Notas iniciais
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Desculpem qualquer erro desde já

Os primeiros raios de sol, brandos como um leve toque, anunciam um novo dia de uma preguiçosa segunda-feira. Annie acorda sentindo-se completamente moída. Bee avisou que não ia pegar leve. E para melhorar ela mal conseguira pregar os olhos por causa dos tiroteios durante a noite.

Annie levanta de vagar, fazendo tudo calmamente para não sentir tanta dor. Veste uma calça de moletom e um casaco pesado. Só quem mora no sul do Brasil sabe como o sol mente.

Sai de seu quarto e, como já estava virando hábito, encontra sua mãe rezando aos prantos para a foto do pai, há muito falecido.

— Bom dia, mãe. —Sem respostas.

A menina olha durante alguns segundos para a mãe, que continua a chorar com os olhos fechados, fazendo preces silenciosas.Ela continua sua rotina tentando ignorar a situação e vai para o banheiro escovar os dentes.

— Tchau, mãe. — Apenas gemidos e soluços melancólicos em resposta.

Annie dá um longo suspiro e abre a porta. Ela odiava ter que deixar a mãe sozinha em casa. Sua mãe já estava no limite, a garota temia chegar em casa um dia e encontrá-la atirada no chão com os pulsos cortados.

Annie dá um longo suspiro deixando o ar puro da manhã encher seus pulmões. Mas uma mudança de direção no vento quase a faz vomitar.

— E aí, Pequena.

— Oi, Bee. — Ela olha para trás e vê Bee caminhando em sua direção com aquele sorriso que já era sua marca registrada.

— O que aconteceu ontem? — O vento esfrega o cheiro repugnante no nariz de Annie novamente.

— Até onde eu sei o pessoal do beco vizinho andaram queimando uns caras que estavam devendo.

Já era normal ouvir isso para Annie. Quando a dívida ficava grande os traficantes arrancavam todo o dinheiro da pessoa e depois matavam.

— Como está sua mãe?

— Cada dia pior. Toda manhã eu passo por ela e a encontro aos prantos rezando para a foto do papai.

Bee sabia que Maria nunca havia superado aperda do marido, mas não sabia que ela estava tão mal.

— Ah é, antes que eu esqueça. — Diz Annie tirando Bee de seu devaneio. Ela tira uma pasta bege da mochila e estende para que ele pegue. — São aqueles documentos que você pediu semana passada. Vê se não perde, deu um trabalhão para achar.

— Obrigado. — Bee pega e analisa os documentos por cima para ver se a garota não havia se enganado, mas estava todos ali como ele havia pedido. — Agora caminha que tu vai perder o ônibus.

O ônibus chegou um pouco atrasado devido a condição das ruas. A Vila Chocolatão era o último lugar em que passavam a patrola, para ajeitar as ruas, afinal era a Chocolatão. E com o pessoal da Chocolatão ninguém se metia.

— Bom dia, Seu Manoel. — Fala Annie animada ao cobrador enquanto entrega o dinheiro ao simpático velhinho que ela já conhecia há muitos anos.
— Bom dia, querida. — Ele lhe dá o troco. — Não está com frio só com isso?

— Não, o casaco é bem quentinho. Obrigada por se preocupar.

O simpático velhinho coloca sua boina na cabeça de Annie abaixando a aba para lhe cobrir a visão.

— Presente meu. — Sorri ele.

— Obrigado.

Ela se dirige ao lugar de sempre, no acento alto da janela. Era bom se sentir mais alta que outras pessoas de vez em quando.

Duas paradas depois entra Melissa. Ela é amiga de Annie, mas não podia ser considerada ‘melhor amiga’.

— Bom dia, Annie. — Cumprimenta Melissa bocejando. — Você ouviu os tiroteios de ontem?

— Sim, eu também não consegui dormir direito.

— E como estão as coisas na sua casa? — Melissa está há muito tempo tentando tocar no assunto com Annie, mas sempre que vai entrar no assunto a amiga percebe e desvia. Não havia como enganar Annie com indiretas.

— Está tudo bem. Minha mãe não chora mais no altar... — Ela não gostava de mentir, mas não queria falar o estado da mãe para ninguém então acabou aprendendo. E Annie sabia mentir muito bem, ela sabia usar essa habilidade a seu favor.

— Que bom! Fico contente!

Estava um tumulto na frente da escola. Todos os alunos estavam parados em frente ao portão fechado.

— Quanto você aposta que faltou água? — Diz Annie.

— Vou dar uma olhada.

Melissa se afasta para ler o cartaz. Ela era alta e gordinha, tinha cabelos castanhos ondulados. Não era tão exagerada quanto as outras garotas para se vestir. Enquanto as colegas de Annie e Melissa colocavam suas melhores roupas para impressionar os garotos as duas amigas colocavam roupas normais: uma blusa, um casaco e um jeans.

— Annie!!! — A voz vem de longe, tornando difícil determinar a direção de que veio. — Annie!

Ela vira e encontra Alberto. Estava com uns papéis na mão e tentava recuperar o fôlego para falar.

— Eu soube hoje! — Consegue dizer ele. — Vim correndo te contar!

— O que?

— Olha! Você passou Annie! Passou!!! Passou no teste!!!

— S-sério?

— Sim!!! — O garoto entregou os papéis a ela. — Olha!

Annie pega as folhas, ela tem a impressão de que o coração vai saltar do peito quando lê “aprovada”. Melissa volta e encontra a amiga pálida.

— Melissa eu consegui!

— Quê?

— Eu fui aprovada! Eu passei na prova do São Francisco! Isso significa que é só mais um ano para o Brotherhood!

— Parabéns!!! — Melissa abraça Annie com força. Ela ficou realmente feliz pela amiga. — Eu torci tanto por você.

— Eu vou voltar pra casa! Tenho que mostrar isso pro Bee! Tchau Mel!

Na vila Annie procura Bee por todos os cantos possíveis, mas nem sinal dele. Ela decide ir para casa cuidar da mãe e contar as boas novas mais tarde.

Annie fica parada alguns segundos em frente a casa. Estava cansada do modo que a mãe agia. Estava cansada de ficar toda hora preocupada e apreensiva quando deixava sua mãe em casa sozinha.

— Mãe, cheguei. — Ela estava acostumada a não ser respondida, mas desta vez estava diferente. O silêncio era absoluto. Não havia um ruído sequer na casa. — Mãe?

Annie fica assustada. Ela atira a mochila no chão e corre pela casa forçando o corpo cansado. Entra no quarto da mãe, no banheiro, na cozinha. Nem sinal dela. Ela olha o altar, a foto do pai não está mais ali. Voltando ao quarto da mãe ela abre o guarda roupas e a cômoda, estão vazios.

— Mãe? — Depois de revistar todos os quartos e não encontrá-la o desespero em sua voz fica evidente. Ela sabia que não havia ninguém na casa, mesmo assim chamou. Como se fosse adiantar.

E garota sai correndo para fora tentando encontrar Bee novamente. Ela acaba indo para o bar de Elias, aquele velho era os olhos da vila, ele informava tudo a Bee, absolutamente nada passava sem ser notado aos seus olhos atentos.

— Seu Elias, você viu o Bee?

— Sim. Ele saiu umas oito horas com a sua mãe, disse que chegava às 10h. Por que?

— Nada. Posso esperar aqui?

— Claro.

Annie fica sentada nos banquinhos do balcão pensando no que Bee estava planejando. Para onde ele levara sua mãe. Ela fica lá até meio dia.

— Annie, se você quiser almoçar aqui... Bee avisou que viria para cá. Ele está demorando, seria bom ter uma companhia para o almoço.

Ela aceita o convite e vai para a cozinha com o velho. Ele pega um saco de fritas no refrigerador e coloca na frigideira.

— Comer uma porcaria de vez em quando não faz mal a ninguém né? — Diz ele quando as batatas entram em contato com o óleo quente.

— É verdade. — Sorri Annie meio forçada.

Quando Elias coloca o prato só com fritas na mesa alguém bate na porta do bar. Annie se prontifica e corre para abri-la, certamente era Bee. Quando a porta é aberta bruscamente ele olha para baixo confuso ao ver a sobrinha.

— Onde ela está? — Pergunta Annie antes que Bee pudesse entender por que ela estava ali.

— É, eu posso te explicar depois do almoço? Estou morrendo de fome. — Bee sorri simpático, ele precisava arranjar um jeito de falar para a garota sem que sua decisão pareça cruel e insana.

— Tudo bem. — Annie concorda relutante.

Os três almoçam em silêncio. Elias sabe que é melhor ficar quieto e não se meter no assunto dos dois, Bee imagina a reação da garota e Annie pensa apreensiva no que seu tio irá lhe contar. Ela já percebeu que não era boa notícia.

— Bem Annie... eu. Como eu vou te falar isso. — Bee coça a nuca, enquanto eles caminham para uma praça. — Eu vou entender se você nunca mais quiser falar comigo.

— Bee, fala logo.

— Eu — Ele hesita um pouco, é melhor falar direto. — mandei internarem sua mãe. — A garota fica em silêncio. Bee esperava qualquer coisa, um ataque, choro... mas não isso. — Desculpe, Annie. Eu não queria fazer isso. Mas não havia mais o que fazer.

— Tudo bem. Eu sei disso. Acho que é o melhor para ela, e para mim.

O homem fica sem palavras. Isso não era uma reação normal. Não era mesmo.

— Tem certeza que está tudo bem?

— Sim. Eu sei que era a última coisa que você queria fazer. Não deve ter sido fácil para você também, afinal era sua irmã.

Ela o abraça. Bee estava assustado com a reação de Annie. Pode ter parecido madura aos olhos de outra pessoa, mas não era isso que ele via ali. Havia algo mais naquelas palavras e naquele abraço que Bee não conseguia identificar, mas não era nada bom.

Notas finais
E aí o que acharam? Sugestões? Comentem por favor ^^