Lembrem-se de Cedrico Diggory
16 Epílogo
Notas iniciais
“Seems to me like I'm just scared of never feeling it again
I know it's crazy to believe in silly things
But it's not that easy”
Dois anos e três meses depois...
Às três horas da tarde, Cordélia arrumou a gravata de Vítor Krum em seu colarinho com as mãos, embora um feitiço de perfecto nodum tivesse resolvido o problema. Ambos tinham expressões apreensivas no rosto, mas não era para menos. Podiam ter recusado o convite de Fleur para o casamento, mas não foram capazes. Agora, ambos sangues-puros, guardados pelas suas posições como pocionistas no Instituto Flammel, estavam se colocando em risco ao confabular com mestiços e traidores do sangue.
Não, não havia outro lugar no mundo onde Cordélia gostaria de estar indo.
Vítor estendeu uma mão para ela e, de seu apartamento perto do Beco Diagonal –que ela havia dividido com Fleur quando a francesa se mudara para a Inglaterra, antes de conhecer Guilherme Weasley, então com Edmundo, antes de ele ir para a França morar com Claire –eles aparataram para o lugar descrito como A Toca.
Aparentemente, várias pessoas haviam aparatado ao mesmo tempo, porque, logo após a claustrofóbica experiência de aparatar, ela esbarrou em alguém e a força da batida a empurrou na direção de Vítor, que a aparou habilmente, como se ela fosse um pomo de ouro e ele um jogador experiente, a olhando preocupado, a nova barbicha que deixava crescer chamando atenção em seu rosto. Quando se virou para se desculpar com a outra pessoa, encontrou olhos azuis e cabelos louros muitíssimo familiares.
—Claire! –Exclamou, feliz. Não via a Francesa há cerca de um ano, desde que a guerra estourara de vez e ela e Edmundo foram para a França. O próprio Edmundo, ainda o garoto alto e magro que fora na escola, estava logo atrás dela e, enquanto a loura ia abraçar Vítor, os velhos amigos sonserinos trocaram um abraço apertado.
Sem vontade de ficar mais tempo debaixo do sol, se encaminharam para a tenda branca no pomar, onde um grupo de garotos esperava para os levarem aos seus lugares. Garçons vestidos de branco e uma banda vestida de dourada esperavam debaixo de uma árvore, em uma nuvem azulada de cachimbos. A entrada da tenda revelava filas e mais filas de cadeiras douradas na lateral de um tapete roxo. Os postes de sustentação eram decorados com flores brancas e douradas, aonde Cordélia reconheceu as antigas peônias de Beauxbatons com uma dor de saudade no peito. No altar, balões dourados sobrevoavam o púlpito e, ali do lado de fora, borboletas e abelhas sobrevoavam preguiçosas em torno deles, fazendo com que Vítor tivesse que espantar uma abelhinha especialmente gorda de seu vestido dourado.
A fila serpenteava o jardim em direção à tenda agora; cheia de vultos multicoloridos, mas foi uma coisa boa porque deu tempo a Marlon, então depois Mary e Susana, se aproximarem do grupo. Cordélia já não via Marlon há algum tempo, mas Mary e Susana tinham um apartamento perto do dela em Londres e sempre marcavam de jantarem juntas; Susana trabalhava agora no Profeta Diário e Mary ainda estava no treinamento do Ministério para se tornar inominável.
—Vous êtes très belle. –Marlon beijou sua mão. Então se virou para os outros. –Non acreditam a dificuldade que foi conseguirr uma perrrmisson para aparratarr na Anglaterre nesses tempes.
—Nem me fale! –Concordou Edmundo. Ele estagiara no Departamento de Leis da Magia no primeiro ano após a escola, mas depois conseguiu um lugar no Departamento de Cooperação Internacional e Magia para poder se mudar para a França com Claire. –Tive que pedir ao meu pai para conseguir-nos uma permissão. Teria conseguido uma para você, se tivesse me avisado.
Eles estavam bem mais perto da entrada agora, onde um grupo de garotos alguns anos mais novos que eles riam alto. Cordélia reconheceu o amigo ruivo de Harry Potter e Hermione Granger, que estava tão bonita quanto no dia do Baile de Inverno, com um vestido lilás e sapatos combinando.
—Focê está maravilhosa! –Vítor exclamou para ela quando se aproximaram, ao que Cordélia concordou.
—Vítor! –Hermione exclamou, deixando cair com um baque a bolsinha de contos que trazia consigo e se abaixando para pegá-la com pressa. –Eu não sabia que você foi... nossa, que prazer! Como vai? –Então, notando a companhia do Búlgaro, levantou as sobrancelhas. –Ah! Cordélia!
—Como vai, Hermione? –A ex sonserina estendeu a mão para a outra garota.
Algo dentro dela torceu e apertou enquanto um dos Weasley de cabelo crespo, um pouco familiar, ela pensou, os levava para seus lugares dentro da tenda, todos perto uns dos outros. Ela havia tentado manter os pensamentos longe disso, mas um dia ela imaginara um futuro daquele para si mesma, antes da guerra arrancá-lo dela. Já era muito familiar com seus amigos, mas encontrar os grifinórios ali a fazia pensar imediatamente em Hogwarts e todas as suas lembranças de Hogwarts eram manchadas com a tinta negra do luto.
Espantou de sua mente a ideia de ter aquilo para si; a imagem de um Cedrico de vestes formais como as do Baile, o cabelo bem penteado, os olhos cinzentos brilhantes, aquele sorriso de sempre: divertido, infinitamente gentil, que costumava fazer seu estômago apertar. Ela havia perdido tudo isso; essa chance.
Percebeu, surpresa, que a aparição de Vítor estava causando um rebuliço entre as primas de Fleur, embora ele houvesse largado o quadribol. Não muito depois de arranjarem-se em seus lugares, o casamento começou quando todos estavam sentados, murmurando excitados e trocando risinhos. Cordélia notou, alegre, Mary e Susana darem as mãos com olhares muito felizes.
“It's time to let it go, go out and start again
But it's not that easy”
Os pais muito ruivos do noivo entraram na tenda quente sorrindo e acenando para os parentes; ela usando um conjunto de vestes ametistas e chapéu. Em seguida, Guilherme e seu irmão mais novo se postaram à frente da tenda, ambos com vestes a rigor com grandes rosas brancas nas botoeiras; um dos gêmeos endiabrados –Cordélia se lembrava bem deles e de quantas detenções os dera –deu um assovio de aprovação, ao que várias meninas louras da família de Fleur responderam com risinhos.
Então a multidão fez silêncio e o volume da música foi aumentado, aparentemente vinda dos balões dourados. Cordélia se virou na cadeira para olhar a entrada.
Um suspiro coletivo se ergueu na tenda quando Monsieur Delacour e Fleur entraram pelo corredor; ela deslizando, ele com um grande sorriso no rosto. A noiva usava um vestido branco simples e parecia desprender uma aura prateada. A caçula Weasley, acompanhada de Gabrielle, a caçula de Fleur, ambas usando trajes dourados, pareciam adoráveis atrás da noiva e, quando ela chegou a Guilherme, ele parecia radiante.
—Senhoras e senhores –anunciou uma voz ligeiramente cantada –estamos aqui reunidos para celebrar a união de dois fieis...
—Seu vestido parrece com o das daminhas. –Vítor observou ao seu lado.
—Foi um erro. –Cordélia respondeu, mas sem falar a verdade. Havia adorado seu vestido demais para pensar em qualquer outro, desde o primeiro momento em que colocara os olhos na peça exposta na vitrine da Madame Malkin’s.
—Discorrdo. –Foi tudo que ele disse.
—Guilherme Arthur, você aceita Fleur Isabelle...?
Ao redor do salão, muitas pessoas choravam. Perto dela, Mary e Susana sorriam por baixo das lágrimas e Claire aceitava um lencinho de Edmundo. Porém, Cordélia sabia que, se começasse, não seria capaz de parar. Primeiro, choraria de emoção, então de inveja, pela injustiça da vida, então a saudade a afogaria e ela estaria perdida. Porém, ao seu lado, Vítor havia tirado um lenço do bolso e segurava nas mãos como se estivesse prestes a oferece-la. Foi o gesto que a quebrou e, no segundo seguinte, prendia a respiração para não soluçar, encarando o anel em seu dedo; o aro dourado, a pedra verde e o pomorim amarelo.
O búlgaro passou um braço por cima de seus ombros frágeis.
—...então os declaro unidos para toda a vida.
O bruxo que presidia a cerimônia ergueu a varinha sobre as cabeças de Gui e Fleur e uma chuva de estrelas caiu sobre os noivos, envolvendo em espirais seus corpos agora entrelaçados. Enquanto palmas explodiam pelo salão, os balões dourados explodiram em minúsculos sinos de prata, que se juntaram à zoada geral.
—Senhora e senhores! –Falou o bruxo com cabelo em tufos. –Por favor, queiram se levantar!
Todos obedeceram e ele acenou com a varinha. As cadeiras em que eles estavam sentados se ergueram no ar, ao mesmo tempo que as paredes da tenda desapareciam, deixando agora os convidados sob o toldo sustentado pelos postes dourados decorados com flores, com uma gloriosa vista do pomar ensolarado e do campo ao redor. Em seguida, uma poça de ouro líquido se estendeu do centro para a periferia, criando uma pista de dança reluzente. As cadeiras se agruparam ao redor de mesinhas cobertas por toalhas brancas, como no Baile de Inverno de seu último ano, e a banda marchou em direção a um pódio.
—Uau! –Mary suspirou, virando-se para Susana enquanto garçons surgiam de todos os lados. –Vamos fazer igual no nosso.
—Devemos cumprrimentarr os noivos. –Vítor estendeu um braço para Cordélia, que o aceitou, e ambos foram em direção a Fleur e Gui, rodeados por uma multidão que os desejava felicidades.
—Vam inde. –Sugeriu Claire, empurrando também Mary, Susan e Marlon, mas se agarrando a Edmundo. –Vames pegarrr um mese.
O grupo conseguiu atravessar a massa de corpos em direção aos noivos, sendo recebidos principalmente por Fleur. A francesa se jogou nos braços de Cordélia, que, pela primeira vez no dia, se sentiu única e exclusivamente feliz pela amiga. Em seguida, enquanto Fleur trocava beijinhos com Vítor, apertou a mão de Guilherme. Ele a olhava com uma cara engraçada. Haviam se conhecido logo no ano seguinte à morte de Cedrico e imaginava que ele não conseguia vê-la sem pensar no caco que ela fora naquele ano.
Quando voltavam para a mesa, Cordélia segurando no braço de Vítor, que abria caminho pela multidão, ela quase trombou nele quando o búlgaro parou abruptamente. Ela seguiu seu olhar para dar de cara com um homem vestido de amarelo, com cabelos louro-sujos um pouco longos e grandes olhos azuis pensativos.
A boca de Vítor havia se torcido por cima da barbicha e ele parecia furioso. Por um segundo, ela não entendeu o que estava acontecendo.
—Grindewald. –Ele explicou, sem olhá-la. Cordélia olhou de novo para o homem e encontrou o motivo para a raiva no colar em seu pescoço.
Ela e Vítor se conheciam muito bem agora para que ela entendesse o que ele via. O símbolo do homem que arruinara a reputação de sua escola, matara seu avô. Conhecia a história de que, em Durmstrang, havia um símbolo como aquele na parede e como alguns de seus colegas, querendo se fazerem de importantes, haviam desenhado aquilo em suas vestes e livros, até que lhes fora dada uma lição.
—Vítor... –Cordélia chamou, querendo leva-lo para longe.
—Vá na frrente. –Ele sugeriu. Ela hesitou, mas a voz dele estava composta e ele não parecia como se fosse dar uma lição em alguém. Ele a olhou agora e não parecia fora de si, ela notou. Ele olhava agora para a mesa onde estavam Ronald, Hermione e o primo ruivo. –Eu chego logo.
Sem dar a ela a oportunidade de recusar, ele se afastou, deixando-a sozinha para voltar à mesa com seus amigos. Bufando, ela atravessou a pista dourada, onde alguns casais já dançavam e jogou-se numa das duas cadeiras vazias à mesa.
Seus amigos estavam discutindo a guerra.
Edmundo e Claire haviam saído da Inglaterra para evita-la e comentavam sobre a ousadia de Fleur em fazer uma festa de casamento com um conhecido traidor do sangue em pleno estado de alerta da comunidade bruxa. Mary e Susana, ambas inglesas de nascimento, não deixariam o país, mas não pareciam ansiosas tampouco para se juntarem a organizações tais quais a Ordem da Fênix. A família de ambas era sangue-puro, então estavam seguras. O mesmo se aplicava a Cordélia, cujos pais não a haviam permitido trazer Lucy por questões de segurança. Mesmo a morte de Cedrico não a teria feito entrar numa guerra: jamais fora uma lutadora. Sempre fora do tipo a ficar atrás da bancada, com suas poções.
Ninguém comentou sobre seu padrinho; que era agora um exilado do “lado do bem”. Eles não sabiam, é claro, que ela havia mantido contato com ele. Era uma das poucas pessoas que sabia que Dumbledore estava morrendo de todo jeito e, sendo assim, se seu padrinho havia o poupado de uma morte mais dolorosa e longa, parecia a ela uma boa ação.
Ela não podia dizer que o julgava por sua escolha de lados agora. Ele havia escolhido o mais seguro, enquanto ela, naquele momento, descartava a opção.
—Você pode voltar comigue. –Marlon comentou, sem olhá-la, baixinho para que apenas ela ouvisse. –Volte parra a França.
Cordélia se virou surpresa para ele.
—O quê?
—Voltarr para a França. –Ele insistiu. –Onde é segurre.
Por um momento, ela considerou a proposta. Deixar seus pais e amigos –embora não todos. Teria Edmundo e Claire na França. Então considerou sua irmãzinha em Hogwarts e o trabalho que teria para socorrê-la caso algo acontecesse. Pensou em seu pai, professor no Instituto, sempre por perto quando ela tinha uma emergência. Em sua casa no Norte da Escócia, onde ela podia se esconder sempre que precisasse. Pensou em Vítor, morando há apenas cinco minutos de seu apartamento. Por fim, pensou em Cedrico e na dificuldade que era escolher entre o que é certo e o que é fácil, mas Dumbledore estava morto agora e tudo era mais fácil quando você estava morto. Era viver que era difícil.
—Não posso. –Falou em voz alta, chamando a atenção dos outros amigos para a conversa.
—Enton... –Claire perguntou depois de um segundo de silêncio. –Come vai no Instituto Flammel?
—Bem. –Disse. Era verdade. Seu talento para poções não havia diminuído nem um pouco naquele tempo desde a escola e os laboratórios mais tecnológicos do Instituto eram o lugar certo para florescer. –Tenho trabalhado em Magia Antiga, como em Beauxbatons, só que com Poções, não Feitiços. Desisti dos venenos, afinal.
—Você semprre teve am talente para o assunto. –Claire parecia se lembrar das épocas em que Cordélia fora a melhor da classe em Magia Antiga. –E Krum?
Agora ela hesitou.
—O que tem Vítor?
—Notei qu’ vierom juntes. –Insistiu a garota loura, os olhos azuis um pouco estreitos em sua direção. –Já estava na horrra. –Acrescentou.
Estava e não estava. A morte de Cedrico em algum momento nos dois anos anteriores deixara de ser uma ferida aberta e passara a ser suportável. Ela nem perdia o ar quando o nome dele era citado numa conversa e, nos últimos meses, não havia como negar que algo ocorria entre ela e Vitor. Sua mente se lembrou de uma tarde, ela e Cedrico em Hogwarts, em que ele a acusara de gostar de jogadores de quadribol e a lembrança foi mais feliz do que dolorida.
Por outro lado...
Mas antes que ela pudesse responder, o próprio Vítor voltou à mesa. Se ele notou o silêncio que a sua chegada causou, não demonstrou. Ao invés de sentar-se, ficou de pé atrás da cadeira onde era suposto a se acomodar, olhando para Cordélia.
—Focê querrr dançarr? –Ele estendeu a ela uma mão.
Por outro lado, ela se lembrou de sua linha de pensamento, decididamente não estava pronta para passar pela mesma situação uma segunda vez. Cedrico fora o começo da guerra, mas agora eles estavam no meio dela e pessoas morriam todos os dias. Pensou no tempo que levaria para se recuperar se o próximo cadáver frio de olhos arregalados para o céu que ela encontrasse fosse o de Vítor.
Seus amigos a olhavam com expectativa, especialmente Mary e Susana, que vinham acompanhando de perto sua luta interna.
—É claro. –Cordélia cedeu, aceitando a mão do búlgaro.
Sabia que cederia em algum momento.
Quando a noite caiu, eles já haviam girado e girado em várias danças pelo salão. Também já haviam batido um papo com Hermione e o garoto ruivo que ela parecia estar namorando, com Fleur e Guilherme, quando eles se viram livres dos familiares. Era estranho pensar que Fleur agora era uma Weasley; nada mais como a Delacour que ela conhecera na adolescência. A irmãzinha de Fleur reclamara da falta de Lucy, mas já havia se recolhido para dentro da casa quando Hagrid e o irmão mais novo de Guilherme se juntaram para cantar “Odo, o Herói”.
Vítor estava dançando com uma garota ruiva ainda em idade de Hogwarts quando Cordélia se afastou de volta para os seus amigos, agora engatados numa conversa com Fred e George, que foram apenas um ano mais novos que eles em Hogwarts, e agora tinham um negócio no Beco Diagonal.
—Temos nos saído bem com uma linha de Defesa. –Contava um dos Weasley. –A maioria dos negócios ao redor, porém, anda fechando, o que é desanimador.
—Você deve conhecer Lana Burke. –Comentou Cordélia ao se aproximar.
O olhar dos Weasley foi sombrio.
—O noivo dela não desapareceu há algumas semanas?
Era verdade. Peter Bulstrode vinha sendo coagido para se juntar aos comensais. De primeira, quando ele sumiu, pensou que havia sido de propósito para se esconder. Porém, ao visitar Lana e encontra-la num estado de nervos pior do que os dela ao perder Cedrico –afinal, não se sabia se Peter estava morto ou vivo, escondido ou torturado –Cordélia acreditou que ela não fazia ideia do que ocorrera e lamentou muito.
Aquele, aliás, era um dos motivos para Lana não ter ido ao casamento. Se Cordélia havia ficado dolorida em algumas feridas menos cicatrizadas pela união, nem poderia imaginar o que isso faria ao coração recém-machucado de sua amiga, que já estava noiva.
De repente, algo volumoso e prateado atravessou o toldo, aparecendo na pista de dança, Era um lince gracioso e reluzente, aterrissando com leveza entre os convidados atônitos. Então a boca do patrono se abriu, deixando passar uma voz alta, grave e lenta:
—O Ministério caiu. Scrimgeour está morto. Eles estão vindo.
Do outro lado da pista de dança, os olhos escuros de Krum encontraram com os dela, enquanto ambos se impulsionavam um para o outro, as varinhas tiradas de dentro das dobras das vestes já em suas mãos, prontas para a defesa. Edmundo e Claire desaparataram apenas com um aceno, mas Mary e Susan a lançaram um olhar alarmado, enquanto Marlon se inclinou para ela, mas Cordélia fugiu de seu toque.
—Vão! –Ela disse a eles, voltando-se para Krum.
Apenas ouviu os estalos que anunciaram que eles a obedeceram.
Agora, à medida que avançava pela pista de dança, vencendo os metros que a separam do búlgaro, vultos de capa surgiam na muldião. Um raio de luz passou por cima de sua cabeça enquanto ela era empurrada por convidados aterrorizados, mas outros, mais eficientes, tinham as varinhas em mãos e lançavam feitiços a torto e à direito. Cordélia se virou num instante para alguém que disparava feitiços atrás dela, e encontrou uma pessoa mascarada que ela não podia reconhecer.
—Carnificare! –Exigiu em voz alta e o Comensal passou muito perto de ter sua cabeça decepada. Cordélia tentou de novo. –Sectumsempra!
Na segunda tentativa o Comensal desapareceu na multidão quando foi jogado para trás com a força do raio do feitiço e Cordélia sabia que havia uma probabilidade de ele morrer da ferida.
Quando um vulto encapuzado parou bem de frente para ela, dois pensamentos a ocorreram: o primeiro foi se ele estivera lá, vendo o corpo de Cedrico no chão, ignorando que uma vida foi tirada de forma violenta, uma vida jovem, como se fosse parte de seu dia-a-dia. O outro foi que ela poderia usar seus piores feitiços nele; não estavam mais em Hogwarts.
—Orbis! –Demandou em voz alta, mas ele se desviou, apontando a varinha agora para ela.
Outro comensal aparou um pouco ao seu lado e, no pânico, Cordélia esqueceu que era uma adulta formada, uma competente pocionista, e voltou às épocas de aluna ao exclamar “Expelliarmus! ” em voz alta, ao que o novo Comensal apenas se desviou habilmente.
Vítor apareceu nesse momento, conjurando um feitiço não-verbal que o lançou a uma grande distância. Eles estenderam as mãos um para o outro e, girando, aparataram para longe. Eles aparataram na casa vazia dos pais de Mary, onde haviam combinado de se encontrarem todos, caso algo desse errado. Lá estava o grupo; vivo. Mary e Susan, Edmundo e Claire, Marlon, agora ela e Vitor. Cordélia sentiu um alívio que quase não coube em seu peito.
—Tem certeza de que não querem ir embora? –Edmundo perguntou a ela, Mary e Susan, quando todos, aliviados, se sentaram à mesa de jantar da família Selwyn, num bonito salão amplo com uma luminária de cristais pendurada do teto e um papel de parede escuro da parede de frente para a porta.
Cordélia trocou um olhar com Vítor. Ele podia ir embora quando quisesse, notou. De volta para a Bulgária, onde estaria seguro, mas estava ali, no meio do fogo cruzado inglês, por ela. Sua varinha ainda estava segura em sua mão, vibrando pela oportunidade de lutar pelo que Cedrico haveria lutado se estivesse vivo.
—Não vamos a lugar algum. –Respondeu Cordélia, ao que Vítor acenou com a cabeça.
Porque ela se lembrava.
“High hopes, when you let it go, go out and start again
High hopes, ooh when it all comes to an end
But the world keeps spinning”
FIM
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