Lembranças de Nós Dois
1 Invisible String
Notas iniciais
A chuva em Forks tinha um jeito próprio de existir. Não era violenta como as tempestades que apareciam nos noticiários nem delicada como as garoas românticas que Bella via nos filmes antigos que sua mãe costumava assistir nas tardes de domingo. Era persistente. Silenciosa. Quase eterna.
Naquela manhã, o som das gotas batendo contra a janela do quarto foi a primeira coisa que Bella percebeu quando abriu os olhos. Durante alguns segundos, ela permaneceu imóvel sob as cobertas, olhando para o teto branco e tentando lembrar qual dia da semana era.
Terça-feira.
Ela suspirou lentamente.
Havia algo de cansativo em saber que mais um dia comum estava começando. Mais um dia igual aos outros. Mais uma manhã em que ela se levantaria, desceria as escadas da pequena casa onde vivia com o pai, tomaria café em silêncio e depois seguiria para a escola como se fosse apenas mais uma garota comum de dezesseis anos.
Mas Bella nunca se sentira realmente comum.
Ela empurrou as cobertas para o lado e sentou na cama, sentindo o ar frio tocar a pele exposta dos braços. O quarto estava meio escuro, iluminado apenas pela luz cinzenta que atravessava as nuvens pesadas do céu de Forks.
Do outro lado da porta, ela podia ouvir o barulho de panelas sendo movimentadas na cozinha.
Charlie já estava acordado.
Bella passou os dedos pelos cabelos castanhos, ainda bagunçados pelo sono, e caminhou lentamente até o banheiro. Quando se olhou no espelho, encontrou o mesmo rosto que via todos os dias.
Olhos castanhos grandes demais.
Olheiras leves.
Uma expressão sempre séria demais para alguém da idade dela.
Alice costumava dizer que Bella parecia estar sempre pensando em algo muito profundo. Bella nunca sabia exatamente como responder a isso.
Talvez fosse verdade.
Talvez algumas pessoas simplesmente crescessem mais rápido.
Depois de lavar o rosto e prender o cabelo em um rabo de cavalo simples, Bella vestiu um moletom cinza largo e um jeans escuro. Nada muito chamativo. Nada que chamasse atenção.
Era assim que ela preferia.
Quando abriu a porta do quarto e começou a descer as escadas, o cheiro de café fresco tomou conta do corredor. Era um cheiro familiar. Confortável.
Charlie estava de costas para ela, diante do fogão.
— Bom dia, pai — Bella disse, a voz ainda baixa por causa do sono.
Ele se virou imediatamente, como se tivesse estado esperando ouvir aquela voz.
Charlie Swan nunca fora um homem muito expressivo, mas desde que Bella era pequena havia algo no olhar dele quando a via que misturava orgulho e preocupação em proporções quase iguais.
— Bom dia, Bells — respondeu ele.
Charlie colocou um prato sobre a mesa com dois ovos mexidos e algumas torradas.
Bella sentou-se na cadeira de sempre, perto da janela.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou nada. Não porque houvesse algo errado, mas porque o silêncio entre eles sempre fora confortável.
Era o tipo de silêncio que duas pessoas aprendem a dividir depois de muitos anos convivendo com as mesmas ausências.
Bella levou a xícara de café aos lábios, sentindo o calor atravessar os dedos.
Então, como quem lembra de algo importante tarde demais, ela levantou os olhos para o pai:
— Eu te esperei para jantar ontem.
— Eu sei.- disse Charlie fazendo uma careta leve, passando a mão na nuca.
Bella arqueou uma sobrancelha.
— Você disse que não ia se atrasar.- ela disse bebericando seu café.
— Apareceu um problema.- Ele soltou um suspiro baixo.
— Imagino.
Charlie pegou a própria xícara de café, apoiando o peso do corpo contra a bancada.
— O filho do doutor Cullen — disse ele, com um tom que misturava irritação e cansaço. — Como sempre, aprontando.
Bella não respondeu de imediato.
Mas o nome ficou.
Gravado.
Charlie tomou um gole do café antes de continuar:
— Briga em bar. De novo. Tive que ir buscar aquele garoto na delegacia no meio da noite.
Bella mexeu levemente na xícara entre os dedos.
— Ele é da escola?- perguntou
Charlie soltou uma risada sem humor.
— Infelizmente.
Houve um pequeno silêncio.
— Fica longe desse tipo de gente, Bells — acrescentou ele, mais sério dessa vez.
Bella apenas assentiu.
— Sempre fico.
Charlie pareceu satisfeito com a resposta, mesmo que soubesse que nem tudo na vida funcionava daquela forma.
Foi então que os olhos de Bella se desviaram para o armário acima da pia.
Ali dentro, guardada com cuidado entre algumas louças antigas, estava uma xícara azul clara que ninguém mais usava.
A xícara favorita da mãe.
Bella desviou o olhar rapidamente.
Mesmo seis anos depois, certas coisas ainda doíam de maneiras inesperadas.
Ela tinha apenas dez anos quando tudo aconteceu.
Lembrava do dia com uma clareza que às vezes parecia cruel.
Era uma manhã ensolarada, diferente das manhãs comuns de Forks. Sua mãe, Renée Swan, estava na cozinha preparando café. Bella estava sentada à mesa com um livro aberto, tentando terminar um capítulo antes de ir para a escola.
Então Renée levou a mão à cabeça.
Um gesto pequeno.
Quase distraído.
E no segundo seguinte o corpo dela caiu no chão.
Sem aviso.
Sem tempo.
Sem despedida.
Bella piscou algumas vezes, afastando a lembrança.
Charlie percebeu a mudança no olhar da filha.
— Dormiu bem? — perguntou ele, tentando parecer casual.
Bella assentiu.
— Sim.
Charlie sabia quando ela estava mentindo. Mas também sabia quando era melhor não insistir.
Ele pegou o chapéu de xerife que estava sobre a bancada.
— Tenho uma reunião cedo hoje — disse ele. — Provavelmente vou me atrasar para o jantar.
Bella deu um pequeno sorriso.
— Tudo bem.
Ele caminhou até a porta, mas antes de sair parou.
Por um segundo, pareceu hesitar.
Então voltou alguns passos e pousou a mão no ombro da filha.
— Se alguém na escola te incomodar… você me fala.
Bella soltou um pequeno suspiro divertido.
— Pai.
— Estou falando sério.
Ela levantou os olhos para ele.
— Eu sei.
Charlie estudou o rosto da filha por mais alguns segundos antes de finalmente sair.
Quando a porta se fechou, Bella ficou sozinha na cozinha com o som constante da chuva.
E, por um instante, o silêncio pareceu grande demais.
A escola de Forks ficava a poucos minutos de carro da casa dos Swan.
Bella estacionou a velha caminhonete vermelha no estacionamento quase vazio e desligou o motor.
Por alguns segundos, ela permaneceu sentada ali, observando os outros estudantes caminharem apressados para dentro do prédio.
A maioria deles estava rindo.
Conversando.
Planejando festas para o fim de semana.
Bella nunca soube exatamente como se encaixar naquele tipo de mundo.
Talvez porque nunca tivesse realmente tentado.
Ou talvez porque uma parte dela sempre tivesse a sensação de que não pertencia àquele tipo de felicidade simples.
Ela pegou a mochila no banco do passageiro e saiu do carro, puxando o capuz do moletom sobre a cabeça enquanto caminhava em direção à entrada da escola.
Os corredores da Forks High School já estavam cheios quando ela chegou.
Alguns alunos levantaram os olhos quando ela passou.
Não era exatamente atenção.
Era mais como curiosidade silenciosa.
Bella Swan era conhecida na escola por algumas razões bem específicas.
Primeiro: ela era filha do xerife.
Segundo: ela tirava as melhores notas da turma.
Terceiro: ela raramente falava com alguém além de uma única pessoa.
— Bella! — A voz alegre ecoou pelo corredor antes mesmo que Bella pudesse chegar ao seu armário.
Ela se virou para ver Alice Brandon caminhando em sua direção com o entusiasmo habitual.
Alice parecia sempre cheia de energia demais para aquela cidade cinzenta.
Seus cabelos curtos e escuros estavam perfeitamente arrumados, e o sorriso em seu rosto parecia capaz de iluminar metade do corredor.
— Bom dia! — disse ela animada de mais para uma terça-feira.
Bella sorriu de leve.
— Bom dia.
Alice inclinou a cabeça, estudando a amiga.
— Você parece cansada.
— Eu sempre pareço cansada.
— Verdade.
Alice abriu o armário ao lado do de Bella e começou a tirar alguns livros.
Durante alguns segundos, tudo parecia normal.
Então uma voz feminina ecoou atrás delas.
— Olha só… a gênia da escola.
Bella reconheceu a voz imediatamente.
Ela fechou o armário devagar antes de se virar.
Três garotas estavam paradas no meio do corredor.
Tanya Denalli liderava o pequeno grupo, como sempre.
Ela cruzou os braços e inclinou a cabeça, analisando Bella como se estivesse avaliando algo curioso.
— Já terminou o trabalho de história que o professor passou ontem? — perguntou Tanya, com um sorriso falso. — Ou você terminou antes mesmo dele explicar?
Algumas pessoas próximas riram.
Bella manteve o rosto neutro.
— Não.
A loira ergueu uma sobrancelha.
— Sério?
— Sério.
A garota suspirou dramaticamente.
— Que decepção.
Alice fechou a porta do armário com mais força do que o necessário.
— Você não tem mais nada para fazer, Tanya?
Tanya olhou para Alice como se tivesse acabado de notar sua presença.
— Só estou conversando.
— Parece mais implicância.
Tanya deu de ombros.
— Talvez.
Bella colocou a mochila no ombro.
— Vamos, Alice.
As duas começaram a caminhar pelo corredor enquanto as risadinhas do grupo ficavam para trás.
Alice soltou um suspiro irritado.
— Eu juro que um dia ainda vou derrubar café naquela garota.
Bella soltou uma pequena risada.
— Por favor, não faça isso.
— Estou falando sério.
— Eu sei.
Alice olhou para ela de lado.
— Você não se importa?
Bella pensou por um segundo antes de responder.
— Já estou acostumada.
Alice franziu a testa.
— Isso não é justo.
Bella apenas deu de ombros.
Mas, no fundo, havia algo cansativo em sempre ser a escolha fácil.
O sinal para o intervalo tocou pouco antes do meio-dia.
Bella e Alice estavam sentadas na mesa de sempre no refeitório.
Alice falava animadamente sobre uma festa que alguém estava planejando para o sábado à noite.
Bella escutava em silêncio, mexendo distraidamente no suco de maçã.
Foi então que um comentário na mesa ao lado chamou sua atenção.
— Cullen foi levado para a delegacia de novo ontem.
Bella levantou os olhos sem perceber.
Dois garotos conversavam perto da fila da comida.
— De novo? — perguntou um deles.
— Sim. Briga em um bar.
O outro garoto soltou um assobio baixo.
— Xerife Swan deve amar esse cara.
Bella desviou o olhar para o prato, ela já tinha ouvido aquele nome antes...Muitas vezes.
Na verdade, todo mundo em Forks já tinha.
Edward Cullen: O garoto problema da cidade.
O filho do médico mais respeitado do hospital, aquele que parecia viver entrando e saindo da delegacia do próprio pai dela.
Alice percebeu o silêncio repentino da amiga.
— O que foi?
Bella balançou a cabeça.
— Nada.
Alice se inclinou na cadeira, olhando para o outro lado do refeitório.
— Ah.
Bella seguiu o olhar dela.
Foi então que viu.
Um Volvo C30 prateado estacionando no pátio da escola.
Alguns estudantes próximos à janela se viraram imediatamente.
As portas do carro se abriram.
Primeiro saiu Emmett Mcartney , grande e expansivo, rindo alto como se o mundo inteiro fosse uma piada particular.
Depois Jasper Hale, mais reservado, com uma expressão fechada que contrastava com a animação do amigo.
E então Edward.
O que ele tinha de problemático, tinha de impossível de ignorar.
Ele fechou a porta do carro com um movimento despreocupado e passou a mão pelos cabelos bagunçados.
Havia um pequeno corte recente no canto da sobrancelha.
E, quando ele ajustou a manga da jaqueta, Bella percebeu um leve arroxeado nos nós dos dedos.
Briga.
Então os rumores eram verdadeiros.
Mesmo à distância, havia algo nele que chamava atenção.
Talvez fosse a confiança.
Talvez fosse a forma despreocupada como caminhava.
Ou talvez fosse o contraste estranho entre aquele ar relaxado… e a tensão escondida no olhar.
Como se ele estivesse sempre pronto para reagir.
Ou para fugir.
Algumas garotas no pátio se viraram imediatamente para observá-lo.
Ele não pareceu notar.
Ou talvez simplesmente não se importasse.
Bella percebeu que também estava olhando.
E, por algum motivo que ela não conseguiu explicar, não conseguiu desviar imediatamente.
Havia algo errado.
Não perigoso exatamente.
Mas… instável.
Como se ele fosse o tipo de pessoa que bagunça tudo ao redor sem nem tentar.
Como se ele fosse o tipo de pessoa que você deveria evitar.
Como se ele fosse o tipo de pessoa que ainda assim… fosse impossível ignorar.
Como se sentisse o peso daquele olhar, Edward virou a cabeça.
Por um breve segundo, os olhos dele encontraram os dela através da janela.
Diferente do que Bella esperava…
Ele não sorriu.
Não desviou.
Não reagiu.
Apenas sustentou o olhar.
Intenso.
Direto.
Como se estivesse tentando entendê-la.
Ou reconhecê-la.
O coração de Bella falhou por um segundo.
Ela desviou o olhar imediatamente, apertando o copo de plástico entre os dedos.
Alice sorriu de lado.
— Esse é a peste do Edward Cullen.
Bella pegou o copo de suco novamente, tentando ignorar a sensação estranha que ainda permanecia no peito.
— Eu sei quem ele é.
Alice inclinou a cabeça.
— Lógico, todo mundo sabe.
Do lado de fora, Edward entrou no prédio com os amigos.
Por um segundo, Emmett disse algo perto dele e riu, dando um leve empurrão em seu ombro.
Edward apenas balançou a cabeça, mas havia algo naquele gesto.
Um olhar rápido.
Um tipo de cumplicidade que Bella não conseguiu decifrar.
Como se houvesse algo não dito entre eles.
Algo prestes a acontecer.
Bella desviou o olhar novamente, dessa vez mais rápido.
Ela não gostou daquela sensação.
Não gostou do jeito que seu corpo reagiu.
Não gostou da forma como, por um instante, tudo ao redor pareceu… menos importante.
Ela não conhecia Edward Cullen.
E, ainda assim, teve a estranha impressão de que ele poderia complicar tudo.
E, pela primeira vez em muito tempo…
Bella não tinha certeza se conseguiria evitar isso.
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