Lena
8 VII - Convidado especial
— Cuide bem dela, Roger._ Rodrigo recomendou, assim que chegou ao altar e entregou a irmã ao futuro cunhado.
— Espero que nós dois façamos uma boa dupla, não é, Milena?_ Roger sorriu para a noiva e ela sorriu com ironia_ Você está linda.
— Obrigada._ Ela respondeu, seca.
— Acho que vamos ter que aprender a conversar melhor daqui pra frente._ Ele brincou.
— Acho que vamos ter que aprender a fazer tudo daqui pra frente, porque somos completos estranhos, caso você não tenha percebido.
Se viraram para o altar e a cerimônia começou.
...
Como parte do combinado,_ entre Armando e Rogério_ Milena e Roger também se casaram religiosamente e, por isso, a cerimônia demorou um pouco mais.
— Pode beijar a noiva!_ O padre anunciou.
Os dois se aproximaram e, mesmo sem muita sintonia, deram o tão esperado beijo. Milena sentiu um arrepio que percorreu todo seu corpo, mesmo deixando claro para seu coração de que aquele homem que a beijava não era o que amava.
Uma das garçonetes trouxe uma taça de champanhe para cada um dos dois e eles foram obrigados a cruzar os braços para tomar a bebida.
— Espero que sejamos felizes, Milena.
— Eu espero que possamos nos suportar e você seja, no mínimo, diferente do mauricinho babaca que me roubou um beijo com toda aquela arrogância naquele dia.
Brindaram e beberam.
...
— A festa começou, senhor._ Um homem armado anunciou.
— A deles... Porque a nossa está prestes a começar.
...
— Se esforce pra ser feliz, minha filha._ Sônia abraçou Milena_ Essa é a única coisa que eu te peço.
— Vou fazer isso, mamãe. Não só por você, mas por mim._ Foi então que a garota viu uma silhueta parecida com a de Henrique correndo para a parte de trás da casa_ Eu... Eu vou tomar um ar, porque tem muita gente aqui.
— Vai lá, minha filha. Eu te amo. Nunca se esqueça disso.
— Eu nunca vou me esquecer, mãe. E você não deve esquecer nunca que eu te amo e vou te amar sempre, não importa o que aconteça. E que, mesmo não concordando com as suas atitudes às vezes, você ainda é meu maior orgulho e inspiração pra vida.
Elas se abraçaram mais uma vez e Lena caminhou até a parte de trás da casa. Chegando lá, ela encontrou exatamente quem esperava encontrar.
— Eu sabia que você viria._ Henrique estava sentado na porta de uma gruta, fumando um cigarro.
— Você ficou parado no meio dos convidados, durante todo o meu casamento. Acha mesmo que eu não te seguiria?_ Ela pegou o cigarro, deu uma tragada e o devolveu.
— Só queria te ver e falar que você não precisa fazer isso.
— Tarde demais, eu já tô casada.
— Fica aqui comigo. Deixa eu te proteger.
— Eu tô lutando pelo que acredito. Tô mostrando pro meu pai que, por mais que ele me venda ou tente me controlar, nunca vai poder mudar a minha essência. Eu sou um pássaro que, mesmo em uma gaiola, sem nunca ter visto o mundo, tem o mundo inteiro dentro da alma.
— Eu PRECISO te proteger. Não vá.
— E eu PRECISO fazer isso.
— Fica só mais um pouco. Fica aqui comigo por mais um tempinho só. Aqui eu posso te proteger de sofrer, e nunca vão te fazer nada.
— Você não pode me proteger pro resto da minha vida. Eu não sou uma boneca de porcelana fechada em uma bolha impenetrável. Eu quero aprender a depender somente de mim. Eu VOU aprender a depender só de mim.
— Eu te proíbo de ir lá.
— Já fiz a minha escolha, Henrique._ Ela o beijou_ Saiba sempre que eu te amo.
Ela caminhou em direção à festa, mas logo sentiu Henrique segurar novamente seu braço e depois se ajoelhar no chão e abraçá-la.
— Vão te matar._ Ele chorava_ Não vai, por favor. Foge comigo.
— Você definitivamente perdeu a noção do..._ Antes que ela conseguisse terminar a frase, escutou um som que parecia ser de tiros vindo da festa.
— Não vai lá!_ Henrique ordenou e Lena se virou para ele, podendo assim perceber que o amado apontava uma arma em sua direção.
— Você sabia que isso ia acontecer?
— Eu não posso ficar aqui com você, senão me ferro. Mas me escuta: preciso que me siga até um lugar seguro.
— Você não pretende atirar em mim caso eu não queira te seguir, pretende?
— Eu tô desesperado, Lena. Então sim, eu atiraria em você, porque preferiria te ver morta do que nas mãos daquele otário.
— Você não tá bem, mas eu entendo o seu desespero._ Ela se aproximou e abaixou o revólver, abraçando o amado. O som dos tiros não cessava.
— Eu sabia que você faria a melhor escolha. Vem comigo, porque assim eles perceberão que você não tá lá e os tiros vão parar.
— Pois é. Eu tenho que fazer o mais certo, né?
— Tem sim, e te garanto que isso será o melhor.
Lena deu um soco na barriga de Henrique e pegou o revólver de sua mão, o apontando para ele.
— Mas o que você crê ser certo, não é o certo pra mim.
— Abaixa essa arma, Lena._ Ele levantou uma das mãos, como que pedindo a arma, mas a garota respondeu com um tiro no chão.
— Nem mais um passo. Sai daqui. Sai!
— Comigo você vai estar protegida. Eles eu já não sei o que farão com você.
— De que adianta proteção se a minha família tá lá dentro e o barulho de tiros só aumenta?
— Vamos fugir!
— Eu não vou fugir como uma covarde!
— Lena, por favor...
— Cala a boca!
— Não posso permitir._ Ele se levantou com um impulso e foi na direção dela.
— Perdão._ Ela teve tempo de dizer, antes de dar um tiro na perna do jovem, tiro esse que o derrubou.
— Por que fez isso?_ Ele tentava se levantar, sem sucesso.
Lena não olhou para trás ao correr em direção à festa. Ao chegar lá, os tiros eram constantes e várias pessoas já estavam caídas no chão. Ao ver que um dos empregados da fazenda seria baleado por um homem vindo de suas costas, ela logo atirou nesse homem, voltando a atenção de todos para si.
— Corre, Milena!_ Roger gritou para a esposa. Ele já estava em um lugar seguro, junto com os anfitriões da festa e convidados altamente importantes, cercado por diversos seguranças.
A garota ainda conseguiu salvar outros 2 seguranças de serem abatidos antes de escutar um disparo e sentir dois braços a empurrando para o lado, fazendo-a cair no chão e bater a cabeça tão forte, que desmaiou.
Lena não viu quando foi carregada, com o vestido branco já manchado por sangue, para longe daquele lugar e, principalmente, daquele cadáver: o de sua mãe.
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