Lendas da Luz
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo
Nunca tinha visto criança mais adorável. Tão pequena, frágil, possuidora de um encanto natural. Não sabia dizer se por sua beleza inocente, ou pela maneira calma em que repousava nos braços da mãe, mas ficara encantado com o que acabara de ver. Cativado ao primeiro olhar, incorporou o papel de pai pelo qual passaria a desempenhar adiante, começando a desejar, mais que tudo, sua segurança. Nunca permitiria que algo ruim lhe atingisse, não enquanto se encontrasse vivo e são.
Mesmo com a pouca luminosidade do quarto estreito, em uma noite abrupta de inverno como aquela, eram nítidos os fios ruivos escarlate cobrindo-lhe a cabeça, uma cor muito rara, até aos seus olhos. A pele era alva como a neve, incomum na acalorada região do sul, que no momento se encontrava gélida e castigadora. Estava de olhos fechados, impedindo que apreciasse a cor de seus olhos, mas os veria em breve e sabia que os amaria desde a primeira vez. Recolhida em panos, descansava, e por mais frio que estivesse, não chorava ou reclamava de nada.
Parecia em paz.
Foi se aproximando com cautela, não querendo incomodar seu descanso. Aproveitou para desviar sua atenção à mulher que amava, deitada ao seu leito. Sua expressão demonstrava cansaço, mas não a culpava – tinha total razão para estar assim. Ao contrário do que a recém-chegada transmitia, sua vinda fora agitada e difícil. Houve complicações durante o nascimento, mas felizmente, graças à força de vontade de sua bela esposa e à boa vontade de suas irmãs em ajuda-la, nada trágico aconteceu. Parou ao seu lado, ainda observando o fruto daquele amor abençoado, e agradeceu com um sorriso sincero no rosto por todo o esforço dela naquela noite.
— Ela é linda, não? – Sua voz soou fraca, porém feliz. Ambas tinham seus corpos aquecidos por grossas camadas de pele, finalmente sendo úteis depois de longos períodos quentes em Waduz. Segurava a menina, sua filha, com cuidado e apreço, o fazendo desejar tê-la em seus braços da mesma forma. A mulher, analisando a feição do marido com olhos cintilantes como o ouro, ofereceu a pequena em sua direção. Com certa dificuldade, ele a pegou, sentindo algo que não soube como descrever.
— Sim. A mais linda. – Em seus braços, parecia ainda mais bela. Deleitou-se com a sensação nova que transbordava em seu peito, experimentando pela primeira vez as emoções de ser pai e amou cada instante. Queria que aquele momento durasse para todo o sempre.
Mergulhou em pensamentos sobre o futuro que estava por vir, nas atividades que fariam juntos, nas possibilidades infinitas. Veria a menina crescer; se tornaria responsável pela sua educação e amadurecimento; faria de tudo para proporcionar bem-estar e deixa-la feliz. Imaginou os bons momentos que teriam juntos, os três, mas também nas dificuldades que passariam e enfrentariam ao longo dos anos. Toda a ideia o deixava bastante empolgado.
Devolveu a criança para sua mãe, logo sentindo falta de sua presença ao seu lado, entretanto contente. O casal observou silenciosamente o adormecer da nova integrante da família, capturando cada detalhe para si mesmos. Iriam se lembrar deste dia até o fim de suas vidas.
— Saiba que sou muito grato a isto. Não poderia ter escolhido companheira melhor para me casar e formar uma família. Eu a amo e sempre a amarei. – Depositou um beijo terno na testa de sua querida esposa e deixou que se recostasse em seu ombro como apoio. Abraçou-a lateralmente e aproximou ambos, transmitindo calor corporal entre eles em meio à congelante noite que se passava.
— Sou ciente de seus sentimentos, Helvard. Assim como sei que é ciente dos meus. Eu também o amo, meu marido. – Aconchegou-se perto dele, fraca demais para retribuir o rápido beijo. – Esta é a prova. – Referia-se ao bebê em seus braços. – E, por isso, cuidaremos desta criança com todo amor e ímpeto que pudermos. A menina será agraciada, terá um futuro brilhante. Ainda se tornará uma mulher valente, e nenhum ser vivo ousará impedir isto. É o que eu sinto.
Ao proferir tais palavras, foi como se o destino dela já estivesse traçado. Helvard também acreditava em tudo o que fora dito. E ajudaria sua bela filha a cumprir seu legado, tal qual fosse.
— E como se chamará nossa criança? – Perguntou, ávido pela decisão a ser tomada. Encarou os expressivos olhos de sua esposa, que como sempre, já tinha uma resposta pronta para qualquer pergunta.
— Ela tem um grande propósito, sei disso. Possui uma paz dentro de si e é capaz de nos contagiar com ela. É bela, delicada, e ao crescer será ainda mais bonita. Vai desenvolver vários dons, ser habilidosa em muitos aspectos. – Falava com uma certeza inabalável, quase que absoluta, em relação ao futuro de sua filha. Fez uma pequena pausa, desviando seu olhar para a criança. – Mas... O que mais me encanta nela... É o seu brilho. Ela parece uma chama, uma estrela, uma joia rara. Um ser puro que cintila sobre nossos olhos. Devido isto, será considerada diferente de todas as demais pessoas.
Admirou com amor e devoção o pequeno bebê que havia nascido há poucos instantes atrás, e já era amado por todos que conhecia. Concordava com ela, em todos os aspectos. Viu-a ajeitar o frágil corpo em seus braços, de modo que conseguisse ergue-la no ar por certos segundos.
— Será chamada de Eklayre. Eklayre Bavallier.
A menina esboçou um sorriso ao mesmo tempo em que ouvia seu mais novo nome. Aquela reação foi o que faltava para a comprovação da ideia.
— Eklayre... É perfeito. – Sussurrou Helvard, admirado com as expressões de alegria que surgiam no rosto de sua filha.
E assim fora decretado.
O casal não sabia, mas aquela seria, mais tarde, a noite mais gélida de toda história de Waduz. Muitos passaram frio, nas casas e ruas do pacífico reino. De qualquer maneira, o tempo ruim não pareceu incomodá-los de forma alguma, pois tinham uns aos outros, tinham a ela. E nada os atrapalharia neste grande momento de suas vidas.
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