sophia desvia o olhar para seu amigo a contemplar sua expressão ao olhar as estrelas. Ela sorri. Observa então a grande e intransponível muralha. As pedras milenares, uma encima da outra. Não demorou muito para existir apenas aquela muralha no mundo. Procurava por detalhes, pequenos detalhes. E quem disse que não achara um? Havia um buraco que estava quase que escondido na moita, aparentava mais uma pequena portinha no chão do que qualquer outra coisa. E claro, Sophia foi logo olhar para ver até onde ia o pequeno buraco. Christopher ainda mirava o céu enquanto sua amiga observava o outro lado do muro. Talvez seja a primeira a olhar aquela grama em longos tempos. A muralha talvez não seja tão intransponível assim. Daquele pequeno buraco vinha um cheiro tão diferente! Tão doce e chamativo...
— Chris! Chris! Venha ver isso! — Ela o chama tirando o olho de sua nova descoberta.
— O quê? — Chris tira os olhos de sua paixão.
— Venha aqui! — Ela o puxa pela manga. — Olha isso!
Chris quase bate a cabeça nas pedras. Demora um pouco para achar o que a menina tanto queria que ele visse. Quando olhou através daquele buraquinho, ficou boquiaberto ao ver o outro lado da muralha.
— Mas o que é isso? — Ele encarou Sophia.
— O outro lado! Há outro lado! — Ela comemora.
— Temos que contar aos anciãos. Eles vão arrumar isso.
— Pra quê? Não! — Ela implora juntando as mãos. — Vamos deixar quieto. Vai ser nosso segredo.
— Melhor não, Sophia. E se acontecer alguma coisa?
— Nada vai acontecer. Eu só... Quero ter esse buraco. Seremos os únicos a olhar através dele. Somos os únicos com o privilégio de olhar o que tem além dessa muralha, mesmo sendo alguns centímetros de grama! Não tire esse privilégio de nós.
Christopher receia bastante. Não quer de jeito nenhum ceder para ela. Dizer que "tudo bem" seria um absurdo imenso! Imagina se poderia deixar isso passar. De jeito nenhum! Absurdo total!
— Tudo bem. — Ele responde afinal. — Mas se alguém perguntar, a ideia foi toda sua.
Sophia solta alguns gritinhos de felicidade e abraça seu amigo. Agradece mil vezes e volta a observar o pequeno buraco. Demorou um pouco para que ambos se cansarem de olhá-lo e levantarem para continuar a vigília. Eles já estavam cansados e com sono e ainda faltavam algumas horas.
— E se abríssemos mais o buraco? — A menina do cabelo desgrenhado interrompe o silêncio entre eles.
— Nem pense nisso. — Protesta seu amigo. — É perigoso.
— Para quê tanto medo? Nada de ruim pode acontecer de um buraco na parede.
— Mas neste caso específico, o buraco leva para um lugar que ninguém nunca foi e a parede é uma muralha milenar que nos protege do que tem lá fora.
— Não é pra tanto. — Esnoba. — Eu só quero ver mais do que há lá fora. Estou curiosa.
— Sua curiosidade um dia irá nos meter em maus lençóis. — Comentou Christopher.
Sophia deu de ombros, confiante e curiosa, não liga para as advertências de seu amigo medroso e nada confiante ou curioso. Apesar de todos esses defeitos, já não sabia como ficar sem seu amigo, que era um excelente amigo, sem dúvidas!
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