Lena

6 V - Fera Enjaulada


— Como você chegou aqui?_ Ela perguntou assustada ao ver o pai. O ódio cintilava em seus olhos.

— Segui o idiota do seu irmão que deve ser seu cúmplice nessa pouca vergonha, não é?_ Ele colocou a mão no revólver que tinha na cintura.

— Henrique, foge._ Ela falou, se colocando na frente do namorado.

— Vai fugir agora, garoto?_ O pai de Milena ironizou_ Mas pra fazer o que fizeram você foi muito homem!

— Sai daqui, por favor,_ Ela pediu_ senão eu não vou ter ninguém pra me ajudar._ O pai da garota continuou sacando o revólver_ Vai... AGORA!

Henrique correu, carregando suas roupas, colina abaixo pela porta de trás.

— E o senhor não ouse ir atrás dele, senão eu busco minha mãe e meu irmão e vamos pra longe.

— Mataria seu irmão fazendo isso.

— Bem, talvez eu não conseguisse leva-lo. Mas andaria pelada, assim como estou, pela fazenda, ou iria além e atravessaria esses muros até a cidade e todos saberiam o que aconteceu. Provavelmente o moleque Roger não gostaria de se casar com uma mulher.

— Cale a sua maldita boca, garota infernal! Se vista agora! Em casa vamos conversar.

— Eu sei como é a sua conversa,_ Ela começou a se vestir_ e quero que saiba que sou uma mulher e posso arcar com as minhas consequências.

— Que bom que saiba que pode arcar. Se bem que simplesmente perder sua virgindade com um idiota qualquer não te faz uma mulher.

— Eu sei que não. Porque uma mulher se faz quando se tem caráter, quando se tem coragem pra assumir o que se faz e para lutar por aquilo que se acredita. E eu tô aqui pra isso.

— E VAI assumir suas consequências, menina idiota!_ Ele a puxou pelo braço e a arrastou até a casa.

...

— Armando!_ Sônia gritou_ O que tá acontecendo? Porque tá segurando assim a menina?

— Eu tinha que vender essa garota pra uma cafetina e lucrar com uma coisa que ela gosta muito de fazer.

— Você já vai lucrar com isso! Vai me vender pra um desgraçado que com certeza vai me estuprar com a justificativa de que "uma mulher dever servir ao seu marido", em troca de apoio político do pai dele, que significa, DINHEIRO.

— Cala a boca, garota desgraçada! E desce agora que vamos conversar lá em baixo!

— E para onde quer que eu desça, se esse é o térreo?

— Para o porão. Lá tem uma antiga senzala onde meu bisavô guardava os escravos.

— E agora, além de sua moeda de troca, vou ser também sua escrava?

— Do que está falando?

— Você NUNCA me quis! Me prendeu em casa toda a infância pra eu não conhecer pessoas!

— Para a sua segurança!

— Para a segurança da minha VIRGINDADE, você quer dizer!

— Já chega!

— Eu não conheço uma rua, uma cidade... Só aquelas que vejo na televisão. As únicas veze que saímos são quando você é eleito. E mesmo assim, fico presa dentro do carro. Isso não é vida! Eu não quero essa vida!

— Essa é a SUA vida.

— A vida que O SENHOR escolheu pra ser a minha! E eu te odeio por isso! Pode me vender, pode me bater, pode até me matar, mas eu NUNCA vou ser a menininha resignada que você quer que eu seja! NUNCA!

— Cala essa boca, Milena! Desça agora!

Armando segurou a filha pelo braço e a arrastou escada abaixo, partindo de uma porta que todos sempre acreditavam ser um armário trancado do escritório do político.

— Papai, não precisa fazer isso com ela!_ Rodrigo gritava enquanto corria atrás deles.

— E você cale essa boca, traidor! Depois vamos conversar!_ O pai gritou.

— Se tocar em um fio de cabelo dele ou da minha mãe, eu conto toda a verdade pro Roger e pro pai dele!

— E então eu poderia matar sua mãe e seu irmão..._ Sussurrou.

— E então eu me mataria e viriam atrás de você pra receber o dinheiro que pagaram por mim.

— Você não acabaria com a sua vida assim.

— Não posso chamar o que tenho de vida.

— Então pense em um nome pra isso_ Ele a jogou em algo que parecia uma cela imunda_ porque terá muito tempo.

— Vai me deixar trancada aqui como um animal até que venham me buscar, pra que eu não faça amor com o homem que amo outra vez?

— Haha, fazer amor._ Ele riu_ Errei mesmo em te deixar nessa fazenda tanto tempo. O amor não existe. Todas as relações que temos são com objetivos específicos. Quando não é a reprodução, é o prazer. O amor não existe tolinha.

— Não existe pra você que COMPROU a minha mãe! Mas eu acredito nele, porque eu o conheci.

— Já chega!_ Ele deu um tapa no rosto de Milena e uma marca vermelha apareceu.

— Só cuidado pra não me bater muito, porque os compradores não gostam de escravos machucados. Principalmente o tipo de escrava que eu vou ser do meu marido.

— Já me cansei dessas baboseiras._ Trancou a grade_ Sua mãe ou seu irmão virá trazer comida e um cobertor e espero que reflita durante o tempo em que estiver aqui._ Ele se virou e saiu andando, junto com a esposa e o filho.

— VOCÊ NUNCA VAI ME MUDAR, OUVIU?_ Ela gritou, segurando as grades velhas_ VOCÊ NUNCA VAI ME OBRIGAR A DIZER QUE O QUE VOCÊ É E O QUE VOCÊ FAZ SÃO CERTOS! ME Á NOJO TER O SEU SANGUE! ME DÁ NOJO TER SEU SOBRENOME! ME DÁ NOJO TER QUE VIVER NESSA CASA QUE FOI CONSTRUÍDA COM O SANGUE DE TODOS OS QUE MORRERAM POR FALTA DE SAÚDE E SEGURANÇA, ENQUANTO VOCÊ ROUBAVA O DINHEIRO PRA CONSEGUIR SUPÉRFLUOS! ME DÁ NOJO TER QUE TE CHAMAR DE PAI! ME DÁ NOJO TER QUE CONTINUAR AQUI PRA PROTEGER MINHA MÃE DO MONSTRO QUE DORME AO LADO DELA! ME DÁ NOJO TER QUE CONTINUAR AQUI PORQUE NÃO SEI SE VOCÊ VAI FICAR BRAVO E DEIXAR SEU PRÓPRIO FILHO MORRER SE EU FUGIR, SÓ PRA ME CASTIGAR! ME DÁ NOJO TER QUE AGUENTAR SUAS ORDENS E SUAS GROSSERIAS DE CABEÇA BAIXA PRA PROTEGER AQUELES QUE EU AMO! ME DÁ NOJO VIVER NA MESMA CASA QUE UM MALDITO QUE NUNCA ME DEIXOU PISAR NA RUA, QUE NUNCA ME DEIXOU SABER O QUE É MUNDO REAL! E ME DÁ VERGONHA TER TIDO MEDO DE PISAR NA RUA QUANDO TIVE A OPORTUNIDADE! MAS NÃO FOI MEDO DO QUE TINHA LÁ FORA! FOI POR MEDO DO MONSTRO QUE TINHA AQUI DENTRO E QUE PODIA PREJUDICAR A MINHA MÃE E O MEU IRMÃO SE SOUBESSE QUE ELES TINHAM ME DEIXADO SAIR, PORQUE SE FOSSE POR VOCÊ, EU TERIA CONTINUADO SONHANDO COM O MUNDO QUE EXISTIA DO LADO DE FORA DA JANELA, SIMPLESMENTE PORQUE SOU UMA MOEDA DE TROCA POR APOIO POLÍTICO! EU TE ODEIO, MALDITO! E NÃO QUERO SABER QUANDO VOCÊ MORRER! QUE MORRA! E QUE VÁ PRO MEIO DO INFERNO, DE ONDE VOCÊ SAIU, PRA PAGAR POR TUDO O QUE FAZ COM NÓS TRÊS E COM O POVO!

— Já chega de tanta baboseira, garota escandalosa._ O pai protestou.

— EU AINDA NÃO ACABEI! QUER SABER? MANDE ALGUÉM ESCREVER PRA MIM QUANDO VOCÊ MORRER! VOU TER MUITO PRAZER EM CUSPIR NO SEU CAIXÃO, DESGRAÇADO!

— Agora que você já acabou com o protesto, militantezinha hipócrita, eu já vou.

— Não vai deixar a menina aqui, Armando._Sônia protestou_ Ela é nossa filha!

— Cala a boca e vem.

Armando olhou para a filha mais uma vez ao subir as escadas.

Ela se deitou no chão frio e chorou.

...

— Eu trouxe a sua comida, mana._ Rodrigo abriu a grade para passar a bandeja para a irmã. Milena estava pálida magra, tinha olheiras, o cabelo completamente despenteado e um olhar assustador de loucura. Tudo isso era fruto de mais de 1 mês trancada naquela jaula.

— Por quanto tempo mais ele vai me prender aqui?_ Ela estava senta da em posição fetal, encolhida em um pequeno raio de sol que entrava pelas grades da janela.

— É sobre isso que o papai quer falar com você... Ele já deve estar vindo.

— Eu não quero falar nada com aquele senhor. Por mim, que morra.

— Não será dessa vez que o seu desejo vai se realizar._ O pai apareceu na porta do lugar.

— E por acaso ele já se realizou alguma vez?_ Ela ironizou.

— Suba com o seu irmão. Agora._ Ele falou pausadamente, ainda parado na porta.

— Pra que, posso saber?

— Primeiro você vai tomar um banho, porque está imunda e fedendo.

— Talvez eu esteja assim porque já estou trancada aqui há quase 1 mês.

— E qual a necessidade de vomitar?_ Ele olhou para o que parecia ser uma mancha de vomitado, no canto esquerdo da cela_ Estão te dando comida demais?

— Talvez seja comida de menos que você está me dando e, por isso, estou passando mal de fome.

— Não seja por isso. Vai comer como um porco nos próximos dias.

— Pra quê? Por acaso meu pretendente vai chegar e você precisa entregar uma noiva decente pra ele?

— Adivinhou. Agora vá com o seu irmão, porque tem muito para fazer em apenas uma semana.

O pai pegou Lena pelo braço, a entregou para o irmão e os dois subiram para o quarto da garota. Ao chegarem ao primeiro andar, porém, ela não conseguiu sair do lugar, pois seus olhos queimaram com a luz do sol que incidia pelas grandes janelas vitorianas da sala de estar.

— Tampe os olhos e me siga, mana._ Rodrigo falou, enquanto segurava a irmã com firmeza.

Lena confiou nele e os dois conseguiram chegar até o quarto da garota, cujas cortinas estavam com apenas uma fresta aberta para permitir a passagem de luz.

Ao abrir os olhos, a luz incomodou um pouco, mas logo a escuridão deu lugar a uma visão nítida e ela pôde ver que tudo naquele lugar estava da forma que ela tinha deixado, exceto por uma coisa: o vestido branco com saia de tule e corpete com a frente decorada com pérolas estendido em cima da cama.

...

Um homem de barba grossa e roupas sujas de barro chegou a uma casa abandonada no que parecia ser uma clareira no meio de uma densa floresta.

— Notícias para mim?_ Uma voz masculina falou. O dono dessa voz estava sentado em uma grande cadeira de costas para a porta.

— Em menos de uma semana o tal Roger irá chegar pra se casar com a caçula dos Castelo.

— Só isso?

— O casamento vai ser em uma semana.

— Muito bem. Pode sair.

— E o meu pagamento?

— Por uma informação simples assim?

— Não. Pelo meu silêncio, para que eu não conte nada sobre esse lugar ou essa organização._ Ele sacou um revólver e o apontou para a cadeira_ E pra eu não te acertar.

— Ah sim, eu sou muito desatento._ O homem sentado na cadeira se virou para o que parecia ser um segurança em pé à sua frente_ Dê a ele o que merece para ficar quieto.

O segurança se aproximou do informante, sacou o revólver e lhe deu um tiro.