Lembrar Dói
1 Primeira e única parte.
Estou chorando em um canto de uma padaria, mais uma vez. Meus dias têm se resumido a chorar. Estou sozinha, sem nada para me distrair, nem mesmo a sobrevivência. Faz sentido você estar vivo para viver em um mundo de morte?
Lembro de minha família morrendo, um por um, chorando sangue até o fim. Ter saúde de ferro foi uma maldição, porque minha mente não é tão forte quanto meu corpo. Não havia nada a fazer. Não havia como salvá-los. Estar no planeta Terra era a mesma coisa que ser condenado à morte. Choro ainda mais. Deito no chão do corredor e olho para o chão.
Nada a fazer.
Só flashbacks.
A 1ª onda me deixou com uma terrível abstinência. Abstinência de tecnologia. Sem celular, internet, contato com meus amigos. Se quisesse falar com eles, ou na escola ou em suas casas. Mas os carros não funcionavam. As casas de minhas amigas ficavam longe demais para ir a pé. Então, tentei me manter otimista. “Vai ficar tudo bem”, meus pais repetiam sempre e eu completava com “Podia ter sido pior”.
Como se só houvesse a 1ª Onda e nada a mais.
Então veio a segunda: tsunamis. Não fomos atingidos, mas aquilo nos amedrontou bastante. Meus pais iam trabalhar, eu e meus dois irmãos íamos à escola. Era lá que ouvíamos as notícias. Foi lá que eu soube da 2ª Onda. Me sentia mal só de pensar no horror que foi para as pessoas, tanto quem morreu quanto quem sobreviveu.
Comecei a rezar mais. Deus deveria estar zombando de mim, apontando o dedo e rindo do meu interesse. Eu o imaginava pensando: “Garota estúpida. Isso, recorra a mim no desespero, e quando estiver tudo bem, abandone a fé.” Pedia perdão e prometia que iria sempre rezar. “Por favor, Deus, proteja a minha família. Por favor, por favor, por favor.” Infinitos por favor, Ave-marias e Pais-Nossos. Sempre, sem parar.
Vários professores tinham parado de trabalhar. Até mesmo o coordenador da escola. Estávamos ficando cada vez mais assustados. Eu tinha um amigo, Ian, que sempre zombava deles, os aliens. Lembrar dele quase me faz rir. E eu ainda fazia piada junto, quando no fundo, estava morrendo de medo. Talvez ele também estivesse, e fosse justamente por isso que fazia essas zombarias. Fazia tudo parecer menos pior.
Tudo acabou com a 3ª Onda. Foi quando o mundo inteiro de todo o mundo desmoronou de vez. Não bastava que as pessoas morressem, isso deveria ser um processo lento e doloroso tanto para o infectado quanto para seus entes queridos.
Eu costumava afugentar pombas quando era criança. Corria na direção delas, só para vê-las voar para longe. Agora, elas que me afugentavam. Foi na 3ª onda que comecei a odiar os alienígenas, fossem quem fossem eles. Eu praguejava sem parar antes de rezar à noite.
Toda a minha família ficou doente quase que ao mesmo tempo. Meu pai, minha mãe e meus dois irmãos, que eram gêmeos. Eu não sabia o que fazer. Quando fui visitá-los, cada qual em seu quarto, coloquei uma camiseta para cobrir o nariz e a boca. Me orgulhei da minha precaução, porque eu havia lembrado de algo. Mas eu daria tudo para não precisar lembrar de algo assim. Se eu não precisasse lembrar, significaria que não há nada. Estaria tudo bem.
Lembro como chorei junto com meus pais, minhas lágrimas de água e as deles de sangue, quando disseram que eu teria que abandoná-los. Me despedi, sem toques, dos dois. Depois, de meus irmãozinhos. Nunca havia chorado tanto. Agora, estou chorando do mesmo jeito. Soluçando alto, me contorcendo como se pequenas explosões ocorressem dentro de mim.
Então, eu os abandonei em casa. Peguei uma mochila, uma muda de roupa e toda a comida e água que consegui encontrar. Saí de casa sem enxergar muito bem à frente, porque as lágrimas distorciam minha vista. Fui para a casa de conhecidos mais próxima. Ela estava silenciosa, como todo o bairro, talvez toda a cidade. Gritei “Olá?” até me convencer que ninguém estava lá.
Na primeira semana, não subi até o segundo andar. Saqueei os livros nos quartos do primeiro andar e lia para esquecer. Era o máximo que poderia fazer.
No começo, cozinhar era tortura. Eu era um fracasso. Quase queimei a mão milhões de vezes quando jogava o fósforo no fogão. Fui pegando o jeito, mas nunca fiquei muito boa. Eu era um fracasso.
Então, no sétimo dia, tomei coragem e subi até o segundo andar. Eu estava com uma calça amarrada na cabeça, ao redor da boca e do nariz, e as mãos livres, moles e meio estendidas à frente do corpo, como se estivesse me preparando para lutar. Nunca meu coração bateu tão forte.
Os quartos do andar de cima estavam cheios de sangue. E haviam corpos. Um casal amigo dos meus pais, no primeiro quarto. Eles estavam em uma cama encharcada de sangue, que ainda estava úmido, de tanto que era. Eles sangraram tudo o que havia para sangrar com a peste. Mesmo com a minha máscara improvisada, eu sentia o cheiro. Morte, sangue, decomposição. Nojo. Nojo, nojo, nojo. Nojo. E horror.
No segundo quarto, outro casal. Era o irmão do amigo do meu pai e a sua esposa. A mulher estava rodeada de sangue na cama. No chão, também ensanguentado, estava o marido dela. Esfaqueado em todo o corpo. Recuei e corri para o corredor. Ainda faltavam dois habitantes. Fui checar o banheiro.
Um garotinho jazia no chão, morto. Esfaqueado no corpo inteiro. Pisquei, e então senti uma lágrima grossa escorrer pelo meu rosto, parar no queixo e atingir o chão. Desviei o olhar do chão ensanguentado e olhei para o box do chuveiro, aberto. Hugo estava lá. Hugo, o primo do garoto esfaqueado no chão. Hugo, filho do amigo do meu pai. Hugo, meu primeiro amigo. Hugo, a primeira criança com quem tive contato.
Hugo estava com os pulsos cortados e um monte de potes de remédio em volta. Se artérias cortadas não matassem, uma overdose mataria.
Desci do segundo andar, arrancando a minha máscara improvisada para respirar e arrumei tudo rapidamente. Minha água estava quase acabando. Acho que iria morar num supermercado agora, se não estivesse todo saqueado.
No mercado do bairro, as luzes estavam apagadas. Parecia que algo pairava no ar, alguma coisa que deveria estar à espreita, apenas esperando por mim, como um monstro cujo objetivo é causar à vítima a morte mais dolorosa e lenta possível. É isso que monstros fazem.
Eles não são alienígenas. Eles são monstros.
Amarrei a calça em volta do rosto novamente. Fui para o corredor onde ficavam as janelas. Como era de tarde, lá havia um pouquinho de iluminação.
Não havia água. Já havia sido roubada.
Peguei um suco sem me importar com a data de validade. Eu iria morrer mesmo. Além disso, sobrevivi à peste. O que um suco vencido poderia fazer comigo?
No silêncio mortal, o barulho que fiz abrindo a tampa pareceu um estouro. Então, senti outra quebrada de silêncio. Meus ouvidos captaram uma mínima onda sonora. Algo se moveu. Foi como se eu pudesse sentir o ar se movimentando além das prateleiras.
Meu coração disparou. Abaixei a máscara e gritei:
— Quem está aí?
Decidi que deveria parecer mais valente, então gritei mais uma vez, em um tom quase agressivo:
— Mostre-se!
Um homem de mais ou menos 20 anos espiou pelo corredor. Ele parecia assustado. Se aproximou devagar, como um animal inseguro se deveria confiar ou não no humano que o chamava.
— Você é humana? Está infectada?
— Eu sou humana. Não estou infectada. Quem...?
Antes que terminasse de perguntar, ele gritou:
— VOCÊ NÃO É HUMANA!
Retirando uma arma do bolso da frente da calça, ele tentou atirar em mim. Eu podia sentir sua loucura. Talvez tivesse sofrido grandes traumas, grandes perdas, ou simplesmente enlouquecido com a solidão, como eu estava prestes a ficar. De qualquer modo, tive pena dele e o incluí nas minhas orações antes de dormir.
Olhando para esse dia, concluo que deveria ter ficado lá para morrer.
Mas eu não fiz isso. Peguei minha mochila e o suco e saí correndo do supermercado. Me escondi na padaria próxima dali. Pequena, saqueada, suja e abandonada. Não fui seguida.
Então estou aqui há muitos dias. Pensando, chorando, pensando e chorando pelos meus pensamentos. Pensar em coisas felizes dói. Pensar em coisas tristes também. As lágrimas já devem ter cavado canais em minha face. Eu penso em círculos, sentada em um canto de uma padaria abandonada. Tudo retorna a eles.
Eles.
Eles
Eles
Eles
Sempre
eles.
Eles são a razão por que estou chorando convulsivamente pelos meus amigos. Pela minha família. Pelo homem louco. Por mim. Sim, estou com pena de mim. Eu quero morrer de vez.
Eu não vou morrer como um cãozinho pisoteado. Não vou mostrar que me renderei aos alienígenas. Meu orgulho talvez seja a única coisa que restou para mim.
Eu vou morrer feliz, bem na frente deles. Pelo menos, mostrarei que estou feliz, que eles não podem me derrubar, nem que seja a coisa mais falsa que eu faça. Com certeza será a última. Talvez eu esteja louca por pensar isso. A solidão, os pensamentos, tudo é maluco. Eu não me sinto eu. Me sinto uma boneca de vidro arremessada no chão. Vou juntar meus míseros cacos e tentar ferir alguém, então.
Eu quero morrer. Eu vou. Penso nos meus pais. Meus irmãos. O que eles achariam de minha atitude? Penso em minha mãe, dizendo o que eu deveria fazer e não fazer se quisesse ir para o céu.
Bem, depois de tudo que passei, mereço uma vaga no céu.
Estou reunindo minhas forças. Meus cacos. Estou me levantando, saindo da padaria. O sol se põe. É uma penosa caminhada, com bastantes subidas, até minha casa. Tenho medo de não conseguir, mesmo que não passe de um quilômetro. Confio que minha determinação me manterá viva até lá, pois é a única coisa capaz disso.
Caminho em um ritmo que é meio-termo entre pessoa sem pressa e zumbi. Não posso me esforçar muito. Minha garganta arde. Meu estômago reclama. Quarenta minutos de agonia. A lua ilumina um pouco. Olho para a frente, com medo de encontrar algo vivo, qualquer coisa que seja. Não tenho armas. Não tenho nada.
Meus cacos são inúteis.
Chego em casa. O portão está destrancado. Evito os quartos dos meus pais e dos meus irmãos, porque vê-los só me deixará pior. Vou para o meu quarto, tentando ignorar as minhas fotos felizes no mural de fotos. Fotos com Hugo, minha família, algumas apenas minhas, outras com minhas melhores amigas. Todas com abraços ou sorrisos.
Os alienígenas destruíram tudo.
Como seria se isso acontecesse com eles?
Eu daria tudo para ver isso. Eu seria capaz de ir para o inferno para vê-los queimando lá.
Pego meu violão, sento e começo a tentar afiná-lo. Não sou muito boa nisso, mas quando testo os acordes depois, eles não soam tão horríveis quanto antes. Procuro uma caixa de sapatos. Depois, um caderno velho. Uma caneta. Deito de barriga para baixo na minha cama com colcha cor-de-rosa e começo a escrever.
Se for um humano de verdade que estiver lendo isso, parabéns. Você é uma pessoa forte, porque está viva e provavelmente não se rendeu aos aliens. Se é um alienígena, eu te odeio. Odeio todos vocês. Levaram minha família, meus amigos e tudo que eu amava. Vocês merecem sofrer tudo o que nos fizeram sofrer e depois morrer.
Estou escrevendo isso no meu caderno de matemática da escola. Eu precisava de algo para escrever e essa foi a primeira coisa com espaço suficiente que encontrei.
A 1ª Onda não me machucou muito. Fiquei apenas triste por perder contato com pessoas, porque usávamos a Internet para quase tudo, mas principalmente para nos comunicar. Para tentar falar com esses malditos alienígenas, usamos alguma coisa diferente que não sei o que é. Eles não responderam e nos atacaram, cortando eletricidade, motores, aparelhos eletrônicos e coisas do tipo.
A 2ª Onda veio em ondas, literalmente. Tsunamis. Gente morrendo afogada. Não deve ser horrível querer respirar, mas só ter água para inspirar? Então você engole a água e se sufoca. Seus pulmões ardem e você vê com desespero a morte. Deve se conformar com ela enquanto agoniza. Deve ser definitivamente horrível. Será que os aliens não levaram isso em consideração?
Definitivamente não, pois veio a 3ª Onda. Ela me fez odiar os alienígenas com toda a minha força. A peste levou minha família inteira para uma morte lenta, dolorosa e sangrenta. Bem pior do que morrer afogado.
Eu não sei o que é a 4ª onda, se ela começou.
Espero que alguém leia isso no futuro, seja humano ou alienígena. Se for um alien, espero que isso o faça odiar a sua espécie. Se for um humano, ficarei feliz, porque isso significa que a humanidade sobreviveu. Eu acho.
Estou escrevendo isso para colocar em uma cápsula do tempo. Sempre foi meu sonho fazer uma cápsula do tempo. Então, já que vou induzir os alienígenas a me matar daqui a pouco, por que não realizar o único sonho que restou?
Assinado,
Sofia Andrade.
Sinto que deveria ter escrito mais. Porém também sinto que meu tempo se esgota. Me sinto muito fraca, mas me obrigo a ficar forte. Então, pego o caderno, minhas fotografias, meu livro predileto, meu RG e a carteirinha da escola. Olho para todas as minhas fotos. Sorrindo, com os dentes imperfeitos à mostra para a câmera. Sempre feliz, o contrário do que eu estou agora. Me sinto em um fosso. O fosso não é fundo o suficiente para ser equivalente ao meu estado, então eu cavo mais ainda.
Em algum lugar na terra, eu vou encontrar a morte. Eu a abraçarei como uma bênção.
Minha pasta com músicas para tocar no violão está no meu armário. Guardo meu violão na capa, junto com a pasta.
Não sei que horas são. Quem se importa?
Eu vou morrer.
Fico repetindo essa frase na minha cabeça alegremente. Então me lembro de completar: eu vou morrer com estilo.
Eu vou morrer esfregando felicidade na cara desses desgraçados.
No fim, quem estava em desgraça era eu.
Coloco o violão nas costas. Pego uma caixa de fósforos e a caixa que servirá de cápsula do tempo. Saio de casa, mas antes de começar mais uma caminhada, olho uma última vez para a casa. Me lembro de tudo o que aconteceu nela. Anos-novos na rua, soltando fogos de artifício, festas de aniversário, churrascos, trabalhos de escola com os amigos, brigas, lembranças. Lembranças.
Lembranças, lembranças, lembranças.
Desviei o olhar bruscamente e comecei a descer a rua, na direção do parque. Havia um grande parque ecológico na cidade, que era cortado por um córrego. Eu iria para lá.
Nas ruas, nenhuma alma visível. Eu ansiava por chegar ao parque. Sonhava com acender a fogueira, o que equivalia a denunciar completamente minha posição. Era isso o que eu queria. Enquanto os aliens não viessem e acabassem comigo, eu tocaria. Tocar sempre me fez bem. Eu irei morrer feliz, com meu violão nas mãos, perfurada por um tiro que eu não saberia de onde veio.
Uma hora de caminhada. Com o pesado violão nas costas, tudo é pior. Mas eu chego lá. É um trecho com árvores de porte médio. Arranco alguns galhos, recolho outros do chão. Começo a cavar com as mãos antes de acender a fogueira. Enterraria a cápsula primeiro, e depois tocaria canções felizes que falavam de vidas boas, amores tristes, felizes, saudosos e sobre como agir diante das tristezas da vida.
Duvido que qualquer um desses compositores escreveria uma canção sobre como sobreviver a um ataque alienígena.
É trabalhoso. Parece consumir toda a minha energia. Minhas unhas estão sujas de terra, mas não ligo. Alienígenas não se importam com isso, cadáveres tampouco.
Termino o buraco, jogo a terra por cima e esfrego as mãos nas roupas para limpar. Fica meio raso, mas não tem importância. Seria fácil de achar. Seria destruído na primeira chuva.
Pego a caixa de fósforos e acendo um. Jogo no amontoado de gravetos no meio da grama. Uma pequena chama surge. Então acendo mais três fósforos. No último, me lembro da história da menina dos fósforos. É o meu conto de fadas preferido, sobre uma garota pobre na véspera de Ano Novo. Ela acende fósforos e, a cada chama, vê algo que gostaria de ter. No fim, ela vê a avó, que a leva para o céu.
Isso está acontecendo comigo. Estou vendo minha família. Estou juntando meus cacos.
Estou pegando o violão e sentando na grama. Estou abrindo a pasta e tocando Para Ser Feliz (Pequeno Mundo). Uma linda canção sobre fazer das tristezas estrelas a mais e do pranto uma canção.
Canto com a voz fina e baixa, falhando em algumas partes. Eu termino a música e começo a procurar outra. E depois mais outra. E depois mais outra. Vou tocando todas as canções que vejo. Me sinto feliz e tranquila, como se nada pudesse interromper esse momento. Como se ele nunca pudesse acabar. Mal sinto a fome. Não me incomodo com a garganta sendo torturada.
Então, ouço alguém chamando o meu nome. Olho para o lado e a vejo, Ingrid, minha melhor amiga, correndo para mim.
Talvez eu esteja delirando. Talvez ela tivesse vindo me buscar, como a avó da menina dos fósforos. Talvez... talvez seja um alienígena disfarçado de humano.
As palavras do homem do mercado ecoam na minha cabeça, junto com o tiro que ele deu.
Você não é humana!
Ela me alcança. Me abraça forte. Alguma coisa restou, um motivo, uma pessoa viva que faz a vida parecer melhor do que a morte. Eu a abraço de volta, chorando em seu ombro. Quando nos afastamos, posso ver seu rosto.
Seu rosto não está feliz.
Seu rosto está diferente. Ele tem maldade. Talvez frieza.
Ela saca uma arma do bolso de trás da calça. Eu não entendo. Por que ela está tirando a arma? Onde ela arranjou isso?
Ela atira em minha barriga.
Sinto uma dor aguda, lancinante. Acho que gritei, mas agora estou caindo de costas, ao lado da fogueira. Ainda tenho alguns segundos de agonia. Olho para o meu querido violão largado na grama. Sentirei falta dele.
Não consigo ver o rosto de Ingrid. Não consigo me mexer.
A morte.
Morte, morte, morte!
Eu me sinto feliz. Eu quero chorar de felicidade. Consegui.
Estou fechando os olhos, contemplando a dor lancinante na barriga. Deixo o ferimento sangrar. Quanto tempo para morrer de hemorragia? Será que demora?
Canto mais algumas canções na cabeça. Conto para mim mesma a história da menina dos fósforos. Acendo fósforos imaginários, sonhando com minha família, sonhando em deixar esse mundo.
Talvez eu sinta falta desse mundo.
Não, não vou.
Minhas pálpebras ficam pesadas. Elas se fecham enquanto penso na minha família e na menina dos fósforos. Sorrio. Penso em Ingrid.
Então, não sinto mais nada.
Eu sou uma alma subindo para o céu.
Notas finais
Ah, e se você está lendo isso, muito obrigada! Foi um prazer merecer seu tempo ;)
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